terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CANAL CONVERSA AFORA



O meu canal do YouTube, chamado CONVERSA AFORA, tem sido disponibilizado por e-mail na lista de recebedores deste blog.

Para que possam melhor identificar a origem dos vídeos, informo estou utilizando o meu endereço ozbpereira@gmail.com para enviá-los.

Acabei de postar o capítulo acima, A RÚSSIA E O COMUNISMO – PARTE 3. É a segunda série do Canal. A primeira, em cinco partes, foi O FIM DA RÚSSIA DOS CZARES.

Gostaria imenso que os meus fiéis e pacientes leitores seguissem e se inscrevessem no CONVERSA AFORA. Não custa nada e é só um clic do mouse.

Um grande abraço,

Oswaldo Pereira

Fevereiro 2023

domingo, 5 de fevereiro de 2023

DEZ ANOS

 


No dia cinco de fevereiro de 2013, há, portanto, exatos dez anos, uma súbita crise de imodéstia fez-me tomar a iniciativa. Já havia escrito dois livros (O Pátio de Atenas e A Fórmula Etrusca), cujos arquivos haviam dormitado por anos em algum disco rígido até que eu conseguisse a coragem necessária para publicá-los. Nunca foram, é claro, grandes sucessos literários e, além de alguns gentis amigos e parentes que os adquiriram, definharam nos catálogos das livrarias on line.

Assim, nada havia na maré dos incentivos que me permitisse insistir numa nova aventura com as letras. Mas, como disse alguém (acho até que fui eu...), há vontades que nos fazem desprezar os avisos do bom senso. E eu, nos momentos em que a guarda da censura interna baixava, sentia extravasar pelos poros dos meus neurônios a vontade incontrolável de escrever.

Acabei por bulir com a paciência de um seleto grupo de conhecidos enviando, com certa regularidade, os meus escritos. Sem que eu mesmo sentisse, isto foi o embrião deste blog. Assim, naquele gelado fevereiro de há 10 anos (eu estava em Portugal), produzi o texto Palavra Escrita   (se quiser lê-lo, é só clicar em cima)  que deu nome e início a esta página eletrônica.

Já foram quase 600 artigos. Um pouco de tudo, mas, principalmente, um muito daquilo que vi e vivi ao longo da vida. Dei testemunhos e contei histórias, fiz poesia e falei de filmes, celebrei fatos e datas, descrevi as terras por que passei e os alguns livros que li. Pensando bem agora, após esta década de amor febril pela escrita, tenho de confessar. Embora concedo-me imaginar que alguns de meus textos tenham, porventura, proporcionado momentos prazerosos a alguém, o MEU prazer em escrevê-los foi imenso. Ou seja, o que aqui se trata é de um cavalar exemplo de egoísmo, do qual, contritamente, espero que me perdoem.

Só como referência (não há a menor intenção minha de obriga-los a lê-los), selecionei abaixo dez textos (dos 575 publicados) que considero importantes para ilustrar o espírito do “Palavra Escrita”. Basta clicar em cima.

Variações Sobre Um Tema

Binômio Encantado

Sonhos de Um Carioca

A Grande Nuvem

O Brasil E O Futuro

Ecos de Março

E Se?

A Terra Não É Mais Azul

O Violento Pitecantropo


Muito obrigado a todos os que, em sua infinita condescendência, tiveram a pachorra de ler o que aqui escrevi ao longo desta conturbada década. Mais agradecido ainda fico aos que me deram o prazer de comentá-los e, mais ainda, de divulga-los.

Obrigado, mesmo.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2023

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

ANTIVAX

 


Neste momento, em que alguns arautos catastrofistas apregoam uma nova investida do inimigo público no. 1 desta segunda década do século 21, o COVID (será a? ou um neutro da moda?) e a consequente reação das autoridades sanitárias para empurrar mais vacinas, deparei-me com uma recente publicação da Fundação Hippocrate.

A Fundação é uma organização privada suíça, com sede em Lausanne, que, entre outros afazeres, reúne artigos sobre Medicina e faz análises e críticas a trabalhos de cientistas, pesquisadores e médicos de todo o mundo.

Na publicação em causa, a Hippocrate comenta o recente livro de Xavier Bazin, um jornalista investigativo na área da saúde e um apaixonado pela medicina natural, intitulado Antivax! Toi Même... Seus livros e suas reportagens têm constituído um libelo contra as políticas sanitárias dos Governos e contra os grandes laboratórios. Nem é preciso dizer então que Bazin é um juramentado antivax, isto é, um opositor das vacinas contra o COVID 19.

Sua tese, inclusive, vai mais além. Segundo sua convicção, todas as grandes pandemias erradicaram-se ANTES que algum esforço de vacinação fosse empreendido. De acordo com este princípio, as doenças transmissíveis de grande difusão entre as populações obedecem a um ciclo natural de deflagração, abatimento e extinção que independe da ministração das vacinas.

