quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

NO TEMPO DOS ROMANOS


«Chame as legiões!»

Raulis fez a vênia reverencial, girou sobre os calcanhares e saiu em acelerado da sala do trono. Finalmente, era a ordem que esperava. A situação em Rioma era insustentável. As hordas de malfeitores haviam dominado as colinas da cidade. O Palatino, o Aventino e o Tijucano gemiam sob os confrontos diários entre traficantes de ópio, comerciantes de escravos e bandidos vindos de outras províncias. A Guarda Policiana estava desorientada, o Praefectus desaparecera e o Gubernatorius Ludovicus Ferdinandus Pezanis havia aparecido na janela do Forum apenas para jogar a toalha da rendição.

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As tendas estendiam-se até onde a vista podia alcançar. Na sua liteira, Raulis sentiu sua confiança crescer. O exército! Agora, sim. A bandidagem não perdia por esperar...
Nettus, o General, recebeu a ordem de Raulis com serenidade. «O Imperador espera que cumpra sua missão com rapidez e eficiência. O crime organizado tem de ser erradicado de Rioma. Use todos os meios possíveis. Você terá todo o apoio de Sua Majestade. Ave, Temerus!» E partiu.

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Em uma semana, as legiões haviam cruzado o Rubicão do Sul, entrado no perímetro externo da capital, feito algumas incursões nos alagados da baía e inspecionado vários campos de prisioneiros. Mas, nem tudo andava bem.

«Problemas, General...»
«Diga, Tribuno.»
«Fomos impedidos de trazer as nossas catapultas para este lado do rio.»
«Como assim?! Por quem?»
«Pelo próprio Imperador Temerus, incomodado com os comentários de alguns senadores...»
«Mas, como espera ele que eu consiga vencer as trincheiras do complexo dos germânicos?...»
«Pois é. Mas, ainda há mais. Muitos dos suspeitos que havíamos prendido e entregue à Guarda Policiana foram soltos e estão de novo nos atacando...»
«Soltos??!! Por ordem de quem??»
«Os delegatus estão recebendo centenas de habeas corpus, emitidos pelo Tribunalis Supremus. Não podemos fazer nada.»

Nettus olha para o mapa de Rioma.

«E as providências de cercar as colinas, proibir a entrada e a saída de quem não prove ser trabalhador e cidadão, impedir a subida de carroças suspeitas e apreender toda mercadoria sem origem definida?»
«Impensável. As organizações de Jus Humanus já se pronunciaram, dizendo que isto seria um inaceitável cerceamento do direito de ir e vir...»

Nettus vai até a porta de sua tenda. A desesperança começa a cutucar sua alma de militar. Como cumprir a missão?... As luzes dos archotes tremeluzem ao longo da imensa baía. O desabafo escapa baixinho.

Pobre Rioma...

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2018


domingo, 18 de fevereiro de 2018

CULPAS & RESPONSABILIDADES


Desde quarta-feira de Cinzas, quando foi decretada a intervenção federal na Segurança do Estado do Rio de Janeiro, o assunto tomou conta das redes sociais. Não podia ser de outra forma. Embora não possam ser consideradas como “termômetro” da opinião nacional (a maioria dos brasileiros ainda está à margem do mundo digital), o Face, o Twitter e outros que tais chegam a dar conta do pensamento de uma parte da população dos centros mais avançados do país.

Deste painel que ainda se desenrola nas redes, emerge a mensagem de que a franca maioria defende a medida. Para ela, é a resposta a um pedido de socorro, depois de um Estado que sofreu a maior ação de pilhagem dos cofres públicas de que se tem notícia no Brasil, e no mundo, perder sua capacidade de gerir os serviços mais básicos da administração pública. Sérgio Cabral e seus comparsas surrupiaram até a última gota de recurso do erário, deixando para o atual Governador um imenso buraco vazio nos cofres e montanhas de contas a pagar. Seria necessário um Gerente com G maiúsculo e com muito talento para equilibrar a situação. Mas Luiz Fernando Pezão não é esse tipo de administrador. Longe disto.

