segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

SUIS-JE CHARLIE?




Como qualquer pessoa nascida e criada num país de tradições liberais e acalentada no seio de uma família de raízes multirraciais e inspirada pela tolerância, a ação terrorista contra o Charlie Hebdo repugnou-me. Detesto violência, especialmente quando ela é empunhada por mãos covardes e alimentada pela insensatez religiosa.

Horroriza-me o fato de que a Religião, um coletivo que engloba dezenas de fés cuja doutrina nuclear repousa nos pilares da paz e da compreensão, tenha sido, ao longo da História, o mais importante agente de guerras, perseguições, barbáries e atrocidades. Em nome de deus, seja ele qual for, foram desencadeadas hecatombes inimagináveis, visceralmente contrárias à pregação de fraternidade professada por todos os credos.

Dos sacrifícios a Baal, na Antiga Mesopotâmia, ao atentado de Paris na quarta-feira passada, leituras fundamentalistas dos códigos sagrados das diversas religiões serviram, e servem, de mandamento a extremistas dispostos a tudo para fazer valer a sua verdade teológica ou para vingar ataques aos seus profetas e santos.  Repetindo, rejeito, condeno e abomino o que os jihadistas argelinos perpetraram contra o jornal parisiense.

Mas, será que eu posso dizer EU SOU CHARLIE?

CHARGE RELIGIOSA DO CHARLIE
Para começar, sempre achei seu humor um pouco pesado, tipo pata de elefante. Embora reconheça os méritos e os traços de seus cartunistas, nunca achei muita graça nas charges publicadas, nem as políticas e nem as religiosas. Quando estive na França, em 1992, comprei um exemplar e verifiquei que não era o meu tipo de humor. Depois, não gostei das ridicularizações gratuitas, às vezes cruéis, que o Charlie disparava contra figuras que deveriam merecer um pouco mais de respeito. É claro que gosto da irreverência, de uma boutade perspicaz, da sátira fina e elegante, mas o canhão do Hebdo tinha um calibre grosso demais para meu paladar.




Nada disto, evidentemente, justifica o ato praticado pelos fanáticos argelinos. Para os que se julgam atingidos pelas charges, há sempre o recurso aos tribunais, ou até a um contra-ataque utilizando as mesmas armas dos ofensores, ou seja, o lápis, o papel e a inteligência. E foi um genial francês, François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire, que afirmou: “posso não concordar com uma palavra que você disser, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”.  A liberdade de expressão, este bem essencial à vida humana, precisa ser preservado, quanto mais não seja pelo dever que ela tem de ser responsável, verdadeira e capaz de assumir seus erros e exageros. Então, neste sentido, eu posso, sim, dizer:

EU SOU CHARLIE


Oswaldo Pereira
Janeiro 2015





sábado, 10 de janeiro de 2015

MOISÉS








Moshe Rabbenu. Moisés, o Legislador. Assim está registrado o nome de uma das figuras mais importantes da religião judaico-cristã, líder incontestável de um povo durante seu mais decisivo momento. Sua vida e sua obra abrangem nada menos que quatro livros da Bíblia (Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), uma saga apaixonante de sobrevivência, enganos, subterfúgios, coragem, perseverança e fé, desenrolada em algum momento entre os séculos XIV e XIII antes de Cristo. Seu provável nome egípcio, Msy, mse, ou ainda mose, tem o significado de filho de, como, por exemplo, Tutmose (filho de Tut) ou Ramses, filho de Ra, o Deus Sol, o faraó com quem Moisés conviveu e contra quem combateu.

Pelo Livro Sagrado, os pais de Moisés, escravos hebreus no Antigo Egito, conseguiram salvar o filho da exterminação de todas as crianças judaicas do sexo masculino ordenada pelo faraó, assustado com uma profecia que previa o nascimento do Messias, colocando-o numa cesta e deixando-o flutuar pelo Nilo até ser providencialmente recolhido pela princesa Bityah. Irmã de Seth I, a Princesa criou-o como filho, escondendo a verdade de sua origem. Todo mundo sabe a continuação dessa história, com Moisés vivendo na corte como sobrinho de Seth, sua proeminência como guerreiro e sua participação na construção das pirâmides, até que, aos vinte anos, mata um soldado egípcio que flagelava um escravo hebreu. Numa sucessão de desditas, seu crime vem servir como uma luva para a inveja de seu “primo” Ramsés, sua origem acaba sendo descoberta, Seth I, seu protetor, morre, ele cai em desgraça e acaba sendo banido.

