quinta-feira, 2 de maio de 2019

TORCIDA CONTRA



O brasileiro continua me surpreendendo. Dois recentes episódios de nossa cena pública deixaram-me aturdido e extremamente confuso na hora de explicar o país àqueles que não são de cá.

No primeiro, o Presidente Bolsonaro pediu à Petrobrás que adiasse o reajuste de 5,7% do óleo diesel, com receio de que o aumento provocasse nova insatisfação nos caminhoneiros. É bom lembrar que, no ano passado, uma greve prolongada do setor causou imensos problemas ao país, como desabastecimentos e perdas na produção e na exportação, inclusive sendo responsável pela redução do PIB. Imediatamente, imprensa e oposição levantaram-se contra Bolsonaro, acusando-o de “intervencionismo” e, como numa reação esperada do mercado, as ações da empresa caíssem, de ter causado um “prejuízo” de R$32 bilhões à Petrobrás. Até Miriam Leitão, uma reputada colunista de Economia, abriu suas baterias. O que muito me espanta, porque é inadmissível que uma jornalista desse calibre confunda movimentações do mercado de ações com perda efetiva. Dias depois, as ações haviam retornado aos patamares normais. O interessante é que nunca vi Miriam Leitão vociferar contra o saque perpetrado pelo PT, que desviou (isto sim, um real prejuízo) bilhões de dólares dos cofres da empresa.

No segundo, Bolsonaro, num encontro com representantes do agronegócio, sugeriu (até em tom de brincadeira, como ele próprio definiu no momento) que o Banco do Brasil diminuísse os juros dos empréstimos bancários aos agricultores. Nova reação enfezada da imprensa e da oposição.

Mas, a redução dos preços do combustível e no valor dos juros não foi sempre uma reivindicação do povo? Por que, diabos, estão contra?

Em outra polêmica, vários setores insurgiram-se contra a declaração de Bolsonaro, em que ele determinou a flexibilização da posse de armas para os proprietários agrícolas, num país em que o MST (Movimento dos Sem Terra) tem protagonizado invasões de terras produtivas e ocupadas por seus donos. Esqueceram-se de ler o Código Civil. Lá está consagrada a autotutela territorial, isto é, a prerrogativa legal que todo proprietário tem de defender seu próprio imóvel contra esbulhos, ameaças e ataques, inclusive pela força (lá escrito, é só conferir).

É pena constatar que há milhões de brasileiros que torcem contra, que querem ver o circo pegar fogo, que professam o “quanto pior, melhor”.

Isto não pode dar certo. E fica difícil de explicar.

Oswaldo Pereira
Maio 2019

domingo, 28 de abril de 2019

DÚVIDAS EXISTENCIAIS




Depois de uma certa idade, a vida parece escorrer. Passados os tsunamis da adolescência, as marés vivas da juventude e as procelas e bonanças da maturidade, a última idade chega com seu marulhar constante, em que apenas percalços de saúde podem estremecer o regular fio d’água do dia-a-dia.

Assim é, e assim deve ser. Faz parte do roteiro que nos foi imposto por um deus severo, que escamoteou o grande desejo da criatura por ele mesmo criada. A perpetuidade. Definidos como finitos, vivemos nossos ciclos. Na melhor das hipóteses, conseguimos viver todos eles. Nascimento, crescimento, apogeu, declínio e morte.

Não sei como será nos outros planetas, mas posso adivinhar que esta lei vale para todos os seres existentes no universo. Tudo o que há, mais cedo ou mais tarde, deixará de haver. Por expansão ou por regressão, seremos apenas capítulos de uma gigantesca história, cujo propósito escapa ao nosso entendimento.

É claro que há, dentre nós, os que não se deixam inquietar com isto. Abençoados por uma fé religiosa, creem nas decifrações desse propósito e entendem que este universo, todo ele, nada mais é que a preparação para uma eternidade em outro plano, aí sim o destino final do ser inteligente. Daí pode inferir-se que só os seres capazes ter esperança, ou seja, somente os homo sapiens, ou que nome tenham pelas galáxias afora, poderão lá chegar.

O problema é quando você é dotado de discernimento bastante para esperar, e não crê nas explicações da fé. Assim, a certeza da finitude parece uma grande injustiça. Por que me deram as asas do sonho, se me proíbem de voar? Por que me foi dada a visão da eternidade, se jamais lá chegarei?