Evidentemente, é uma afirmação mais do que polêmica. E rios de tinta (e horas de Web) já foram gastos discutindo o assunto e não será aqui, neste modesto blog, que eu meterei minha mão nessa cumbuca cheia de marimbondos.

Mas, na citada publicação da Fundação Hippocrate, há algumas considerações que achei por bem aqui colocar, numa tradução livre do francês.

“COMO A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA E OS PODERES PÚBLICOS TRABALHAM DE MÃOS DADAS PARA IMPOR AS POLÍTICAS SANITÁRIAS GLOBAIS

Contrariamente a uma parte importante da Medicina ou da Ciência, a vacinação apenas pode ser aceita se tiver uma intervenção maciça e permanente das autoridades públicas. O que não é realmente uma surpresa se verificarmos que se trata de uma ferramenta de prevenção. Por definição, demonstrar que um risco irá ou não se produzir é uma tarefa difícil.

Para impor a vacinação às populações, é necessário que os Governos utilizem todas as prerrogativas da força pública à sua disposição. As políticas de vacinação são constituídas graças a uma rede institucional cada vez mais estreita entre a indústria farmacêutica, os Governos, seus administradores sanitários e a OMS (Organização Mundial da Saúde).

A OMS, que se tornou referência em seu campo depois da Segunda Guerra Mundial, é, na realidade, um organismo sob influência e que depende mais de financiamentos privados do que dos Estados. Assim, a Fundação Bill Gates tornou-se o seu maior doador e de quem a OMS muito depende financeiramente.  E esta Fundação é, por sua vez, financiada pelos dividendos das ações que ela possui... da indústria farmacêutica! É o que se pode chamar de um gigantesco conflito de interesses...”

Dá ou não dá para pensar?...

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2023

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

METALINGUAGEM & MULTIVERSO

 


Neste princípio de ano, os amantes da sétima arte (estava louco para usar este surrado lugar-comum...) foram brindados com dois filmes que podem preencher perfeitamente as condições de representar as palavras da moda: metalinguagem & multiverso. São as novas armas que o cinema da tela grande está lançando para ressuscitar depois do deserto de salas vazias criado pela COVID e para competir com o universo das telinhas. É uma luta inglória, eu sei, mas, pelo menos nas duas produções recentes, está lutando o bom combate.

Um exemplo exuberante de metalinguagem (se quiser saber o que significa esta palavra-griffe, é só ir no Google), é Babylon (Babilônia), do jovem e talentoso diretor Damien Chazelle, que recentemente nos brindou com o mágico La La Land. Em Babylon, Chazelle cristaliza  o mote central de Singing In The Rain (Cantando na Chuva, de 1952) e o envolve  numa roupagem perturbadora, pintando em cores vibrantes e devastadoras o mesmo ambiente e a mesma época dos loucos anos 20 em Hollywood e o nascer  do cinema falado, que haviam sido cantados e dançados com lirismo e leveza no filme de Gene Kelly.

Além dessa clara inspiração, explicitada sem reservas em Babylon, Chazelle usa diversas cenas para fazer várias citações inequívocas a gênios do passado, como Fellini e Pasolini, entre outros. Brad Pitt, Margot Robbie e o excelente mexicano Diego Calva conseguem manter o ritmo frenético e intoxicante da história.

Exagerado em certas ocasiões? Sim. Alongado e repetitivo em outras? Também (o próprio Chazelle declarou que o filme se tornou uma “fera” difícil de domar). Mas, para mim, a coisa resulta. É uma grande alegoria à era selvagem do celuloide, um culto ao exagero que iria ser seguido pelo Glamour e o Noir da década de 30, os épicos de romantismo e de guerra da década de 40, os musicais e os enredos “certinhos” da década de 50, até chegar ao novo ponto de ruptura da década de 60.

Multiverso tem sido o cenário do momento dos blockbusters, nos quais habitam os heróis da Marvel e da DC Comics, saídos como o gênio da garrafa das histórias em quadrinhos. São as fábulas dos universos paralelos que fazem a festa dos roteiristas de ficção científica. Doutor Estranho é um dos ícones do gênero; o muito subavaliado Cloud Atlas tentou fazer isso em 2012, mas não convenceu a tribo dos críticos americanos. Agora vem Everything Everywhere All at Once (Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo).

Partindo da crônica simplória de uma família chinesa, dona de uma lavanderia nos Estados Unidos e às voltas como o Fisco, Everything... explode em vários universos paralelos e ilimitados, abrindo uma infinidade de planos intemporais em que tudo é possível. Aí, o enredo torna-se um exercício de imaginação em estado puro, batendo num liquidificador science fiction, comédia e ação. Dirigido pela dupla conhecida como os “Daniels” (os americanos Dan Kwan e Daniel Scheinert) e estrelado pela ótima Michelle Yeoh (que já foi Bond girl em Tomorrow Never Dies), pela não menos formidável Stephanie Hsu e pelo vietnamita Ke Huy Quan (que, aos 14 anos, fez o menino Short Round em Indiana Jones e o Templo da Perdição), o filme vem sendo aclamado pela crítica e já abocanha 11 indicações para a próxima premiação da Academia. E ainda com o brinde de uma divertida participação de Jamie Lee Curtis.