A partir daí, sua sina muda completamente. Aos poucos absorvendo o fato de que é, na realidade, hebreu, inicia uma vida nômade, até encontrar a tribo dos midianitas, casar-se com Zipporá e estabelecer-se como pastor de ovelhas. Ainda pela Bíblia, aos 80 anos Moisés recebe de Deus, corporificado num arbusto incandescente, a ordem de retornar ao Egito e libertar seu povo da escravidão. Depois de vários confrontos, e após o advento de dez pragas divinas que assolam o território egípcio, Ramsés cede e permite a partida dos escravos. Para arrepender-se a seguir e persegui-los até às praias do Mar Vermelho onde, nesse momento, Moisés opera o prodígio da abertura das águas. O povo, liderado por ele, atravessa o estreito em tempo, enquanto que, na sequência, as tropas do faraó são envolvidas pelas ondas e destruídas.

Livre de seu inimigo e opressor, a multidão, estimada entre 400 mil e um milhão, segue em direção à Terra Prometida, a Canaã bíblica, uma região correspondente hoje aos territórios de Israel, Palestina e partes do Líbano, Jordânia e Síria. São mais 40 anos de peregrinação pelo deserto, durante a qual Moisés firma sua imagem de legislador recebendo de Deus os Dez Mandamentos. Com 120 anos, morre à vista de Canaã, sem nela entrar.

Uma bela história. Só que não há, fora da Bíblia, qualquer evidência, nem na egiptologia ou mesmo na arqueologia, de que estes fatos aconteceram e de que Moisés corresponde a uma figura real. A datação dos livros bíblicos não bate com os registros históricos amplamente reconhecidos e aceitos, como os da construção das pirâmides e o reinado de Ramsés, o Grande. A versão mais aceita é de que todo o processo de migração do povo judeu do Egito para o Levante, a promulgação das leis que deram a origem à Torah, a consolidação do culto a Yahweh, que pode ter levado ao menos uns dois séculos e envolvido dezenas de líderes, foi compactado na saga de Moisés, cujos primeiros relatos romanceados, fora do Livro Sagrado, só começaram a surgir mil anos depois. E esses textos, somados à fé emanada da Bíblia, acabaram por consolidar a figura de um extraordinário herói, profeta, general e patriarca cuja influência permeou três religiões: a judaica, a católica e a islâmica. Depois de Maomé, é a pessoa mais citada no Corão.


O MOISÉS DE MICHELANGELO

Inevitavelmente, Moisés tornou-se real e um ícone para pintores e escultores, especialmente no auge artístico da Renascença e na genialidade de Michelangelo. Com o surgimento da Sétima Arte, sua história apareceu em pelo menos três superproduções, duas delas com o mesmo título (Os Dez Mandamentos) e mesmo Diretor (Cecil B. DeMille). A última é Exodus: Deuses e Reis. Fui conferir.

MOISÉS NO CINEMA: THEODORE ROBERTS (1923), CHARLTON HESTON (1956) E CHRISTIAN BALE (2015)

Em 3-D, o tempo dos faraós ganha dimensão e vida. Um prato cheio para amantes da Antiguidade Clássica, com este modesto escriba, que se sentiu transportado para o Vale dos Reis, 33 séculos atrás. Primorosa como décor, a produção ainda tem gente reconhecidamente competente como Christian Bale no papel-título, Ben Kingsley como Nun, John Turturro como Seth I, Sigourney Weaver fazendo uma ponta e o aclamado Riddley Scott na Direção. Com uma receita destas, Exodus tinha tudo para ser um filmaço. É quase. O único problema decorre desta obsessão dos atuais cineastas de Hollywood em transformar os seus personagens principais em super-heróis, 007’s maiores que a vida. A cena da travessia do Mar Vermelho, plasticamente extraordinária, termina com um showdown à La Velho Oeste entre Moisés e Ramsés, com ambos sobrevivendo (atenção galera: isto não é spoiler. Vocês todos já sabem como a história termina...) galhardamente a um tsunami bíblico. Pena...