Como uma desgraça nunca vem só, o Prefeito da cidade do Rio é, na avaliação que também aflora das já citadas redes sociais, uma das maiores nulidades da história municipal. E olhe que o Rio já passou por figuras que nem a pior das maldições conseguiria engendrar. Marcelo Crivella, além de sua proverbial alienação quando confrontado com os problemas da metrópole que supostamente deveria governar, resolveu partir em doce vilegiatura pela Europa em pleno Carnaval.  Um pecado de lesa pátria. Na maior festa do calendário carioca, o Prefeito some! Dizem que, por ser bispo evangélico, abomina a festividade símbolo da Cidade Maravilhosa. Então, por que se candidatou? Como se diz por aqui se não sabe brincar, não desce pro play...

Sem comando e sem dinheiro, a cidade vinha experimentando uma escalada de violência e insegurança, com indícios de que o aparato policial já não conseguiria controlar a situação. Na última quarta-feira, Pezão jogou a toalha.


Mas, como sou carioca há 77 anos, preciso testemunhar o seguinte. A culpa pode ser dos atuais políticos. A responsabilidade, porém, vem de longe.
Vem do abandono romântico com que se deixaram vicejar as invasões que deram origem às primeiras favelas. Vem do mitológico laissez-faire dos habitantes de uma cidade abençoada por um dos mais deslumbrantes cenários do planeta. Vem do espírito irreverente com que os eleitores praticaram o voto de protesto, escolhendo incompetências notórias para administrar os nossos destinos. Qualquer pessoa que olhe o Rio de hoje, desfigurado por quase duzentas favelas, cuja população soma perto de um terço do seu total de habitantes, pergunta-se. Como foi possível deixar isto acontecer?

Já em 1965, elas começavam, aos poucos, a invadir áreas nobres da cidade. Lembro-me de um aglomerado que ocupava o alto do morro do Pasmado, ali mesmo, sobre o Túnel Novo, de cara para a Praia de Botafogo e o Pão de Açúcar. Carlos Lacerda, recém empossado no Governo da Guanabara, não fez por menos. Cercou o morro e deu 48 horas para as pessoas saírem. Depois, mandou queimar tudo. Nunca mais se viu um barraco no Pasmado.

Mas, não se fizeram mais Lacerdas. Fizeram-se foram muitos Brizolas, Beneditas, Rosinhas e Garotinhos. E, hoje, não há mais como erradicar essas comunidades. A cidade deslumbrante terá de conviver com suas feridas. Feridas que ainda sangram, guetos que se transformaram, com nossa passividade e conivência, em fortalezas inexpugnáveis dos cartéis da droga, labirintos construídos pelas invasões de terra que ninguém quis enxergar, construções condenadas que deixarão para sempre suas cicatrizes no rosto de um Rio que desaparece no passado.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2018






segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

GARY CHURCHILL



O título do filme em inglês, Darkest Hour (A Hora Mais Negra), pretende passar a imagem da desesperadora situação da Grã-Bretanha em maio de 1940, quando tudo indicava que a Alemanha ganharia a Segunda Guerra Mundial. Praticamente só, depois que as tropas de Hitler haviam subjugado quase todo o continente europeu, claramente despreparada para um novo tipo de estratégia militar e com todo o seu exército confinado nas areias de Dunquerque, a velha Albion esperava o pior. A alternativa da rendição com um mínimo de honra, com termos que a permitisse salvar pelo menos boa parte de seu império ultramarino, apresentava-se com a única saída viável para a maioria dos políticos britânicos.

Na verdade, Churchill, o homem que virou a maré adversa naquele terrível momento, disse exatamente o contrário na época. Num de seus mais inspiradores discursos (e foram muitos), ele declarou que, se a Nação sobrevivesse, dali a mil anos os historiadores se refeririam àquele período da história do povo inglês como “their finest hour”.  A sua hora mais esplendorosa.

Assim era o homem. Na minha modesta visão, Churchill foi o mais crucial político do século XX. Se não tivesse ocupado o posto de Primeiro Ministro e não houvesse acordado a tenaz fibra de resistência que fez seus conterrâneos suportarem meses de bombardeios devastadores, muito provavelmente o nosso mundo de hoje seria completamente diferente. Nas várias projeções feitas por historiadores e sociólogos, se a Inglaterra se rendesse, uma grande Europa pangermânica se perpetuaria por décadas. Os Estados Unidos não teriam adquirido a preponderância que têm hoje e a União Soviética teria sido derrotada pelos alemães. Com grande possibilidade, o holocausto desapareceria nas sombras de uma feroz ocultação e muitas regiões do planeta com forte ascendência alemã se tornariam parte do grande Reich. Winston Churchill, e só ele, foi o vetor do nosso presente.