Duas opções importantes e indispensáveis para os cinéfilos, nestas semanas que antecedem a noite das estatuetas.

Em tempo:
Não sei se os meus parcos, mas fiéis e pacientes, leitores já sabem. Há duas semanas, eu estreei o meu canal CONVERSA AFORA, no YouTube. É mais uma imodesta explosão desta incontrolável febre literária que me aflige nesta provecta idade. Se puderem, confiram. As primeiras inserções discorrem sobre o fim da Rússia dos czares. O link do primeiro vídeo é   https://youtu.be/4s8WOu6we34                     

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

terça-feira, 17 de janeiro de 2023

LOLLO

 


O filme Pane, Amore e Fantasia foi lançado em 1953. Era o início da era dourada dos filmes em preto e branco que iriam compor um dos mais expressivos capítulos do cinema italiano e dar a conhecer ao mundo a realidade dura, às vezes cínica, às vezes cômica e, no mais das vezes, sofrida, da Itália no pós-guerra.

A produção, realizada com um orçamento extremamente modesto, foi um instantâneo sucesso e criou a oportunidade para que Luigi Comencini, o diretor, emplacasse mais três continuações, sempre ancoradas nas aventuras e desventuras de um coronel dos carabinieri, vivido pelo lendário Vittorio de Sica. Seu par nessas agitadas reviravoltas era a personagem de uma linda jovem que, apesar das investidas do coronel, estava apaixonada por um de seus comandados.

A atriz escolhida para o papel era praticamente uma novata que havia ganho alguns concursos de beleza (fora a terceira colocada no Miss Italia de 1948) e aparecido em papéis menores no cinema. O sucesso de Pane, Amore e Fantasia escancarou para o mundo Luigia Lollobrigida, que já trocara seu primeiro nome para Gina.

Para todos nós, machos adolescentes da década de 1950, Gina Lollobrigida imediatamente tornou-se uma miragem, uma deusa distante e inatingível mas que, pela força dos nossos hormônios, entronizou-se como a musa lúbrica e inspiradora de sonhos, desejos e outras práticas... (tive muita dificuldade para dormir após, nos meus imberbes 14 anos, vê-la saindo nua da piscina de um harém no filme “Les Belles de Nuit”)...

Numa ascenção meteórica, Gina foi estrelando sucessos e monopolizou todos os papéis que exigiam uma mulher com o seu carisma sensual. Só para ficar em alguns de seus 67 filmes, tivemos os italianos La Provinciale,  La Romana e La Donna Più Bella del Mondo, o já citado francês Les Belles de Nuit, os americanos Trapèze, Beat the Devil (O Diabo Riu por Último, de John Huston), Never So Few (Quando Explodem as Paixões), Salomon and Sheba (Salomão e a Rainha de Sabá) e Woman of Straw (Mulher de Palha). Uma carreira que a fez contracenar como os mais famosos atores de seu tempo, como Bogart, Flynn, Gassman, Mastroiani, Sinatra, Connery, Brynner, Niven, Guinness, Quinn e por aí vai. Também ficou conhecida por recusar alguns convites, abrindo espaço para o aparecimento de atrizes como Sofia Loren, Silvana Mangano e Lucia Bosé. Recusou até Fellini, declinado filmar La Dolce Vitta.

Encerrando sua carreira cinematográfica e televisiva em 1990, Lollobrigida deu início a uma respeitada atividade como fotojornalista, tendo sido a primeira repórter fora de Cuba a entrevistar Fidel Castro.

Lollo nos deixou ontem, aos 95 anos, de complicações seguidas a uma fratura no fêmur e na bacia. Um dos últimos símbolos da era de beleza e romantismo do século passado que se vai.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

CEBOLA DE VIDRO



Quis ver porque gostara do primeiro. Knives Out (Entre Facas e Segredos), estreado em 2019, tinha uma história instigante, à la Agatha Christie, inclusive com um divertido detetive francês (embora Hercule Poirot fosse belga), atores consagradíssimos e dirigido por Rian Johnson, de fama consolidada como excelente roteirista. Recebeu vários prêmios e elogios. Justos, por sinal.

Glass Onion (nome de uma canção dos Beatles), que se propõe a continuar a saga de Benoît Blanc, o tal detetive (interpretado por Daniel Craig), sofre a maldição que, mais frequentemente do que não, aflige as sequelas de boas produções.

A história coloca Benoît Blanc numa ilha grega, onde um excêntrico milionário, chamado Miles Bron, pretende comandar uma estravaganza com seu grupo de amigos e seguidores, aos quais ele proporcionou as condições básicas para tornarem-se ricos e famosos. São conhecidos como os desruptores, uma neo-palavra que quer identifica-los como inovadores e quebradores de regras.  Há, porém, uma ex-integrante do grupo que foi ludibriada por Bron e que planeja vingança.