Oswaldo Pereira
Janeiro 2015






sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

ANO NOVO





Não me lembro de quem foi a ideia, mas, de repente, todos nós resolvemos ir para a praia. Faltava mais de meia-hora para a meia-noite, o baile de réveillon havia começado há pouco, mas nós não estávamos dispostos a celebrar o Ano Novo num salão suarento e apinhado de gente. Dava para ir a pé. E lá fomos, surrupiando umas garrafas de espumante, alguns sanduíches (afinal, o convite fora caro...), de smoking e vestidos longos, gravatas borboleta e penteados construídos com laquê, sapatos de verniz e saltos altos, em direção à noite e à areia...

Achávamos que seriamos os únicos. Mas, em outros bailes e de outras festas, muitos haviam tido a mesma lembrança. Grupos e mais grupos em traje de gala estavam chegando, como que convocados por um arauto visceral, um chamamento do céu de verão que inundava nossos olhos de estrelas. E, porque éramos jovens, também de sonhos.

Dava para sentir o Ano chegando. Alguém-poeta disse que conseguia vê-lo cavalgando as ondas negras para além do horizonte. “Quinze minutos!”, um não-poeta informou com os olhos atentos no mostrador que tinha no pulso.

E, claro, tinha de acontecer um violão. Sabíamos todas as músicas, as letras de palavras doces misturadas com o champanhe, um coral de uma dúzia de vozes em dueto com a brisa que, como o Ano, também vinha do mar. Uma imensa festa. Todos à rigor com os pés na areia, outros pés sendo salgados pela marola leve, cantos e risos correndo soltos pela volta da enseada.

Meia-noite! E, num só gesto, todos nós erguemos as taças em homenagem. O Futuro estava ali, na nossa frente. Nós o tínhamos pela mão. Como eu disse, éramos jovens...

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A praia era Copacabana, numa época em que a festa planetária de hoje era só uma longínqua miragem. O Ano era 1965.  Há 50 anos. Putzgrilla...


Oswaldo Pereira
Janeiro 2015





segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

ANO VELHO






O ano do selfie? Não, não é possível que 2014 passe à história com esta fama... Seria injusto com o ano que viu uma nave pousar no cometa, duzentos países assinarem novo acordo sobre a proteção climática do planeta, Malala Yousafzai ganhar o Nobel da Paz, um Papa inspirar dois países brigados há décadas a fazerem as pazes.


PAPA FRANCISCO - O HOMEM DO ANO
Aliás, este podia ser o ano de Francisco. Além de ser fundamental na aproximação entre Cuba e os Estados Unidos, este surpreendente sucessor de Bento XVI, em poucos meses de reinado, já mostrou ao que veio. Fez sentir sua mão pesada em cima dos casos de pedofilia e abusos sexuais, ao mesmo tempo em que demonstrou seu ânimo compreensivo para com o homossexualismo e as uniões fora do casamento. Procurou outros credos debaixo da luz de um ecumenismo universal, enquanto que, em casa, investiu contra os malfeitos do Banco do Vaticano. E, pasmem, desancou a Cúria Romana em sua mensagem de Natal...

MÓDULO PHILAE NO COMETA
Não fosse isso, 2014 ia deixar apenas marcas pouco recomendáveis para futuros historiadores. Uma indigesta lista de tribulações mundiais cujas consequências ainda podem transbordar para os próximos doze meses. A ascensão de Exército Islâmico, por exemplo, ou o recrudescimento da tensão na Faixa de Gaza. Obama refém de um Congresso republicano caminhando tropegamente para um fim de mandato melancólico. Um ex-Primeiro Ministro português indo em cana ao voltar de uma vilegiatura dourada em Paris. O aterrorizante espetáculo das decapitações também pode deixar seus rastros no curriculum do ano, assim como a queda de braço entre Putin e a Ucrânia, a insensatez religiosa do Boko Haram, o avanço cruel do ebola, as despedidas prematuras de Robin Williams, de José Wilker, de Eusébio e tantos outros...
O HORROR: DECAPITAÇÕES DO EI


ESCÂNDALO DA PETROBRAS
Mas, má fama mesmo, 2014 terá é nos arquivos brasileiros. Mal refeitos do exorcismo do Mensalão, um novo tsunami de desonestidade foi destampado nos bueiros da maior empresa do País, dando início a uma aluvião de águas turvas cuja corrente ainda não se sabe até onde chegará. Uma campanha eleitoral tisnada pela morte de Eduardo Campos e pelo nível rasteiro dos ataques verbais entre os candidatos.  Um crescimento econômico pífio e uma inflação renitente. E a mordida do inacreditável 7 a 1 no orgulho nacional, em pleno Mineirão...