Mas, eu não vim aqui falar dele. Isto eu já fiz há tempos no meu post “Símbolo” (aqui vai o link para quem quiser relembrar http://obpereira.blogspot.com.br/2015/02/simbolo.html.) O que eu quero comentar é a atuação extraordinária de Gary Oldman que o reviveu em “O Destino de Uma Nação”.

Vários grandes atores já viveram o papel. Bo Hoskins, Brendan Gleeson, Michael Gambon, Brian Cox e Albert Finney, entre outros, já puseram o charuto na boca para viver o famoso inglês. Em Inglorious Basterds, até Rod Taylor faz uma ponta como o velho bulldog. Mas, Gary Oldman faz mais. Como em outras atuações históricas, tipo Ben Kingsley em Gandhi, Daniel Day-Lewis em Lincoln, Meryl Streep em The Iron Lady e Helen Mirren em The Queen, Oldman não interpreta Churchill. Ele é.

Reconhecido como um camaleão, o londrino Oldman transitou com sucesso por papéis de vilão, de Lee Oswald a Dracula, de policial bonzinho como o James Gordon numa trilogia do Batman e de figuras inesquecíveis como Ludwig van Beethoven em “Minha Amada Imortal”. Além de ator completo, ainda toca vários instrumentos e canta, como fez em Sid & Nancy, filme no qual interpreta o músico Sid Vicious.

Ainda vi pouco dos outros candidatos ao Oscar de Melhor Ator. Mas o que vi de Gary Oldman em Darkest Night encheu-me os olhos. Do físico rotundo ao s sibilino (Churchill tinha um defeito de dicção característico), ele traz de volta o homem que mudou os nossos destinos.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2018



segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

O BRASIL E O FUTURO


A Rede Globo lançou, neste início de ano, uma campanha para que seus espectadores gravem uma rápida mensagem com sua opinião sobre o futuro do país. O tema chama-se “Que Brasil Eu Quero para o Futuro” e, em 15 segundos, a pessoa, com imagens representativas de sua cidade ao fundo, deve dizer o que pensa sobre o nosso porvir. A ideia é coletar pelo menos uma gravação de cada um dos 5.570 municípios brasileiros e oferecer um painel do sentimento nacional neste ano de eleições presidenciais.

É claro que a turma do “Eu odeio a Globo” já acionou suas patrulhas e vem fazendo pouco da iniciativa. Mas, eu gosto da proposta. E fico me imaginando cogitar sobre o futuro desta nação de dias tão conturbados. Mas, como dizer tudo em míseros 15 segundos?...

Aí lembrei-me deste espaço livre do meu blog e, mesmo declinando da oportunidade de aparecer na telinha mostrando o Jardim Botânico de background, resolvi aproveitar da relativa liberdade de tempo que a palavra escrita me concede e pensar alto sobre o assunto.

A primeira pergunta é: QUAL futuro? Anos? Décadas? E aí vem um probleminha. Como já estou avançado nos setenta anos, qualquer futuro muito alargado já não me apanha. Um futuro brasileiro para meus filhos e netos? Sorry, mas todos eles vivem em outras plagas e devem estar preocupados com o amanhã das terras em que moram. Assim, vou acabar falando em teoria, sobre uma cápsula de tempo na qual, nem eu, nem minha descendência, viveremos.

Outra questão é a natureza da pergunta. Se todos os participantes da pesquisa se concentrarem no “que Brasil eu QUERO”, a maioria das respostas pode descambar para uma ladainha de wishful thinking, de sonhos e desejos que poderão afundar no lugar comum dos adjetivos justo, feliz, igualitário, o melhor lugar do mundo, etc., etc., e tudo o mais que se imagina como atributos de um paraíso terrestre.

COMO CHEGAR LÁ? Esta devia ser a pergunta. Como sair do atoleiro institucional, dos oceanos de pobreza, da falência da educação, do descalabro da saúde pública em que hoje nos encontramos? Qual o caminho para limpar os órgãos da administração estatal da lama venenosa da corrupção, como acabar com o viciado sistema político que (des)governa o país?

Qual a receita para exterminar o jeitinho manhoso, o desinteresse pela coisa pública, a cervejinha do guarda, a crença de que a lei só se aplica aos outros, a furadinha de fila nos cinemas e nas esperas de um transplante, a ultrapassagem pelo acostamento, a satisfação íntima de ter ganho uma vantagem indevida.

É isto que eu quero ver respondido.

