quarta-feira, 6 de outubro de 2021

O APAGÃO

 


Que susto...

De repente, uma sensação enjoada de desamparo. Face, Insta e Zap fora do ar! E agora, José?

Esta é a medida da nossa dependência. Coisas que a civilização e o progresso nos foram envolvendo, desde que um troglodita, há 200.000 anos, descobriu a capacidade de duas pedras lascadas, friccionadas rapidamente uma na outra, produzirem fagulhas suficientes para atear fogo num montinho de palha seca. Bingo! A caverna ia ficar agora iluminada e quente. Desde que o estoque de pedra lascada não acabasse...

O internacional apagão de segunda-feira lembrou-me de uma crônica que escrevi neste blog há algum tempo e que fica disponível para quem quiser lê-lo neste LINK. Perca um pouquinho só do seu tempo e confira. Parece-se muito com o soluço das redes do início da semana.

Acostumamo-nos a encarar cada vez mais algumas coisas como certas. Take for granted, como dizem os ingleses. Tudo aquilo que nos traz conforto, bem-estar, prazer e diversão nos faz ficar mais amolecidos e viciados na facilidade, no pronto atendimento de vontades, no gozo de um desejo rapidamente corporificado, a felicidade ao alcance de um controle remoto, de uma internet com sinal potente, da proximidade das redes sociais. Fomos incorporando ao nosso sentido de vida, alegres e deliciosamente maravilhados, os casulos macios que nos estão tornando perigosamente mal acostumados e dependentes. Tempos atrás, minha neta americana de 18 anos indagou perplexa como era possível termos sobrevivido sem o celular...

Mas, fica quase impossível deter a contínua aceleração das tecnologias. E, mesmo que pudéssemos freá-la, quem se disporia a fazê-lo? Já pensou eu ter de escrever este texto à mão, copiá-lo dezenas de vezes, colocá-lo em outras dezenas de envelopes, selá-los e endereçá-los, e levá-los ao correio mais próximo?

Viva o progresso...

Oswaldo Pereira

Outubro 2021

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

PAPO DE BAR - GOLPE DE MESTRE



Uma segunda-feira mortiça, de ressaca. Como todas...

O país ainda parece estar deglutindo (o que pode significar saboreando para uns e ruminando para outros) a semana anterior. Até mesmo no Zanzibar.

«Viu? Ele teve de voltar atrás. Ultimato é coisa séria. Blefaram alto e agora tiveram de mostrar as cartas. Nem conseguiram tirar os ministros do STF e nem vão ter voto auditável. A famigerada paralização dos caminhoneiros deu chabu. E o Zé Trovão tá foragido. Papelão...»

«Papelão? Acho que você não está analisando direito as coisas, Antonia...»

«Analisar? Não há nada para analisar. Milhões foram às ruas pedindo duas coisas. E nenhuma das duas aconteceu. Meio frustrante, não? Duvido que se consiga repetir uma manifestação igual a esta. Era o vai ou racha. E rachou...»

«E você acha que o verdadeiro objetivo de botar o povão nas ruas era entregar um ultimato?»

«E não era? Vamos dar 72 horas. Senão atenderem, vamos cercar Brasilia e parar o país. Se ainda assim não agirem, vamos invadir... Não era este o refrão? Fora Moraes e Barroso... Cadê? Pelo que me consta, os dois continuam usando suas togas...»

«Pensa um momento, Antonia. Imagina que tudo isso é uma mesa de pôquer. O jogo que o Governo tinha nas mãos não era um ultimato. É claro que se sabia que um pedido destes era impossível de ser cumprido sob pressão. Pelo menos não dentro das regras constitucionais. Ultimatuns só permitem duas atitudes: a aceitação ou a guerra. E esse não era o jogo do Governo. O seu royal straight flush era a imagem do povo nas ruas, na gigantesca demonstração de apoio, no explícito repúdio popular aos desmandos do Supremo e à canalhice dos políticos. Foi isso que Bolsonaro jogou na mesa.»

«Não entendo nada de pôquer. Só sei que ficou tudo como antes. Moraes continua Moraes, Barroso continua Barroso. A famosa carta à nação acabou sendo um mea culpa, nada mais.»