VERGONHA NO MINEIRÃO


Foi dose. Só espero que 2015 não seja o barítono... Explico. Dizem que, numa determinada apresentação operística na Itália, o tenor era tão mau que a plateia começou a vaiar impiedosamente. A ponto de fazê-lo parar de cantar e sair de cena. Não sem antes avisar: aspettate il baritono (ou seja, esperem pelo barítono, como a sinalizar que o próximo cantor ainda seria pior...)  

Mas, como dizia o colunista social Zózimo Barroso do Amaral, enquanto houver champagne, há esperança. Vamos então esperar por melhores dias, melhores ares, melhores sonhos, melhores sinas. E melhores cantores...



FELIZ 2015 PARA TODOS!



Oswaldo Pereira

Dezembro 2014

sábado, 20 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL









UM NATAL MUITO, MUITO FELIZ PARA 

TODOS





E, para manter a tradição, um 

pequeno conto de Natal





NOITE DE NATAL


A chuva gelada molhava tudo. Quando ele acordou, no meio da noite, sentindo as gotas bater de encontro à madeira da janela, pensou logo nos bichos que estavam no campo. Um cachorro, seis ovelhas e um pequeno asno. Seus bens, sua fortuna. A dúvida rodou por minutos em sua cabeça. Vou ou não vou?... A manta de lã rija dava-lhe algum conforto, uma proteção abençoada contra o frio cortante daquele inverno enfezado. Ficou pensando nas conversas dos dias anteriores. Nas horas do final da tarde, em que todos se reuniam para deixar seus animais nos estábulos comunitários, os outros pastores tinham passado a comentar sobre a estrela. Era o assunto do momento. A estrela de rabo comprido, que surgira no começo do inverno. Para os mais velhos, era mau agouro, um prenúncio de desgraças, um aviso amaldiçoado. Isto haviam aprendido de seus avós, e esses dos seus, numa cadeia infinita pelas brumas do tempo. Pastos esturricados pela seca, ou aluviões de chuvas que afogariam a todos como no dilúvio. Talvez a peste. Ou tudo junto. Para eles, a morte do grande rei três anos antes significara algo mais do que uma consequência natural da vida. Era o fim de um ciclo de bem-aventuranças, embora Herodes nunca tivesse feito nada por eles. Ele morrera, pronto, e isso era o bastante para temer o amanhã. E agora, essa estrela com crinas... abhadda kedhabhra!

Teriam razão?...Pensou ele, enquanto se revirava sobre a palha seca. O Diabo sabe muito por ser Diabo, mas sabe muito mais por ser velho..., era o que se dizia. Por que então este pessimismo corrosivo, este bolor pegajoso do medo. Seria consequência do frio nos ossos esclerosados, da névoa que embaçava o olhar, do desaparecimento dos cabelos e da paixão, da proximidade do fim? Só quando lá chegar saberei... Os mais jovens dividiam-se. Uns davam aos ombros com indiferença. Uma luz no céu da noite era só isso, uma luz. Distante. O que importava era ter lentilhas no prato, vinho quente nos alguidares, coxas complacentes debaixo das mantas. Outros eram os sonhadores. Discutiam até depois da ceia contos de faraós, portentos da Babilônia, profecias e profetas, magos e loucos. Não chegavam a qualquer conclusão, mas iam dormir com os olhos banhados pela claridade da esperança.

Na noite anterior, entretanto, pouco antes de o pão ficar cozido e a fumaça das favas voltear no ar gelado, o desconhecido aparecera.  Ninguém era bem vindo numa noite de escassez invernal, alimento pouco, ojeriza de estranhos. Um mutismo de desconfiança saudou-o. E ele ali ficou, cajado apoiado no chão gelado, um tosco manto como abrigo precário, sandálias trazendo as histórias de muitas estradas cruéis. E um terno sorriso nos lábios.

Ele apiedara-se do recém-chegado. Enquanto os demais, velhos e novos, cuidavam de si e de sua fome, ele levantara-se e lhe entregara o resto dos grãos que ainda fumegavam em seu prato de barro, mais uma côdea e um naco de queijo. Depois, voltara para seu lugar junto ao braseiro, sem esperar pelo agradecimento do outro. Não precisou ouvi-lo. Uma suave brisa morna pareceu mexer com os seus cabelos.