Oswaldo Pereira

Fevereiro 2018

domingo, 14 de janeiro de 2018

A REVOLUÇÃO RUSSA - FINAL



Rússia. 23 fevereiro de 1917, pelo calendário juliano. Pelo calendário gregoriano, em uso no resto do mundo ocidental, é o dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher. No dia anterior, a Putilov, o maior complexo industrial de Petrograd, entrara em greve.

Logo cedo, as mulheres começam a aparecer nas portas das outras fábricas arrebanhando seus maridos. A paralisação do trabalho vai aumentando. Antes do meio-dia, mais de 50.000 operários marcham pela cidade. Seus gritos e seus anseios estão amadurecidos por anos de condições miseráveis de vida, da indiferença de quem detém o poder, da falta de futuro.

Longe dali, no comando do exército imperial, o Czar Nicolau II recebe as notícias da agitação na capital. Numa típica reação, manda uma mensagem para que a guarnição de Petrograd sufoque a manifestação. Confrontados com a possibilidade de ter de atacar uma multidão de trabalhadores, na qual há milhares de mulheres, os soldados se recusam e se amotinam. Nos dias seguintes, todos os setores da sociedade russa voltam-se contra o Czar. Nicolau tenta ainda voltar a Petrograd, mas seu trem é detido em Pskov, a quase 200 quilômetros de seu destino. Lá, forçado pelo chefe do Estado Maior das Forças Armadas e por dois deputados da Duma, ele abdica. No dia seguinte, tratado pelos guardas apenas como Nicolau Romanov, ele e sua família são levados prisioneiros para Tsarskoye Selo. A Duma, o parlamento criado em 1903, assume o poder e transforma-se no Governo Provisório.

Passada a euforia inicial, a situação vai delineando seus verdadeiros contornos. Na realidade, existem dois governos. A Duma, liderada por uma maioria composta de membros da nobreza e representantes capitalistas, e os Soviets. Lenin está de volta à Rússia e comanda, com seus bolsheviques, a imensa teia destes pequenos conselhos, espalhados por todo o país. Com o apoio incondicional da classe trabalhadora e dos camponeses, e com a crescente simpatia da classe média, essa formidável máquina política exerce sua oposição ao Governo Provisório fomentando greves, motins e protestos. É uma época de caos total.

A queda de braço continua por várias semanas. Mas aí, o Governo comete um erro fatal. Debaixo da liderança dos conservadores, resolve continuar a guerra contra a Alemanha. O desejo de um armistício que pusesse fim ao cruel tormento que os anos de combate haviam trazido para o povo russo era quase uma unanimidade num país sofrido e praticamente derrotado. A insensibilidade dos deputados é a chave de que Lenin precisa para galvanizar a população e colocar sua máquina em movimento.  Por essa altura, os seus soviets já contam em seus quadros com inúmeros integrantes de um exército demolido pelas derrotas cada vez mais frequentes. Logo, os conselhos viram milícias. E as milícias transformam-se na Guarda Vermelha.

Nas primeiras horas do dia 25 de outubro (7 de novembro no calendário gregoriano), a Guarda toma o controle das estações de telégrafo, das ferrovias e de vários pontos chave de Petrograd. As unidades militares da capital ou aderem imediatamente ao movimento ou recolhem-se em seus quartéis, sem oferecer resistência. O Chefe do Governo Provisório, Alexander Kerensky, ainda tenta obter o suporte de tropas estacionadas fora do perímetro urbano, escapando do cerco ao Palácio de Inverno ao volante de um Renault emprestado pela embaixada americana.

Em vão. Nada mais consegue impedir a maré vermelha. No começo da noite, os revolucionários entram no Palácio e Lenin, pelo telégrafo, envia a toda a nação um manifesto “Aos Cidadãos da Rússia”. O poder é dele.

Mas, os anos que se seguem não trazem tranquilidade. A radicalização dos meios empregados pelos bolsheviques ainda desagrada várias fatias da sociedade e contraria muitos interesses. O confronto é inevitável e, entre 1918 e 1922, a Rússia amarga uma brutal guerra civil entre os Vermelhos de Lenin e os Brancos, um amálgama heterogêneo de cossacos, oficiais do antigo exército imperial e um espectro de posições políticas que vai desde a extrema direita até socialistas mais moderados. Chega até a haver uma discreta ajuda militar por parte de países como a França, os Estados Unidos e o Japão, mas os Vermelhos acabam por vencer. É finalmente fundado o Partido Comunista e nasce a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Será um experimento sócio-político-econômico que durará 70 anos e será exportado para o mundo, criando uma zona de influência e doutrinação em todos os continentes. Na terra onde se originou, passará por gigantescos pogroms, pelo flagelo da invasão nazista, pela Guerra Fria. Três gerações depois de Lenin, o experimento dará sinais de exaustão. O comunismo puro não se sustentará como solução definitiva para o bem-estar do povo e derivará para as várias versões de socialismo hoje adotadas mundo afora. A pergunta que fica é a seguinte. Será que valeu a pena?