Com esse roteiro rico em possibilidades, boas locações e um elenco que conta com atores do calibre de Craig, Edward Norton, Kate Hudson e outros, tinha tudo para dar certo.

Não dá. O script, à medida que o filme avança, fica cada vez mais confuso, os diálogos caem de qualidade e o talento, principalmente de Norton e Craig, desperdiça-se em sequências caricatas e de humor duvidoso. Perto do final, Glass Onion aproxima-se perigosamente de uma comédia de pastelão. Desta vez, Rian Johnson errou feio.

Uma pena.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023











terça-feira, 10 de janeiro de 2023

REPENSAR

 


A Direita Conservadora brasileira vai precisar reinventar-se, se quiser obter algum sucesso em sua oposição à Esquerda que acaba de tomar o poder no país. É claro que há motivos mais que justos para legitimar sua revolta e seu inconformismo.

Tudo começou com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de anular, por filigranas técnicas, todos os processos contra Lula, que em várias instâncias e por inúmeros juízes fora condenado por corrupção, e permitir sua candidatura à Presidência. Outra lenha na fogueira da discordância foi a recusa das autoridades eleitorais em permitir, numa eleição exclusivamente eletrônica, cuja diferença entre vencedor e vencido foi de apenas 1,6%, uma inevitável análise dos códigos de totalização dos votos. Creio que uma abertura que comprovasse a lisura do processo evitaria grande parte das manifestações de repúdio ao resultado. Na mão inversa, o sigilo teimosamente praticado pelo Tribunal Superior Eleitoral fomentou dúvidas sobre a legitimidade das eleições. A exacerbada reação dos juízes, rotulando de “criminosas” as multidões que foram às ruas protestar serviu para elevar a temperatura.

Então, motivos não faltaram. Faltaram, isto sim, estratégia, organização, inteligência e liderança. E que acabou culminando na facilidade com que as manifestações de Direita caíram na arapuca das invasões em Brasília. É impossível não prever que era a situação ideal para que uma minoria se aproveitasse e transformasse uma ação que, pacifica e ordeiramente, permanecera por mais de 60 dias nas ruas, num pandemônio.

O diletantismo e a ingenuidade, inclusive, já haviam permitido o retorno da Esquerda, afogada no mar de corrupção e politicamente destroçada há apenas quatro anos, ao cenário nacional.   

Não é assim que se confronta adversários que, há mais de cem anos, têm como cartilha uma incessante luta pelo poder, uma dedicação total ao objetivo de implantar sua doutrina. Seus métodos e sua agenda estão lá, em todos os livros, todos os panfletos, todos os manifestos do social-comunismo. O controle da mídia, das pautas de ensino nas escolas, do meio intelectual e artístico, do judiciário é seu programa de ação básico. Trabalham nisso 24 horas por dia, todos os dias e são, reconheçamos, extremamente competentes no assunto.

Para enfrentá-los, a Direita Conservadora brasileira não precisa de Sir Galahad. Precisa de Maquiavel. E de um líder. Bolsonaro, apesar de bem intencionado e genuinamente patriota, foi presa fácil. Lindos atos patrióticos, hinos cantados com fervor, bandeiras enroladas nos ombros, infelizmente, não fazem parte desta luta. As armas são outras. Ou aprendemos a usá-las, ou vamos perder sempre.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

 

 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

DESTINOS CERTOS: NASA



Quando o Sputnik foi lançado, eu tinha 17 anos. Como toda a minha geração, a fascinação pelo espaço e pelas viagens interplanetárias havia sido poderosamente instilada em meus sonhos pelos quadrinhos de Flash Gordon e Brick Bradford, e filmes como Destino À Lua (Destination Moon, de 1950). Além disso, o mundo vivera, a partir de 1953, uma verdadeira paranoia com os discos voadores. Notícias, relatos e testemunhos enchiam jornais e revistas. E eu, um adolescente ávido por coisas extraterrenas, tive a pachorra de recortar e colar num álbum todas as reportagens publicadas às quais eu conseguia ter acesso (Um dia ainda vou escrever um texto sobre isto...). Passava horas lendo e relendo os recortes, e torcendo para que eu tivesse a ventura de ser abduzido...

A colocação no espaço do pequeno satélite russo, além de encantar e/ou alarmar o mundo inteiro, deu início a uma acirrada competição, que duraria mais de uma década: a corrida espacial, uma disputa de prestígio entre os dois superpoderes de então.  Um tio meu torcia pelos soviéticos; eu, pelos americanos. As discussões eram intermináveis...

Já era jovem adulto, casado e pai, quando, numa das mais vívidas memórias que tenho, vi a imagem em preto e branco, um pouco desfocada e indefinida, de Armstrong descendo no Mar da Tranquilidade. Com a informação de que, pela primeira vez, centenas de milhões de pessoas viam a mesma cena naquele momento, foi a única vez que me senti parte de uma coisa chamada Humanidade.