«É aí que você se engana, minha querida. Esta famosa carta é de um primor estratégico que faria Maquiavel levantar os polegares. Ela nasceu de um acordo costurado com todos os atores importantes desta saga. Um acordo que vem atender a tudo que o Governo reivindicava, principalmente o fim do protagonismo do Supremo, o inquérito da fake news nas mãos da Procuradoria, um Congresso que praticamente sepultou a chances de impeachment. O único compromisso do Presidente foi o de segurar os caminhoneiros. De uma tacada, ele afastou todos os fantasmas. Em vez do Golpe! gritado pela esquerda, Bolsonaro fez sim um golpe. De mestre...»

«E você acredita neste suposto acordo? Desde quando a ovelha faz acordo com lobos? E mais. Se o acordo fosse para valer, seria o fim da oposição. O fracasso das passeatas da esquerda ontem está deixando a turma antibolsonarista com os cabelos em pé. Acha que ela vai deixar barato? Esse acordo tem toda chance de não vingar. E aí?»

«Aí Bolsonaro tem tudo para alegar que foram os outros que repudiaram seu aceno de paz. E partir para uma coisa que até um que não entende de pôquer conhece. Virar a mesa...»

Oswaldo Pereira

Setembro 2021

sábado, 21 de agosto de 2021

SIC

 


A idade avançada traz, ou deve trazer, até como compensação pelos achaques, dores de coluna, artroses e outros inconvenientes, uma visão relativista das coisas. Temos, nós os velhos, a prerrogativa de utilizar o extenso tempo vivido para sedimentar nossas experiências e nos conceder um modus operandi de encarar as coisas temperado de calma e perspectiva.

Os anos, muitos, sevem de amortecedor contra as reações violentas, as discordâncias ácidas, as paixões irremediáveis e os confrontos diretos. Muito pouca coisa tem a força de nos fazer sair da redoma de tranquilidade que o tempo nos conferiu. Este que vos escreve, inclusive, tem por índole sempre tentar descobrir o que move uma posição antagônica à sua, apurar a eventual verdade num contraditório. Meus amigos, creio, podem atestar o que digo, e meu signo de Libra e minha formação de advogado certamente têm a ver com isto.

Mas, há dias, uma coisa me tirou poderosamente do sério.  E, como sei que possuo, na minha modesta lista de recebedores deste blog, vários parentes e amigos em Portugal, senti-me na obrigação de externar esta justificada revolta.

O canal português de televisão SIC (Sociedade Independente de Comunicação) entrou no ar há 25 anos e formou-se como um dos mais vistos no país e, principalmente, como o veículo televisivo por excelência dos expatriados lusos ao redor do mundo. Chegou a ter 35% de audiência. Hoje, este percentual caiu para 19% e sua empresa controladora, o Grupo Impresa, está em recuperação judicial.  

Pois a SIC aprontou o seguinte.

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal brasileiro determinou a prisão, a intimação e a apreensão de dados de vários jornalistas e comunicadores que apoiam Jair Bolsonaro, inclusive impondo medidas para proibir a monetização de seu trabalho de divulgação o que, praticamente, o extingue.

Pois não é que a SIC, em seus noticiários, teve o descaramento de informar que Bolsonaro é quem havia solicitado a prisão de jornalistas opositores, numa inversão canalha da verdade?

Você pode não gostar do homem, pode ser até um antagonista ferrenho, detestar tudo o que ele diz ou faz, mas, retorcer deliberada e abjetamente um fato constitui, especialmente levando em conta a responsabilidade da SIC como fonte de informação de milhões de portugueses, dentro e fora do país, um ato de suprema covardia, desonestidade e, para extrapolar o vernáculo, filhadaputice desavergonhada.

Falam tanto de fake news. O que dizer, então, desta falcatrua informativa? Não é assim que se joga limpo.

Infelizmente, não tenho amplitude suficiente para disseminar este meu repúdio como desejo. Mas, eu lhes peço, meus amigos portugueses, que procurem repor a verdade junto à sua roda de contatos. E, daqui para a frente, desconfiar de tudo o que a SIC informa...

Oswaldo Pereira

Agosto 2021

 

terça-feira, 17 de agosto de 2021

TAMBORES AO LONGE

 


Faltam 3 semanas. E o próximo dia sete de setembro vai marcar o 199º aniversário da independência brasileira. Mais um ano, e chegamos ao nosso segundo século como nação. Uma data alvissareira? Seria, se não fosse a circunstância de que, neste mesmo momento de celebração, o país encontrar-se num redemoinho de paixões.