E aí, as coisas complicam ainda mais. Injustiça é um ato. E um ato exige um agente. Quem? Todas as religiões têm o mesmo nome para ele. Então, ou você admite Deus, ou terá de se conformar com a suprema aleatoriedade de tudo.

Dá para dormir com um barulho destes?

Oswaldo Pereira
Abril 2019



terça-feira, 23 de abril de 2019

INÚTIL POESIA




Dei um tempo. Queria escrever sobre coisas mais alegres, um nascer de sol em Copacabana, a brisa morna que às vezes sopra sem compromisso numa curva da Lagoa, um poente de mil cores atrás do Dois Irmãos. Coisas de você, meu Rio dos poetas.

Mas, o inferno astral que rondou antes e depois de seu aniversário em março afugentou o riso, sepultou em lama, fogo e escombros o cantar das florestas e pintou de fuligem e fumaça o doce horizonte de seu mar.

Tragédias. E as mais cruéis, as anunciadas. As filhas da ganância, do descaso, da imprevidência criminosa, da corrupção brutal. Como se colocam dez meninos sonhadores numa ratoeira com um ar condicionado sem disjuntor? Como se deixam construir cidades equilibradas no vácuo de precipícios e de corredeiras, que a lama varre como se fossem cartas de um baralho? Como se permite o nascimento, o crescimento e o apogeu de um poder paralelo que domina a vida e a morte de comunidades inteiras?

Querem saber mesmo como? É só olhar para nós. É só olhar para dentro da nossa consciência quando escolhemos os que nos (des)governam. É só observar quão rapidamente nossa memória dilui a imagem das tenebrosas consequências desse desgoverno. É só verificar como somos lenientes e apaziguadores, bons de reclamar, maus de reagir, que talvez nem tenhamos piscado quando fomos informados que nossos desonestos prefeitos nos roubam há 40 anos.

Ou acordamos de nossa mansa letargia, ou os prédios levantados por milícias assassinas continuarão a cair, jovens novamente serão sacrificados pela falta de um disjuntor, a lama das futuras tempestades descerá pelas tortuosas encostas onde não deveria haver moradores. Ninho do Urubu, Rocinha, Muzema. Nomes deste Verão.

Como falar de poentes?...

Oswaldo Pereira
Abril 2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ECOS DE MARÇO


De repente, março de 1964 volta a ser assunto. Contra a recomendação do Governo para que os quartéis voltassem a homenagear o dia 31, vozes se levantaram. Vi muita gente falando, e gente que nem nascido era então. Resolvi, assim, desencavar um texto que publiquei aqui em 2014, quando o 31 de março comemorava 50 anos. É o meu testemunho.

“Não sei quantos visitantes deste modesto blog têm idade suficiente ou, se a têm, moravam no Brasil, para lembrarem-se dos acontecimentos ocorridos no país em março de 1964. Afinal, já lá vai meio século.

Na época, eu estava na flor dos meus 23 anos, formara-me em Direito quatro meses antes e, em fevereiro, fora admitido na General Electric S.A. Era, assim, um cidadão em plena posse de sua capacidade de ver, escutar e procurar entender o que se passava. Desta forma, não me estou referindo aos acontecimentos por ter lido sobre eles ou ouvir dizer. Eu tenho a prerrogativa de falar na primeira pessoa do singular. Eu estava lá.

era um Brasil procurando seu rumo político, ainda em meio choque após a surpreendente renúncia de Jânio Quadros, tentando digerir o que se seguira, a tentativa de impedir a posse do Vice-Presidente João Goulart, o tour de force de um Parlamentarismo esdrúxulo e de vida breve, a volta do Presidencialismo, vai-e-vens que abriam vácuos na cena institucional. Economicamente, se de um lado o país começava a colher alguns frutos do processo de industrialização disparado por Juscelino Kubitschek, por outro se via a braços com uma insuportável pressão inflacionária gerada pelos custos estratosféricos da construção de Brasília, suportados pelo desmantelamento dos fundos previdenciários e pela emissão desenfreada de moeda. Exportávamos commodities e importávamos petróleo. Socialmente, todo o mecanismo de distribuição de renda ainda era pífio e a pirâmide de riqueza perversamente elitizada e corporativista. Para azedar ainda mais o caldo, o Governo do recém-criado Estado da Guanabara (correspondente à região metropolitana da ex-Capital, o Rio de Janeiro) era ocupado por um dos maiores e mais temidos tribunos políticos da época, o carismático, e aspirante a Presidente, Carlos Lacerda. Sua queda de braço com o Poder Central era o prato do dia.