E foi como parte dessa Humanidade que segui os angustiantes momentos do problema da Apollo XIII, o alívio toda vez que paraquedas coloridos e gigantescos pousavam gentilmente as cápsulas no mar, as declarações dos astronautas sobre as sensações vividas ao verem a Terra como uma bola azul recortada pela imensidão do Universo.

Assim, os meus parcos, mas resilientes leitores podem avaliar o que foi para mim visitar, há dias, a NASA ou, melhor dizendo, o Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral.  

Prá começo de conversa, quis o destino (e, é claro, um dedicado monitoramento de minha filha Andrea), que a visita tivesse, como bônus, a oportunidade de assistir ao lançamento do Space X Falcon, em sua missão de colocar pequenos satélites em órbita. Estar ali, contritamente acompanhando com os presentes a contagem regressiva, vendo o artefato elevar-se e ouvindo os poderosos rugidos do lift off, fez-me entrar numa máquina do tempo.

A partir daí, não consegui mais voltar ao presente. Estava de novo nos anos cinquenta/sessenta. A sala de controle das missões lunares, os ciclópicos foguetes Saturno, as acanhadas cápsulas e claustrofóbicos módulos, a incrível nave Atlantis, os trajes espaciais, todo o drama e toda a glória de uma história de coragem, desafio, inteligência e trabalho duro estão ali. O Centro, afinal, é uma Disney do espaço. Mas uma Disney que tem como mote, não uma inspiração ficcional e lúdica, mas a saga real do milagre da tecnologia e da ousadia de gênios loucos que, há mais de 50 anos, colocaram homens na Lua.

Foi um dia de sonho. Dos meus sonhos. Se você participou desse extraordinário tempo, ponha na sua agenda uma visita a Cabo Canaveral. Não irá se arrepender.

Oswaldo Pereira

Janeiro 2023

domingo, 1 de janeiro de 2023

2022

 


Não sei como os livros (digitais, claro) do futuro irão se referir a 2022. Mas, só com muita boa vontade um historiador, consultando os arquivos em seu computador de bordo a caminho de umas férias em Marte, poderá anotar algo de positivo sobre este ano que acabou de findar.

Talvez, o suspiro de alívio de toda a humanidade pelo fim da pandemia. As janelas foram novamente abertas, os rostos voltaram a exibir os sorrisos que as máscaras ocultavam, os parques encheram-se de crianças e de velhos, a vida voltou a pulsar.

Mas, em compensação...

Tivemos a guerra da Ucrânia, o Oscar do tapa, chuvas torrenciais, incêndios gigantescos, ciclones devastadores, temperaturas congelantes. E a Taça foi para Argentina.

Fizemos 200 anos em meio a uma desagregadora polarização política, a Terra contabilizou 8 bilhões de habitantes ainda às voltas com desigualdades cruéis, inflação e recessão grassaram em economias de primeiro mundo, perdemos um Rei, uma Rainha e um Papa.  

Muita gente boa das nossas artes partiu. Jô, Erasmo, Gal, Boldrin, Elza, Milton, Jabôr, Rangel. Pablo Milanez, o gentil cubano, também. As telas de cinema ficaram menores sem Sidney Poitier, Olivia Newton-John, Angela Lansbury, William Hurt, Robbie Coltrane e tantos outros.

É... um ano com um numeral romano tão carismático (MMXXII) vai deixar no seu verbete um rosário de infortúnios. Talvez seja emblemático verificar que, em 2022, dois acontecimentos, um de ficção e o outro real, ligados às estrelas e ao infinito, nos fizeram pensar. O primeiro foi um filme que nos sugeria não olharmos para cima (Don´t Look Up); o outro foi o lançamento do super telescópio espacial James Webb, que nos revelou as imagens do começo do universo. Ambos escancararam nossa pequenez e nossa fragilidade.

Afinal, tudo passa...

Resta a consolação de que 2023 não precisará fazer muito esforço para ser melhor. Assim,

                                                             UM FELIZ ANO NOVO!

 

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O REI QUE CONHECI

 


É difícil escrever sobre um símbolo. Tudo o que eu poderia dizer sobre Pelé, aqui neste acanhado blog, já foi dito, vezes e vezes sem conta. Foi, e será sempre, o brasileiro mais conhecido em todo o mundo e por todas as gentes. Perdi a conta de lugares que visitei, mesmo nas mais recônditas vilas do Camboja, em aldeias portuguesas, vales da Irlanda, estradas da Índia, bares do Canadá, ruas da Rússia, nos quais, toda vez que eu declarava que vinha do Brasil, recebia como resposta: Pelé, dito reverencialmente com um brilho nos olhos e o polegar para cima. Na maioria das ocasiões, era tudo o que sabiam sobre o Brasil. E era suficiente.

A única coisa que posso oferecer como homenagem são as imagens dos momentos em que eu tive a fortuna de presenciar, ao vivo e em pessoa, acontecimentos extraordinários de arte desportiva protagonizados por Pelé. Copiando Gonçalves Dias, eu posso proclamar, alto e bom som e com profundo orgulho: meninos, eu vi.