Oswaldo Pereira
Janeiro 2018



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DESTINOS CERTOS: O FIM DO MUNDO


A 12 quilômetros a oeste da cidade de Ushuaia, o Parque Nacional Tierra del Fuego é um dos lugares mais visitados da região. Dentro de seus 630 km², situa-se uma lindíssima baía, cujo nome, Lapataia, significa “baía do bosque”, no idioma dos índios yáganes. Na realidade, a baía é um fiorde da margem setentrional do Canal Beagle e marca o limite ocidental da fronteira entre a Argentina e o Chile. No caminho que leva às suas águas, num painel em madeira, está escrito o seguinte: “Aqui finaliza la Ruta no. 3 – Alaska 17.848 km.”  Para os caminhantes de todo o mundo, é um lugar de reverência. La Ruta no. 3 é o trecho final da Estrada Panamericana, cujo início fica no extremo norte do Continente. E é aqui que ela termina. No fim do mundo.

Vir para estes confins da Patagônia é uma viagem que atrai cada vez mais os turistas. De barco, como fizemos, ela começou em Santiago, uma capital abençoada pelos vinhos e pela brisa constante do Pacífico. Daí, é sempre para o sul, com as latitudes aumentando e os dias, neste verão meridional, também.

Dizem que descrever a Patagônia é tarefa para uma vida. Eu discordo. A verdade mesmo é que é impossível. O que a gente pode fazer é tirar centenas de fotos, selfies para convencer-nos depois que realmente estivemos lá, e tentar guardar na memória os poentes infinitos, as manhãs primordiais, os horizontes sem fim, as montanhas serenas e as noites estreladas. Em qualquer ordem...
Mas, para não deixar a minha dezena de leitores com uma ponta de frustração, aqui vão algumas breves anotações.

Puerto Montt
SALTOS DO PETROHUE

É a região dos lagos, com uma forte pincelada de arquitetura germânica. Se você estiver distraído, vai pensar que acordou na Baviera. Só que há vulcões por perto. O Osorno pode estar coberto de neve, mesmo no verão, mas não se engane. Sua classificação é ainda de vulcão ativo. E não deixe de ir aos saltos do rio Petrohue, onde o azul das águas e o branco das espumas oferecem um espetáculo deslumbrante de cascatas e corredeiras. Se ainda houver tempo, alugue um barco e dê uma volta pelo Lago Todos los Santos. Seu apelido é Lago Esmeralda. É só olhar para a sua superfície e perceber o porquê.

Punta Arenas
Aqui você chegou a uma página da história. Para aportar em Punta Arenas, é preciso entrar no Estreito de Magalhães. E, enquanto o barco singra placidamente entre as montanhas, sentir a saga do navegador português, indo rumo ao desconhecido e à glória em sua nau quinhentista. Mas, nem só de história vive o homem. É a hora e o lugar para saborear um must culinário destas plagas. Uma centolla, ou, traduzindo, a imensa santola que é um ícone da gastronomia patagônica...
ESTREITO DE MAGALHÃES

Ushuaia
A Terra do Fogo é uma imensa ilha, dividida entre Chile e Argentina. O Canal Beagle, de que falamos acima, banha a parte norte da ilha. Deve seu nome a um navio, famoso por ter transportado até aqui Charles Darwin e sua prodigiosa curiosidade. É uma região lindíssima. E esta, caros amigos, não dá mesmo para descrever. Sorry... Mas, contentem-se com esta foto que tirei, ao mesmo tempo em que saboreava a deliciosa cerveja feita aqui. E que também se chama Beagle...