também era um mundo extremamente polarizado pela Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética, que por sua vez mantinha uma relação de amor e ódio com a China de Mao, trocavam insultos para a plateia, flexionavam os músculos de seus arsenais, apostavam corrida para a Lua e inspiravam uma legião de escritores de spy novels. Mas, havia um balanço nervoso. Ninguém estava mesmo a fim de apertar o botão vermelho e destruir o planeta. O que cada lado almejava era manter os seus quintais. A América, o Continente Americano e a parceria com a Europa Ocidental; os Russos, a Europa de Leste e, com os chineses, todo o Extremo Oriente. África e Oriente Próximo eram free for all e área de conflitos tribais e religiosos. Só que, em 1959, alguém baralhara as cartas da maneira errada. Fidel Castro. A existência de uma Cuba vermelha debaixo da barriga dos yankees era motivo de êxtase para o mundo comunista. Para Tio Sam, uma verdadeira pain in the ass. Três anos depois, Kennedy e Khruschev haviam ficado cara a cara por causa da ilha caribenha. A coisa foi arreglada no último minuto com trocados (a volta dos cargueiros soviéticos, a demolição de uma base de mísseis inoperantes na Turquia), mas o recado estava dado – os Estados Unidos não iriam admitir outra brincadeira no seu quintal.

E, então, chega 1964. Afilhado político do socialismo de Getúlio Vargas, Goulart não lhe herdara nem a persona política nem a sagacidade de estadista. A rigor, Jango estava enredado num Congresso conservador e não conseguia despertar o fervor popular que seu padrinho manejara com maestria. A única saída para ganhar peso eleitoral era aproximar-se das lideranças comunistas das ligas camponesas, do sindicalismo e dos escalões mais baixos das Forças Armadas, todos inspirados pela retórica de Fidel e Che Guevara, cuja missão auto imposta era disseminar a revolução soviética por toda a América abaixo do Rio Grande (Rio Grande ao sul do Texas, bem entendido...). Goulart acabou sendo cooptado por elas e tornando-se refém da intensa pressão que exerciam para que ele acelerasse o processo de reforma que guindaria o país para a esquerda. Já se sentia algo no ar, pronunciamentos de parte a parte, de ministros do Governo, de parlamentares dos diversos partidos, dos altos escalões militares, num fogo cruzado inquietante, quando a Presidência da República anunciou a realização do Comício do dia 13 de março.

O que entrou para a História como o Comício da Central, por ter sido realizado em frente à estação ferroviária da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, reuniu quase 200 mil pessoas, com transmissão via rádio e TV. No palanque, ou próximo a ele, aglomerava-se a nata da militância de esquerda do trabalhismo, dos movimentos rurais, dos clubes de cabos e sargentos, das centrais sindicais, da inteligentzia social-comunista do país. Mas não foi isso que marcou o dia ou que detonou o que viria a seguir. Foi o discurso de Jango.

Numa oração de meia-hora, que logo de início atacava o status quo da organização político-social vigente, ele anunciou que havia promulgado uma série de atos do Executivo cujo objetivo imediato era implantar as bases de uma ampla reforma agrária, com a desapropriação de terras e sua distribuição para camponeses e pequenos agricultores. Ao mesmo tempo, havia encampado todas as refinarias particulares e preparava-se para promover uma reforma política que, além de dar o direito de voto ao analfabeto, proporcionaria a “renovação” do Congresso Nacional, privilegiando a inclusão de operários, camponeses e sargentos.  Quase a cada frase, a multidão irrompia em aplausos e gritos de ordem.