.em 1958, a seleção brasileira titular tinha na meia esquerda (para os novos, era a posição do camisa 10) Dida, jogador do Flamengo que eu, como fervoroso rubro-negro, achava indiscutível. Nos dois primeiros jogos da Copa da Suécia, ainda foi assim. Mas, no terceiro, contra a poderosa União Soviética, a história de um gênio começou a ser escrita. Pelé, chamado então de a novidade por Geraldo Romualdo da Silva, o maior locutor esportivo da época, entrou no time. E o mundo do futebol encontrou o seu Rei;

.Maracanã, 17 de setembro de 1959. Taça Bernardo O’Higgins. Na goleada de 7 a 0 contra o Chile, Pelé faz três gols. Até aí, normal. Mas, já ao final do jogo, ele pega a bola na intermediária brasileira e sai driblando, um após outro, os atordoados chilenos. Prossegue até a grande área adversária. E depois volta, repetindo a dose. Eu e as 120.000 pessoas no estádio, de pé, aplaudimos por mais de um minuto. Magia pura;

.Maracanã, 5 de março de 1961. Torneio Rio-São Paulo. O Santos enfrenta o Fluminense, a melhor defesa da competição. Final do primeiro tempo. Pelé toma a bola ainda na defesa, avança, dribla seis jogadores tricolores e, na saída do excelente goleiro Castilho, marca o mais belo gol que o estádio, e eu, havíamos já visto. Joelmir Betting, ao tempo cronista do jornal O Esporte dá a ideia e uma placa de bronze eterniza o momento. Gol de Placa vai servir para apelidar todos os gols feitos com arte daí para a frente;

.Maracanã, 18 de julho de 1971. Jogo do Brasil contra a Iugoslávia. Ao fim do primeiro tempo, Pelé se despede da seleção brasileira com uma volta olímpica. A emoção toma conta de todos nós. Afinal, não é todo dia que se assiste ao fim de uma era.

A ocasião, entretanto, que mais vive na minha memória foi meu encontro pessoal com o Rei. Quando a seleção voltou vitoriosa do Chile, em 1962, uma recepção foi organizada no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Por obra e arte de um grande amigo, que, por sua vez, tinha um amigo do amigo do amigo de um funcionário do palácio, consegui penetrar na solenidade. E estava mesmo na porta do salão nobre quando os jogadores chegaram. Não sei que fada benfazeja fez com que a primeira pessoa que Pelé visse ao entrar fosse eu. E me deu um grande abraço.

Há outros relatos que me foram prometidos por um fraterno amigo, que prometo repassar assim que me forem enviados. Pelé é grande demais para uma só crônica.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2022

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

DESALENTO

 


Os poucos (mas valorosos) seguidores deste blog sabem que eu procuro não publicar assuntos, especialmente os políticos, que deliberadamente suscitem polêmicas e confrontações. Na grande maioria, os textos que aqui apresento, com a pretensão única de atrair um pouco da sua atenção, versam sobre experiências deste modesto escriba, sejam de viagens, de livros lidos, de filmes assistidos e, especialmente, de observações da vida e do universo que me cerca, filtradas pela perspectiva de muitos anos de uma existência atenta e uma mente curiosa.

Momentos houve, entretanto, que acontecimentos importantes do ambiente institucional brasileiro impeliram-me a externar minha opinião, sempre ressaltando que era uma manifestação individual e apoiada tão somente no arcabouço de informações que estavam ao meu alcance. Dado que este blog nasceu em fevereiro de 2013, portanto no terceiro ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff, minhas pontuais crônicas de cunho político cingiram-se ao período compreendido entre aquele ano e o presente. As mais incisivas intervenções procuraram, de um lado, espelhar minha aversão àquela governante que, com sua imensa estupidez e imperdoável arrogância, significou para mim o que de pior esteve no comando deste país, pelo menos com relação aos presidentes que conheci nestes meus 82 anos de idade.

Outra circunstância que me levou a escrever sobre a nossa situação política foi o gigantesco esquema de corrupção engendrado e comandado pelo Partido dos Trabalhadores, tendo como beneficiários e cúmplices a grande maioria de um Congresso venal e um Judiciário desonesto. Foi como um horrorizado cidadão que não pude resistir ao impulso de externar meu nojo e minha repulsa.

Nunca cheguei verdadeiramente a publicar análises mais profundas sobre o Governo Bolsonaro. Com a pandemia tirando o foco dos outros temas e prejudicando uma avaliação correta da atuação de seu mandato, não me entendi capaz de fazê-lo. De qualquer modo, o simples fato de verificar sua férrea vontade de colocar uma trava no obsceno rega-bofe dos governos anteriores já o credenciava favoravelmente. E, no período pós-Covid, com a economia recuperando, o Brasil voltando a crescer em níveis superiores a outros países, com a inflação em baixa, o desemprego em queda e com quase todos os indicadores desenhando uma curva virtuosa, minha simpatia aumentou.