Cabo Horn
Desde o século XVI até o advento dos grandes oceanliners modernos, a simples menção a este nome era o suficiente para gelar o sangue dos mais intrépidos marinheiros. O mau humor constante do tempo, as traiçoeiras correntes, os ventos assassinos e as rochas submersas fizeram do Horn um cemitério de navios. Cruzá-lo e sobreviver era tão raro que ao pirata que conseguisse passar incólume era concedida a honra de poder usar uma argola de ouro na orelha esquerda. No dia que atravessamos, o mar estava misericordiosamente manso. Mesmo assim, eu quero a minha argola...
CABO HORN












Falklands
Ou Malvinas. A disputa tem origem no século XVI e, até hoje, persiste. Da guerra de 1982 entre a Grã-Bretanha e a Argentina restam memoriais e minas ainda espalhadas em algumas praias. O perigo está mapeado e não atrapalha em nada um lindo dia de verão em Gypsy Cove, onde pinguins desfilam nas areias brancas com a solenidade de lordes ingleses em passeio dominical. Port Stanley, a capital, continua britânica até a medula, com direito a pub e fish & chips...

Puerto Madryn
A cidade é a porta de entrada para a fascinante Península Valdés, paraíso dos guanacos, das ovelhas, de mais pinguins e de leões e elefantes marinhos. Para vê-los, é preciso rodar horas entre estâncias espalhadas num horizonte totalmente plano e de vegetação baixa. É claro que vale a pena. Enseadas recortadas entre o mar cor de anil e rochas fossilizadas abrigam várias populações destes simpáticos animais do mar, cuja aparente ocupação principal é espreguiçar-se ao sol e posar para as nossas fotos.

PINGUINS NA PENÍNSULA VALDÉS



















Dias de 18 horas de luz, pôr do sol no mar, neve nos cumes, vales profundos, planuras até onde a vista alcança, paisagens que parecem recém-nascidas. A Natureza mostrando sua força e sua poesia. Isto é a Patagônia. Um destino certo no fim do mundo.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2018


  





sábado, 16 de dezembro de 2017

FELIZ NATAL 2017



     FELIZ NATAL PARA TODOS!


E, para manter a tradição, aí vai o Conto de Natal deste Ano


Deu no New York Times.

Daqui a 100 anos, a inteligência artificial terá dominado a maioria das atividades humanas. Os carros se conduzirão sozinhos. Os aviões também. Cem por cento das tarefas industriais serão realizadas por robôs. Assim como as decisões empresariais. Diagnósticos médicos serão feitos por máquinas, processos jurídicos preparados por computadores e julgados por magistrados virtuais. Impressoras em 3D eliminarão a maioria das entregas de mercadorias, a educação será ministrada por androides didáticos, idiomas serão traduzidos instantaneamente por fones de ouvido, o Facebook da época saberá tudo sobre nós. Com a programação genética desenvolvida em hospitais totalmente automatizados, seremos jovens até a morte.
E, provavelmente, o nosso melhor amigo será um computador.

Noel olhou para o relógio. Fazia quinze minutos que esse fog estranho o tinha apanhado entre a costa da Irlanda e o Canal da Mancha. No Weather Channel que consultara ontem, nada havia que indicasse isto. A Noite de Natal seria de céu limpo, em todo o mundo.
E agora, os ponteiros de seu Rolex giravam como loucos.
As renas já estavam ficando nervosas, principalmente Rudolf e seu nariz vermelho.
Noel resolveu abrandar e diminuir seu nível de voo, mesmo correndo o risco de cruzar com algum avião também perdido naquela bruma. Tinha ainda muito para fazer, milhares de presentes a entregar e, pelos seus cálculos, deveria estar apenas no início do trajeto, algures sobre as Ilhas Britânicas. Mas, agora, com o relógio enlouquecido e sem nada ver, sentia-se totalmente perdido.

Aos poucos, umas pequenas luzes começaram a aparecer lá embaixo. Foi descendo, lentamente, puxando as rédeas para que as renas fizessem uma aterrissagem tranquila. Quando conseguiu ver melhor, verificou que era um condomínio de casas absolutamente iguais. Ninguém nas ruas.

Pousou com cuidado perto de uma das casas, sobre um relvado imaculadamente bem tratado. Notou logo que as casas não tinham chaminés. E nem janelas. E agora? Iria ter de bater à porta.

Neste instante, a porta abriu-se e um homem aparentando 40 anos saiu e veio caminhando sorridente na sua direção. Estava bem vestido, cabelos cuidadosamente penteados, os óculos discretos numa armação transparente, um olhar franco e amistoso.