O desconhecido comeu lentamente, saciando um jejum ancestral, silencioso e quase invisível. Será que só eu o vejo? perguntou-se, observando a maneira com que os seus companheiros o ignoravam.  Aos poucos, a noite ficou mais fria. Um a um os pastores foram para dentro de suas cabanas, murmurando despedidas quase inaudíveis. Ele e o desconhecido ficaram sós ao relento. Foi então que este saiu da escuridão e falou.

«Amanhã antes da ceia pegue uma ovelha e siga pelo caminho que leva a Bethlehem. Vá só. Pouco antes da cidade, vai encontrar uma gruta. Lá acharás o que procuras...» 

Vou ou não vou?... A dúvida continuou mordendo-o no escuro. Um estranho. E se fosse um assaltante, pronto a emboscá-lo... Mas a voz era poderosa como um clarim angelical tocando um chamamento irresistível, o olhar que varava o ar de inverno eram dois faróis de luz terna. Não, o desconhecido não era um malfeitor, ele sabia. E resolveu ir.

A noite seguinte estava ainda mais gelada. Apenas o pequeno animal que levava por sobre os ombros lhe dava certo conforto, o abraço quente da lã em torno do pescoço, o respirar suave do ventre da pequena ovelha acariciando-lhe a nuca. O escuro do caminho era amortecido pelo brilho da estrela de caudas, sempre à frente lá no céu.

Antes que ele pudesse perceber os contornos do casario da cidade, uma pequena luz começou a aparecer, longe ainda, na beira da estrada, onde uma elevação rochosa crescia como uma grande onda de pedra negra. À medida que se aproximava, foi percebendo os contornos. Era a gruta. Só podia ser ela.

Havia algumas pessoas quando chegou. Pastores como ele. Havia mais. Andarilhos, carpinteiros, pescadores, talvez atraídos pela claridade que emanava do lugar. E três homens vestidos como ele nunca vira alguém, nem os sacerdotes de Jerusalém. Todos em profundo silêncio, admirando a cena. Uma mãe de sorriso exausto, um marido em desvelo. E a criança.

Não era uma criança qualquer, ele notou. Seu corpo parecia brilhar na exígua manjedoura, tanto quanto a estrela comprida, que agora parecia um sol alongado por cima do morro que cobria a gruta. Subitamente, ele sentiu os olhos do recém-nascido traspassarem os seus. Num segundo, foi como se tudo, gruta, morro, estrada e céu desaparecessem e um turbilhão de imagens soprasse como um vendaval. E ele viu uma cruz no alto de uma colina, soldados romanos destruindo o Templo, Maomé concebendo o Islã, os cruzados em seus cavalos, mamelucos e otomanos. O vórtice de visões continuou girando em torno dele, as tribos árabes mesclando-se em nações, as guerras ceifando campos e vidas, o nascimento de Israel, os canhões e os ódios, os tanques e o confronto, os mísseis e a morte.

E, de repente, ele estava no futuro. Não havia mais estrela nem gruta. Um muro cortava a terra, um jipe passou levantando poeira, um estrondo longínquo assustou uma gralha, uma fumaça preta, um grito, um cacarejar de uma metralhadora. Lágrimas correram em seu rosto. Por ele. Pela humanidade. Pela criança que vira na gruta.

Então, um reflexo colorido. Ele virou e viu. Uma menina vinha caminhando na sua direção, sorrindo. Chegou perto dele e entregou-lhe uma flor. E murmurou: Feliz Natal... Ele agradeceu comovido e perguntou o seu nome.

Esperança, ela disse.


Oswaldo Pereira
Dezembro 2014


PS.: Quem quiser ler o Conto de Natal do ano passado, é só clicar no link abaixo.


 http://obpereira.blogspot.com.br/2013/12/e-natal.html

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

MARTE







A data está marcada. Será em algum mês de 2033.

O fascínio pelo pequeno planeta começou no momento em que um homo sapiens mais esperto notou, dentre os zilhões de pontos luminosos que se espalhavam por cima de sua cabeça nas noites sem nuvens, um de cor avermelhada, como se uma pequena brasa, elevada da tosca fogueira que aquecia sua pele pelo vento cortante da savana, tivesse ido parar no firmamento. Às vezes ela aparecia, outras não e seu caminho pelo escuro profundo parecia incerto. Por mais que desse tratos à bola, o nosso interessado primata não conseguiu encontrar um significado para aquele estranho ponto encarnado e resignou-se apenas a admirá-lo.

