segunda-feira, 11 de abril de 2016

SALTO NO ESCURO




Quando eu estava no serviço militar, conheci um oficial paraquedista que passara por uma terrível experiência. Na época, o Exército procurava aperfeiçoar as táticas de emprego das forças aerotransportadas, e havia já feito uma experiência de saltos sobre o mar que não acabara bem. A maioria dos paraquedistas chegara à água com seus paraquedas e dois deles tinham-se afogado, enredados nas cordas de seu equipamento. Para o próximo exercício, a ser realizado sobre o mar do Leme e à noite, a recomendação foi que, a uns três metros antes de chegar à superfície, os soldados se desvencilhassem do paraquedas e atingissem a água livres de seu cordame.

Segundo este meu conhecido, ele e seus companheiros foram lançados dos aviões a uma altura média de 300 metros sobre Copacabana, suficientes para a abertura correta do velame ou permitir o recurso ao paraquedas reserva, caso o principal apresentasse defeitos.  O resto era descobrir o momento certo de destravar o ferrolho antes do mergulho. O problema foi exatamente este. Na escuridão, era difícil precisar onde estava a superfície. Assim que ele vislumbrou um tênue reflexo nas ondas abaixo, livrou-se do paraquedas. Mas ele não estava a três metros da água. Estava a trinta. Sobreviveu apenas porque um dos barcos de resgate estava perto e conseguiu recolhê-lo, desacordado, mas vivo.

Estou contando esta história porque, nos meus absortos pensamentos, consegui enxergar uma analogia com a presente situação. Na minha modesta opinião, o PMDB, a Oposição e as legiões que defendem o impeachment largaram-se no espaço cedo demais.

Sob a grave ameaça de parecer repetitivo, volto a dizer que o processo de impeachment, apesar de requerer uma base legal para respaldar seu início, é medularmente um processo POLÍTICO. Se assim não fosse, seu mérito seria definido pelas Cortes, e não pelo Congresso. Se a sua razão para prosperar fosse a correta medida de sua adequação aos princípios da Lei, seriam juízes, e não parlamentares, os detentores da decisão final. Seria o júri, e não o plenário. O argumento, e não o voto.

Desta forma, o sucesso ou a derrota de uma iniciativa de impedimento de um Presidente depende, mais do que qualquer outra coisa, da vontade política dos membros de nossas duas casas legislativas.

E será que eu preciso contar aqui o que inspira um político no nosso atual momento?

São várias as coisas. Mas uma é fundamental. A Sobrevivência. Qualquer pessoa que escolha enveredar pela carreira pública e nela se manter sabe perfeitamente que seu nome jamais poderá se afastar da ribalta das campanhas, dos cargos eletivos, do poder que emana dos mandatos. Um ostracismo involuntário, o afastamento das convenções partidárias, o sepultamento de uma candidatura são o anátema, a maldição que assombra todo político.

E é aí que o Governo vem, nestes dias que antecedem a fase crucial da novela do impeachment, mostrando todo o seu poder de fogo, como canhões na murada de um navio que parecia soçobrar. No amplo balcão onde vende ministérios, diretorias, chefias e que tais, vende também a promessa da sobrevivência para partidos nanicos, deputados de modesto cacife e legendas de aluguel. A cada transação fechada, um precioso voto na hora do desfecho. Saindo cedo demais, o PMDB abriu as vagas para o troca-troca.  

Outro importante fator são as ruas. E o PT parece ter retomado a iniciativa. Só tenho visto bandeiras vermelhas. A formidável manifestação contra a Dilma foi quase há um mês e sua lembrança esmaece-se no consciente de um povo que costuma ter memória curta. Afinal, AGORA é que é a hora. Agora teria de ser o momento das grandes passeatas, das vibrantes convocações, das eloquentes palavras de ordem, de uma ação retumbante da Oposição, dos grandes discursos dos líderes do PSDB, do PMDB e seus aliados. Onde estão os caras pintadas de hoje? Será que pularam cedo demais?

Oswaldo Pereira
Abril 2016


8 comentários:

  1. Parece que saltar no escuro é tudo que a nossa espécie vem fazendo há alguns milênios. Talvez isso tenha sido a causa de grandes êxitos e tb de grandes desastres.

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    1. Se pudéssemos ver o Futuro, a vida perderia a graça...

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    2. Se pudéssemos ver o Futuro, a vida perderia a graça...

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    3. O futuro não existe, pq quando chega, já é o presente e quando se vai, fica sendo o passado.

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    4. O futuro não existe, pq quando chega, já é o presente e quando se vai, fica sendo o passado.

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    5. E o presente é só um nano-átimo de segundo, antes de virar passado. Nossa vida é um imenso estoque de ontens.

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