terça-feira, 3 de dezembro de 2019

BEN-HUR - 60 ANOS


Em 1973, uma das grandes atrações do Carnaval carioca eram os concursos de fantasia. Um território mágico, em que reinavam grandes figurinistas, como os inesquecíveis Clóvis Bornay, Mauro Rosas e Evandro Castro Lima, e alimentava, pelo menos uma vez por ano, uma coorte de costureiras, maquiadores e encenadores. Além de uma ampla cobertura da imprensa, que promovia o evento como um dos imprescindíveis pontos de comparecimento das celebridades que aportavam no Rio durante os festejos.

No ano citado, o concurso já havia se deslocado do Theatro Municipal para o Hotel Glória. E, como amigos do seu Gerente Geral fomos, eu e minha mulher, uns dos felizes convidados para sentarmos na primeira fila da plateia.

Enquanto no palco desfilavam os suntuosos figurinos e o naipe de famosos vindos para o Carnaval (nesse ano, Rock Hudson capitaneava uma trupe de atrizes e atores hollywoodianos), nós passamos o tempo todo conversando com um casal de velhinhos americanos sentados ao nosso lado.

Por que eu estou contando isto? Porque há exatos 60 anos, estreava nos cinemas dos Estados Unidos um dos maiores blockbusters da história, Ben-Hur, dirigido por William Wyler, nada mais nada menos do que simpático velhinho que acabávamos de conhecer.

O filme já nasceu destinado a ser superlativo em tudo. O enredo, baseado no romance de Lee Wallace escrito ainda no século XIX, tivera uma primeira versão para a telona em 1925, com sucesso moderado. Desta vez, Sam Zimbalist, o poderoso chefão da MGM, estava decidido a romper barreiras e colecionar recordes.

Foi um longo caminho e vários percalços, com problemas financeiros, equívocos de localização, troca de diretores e de roteiristas e aqueles criados pela própria dimensão do projeto, inédito para os padrões da época. De 1951 a 1958, foram marchas e contramarchas, idas e vindas, até que o desenho final da produção ficasse definitivamente definido, com Wyler assumindo a batuta.

Nesse meio tempo, vários galãs haviam sido cogitados, entre eles Stewart Granger, Robert Taylor e (imaginem) Marlon Brando, para o papel título, até que a escolha recaísse em Charlton Heston, ungido que estava pelo seu bíblico Moisés em Os Dez Mandamentos.

Foram então 15 meses de intensa filmagem, que demandaram 100 fabricantes de roupas, 200 camelos, 1.500 cavalos e 10 mil figurantes para reproduzir Judeia e Roma dos anos 30 da era cristã, com as espetaculares cenas de uma batalha naval (feita com miniaturas num descomunal tanque de água) e a fantástica corrida das bigas.  Só a pós-produção levou seis meses nas ilhas de edição, até que a versão definitiva com 222 minutos ficasse pronta em novembro de 1959.

Como Zimbalist imaginara, Ben-Hur obteve recordes de premiação nunca antes alcançados em Hollywood. Só da Academia foram 11 oscars, marca que seria empatada apenas por Titanic, quase 50 anos depois. Apesar de ter sido o filme mais caro até então (16 milhões em dólares de 1959), Ben-Hur pagou-se mais de dez vezes. Até hoje, é a segunda maior bilheteria da História (atrás de E O Vento Levou).

Um esforço desta dimensão não podia deixar de ter suas lendas paralelas. Uma delas, é o fato de que a vinheta de abertura de Ben-Hur é a única em que o famoso Leão da Metro não ruge. Wyler e Zimbalist concordaram que o rugido de Leo poderia evocar o sacrifício dos cristãos nas arenas de Roma, inadequado num filme sobre os primórdios do cristianismo.

Outra é sobre o relacionamento entre Ben-Hur (Heston) e o tribuno Messala (o ator inglês Stephen Boyd). De acordo com o enredo, os dois haviam sido amigos íntimos na adolescência e nutriam uma sólida admiração mútua. O filme inicia com o retorno de Messala à Judeia como Governador, depois de anos em Roma, e o feliz reencontro entre os dois amigos. Vistas hoje, estas cenas têm levantado cogitações sobre uma possível vertente homossexual desse relacionamento.

E há fundamentos para isto. No livro, a opção fica em aberto, até porque relacionamentos gays eram considerados aceitáveis na Roma antiga. Zimbalist e Wyler sabiam disso, mas, em 1959, seria impensável retratá-lo explicitamente. Resolveram, então, instruir os dois atores para deixarem isto no ar, com atitudes ambíguas. Só que recearam passar essa instrução a Heston, com medo que ele abandonasse as filmagens. A ideia foi passada apenas para Boyd. E é assim que os olhares de Messala são sempre mais doces do que a expressão de pedra de Ben-Hur.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2019




 



Um comentário:

  1. Pode-se dizer q o que acontece nos "bastidores" de produções desse porte acaba sendo outro filme.

    ResponderExcluir