Os dias seguintes foram frenéticos. Reagindo ao soco no estômago e à iminência de uma verdadeira revolução promovida pelo próprio Governo, a oposição parlamentar, as grandes organizações patronais, a mídia conservadora e as Forças Armadas reagiram e começaram a preparar a deposição do Presidente. Precisavam apenas de dois avais. Um, o da Sociedade, que respondeu organizando mega manifestações de rua em repúdio às propostas de Jango, que ganharam o significativo título de “Marchas da Família com Deus e pela Liberdade”.  Foram várias, em várias cidades. Em São Paulo, mais de 500 mil; no Rio, quase um milhão. Outro, o dos irmãos do Norte. Para os Estados Unidos, um Brasil comunista seria uma catástrofe, outro revés inadmissível em seu quintal.

Dezoito dias após o Comício da Central, com o beneplácito dos Governos de Minas, São Paulo e Guanabara, o Exército avançou. Sem o disparo de um só tiro, dominaram Brasília e todos os centros nevrálgicos importantes. Oferecendo nenhuma resistência, João Goulart e seus seguidores mais próximos deixaram o país. Iria começar mais um capítulo de nossa saga pátria, que duraria 21 anos. Mas, isto já é outra história...”

Falar de fatos históricos com 50 ou mais anos de idade, sem entender e compreender o ambiente em que eles aconteceram, é falar fora de contexto. As opções que estavam na mesa à época eram diretamente antagônicas e auto excludentes. Sem ter medo de palavras, a escolha era entre um regime de exceção de direita e outro de esquerda. Dizer que os antagonistas do movimento de março lutavam pela democracia é uma falácia. Hoje, até os mais destacados líderes contrarrevolucionários reconhecem que seu objetivo político era a implantação de uma ditadura do proletariado.

Teria sido melhor? Depois de ver os resultados da governação comunista, desde seu surgimento há 100 anos, na União Soviética, na China Vermelha, na Albânia, no Cambodja, na Romênia, em Cuba e na Coreia do Norte, eu sinceramente duvido.

Oswaldo Pereira
Abril 2019




sexta-feira, 22 de março de 2019

DURA LEX




Dois ex-Presidentes do Brasil e cinco ex-Governadores do Estado do Rio de Janeiro presos por corrupção. O que isto quer dizer?

Grande parte da sociedade brasileira exalta o fato como uma vitória das autoridades policiais, uma conquista da independência dos poderes e uma prova insofismável de que, aqui em Pindorama, finalmente, a lei está acima de tudo e de todos. Um motivo para grandes comemorações.

É evidente que assistir à Justiça prender e julgar indivíduos cujos cargos políticos, até pouco tempo atrás, tornava-os inatingíveis pelas malhas do Judiciário, traz regozijo e entusiasmo. Mas, se bem pensarmos, isto devia ser o normal. Ser punido, receber penas, enfrentar aos tribunais, ser confrontado com os princípios legais, sofrer as sentenças de acordo com seus crimes devia ser o destino de todo aquele que cometesse crimes, principalmente os de corrupção, a mãe de todos os males.

O fato de agora termos atingido este patamar de eficiência e ausência de constrangimentos no Ministério Público, na Procuradoria Geral da União e nos diversos tribunais regionais, propiciando a criação deste marco histórico que é a Lava-Jato, pode e deve ser motivo de ufanismo. Mas, por que SÓ agora?

Na realidade, o que me preocupa é outra constatação. Todos os políticos presos foram eleitos por nós. Todos os políticos presos exerceram seus mandatos durante anos, usando-os para corromperem, escamotearem e roubarem o nosso rico dinheirinho. Sob as nossas vistas. Debaixo dos nossos olhos. Eleitos e, vergonha total, em certos casos até reeleitos. Segundo o que a Polícia informa, a quadrilha de Temer desenvolvia seu negócio há 40 anos. Quarenta! A gangue de Sérgio Cabral + Pezão surrupiou nossos suados tributos por menos tempo, mas com maior voracidade.  Rosinhas, Garotinhos e Francos não fizeram por menos, mas subiram ao seu trono com o aplauso dos nossos votos.

Fomos cegos, desatentos, inconsequentes, benevolentes. E por isso, coniventes. E por isso, cúmplices.

Feliz porque o castigo chegou a quem o merecia? Sim. Mas somente se isto nos servir de lição. Se não, a nossa sina não mudará.