A vitória de Lula me desencantou. Mesmo verificando que Bolsonaro, ao mesmo tempo que comandava um séquito de milhões de brasileiros (como raras vezes tive a oportunidade de testemunhar na história recente), também suscitava uma disseminada rejeição ao seu modo truculento e, em grande medida, a surda revolta de fortes interesses contrariados, cheguei a crer que o povo não iria permitir a volta daqueles que haviam jogado o país num pântano de desmandos e corrupção.

Estava enganado. E perplexo de ver muita gente que conheço conscientemente escolher o candidato do PT.

Os primeiros movimentos do novo Governo vêm-me confirmar os meus maiores temores. A visão de um anunciado descontrole fiscal, o aumento do número de Ministérios, o leilão político de cargos que deveriam ser ocupados por técnicos competentes, o retorno ao poder de nomes que causam arrepios, tristemente conhecidos por sua inépcia ou suas falcatruas, o ressurgimento do peleguismo em suas piores formas dá-me uma profunda sensação de desalento, de desencanto e de luto por um futuro que está morrendo.

E aí, eu me permito perguntar aos que votaram em Lula. É isto mesmo que vocês queriam? É esta a imagem que vocês defendem e em que acreditam como sendo a melhor opção para o bem estar da população brasileira? É este o uso dos impostos que vocês reputam como a mais adequada? É este o país     que vocês querem apresentar para seus filhos? Espero fervorosamente que sim porque, embora tendo o pleno direito de escolher, há um direito que vocês não têm. O de se arrependerem.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2022

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

AVATAR 2

 



James Cameron é, mais do que tudo, um visionário que adora grandes desafios. Em cima disto, o diretor canadense é um inovador perfeccionista, uma combinação de características que o leva a empurrar as fronteiras da cinematografia a caminhos ainda não palmilhados e a limites que só a imaginação é capaz de definir. Foi assim com o seu retumbante sucesso, Titanic, lançado em 1997 e, até hoje, reverenciado como um marco e uma atração que mantém seu fascínio, mesmo que seja vista repetidamente.

Em 2009, Cameron surpreendeu novamente com Avatar, uma saga futurística que narrava a luta de um povo mítico do planeta Pandora contra uma invasão de terráqueos. Resumindo assim, pode parecer uma surrada história em quadrinhos, mas o filme foi muito, muito mais do que isto. Usando e esbanjando o que de melhor havia no momento em termos de computação gráfica, Avatar deslumbrou plateias no mundo inteiro, permeando o roteiro ficcional com lirismo e extraordinárias sequências de uma civilização integrada numa natureza pujante e primordial.

Já por essa altura, Cameron se propunha a transformar Avatar numa franquia, dando seguimento à história por mais dois capítulos. Este número, em 2012, se transformara em cinco episódios, e os roteiristas puseram seus bestuntos para funcionar. A meta era estrear o Avatar 2 já em 2014. Mas aí, o perfeccionismo de Cameron entrou em cena. Para espelhar com a fidelidade pretendida as imagens marinhas que seriam a tônica do filme, as técnicas existentes de performance motion, uma avançada modalidade que utiliza os movimentos de atores reais para compor seus personagens de animação, ainda não atingiam o estado da arte desejado pelo exigente diretor. Só em 2019 isto aconteceu e a produção começou.

O resultado é o impressionante Avatar: The Way of Water, que acaba de estrear aqui nos Estados Unidos. Nesta sequela, Jack Sully, o marine que adotara sua identidade Na’vi, sua mulher e seus filhos têm de fugir de sua tribo, novamente atacada pelos terrenos e refugiar-se numa aldeia de nativos que vivem do mar e que, na verdade, até adquiriram características físicas marinhas. O processo de adaptação da família de Sully ao novo ambiente, o estranhamento e a hostilidade inicial que sofrem por parte dos seus anfitriões e a batalha final contra uma força tarefa comandada pelo coronel Miles Quaritch, que volta à cena agora recombinado num na’vi, desenvolvem-se num fantástico e visualmente estonteante mundo submarino.

Os atores principais, Sam Worthington, Zoe Saldaña e Stephen Lang estão de volta. Sigourney Weaver também reaparece, mas num papel diferente. Kate Winslet junta-se ao cast, sua segunda experiência sob a regência de Cameron. Como os outros, ela foi obrigada a treinar mergulhos livres e, segundo consta, conseguiu estabelecer um recorde de sete minutos debaixo d’água sem respirar.

Avatar: The Way of Water custou acima de US$ 460 milhões, outro recorde. Mas, a julgar pela receita de bilheteria de US$ 570 milhões só nesta primeira quinzena de lançamento, percebe-se que James Cameron acertou de novo e que a franquia se estabelece. É aposta certa para abiscoitar vários prêmios nas cerimônias do ano que vem. E provoca a espera ansiosa pelo terceiro capítulo, previsto para 2024.