«Sim?», foi logo perguntando.
Noel estendeu a mão.
«Boa noite. Deve saber quem eu sou, não?»
O homem olhou-o de alto a baixo, hesitando.
«Desculpe, mas deveria saber?...»
Noel estranhou.
«Bem... O mundo inteiro me conhece. Papai Noel...»
O outro continuou a olhá-lo, sem reação.
Noel encheu os pulmões.
«Ho-ho-ho... Então?»
O homem ficou parado por uns segundos. Parecia que lia alguma coisa nas lentes de seus óculos.
«Ah! sim... Papai Noel... Uma lenda do passado...»
Voltou a encarar Noel.
«Mas aqui diz que você nunca existiu, que era uma figura mitológica criada pelo fabricante de uma bebida intragável chamada Coca-Cola...»
Noel interrompe.
«Quem diz?»
O outro responde.
«Ora, o Facepedia que tenho na tela dos meus óculos. Os seus não têm isso?»
Noel segura as hastes de seus velhos óculos. Depois retruca.
«Pois este seu Facequalquercoisa está mal informado. Tanto é que aqui estou...»
O homem percebe o mal-estar de Noel. Então diz, com simpatia.
«Mil perdões. Mas, onde estou eu com a minha cabeça que não o convido para entrar. Por favor, venha...»

Quando entram na casa, Noel tem um choque. Ela está totalmente vazia. Não há móveis. Nem tapetes, quadros, cortinas. Não há janelas. Nada. Só paredes nuas, numa cor média. O dono da casa faz um gesto quase imperceptível. Imediatamente, mesas, sofás, cadeiras, carpetes e quadros começam a aparecer, como que por mágica. Ele vira-se para Noel.
«Novamente, desculpe-me. Não esperávamos ninguém esta noite...»
Noel está visivelmente desconfortável com a confusão mental que começa a movimentar-se dentro de sua cabeça. Que diabos... Tentando disfarçar, ele pergunta.
«Esperávamos?...»
O outro dá um ligeiro sorriso.
«Ah! sim, claro...»
Faz outro pequeno gesto. E surgem uma mulher e um menino, ambos também impecavelmente vestidos e arrumados. Ele apresenta, com visível orgulho.
«Minha família...»
A cabeça de Noel era agora um vendaval. Com dificuldade, conseguiu falar.
«Queiram ou não queiram, eu me chamo Noel. Papai Noel. E esta é a Noite de Natal do ano do Senhor de 2017. Não é?»
O homem e a mulher se entreolham. Ele aproxima-se de Noel e pousa-lhe a mão no ombro, conduzindo-o a um sofá.
«Sente-se, meu bom velho»

Na meia-hora seguinte, Noel descobre. Algum distúrbio celestial o havia afastado de sua rota. Não muito no espaço, mas muito no tempo. Ele estava na costa inglesa, sim, mas o ano era 2117. Cem anos à frente. O mundo mudara, demais. A Inteligência Artificial dominara a planeta. O casal que o recebera explicara. Tudo era agora virtual. Cidades, países, bens, desejos, sonhos. Ninguém precisava mais de presentes, nem de Natal. E vocês?, perguntara Noel. «Nós?», o homem respondera dando um risinho. «Nós somos uma classe de programas avançados que imita a vida humana. Um software. Fomos desenvolvidos há mais de 50 anos pela IBMSoft, quando o cyberspace atingiu a supremacia na Terra.»

Noel está cabisbaixo. Uma grande tristeza vai apoderando-se dele. O homem percebe.
«Não se amofine. Volte para seu tempo. Eu posso recolocá-lo em sua trajetória original de 100 anos atrás. Vá em paz»

Noel sai da casa. Um futuro sem alma. Será esta a nossa sina?, pensa, enquanto se dirige para o seu trenó. Então, uma cena o surpreende. O menino está brincando com as renas. Beija-as, acaricia-as, diverte-se com o nariz vermelho de Rudolf. Quando Noel prepara-se para subir, o garoto o puxa pela manga do casaco. Seus olhos de criança brilham como estrelas. Sua voz é doce.
«O senhor vai voltar no ano que vem, não vai, Papai Noel?»
Noel sente as lágrimas molharem seus olhos numa maré mansa.
Nem tudo está perdido, pensou.

Oswaldo Pereira
Natal de 2017

Se quiserem ler os Contos de Natal dos anos anteriores, aqui vão os links.

https://obpereira.blogspot.com.br/2016/12/e-natal.html