Oswaldo Pereira
Março 2019


domingo, 17 de março de 2019

SEMENTES





Em março de 2013, escrevi este texto, possivelmente na esteira de algum ato semelhante ao que ocorreu em Suzano.

“Na minha infância, num mundo pré-televisão - tentem imaginá-lo!- a vida seguia entre escola, “horas” de alguma obrigação enfadonha (hora do banho, hora do almoço, hora da janta), brinquedos inventados, pois os verdadeiros eram escassos e caros, e o momento da aquietação, em que a criançada era recolhida na sala para amansar as energias que ainda queriam sobrar inesgotáveis e se preparar para outra “hora” chata – a de ir para a cama.

E era exatamente aí que certas lições de vida nos chegavam pelas histórias infantis, rótulo que podia abarcar desde sagas medievais até peraltices de alguma criatura mítica, passando por toda uma antologia popular, adaptadas e dramatizadas por quem, sempre com o firme intuito de nos fazer prender a respiração e permanecer imóveis pela primeira vez no dia,  as contava para nós ao seu jeito e com sua inspiração.

Quem isto fazia, a mais das vezes no interior de Minas onde eu morava, eram as empregadas da casa, elas próprias sabedoras de algumas estórias apanhadas no tempo, passadas de muitas gerações e nunca escritas, rolando de boca em boca ao sabor de crendices e imaginações. Era uma enorme colcha de retalhos folclóricos que costurava Irmãos Grimm com mulas-sem-cabeça, Hans Christian Andersen com Os Doze Pares de França, e por aí vai.

Quando aprendi a ler, abriu-se para mim o império das histórias em quadrinhos e seus heróis formidáveis e justiceiros. Vinha tudo dos Estados Unidos onde, para mim, o dia-a-dia devia ser um contínuo desfilar de tremendas batalhas entre os diversos Marvels, Batmans e Superhomens da vez e seus ardilosos desafiantes. Um pouco mais, o parco dinheirinho das mesadas já me permitia ir às matinés (arcaico para sessões de cinema à tarde, destinadas à garotada imberbe), torcer para os mais rápidos gatilhos do Velho Oeste e confirmar que a América já era a mesma terra impossível desde o tempo dos cowboys.

Mais um pouco, e então a adolescência nos apanhou e outras questões vitais nos afastaram definitivamente do reino dos contos infantis.

Bem, escrevi toda esta chorumela nostálgica acima porque, pelo bem-aventurado fato de ter netos, há tempos venho observando o que agora representa, para eles, a experiência cultural que recebi em faixa etária semelhante. Como muito da argamassa de meus princípios foi certamente influenciada pelo que vi e ouvi ainda criança, devo deduzir que o mesmo pode acontecer com eles e que, portanto, o que veem e ouvem hoje poderá definir uma parcela importante de seu caráter.

E fiquei impressionado. Mal impressionado.

Os atuais substitutos das empregadas faladeiras, das bandas desenhadas e das matinés, são os tablets, i-pads, i-pods e outras maravilhas eletrônicas que qualquer pai põe ao alcance de seus filhos para fazer exatamente o que as histórias contadas nas salas de antanho procuravam fazer – aquietá-los.
Tudo bem.
O problema é o conteúdo.
O riquíssimo menu de jogos posto à disposição dos usuários deixa pouco espaço para a imaginação. Começa pelo grafismo hiper-real da ação e continua pela oferta de recursos de computação que permitem encarnar o agente do jogo com avançado grau de realismo.
De novo, nada contra a técnica desses role-playing games, se bem que sua aplicação traz a realidade para muito perto e, talvez na cabeça de alguma criança, confunda as linhas divisórias entre fábula e fato.
A questão é a mensagem de violência que estes jogos trazem embutida em seus enredos, seus objetivos e seu propósito.

