sexta-feira, 16 de agosto de 2013

FERRAGOSTO


 

AUGUSTUS IMPERATOR

 
Gaius Iulius Caesar Octavianus foi o primeiro e mais longevo Imperador romano. Nascido numa antiga família da aristocracia rural em 63 a.C., foi adotado por seu tio-avô Julio Cesar, postumamente após a morte deste nos idos de março de 44 a.C., tornando-se herdeiro de uma incalculável fortuna e de um poderoso cacife político. Fez parte do Segundo Triunvirato, intitulado Triunvirato com Poderes Consulares para Confirmação da República, irônico nome criado nos estertores dela, com Marco Antônio e Lépido, dividindo entre si o comando das diversas regiões do mundo romano. Como todo mudo sabe, Marco Antônio foi para o Egito e caiu de amores por Cleópatra. Lépido foi para a Espanha, desentendeu-se com Otaviano e foi apeado de seu mandato por um obediente Senado.



Em 31 a.C., Otaviano derrota Cleópatra e Marco Antonio na batalha naval de Actium. Os dois amantes se suicidam e ele finalmente abocanha o poder supremo em Roma, irresistivelmente marchando para o posto de Imperador, adotando o nome pelo qual passaria à História – Augustus. A República morre; nasce o Império Romano.

Nos anos seguintes, Augusto demonstra seus bons dotes de administrador recuperando um país enfraquecido pelas sucessivas guerras civis e cansado delas. Tem a seu favor que as fronteiras estão bem guardadas e em calma relativa, e o fornecimento de grãos acontece sem sobressaltos. Pelas próximas quatro décadas, ele consolidará este domínio, fortalecerá o exército, remodelará Roma e as cidades vizinhas, construirá estradas. É a Pax Romana no seu melhor.

E promoverá festas, para manter a patuleia feliz. Em 18 a.C., às já tradicionais festividades da Vinalia Rustica e da Consualia, celebrações que marcavam o fim do árduo trabalho do campo durante o Sextilis, sexto mês do calendário romano, ele institui as Feriae Augusti, um autêntico carnaval com corridas de cavalo, largada de touros, confraternizações entre patrícios e servos e muito, muito vinho. Como os festejos de Momo, também duravam três dias, com seu auge no dia 15.

A tradição arraigou-se. Mesmo depois do desaparecimento do poder de Roma, pelos séculos da Idade Média, ela subsistiu, vindo a ganhar novo alento no Renascimento, inspirando danças, cortejos e jogos, como o Pálio de Siena e as esperas de toiros na Península Ibérica. Preocupada com o caráter pagão da farra e impotente para manter seus fiéis longe dela, a Igreja resolveu revestí-la de significado religioso, estabelecendo o feriado da Assunção de Nossa Senhora.

O mês Sextilis virou Agosto, em homenagem ao Imperador. Na Itália, as feriae Augusti viraram ferragosto. E o dia 15 tornou-se o dia em que os italianos, em massa, iniciam sua temporada al mare, no campo ou nas montanhas. Principalmente, depois da década de 1920.

Vendo na tradição as mesmas vantagens políticas que Augusto vira há dois mil anos, ou seja, manter o povo feliz, o governo fascista de Mussolini passou a incentivar o êxodo das cidades para as praias, para as delícias da culinária campestre, para o frescor dos Alpes e dos Apeninos, naqueles dias abafados de verão. Deu descontos nas passagens de trens, nas diárias dos albergues públicos, remodelou estradas. O objetivo era tirar a classe mais baixa de suas casas e motivá-la a conhecer melhor seu país, suas maravilhas naturais, sua cozinha regional. Muitos iam ver o mar pela primeira vez.

Meu primeiro contato com o ferragosto foi em 1965, quando fui morar em Milão. Chegara no final de julho e ainda me adaptava. De repente, no dia 15 de agosto, acordei com a cidade vazia. E com tudo fechado. Restaurante, bares, lojas, farmácias. Em todos, um aviso na porta: Ritorniamo in Settembre (voltamos em setembro). A vida mudara-se para o litoral lígure, para os lagos, para Rimini. Não tive outra alternativa a não ser tomar um trem e partir para as praias lotadas. E tentar achar um lugar ao sol.
PRAIA ITALIANA NO FERRAGOSTO



Oswaldo Pereira
Agosto 2013

 

 

 

 

 

Um comentário:

  1. Interessante, não conhecia o "ferragosto". Este hábito do italiano continua em todas as férias que têm. Fecham seus negócios e vão de férias.

    Abraço.

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