Em suma, vale a pena ver.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2022

 

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

NATAL 2022





UM GRANDE NATAL PARA TODOS, COM MUITA PAZ, MUITO AMOR E MUITA SAÚDE. E, para manter a tradição, o conto de Natal deste ano:


«Como assim?»
«Foi o que eu falei. Ele está no whatsapp, aqui no meu celular. Insiste em falar com você...»

A conversa entre ele e a mulher era na cozinha, de manhã. Noel havia se levantado com uma pequena dor de cabeça. Faltavam poucos dias, mas ainda havia alguns atrasos na preparação dos embrulhos, o programa de recebimento de pedidos, agora inundado de e-mails, tweets, instagrams, whatsapps estava congestionado. Que saudade das velhas e boas cartinhas, havia ele dito dias antes. Além disso, a fabricação de brinquedos, que havia sido terceirizada quando a preferência do público abandonara os tradicionais soldadinhos, tambores, carros de corda, bonecas falantes e castelos em miniatura por cada vez mais sofisticados app’s e rpg’s, tivera problemas com um inesperado overload do sistema. Muitos empregados, talvez os melhores que tinha, haviam sido atraídos por irrecusáveis propostas de trabalho da crescente área de entretenimento.

Mas, não era só isto. O fato mais preocupante era que ele estava cansado. A idade começara a pesar. A perspectiva de girar o mundo a bordo de uma desconfortável carruagem descoberta, guiada por tração animal, na noite mais fria do ano, já não era tão atraente como antes.

Talvez por isto mesmo, no início de novembro, ele havia namorado, por alguns dias, a ideia de passar o negócio para frente. Mamãe Noel, depois de considerar o assunto com sua costumeira ponderação, acabara por concordar que isto poderia ser uma opção viável no futuro. Não tinham filhos nem herdeiros para quem deixar o empreendimento. Vamos esperar passar este próximo Natal, dissera.

Noel, entretanto, com a ideia volteando insistentemente em sua cabeça, acabara por comentar o assunto com alguns vizinhos. Embora pedindo que a guardassem para si, a notícia acabou por transpor o diminuto círculo de amigos da pequena aldeia da Lapônia. 


Noel pegou o celular.
«Elon?...»
«Sim, old boy, tenho uma proposta bilionária. Você não vai recusar. Depois do Tweet, é a coisa que eu mais desejo comprar. O Natal...»

Oswaldo Pereira

Dezembro 2022

Quem quiser ler os contos de natais anteriores, é só clicar em:

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O BAÚ



Quanto mais vivemos, mais lembranças temos. É um axioma. E, dito assim, parece uma obviedade gritante. A vida nos faz acumular passado que, no fundo, nada mais é do que um baú de histórias que o destino, ou alguém regendo em seu lugar, nos fez protagonizar. À medida que nossa trajetória se alonga, estes pedaços de memória vão resvalando para dentro deste baú, acumulando-se juntamente com a poeira do tempo. Alguns vão tão fundo ou são tão distantes no tempo que acabam se apagando, como papéis velhos e amarelecidos que se desfazem no sopro do esquecimento.

A ruína, no entanto, é seletiva e pouco tem a ver com o passar dos anos. O que mantém algumas dessas lembranças vivas e coloridas é a maneira com que elas nos encantaram, feriram ou nos modificaram. De repente, o som de uma canção ouvida na infância e que nos trouxe uma revelação está mais vivo do que a desimportante sinfonia tocada anteontem. Primeiros amores, primeiras dores, primeiras encruzilhadas, primeiras epifanias – são elas as imagens que mais perduram, são delas que nosso enredo seletivo mais lança mão, quando a idade nos abre o baú.

Nós, os velhos, estamos cheios dessas coleções de momentos passados e recordá-los é um dos mais praticados exercícios e um dos prazeres mais cultuados da velhice. E a suprema felicidade vem quando podemos compartilhá-los com aqueles que os experimentaram ao nosso lado.

Acontece que, com o correr do tempo, muitos dos nossos interlocutores vão partindo, levados pelo mistério que é o destino. Vamos ficando sós, sem ter conosco as testemunhas dos episódios do nosso passado. Aquele amigo com quem vimos um gol de Garrincha num Maracanã lotado, que foi conosco numa matinê do Metro Copacabana ver a plateia batendo palmas para Gene Kelly dançando na chuva, aqueles com quem amarramos a primeira bebedeira de cuba-libre ou ainda os que, juntos, após um festa de reveillion de vestidos longos e smokings, fomos ver a alvorada de um novo ano na praia de Ipanema.

Podemos até continuar contando estas mesmas estórias para outros ouvidos, mas a magia do compartilhamento de uma experiência comum não aflora, a linguagem cifrada dos segredos divididos não é mais reconhecida.

Vamos ficando mais sozinhos com o nosso baú, pois cada vez menos há aqueles que sabem a senha de seu cadeado.

Envelhecer também é isto.

Oswaldo Pereira

Dezembro 2022