Já sei que vou escutar duas afirmativas. “Você está velho!...” Absoluta verdade. E “no seu tempo, a maioria das historinhas, os super-heróis e os filmes de faroeste também só mostravam violência...”
Bem, em termos.
João e Maria foram aprisionados pela avó, a madrasta mandou matar Branca de Neve e depois tentou envenená-la, havia gigantes maus e dragões furiosos. Mas, seu irrealismo e seu cenário distante colocava os personagens e seu drama num plano distinto do nosso quotidiano.
Os grandes campeões dos quadrinhos defendiam a sociedade do Mal, sob qualquer forma e, em vez de matar seus adversários, acabavam entregando-os à justiça, onde invariavelmente eram julgados com rigor (ó inveja!...)
E os nossos mocinhos do Oeste só puxavam pelo colt depois de terem apanhado como bois ladrões e em situação de insofismável legítima defesa. Mesmo assim, o tiro fatal era rápido e antisséptico. Sangue, nem pensar.

Espero que seja só um achaque nostálgico. Entretanto, me aflige observar um aumento gradativo de agressividade entre os jovens. Os fatores devem ser vários, mas algo me sussurra que jogos nos quais a ação violenta é um objetivo em si têm um pouco de culpa no cartório. 

Com a palavra, o futuro.”

Como estamos em 2019, já entramos seis anos nesse futuro. Talvez, já que muitos doutores em comportamento humano vieram a público reafirmar suas ideias de que os gráficos jogos nada têm a ver com a violência irracional que tem explodido com frequência cruel entre os jovens, eu possa estar errado.

É também claro para mim que a falta de uma família estruturada por trás de uma personalidade em formação é fator mais que determinante. Tenho netos na adolescência que passam mais tempo do que seria recomendável imersos no mundo digital dos games. Nem por isso estão dispostos a cometer qualquer desatino. Seus lares cheios de amor, atenção e carinho os defendem e os educam para não cogitar cometê-los.

O que eu quis, e quero, dizer, é que a semente da violência incubada no grafismo dos jogos, se caída no solo daninho de uma mente jovem desprovida do amor e dos cuidados permanentes de pais atentos, poderá germinar e parir um monstro.

Oswaldo Pereira
Março 2019

terça-feira, 5 de março de 2019

NEM COM UMA FLOR...




O número arrepia. Dá náuseas. E difícil é até acreditar nele. Mas, segundo as estatísticas, 500 mulheres sofrem algum tipo de abuso no Brasil. POR HORA!! Peguem suas calculadoras. São mais de 4 milhões por ano.

Alguns dizem que isto vem de longe, que antigamente acontecia a mesma coisa, mas sem a visibilidade que hoje as redes e os movimentos sociais permitem. Não interessa. Se assim é, isto demonstra que não aprendemos nada, que o lado negro da psiquê masculina continua andando à solta, mesmo com o esforço de conscientização dos direitos femininos que governos e sociedades procuram disseminar. O fato monstruoso é que boa parte dos homens ainda não apreendeu os princípios mínimos de civilidade e de comportamento. Continua nas cavernas.

Bater numa mulher é um ato de extrema covardia. Nem com uma flor..., diziam minhas avós. O “homem”, e vou usar aspas para descrever este animal, que agride uma mulher deve ter, nas voltas de seus neurônios defeituosos, um desvio patológico que o faz esquecer ou apagar, em seu raciocínio primitivo, a figura de sua mãe, pois uma certamente ele teve. Seu campo de visão se restringe apenas aos limites de sua crueldade, de sua mesquinhez e de sua baixeza.

Com mais desalento, ainda, verifica-se que o problema não é apanágio da nossa terra. Existe no mundo inteiro. E, apesar de todas as campanhas, de todas as denúncias, de todos os lamentos e de todas as lágrimas, parece longe de acabar.

Assim, resta a nós, homens a quem a figura feminina encerra a doçura do amor materno, sua entrega definitiva e sem contrapartidas, seu desvelo e sua vigília, a tarefa de suportá-las em sua luta contra a barbárie que as assola.

E, não aproveitar apenas o seu Dia para jogar aos seus pés as flores da nossa admiração, do nosso carinho e do nosso respeito. Para demonstrar nossa imensa repulsa pela horda abjeta dos covardes agressores que as ferem. Para protege-las, ampará-las, e permiti-las viver, em plenitude, sua intrincada magia, seu delicioso mistério, suas tempestades e bonanças, seus desejos e suas dádivas, que tanto nos fascinam.

Elas merecem a vida que decidirem viver, o caminho que lhes aprouver caminhar, a escolha que mais lhes agrade. Que todas as leis do mundo assim lhes permitam.

Oswaldo Pereira
Março 2019