domingo, 14 de abril de 2013

PAPO DE BAR - ENCENAÇÃO




«Aí vem chumbo!»

«Como é que é? Vão assaltar o Bar?»

«Não brinca, cara. falando sério. A Coréia do Norte vai mandar bala! Aquele mongolóide do Kim Jong-un vai desencadear uma guerra de consequências imprevisíveis. E o Japão é capaz de levar com outra bomba atômica na cabeça. Coitados dos japas. Vivem às voltas com ataques nucleares. Hiroshima, Nagasaki, o problema com a usina de Fukushima. Caramba...»

«Não vai acontecer nada»

«Você acha que não? Pois os Estados Unidos acham que sim. Elevaram o nível de defesa para DEFCON 2. Sabe o que quer dizer isto? DEFCON 1, o estágio a seguir, é Guerra. A última vez que isto aconteceu foi durante a Crise de Cuba, na década de sessenta.»

«Tudo encenação»

«Encenação?! Estamos falando de um louco com o dedo no botão nuclear. Um espirro mal dado, e a coisa começa. E, a partir daí, ninguém sabe como parar. É a hecatombe, amigão»

«Meu Deus. Você anda lendo muita ficção científica. E da pior qualidade.»

«Que ficção científica droga nenhuma. Estou lendo os jornais, vendo a CNN, a BBC. A coisa feia»

«E você acredita no que lê e ouve? Desde quando a imprensa é confiável? Desde quando o compromisso com a verdade suplanta o interesse comercial dos donos das mega redes de comunicação? Ou um acerto com as fontes governamentais em troca de concessões e financiamentos? Como diz o Batman, “santa ingenuidade”...»

«Você, com este seu cinismo empedernido, está ultrapassado, meu caro. O Batman não fala mais nada disso. E a imprensa de hoje se baseia em repórteres investigativos, tem meios visuais que podem descobrir tudo, âncoras independentes que formam opiniões em cima de fatos e não histórias de terceira mão»

«Muito bonito. É claro que os meios estão todos aí. O problema não está na recolha dos fatos. Está na edição da matéria jornalística. O que vai para as páginas dos jornais e para as telas de TV, não é o fato, mas a versão mais conveniente dele, determinada pelo presidente da cadeia de  notícias e seu redator-chefe. Quer um exemplo recente? A mídia americana comprou sem questionar a história de que o Iraque possuía “armas de destruição em massa”, quando todo mundo já sabia que era um truque do Bush filho para deletar o Sadam Hussein e manter os interesses petrolíferos do Dick Chenney intactos»

«OK. Mas para um caso destes há centenas de outros em que a ação reveladora da imprensa trouxe à tona verdades encobertas por interesses inconfessáveis. Antigamente, os poderosos da vez faziam e desfaziam, sem se preocupar com a opinião pública justamente porque a imprensa não se metia. O Kennedy promovia orgias na Casa Branca e nada vinha a público. Trinta anos depois, o coitado do Clinton ensaiou uma brincadeirinha com uma estagiária e foi exposto e crucificado. Isto sem falar no mais famoso episódio de investigação jornalística de todos os tempos que foi papel dos repórteres do Washington Post no caso Watergate»

«Pois eu ainda não sei se isto tudo não obedeceu a um plano pré-definido. Nixon era um escroque, ninguém gostava dele. Tudo pode ter sido armado para defenestrá-lo. Lembre-se que foram as confidências do Garganta Profunda ao Bernstein e ao Woodward que selaram a sorte do caso. Por isso, eu acho que o caso da Coréia do Norte é apenas mais uma encenação combinada»

«Combinada? Por quem?»

«Pela China, pelos Estados Unidos...  A última coisa que interessa aos dois é uma mudança radical na situação atual da península coreana. Uma hipotética união entre Norte e Sul é impensável. Para os americanos, a abissal diferença entre as duas Coréias é um formidável item de propaganda a favor do capitalismo. Para os chineses, a Coréia do Norte é uma fonte de minério de ferro e carvão mineral a preços irrisórios. E qualquer desequilíbrio no poder poderia causar a invasão do território chines por  milhões de fugitivos coreanos através de uma pouco patrulhada fronteira.»

«Então não faz sentido. Prá que criar esta crise?»

«O problema é o Kim Jong-un. Tem 28 anos. Comparado com os gerontocratas do poder militar, com os seus quépis enormes, é um moleque. Deve estar sendo posto à prova pelos velhinhos e precisa mostrar que tem aquilo roxo. Deve ter-se comunicado secretamente com a titia China e pedido ajuda propondo “eu banco o machão, faço cara feia e ameaço todo o mundo. Vocês peçam para os Estados Unidos fingirem que estão apavorados e aumentem a prontidão. Assim eu fico bonito na fotografia e os generais me aceitam. Depois, damos o dito pelo não dito em nome da paz mundial e tudo continua na mesma”..»

«Não sei não...»

«É claro que é isso. Você vai ver. Na próxima semana, tudo acaba»

«Deus te ouça...»

«Deus? É quem menos tem a ver com esta história...»

Oswaldo Pereira
Abril 2013

2 comentários:

  1. Esse Duplo que mostra o outro lado das hipóteses do Um, é bem Coreia do Norte diante de Coreia do Sul. Afinal, tudo farinha do mesmo saco, paranoicos, neuróticos e nós, (o homem comum), que precisa saber e descobrir a cada dia, a mágica da vida e da sobrevivência digna, ou apenas, pedir a Deus para não acabar maníaco, obsessivo e fóbico. Um hospício a céu aberto esse "Mundo". O maluco do Norte tem cara de maluco mesmo. Lao Tsé sem Freud, pode dar no que não se pode nem saber o que é.

    ResponderExcluir
  2. Muito bom... estou com o cético!! Adorei a lembrança do Batman.

    Santas Ogivas Atômicas, Batman!!

    ResponderExcluir