Há tambores ao longe. Há um eco crescente de vozes enraivecidas. Há um ruído se avolumando. Há um movimento em pauta. E não se precisa de muito estudo histórico e nem de um avançado discernimento social para entender o que se passa. Pelo menos para mim, a mensagem é clara. No Brasil de hoje, a classe política, os membros do supremo judiciário e a imprensa tradicional perderam o contato com a realidade.

Embriagados dentro de uma impunidade auto conferida, cheios de sua arrogância obscena, enleados no pântano mais escuro e profundo de favores, jabaculês e troca-trocas, os nossos políticos não entenderam o recado que as urnas trouxeram em 2018. Quem foi eleito naquele ano foi um grito de BASTA, de repúdio ao mar pútrido de corrupção que consumia os impostos e retorcia o futuro nacional. Bolsonaro foi apenas o fio condutor de um anseio, de uma revolta.

Acontece que, mesmo não sendo uma unanimidade na época e longe de ser um ideal de estadista, Jair Bolsonaro acabou por impor sua figura de paladino e justiceiro não muito pelo que fez, mas pelo que os outros fizeram. A insana reação daqueles que começaram a temer pelo fim de suas prerrogativas indecentes, de suas vantagens espúrias, de suas verbas e de seus jeitinhos canalhas, acabou por ungir Bolsonaro com uma inesperada aura de missioneiro.

O açodamento e a virulência dos ataques contra ele acabaram por extrapolar os limites do que seria o normal procedimento de uma oposição republicana. Se tal comportamento já poderia ser esperado de uma classe política corrompida e apodrecida, as ações de inqualificável e anticonstitucional partidarismo do Supremo Tribunal Federal e o evidente e comprometido antagonismo da grande imprensa escancararam um desproporcional conluio de forças.

E o povo, aquele mesmo povo que havia lançado sua mensagem em 2018, graças aos canais que vieram sepultar a imagem da mídia tradicional, estava vendo e ouvindo.

Nestes últimos 30 meses, este mesmo povo, que se aferrara à expectativa de que esse fio condutor conseguisse, finalmente, reverter o tenebroso curso a que o Brasil fora dirigido, foi assistindo a coisas, como o arquivamento de um abaixo assinado de 3 milhões de cidadãos, uma Comissão de Inquérito chefiada por políticos campeões de acusações e processos, juízes do Supremo protagonizando atos ilegais e tortuosos, o corporativismo do Congresso e do Judiciário contra o bom-senso do voto auditável, minarem suas esperanças e suas opções.

Como reagir? A resposta pode vir do som dos tambores.

Oswaldo Pereira

Agosto 2021

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

A RELATIVIZAÇÃO DO BOM-SENSO

 


O que é Bom-Senso?

Em meus devaneios, sempre me pareceu que bom senso era uma coisa auto evidente, reconhecível in loco, claro e indiscutível como o sol, uma verdade insofismável que não admitia circunlóquios ou tergiversações.

Mas estou percebendo que minha romântica visão, tão solene e antiquada quanto os adjetivos acima, está lamentavelmente ultrapassada. E, mesmo se fosse buscar seu correspondente na língua inglesa, common sense, tenho de admitir que ela não tem mais nada de common.

Sujeito a interpretações, escrutínios analíticos e ideologias de variada espécie, a figura antes monolítica do Senso Comum caiu na vala da relatividade.

Isto tudo me veio de repente com a questão do voto auditável.

Na minha proverbial ingenuidade, eu cria ser de bom-senso, já que existe uma razoável dúvida quanto à higidez do sistema de apuração de votos hoje em uso no Brasil; o fato de que esse sistema permanece com a mesma estrutura informatizada do tempo de sua criação, há mais de 20 anos; a percepção geral de que, atualmente, NENHUM sistema pode garantir sua imunidade ao ataque de hackers; e que TODOS os países (à honrosa exceção do Bangladesh e do Burkina-Fasso) que porventura utilizaram sistema semelhante no passado já o dotaram de uma ferramenta suplementar de controle, como o comprovante impresso, aceitar que estava na hora de rever os nossos métodos de votação.

Também não consigo discernir fundamento lógico quando afirmam que inserir um comprovante adicional ao mais importante ato da nossa claudicante democracia seria um passo atrás, quando eu me convenço que seria um passo à frente, um avanço e uma segurança necessária.

Então, nesta hora em que o Congresso brasileiro sepulta uma pretensão que julgava eu legítima, racional e indiscutível, aqui me quedo, desconsolado e inseguro, a verificar que um dos deuses supremos de minha racionalidade, meu querido e inabalável bom senso, é apenas uma miragem, uma visão, um sonho juvenil, indefeso nas mãos da vontade política de uns quantos.

