quarta-feira, 4 de março de 2015

COTIDIANO NO. 2






A estrofe é da genial música, da não menos genial dupla Vinícius & Toquinho, Cotidiano no. 2.

Às vezes quero crer, mas não consigo
É tudo uma total insensatez
Aí pergunto a Deus: “Escute, amigo
Se foi prá desfazer, por que é que fez?”

Há horas em que sinto o mundo se desfazendo. Como agora, como hoje, quando os jornais respingam tenebrosos vaticínios em sua tinta de impressão, os canais televisivos derramam imagens sobre os timbres graves dos comentaristas do dia, os virais da web espalham sem cerimônia ou pré-aviso vários apocalipses numa manhã de março.

Como raízes espinhosas, eles nos vão cutucando o traseiro enquanto tomamos o café da manhã, sabem a arroz queimado no almoço e mingau frio no jantar.

Um pequeno inventário deles.

Há um Exército Islâmico que quer trazer de volta o califado do Mahdi, e declara sua jihad aos infiéis de todo o mundo, sejam eles filhos de Israel ou cartunistas parisienses. A imagem da faca, do macacão cor de abóbora e da insensatez tornou-se já icônica em seu terror visceral. E, enquanto você lê estas linhas, jovens de várias partes marcham para o alistamento.

Espremido pela crise econômica interna de um país quebrado pela queda do preço do petróleo, Putin resolve redesenhar a Ucrânia, num joguinho que, estivéssemos no romântico século XIX, inspiraria cargas de cavalaria pelas estepes, e no pragmático XX, aviões com ogivas em seu útero.

Bolindo com um nervo sempre exposto, Bibi Netanyahu leva sua campanha política para a América, a convite de outra campanha política, a dos Republicanos que, além de terem manietado o Obama, mantêm os olhos nas eleições de 2016. Um peteleco enjoado no equilíbrio de forças que procura manter apagado o barril de pólvora do Levante.

Devagarinho, vários Governos começam a quebrar os cadeados, a decifrar os segredos dos grandes baús suíços, onde, alegadamente, repousam tesouros surrupiados de “contribuintes” involuntários que vão desde os judeus saqueados pelos nazistas a pagadores de impostos das inúmeras nações infectadas pela praga da corrupção. Os cantões iniciam seu degelo...

Há um Boko Haram na Nigéria, um Maduro na Venezuela, um cartel de drogas poderosíssimo no México, um promotor assassinado na Argentina, um garoto mimado querendo fazer bonito para uma gerontocracia de generais na Coréia do Norte, um premier grego querendo dar nó em pingo d’água...

Isto para não falar dos fins do mundo triviais, a camada de ozônio, o efeito estufa, a poluição dos oceanos, a superpopulação, o Edward Snowden. Ou das desventuras da Dilma...

Voltando ao Cotidiano no. 2, acho que vou “abrir o meu Neruda e apagar o sol...” Quem sabe se quando eu acordar haverá estrelas?...


Oswaldo Pereira
Março 2015








4 comentários:

  1. Respostas
    1. Parbleu! Não diga uma coisa destas. Tua voz é luz, cor e necessária...

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    2. Desculpe. Não são os textos. É o Mundo mesmo.

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  2. A história é cíclica e no momento me parece que estamos na curva descendente. Preocupante!!

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