 Oswaldo Pereira

Agosto 2021

sexta-feira, 30 de julho de 2021

LONGEVIDADE & PRECOCIDADE

 


Duas pontas deste imenso arco que é a vida. Longevidade & precocidade protagonizaram esta semana a dança cósmica que faz a nossa passagem por aqui um mistério e um milagre.

Orlando Drummond, talvez o mais longevo ator brasileiro em atividade, faleceu aos 102 anos. A imprensa e as redes teceram os devidos elogios, lembrando seu icônico papel na também icônica “Escolinha do Professor Raimundo” (um programa que vem da era pré-TV) e a voz que deu vida em Português a dezenas de heróis dos desenhos animados. Mas, eu me lembro mais.

1950. TV em preto e branco e um só canal: a Tupi. Tudo ao vivo. E lá estava Orlando Drummond, fazendo o papel de um cineasta luso ao lado de Silveira Sampaio. Era um esquete sobre realizadores que sonhavam em fazer um grande filme. Drummond queria uma epopeia medieval de castelos e batalhas e acabou cunhando o bordão e mouros a subir a subir, e mouros a descer a descer... Há 70 anos...

 

Rayssa Leal subiu ao pódio desta Olimpíada para receber sua medalha de prata com treze anos. A medalhista de ouro também era da mesma idade. A de bronze, 16. Isto me fez pensar nas competições olímpicas da Grécia Antiga. Que idade teriam os atletas que buscavam a glória da coroa de louros? A vida era mais breve. Reis e generais eram pouco mais que adolescentes, heróis e semideuses também. Muito poucos conseguiam sobreviver aos 40.

Assim, a modalidade skate em sua estreia olímpica trouxe de volta a tenra precocidade dos estádios helênicos para os pódios do século XXI. Uma suave e balsâmica esperança para os nossos atribulados dias.

Oswaldo Pereira

Julho 2021

 

 

terça-feira, 20 de julho de 2021

CARTA AO ALGORITMO DO FACEBOOK

 


Caro amigo algoritmo,

Eu sei. Você vai ter pouco tempo para ler esta cartinha. Compreendo. A tarefa de verificar os bilhões de mensagens que trafegam velozes pelo universo do Face, escritas em miríades de línguas diferentes e vindas de todos os cantos do mundo, deve ocupa-lo incessantemente durante as 24 horas, e seus diversos fusos, do dia.

Entendo também que seu trabalho ficou ainda mais extenuante depois que seu patrão, acusado por tribunais internacionais de propagar a maldição das fake news, achou por bem incumbi-lo de detectá-las e, usando uma palavra mais feia, censurá-las. Uma responsabilidade imensa, que faria mesmo o mais inteligente e superdotado mortal sucumbir diante da enormidade e transcendência da missão.

Por isso, eu o admiro. Imagino que, como um legítimo e juramentado exemplar da brilhante espécie pós-humana da Inteligência Artificial, você está imune a efusões sentimentais de aprovação e, portanto, descarte este meu elogio. Ou, talvez, não.

Mas, caro algoritmo, você também não precisava exagerar. Venho notando que postagens minhas estão sendo flagrantemente boicotadas ou, na hipótese mais branda, limitadas em sua divulgação, especialmente aquelas que, às vezes, por necessidade de se manter íntegra e verdadeira a mensagem ou a ideia a ser transmitida, utiliza certas palavras. Posso assegurá-lo de que, se as uso, não o faço por motivos escusos e nem em obediência a algum projeto maquiavélico de perturbar a paz mundial. 

Não quero, e não posso, cair no expediente rasteiro de substituí-las por eufemismos e equivalentes ridículos. Seria empobrecer o meu discurso, já de costume pouco nobre e rico. Como já mencionei certa vez, aqui mesmo neste blog, não podemos ter medo das palavras.

Assim, escrevo-lhe esta para pedir que, em seus neurônios sintéticos, procure usar um pouco mais de discernimento e releve as citações a, por exemplo, nomes de remédios tradicionais, laboratórios orientais, trapalhadas supremas e comissões circenses, e não permita que elas perturbem suas sinapses eletrônicas e cerceiem a publicação dos meus despretensiosos e inofensivos escritos.

Atenciosamente,

Oswaldo Pereira

Julho 2021