Mas, quando o Nilo passou a refletir o contorno das pirâmides, os astrônomos do faraó já haviam decifrado o movimento excêntrico daquela estrela vermelha e, pouco depois, os babilônios tinham anotado em suas tábuas de barro que ela perfazia 42 circuitos do zodíaco a cada setenta e nove anos. Logo, os gregos criaram seus deuses e a poesia mitológica deu-lhes um lugar no céu. O planeta cor de fogo só podia ser o impetuoso Aries, senhor da guerra. Aries virou Marte para os romanos e para os compêndios de astronomia.

Aos poucos, a poesia e a lenda cederam seu lugar à observação científica. Aristóteles verificou que o deus era apenas um corpo celeste e se situava muito além da Lua. Pela mesma época, os hindus chegavam a um cálculo aproximado de seu tamanho. Na Europa, as trevas da Idade Média tiveram de dissipar-se para que novos avanços científicos fossem retomados. No século XVII Tito Brache e Johannes Kepler determinaram sua distância da Terra e Gallileo Gallilei viu-o em rudimentar close-up no seu telescópio.


MANCHETE DE 1912
O invento de Galileu desenvolveu-se e, em 1877, outro italiano, chamado Giovanni Schiaparelli, trabalhando no mapeamento do planeta, distinguiu, pelas lentes poderosas do Observatório de Brera, linhas retas e extensas na sua superfície. Decidiu chamá-las de canali. E deu início à primeira martemania da história. Renomados cientistas, como o astrônomo americano Percival Lowell, jogaram mais lenha na fogueira, declarando que as figuras geometricamente perfeitas observadas em solo marciano só poderiam ser obra de mentes inteligentes. O mundo viveu um frenesi. A especulação mais verossímil era de que os “canais” haviam sido construídos para distribuir água oriunda das calotas polares, também visíveis nos telescópios. Água = Vida. Extraterrestres de todos os tamanhos e cores povoaram a imaginação de toda gente. Em 1898, o grande escritor inglês H. G. Wells lançou o livro The War of the Worlds (A Guerra dos Mundos), uma impressionante ficção sobre a invasão da Terra pelos alienígenas e a histeria tomou conta. Virado o século, entretanto, observações mais apuradas indicaram que os “canais” eram apenas desfiladeiros profundos, provavelmente causados por erosão eólica, e a mania acalmou-se.


ORSON WELLES NO RÁDIO - 1938
Para retornar em 1938.  Era o auge da Era do Rádio e a emissora americana CBS mantinha um programa líder de audiência chamado Mercury Theatre on the Air, uma encenação radiofônica de grandes obras literárias narradas por atores que soubessem passar o máximo de realismo com sua voz. Como Orson Welles. No dia 30 de outubro daquele ano, ele apresentou a dramatização de “A Guerra dos Mundos” e milhares de pessoas entraram em pânico, confundindo a ficção do relato com a realidade e acreditando que o texto lido por Welles com aterrorizante fidelidade era um noticiário transmitido ao vivo. Foi um pandemônio nos Estados Unidos. Orson Welles foi guindado à fama e Marte voltou à cena.

A Segunda Guerra desviou as atenções, mas, com o advento da Guerra Fria, a febre voltou. Entre 1949 e 1959, multiplicaram-se os depoimentos sobre a aparição de discos voadores. Tantos, que a Força Aérea americana instituiu uma investigação oficial do fenômeno, conhecida como Projeto Blue Book. Para a legião de crentes na existência dos  Unindentified Flying Objects (UFO’s), ou OVNI’s, se não eram russos, eles só poderiam vir de Marte.

A GUERRA DOS MUNDOS - FILME DE 1953
Surfando na onda, Hollywood botou a indústria cinematográfica para municiar os cinemas com produções voltadas para o assunto. Muitos não passaram de filmes B (como um delirante Abbot and Costello Go to Mars), mas alguns retiveram uma certa qualidade e viraram cult nos anos recentes, como The Day the Earth Stood Still (O Dia em que a Terra Parou), It Came from Outer Space (Veio do Espaço), Forbidden Planet (Planeta Proibido) e (mais uma vez o livro de H. G. Wells) The War of the World, de 1953.  No embalo, ficcionistas de nível como Ray Bradbury, Edgard Rice Burroughs e Robert Heinlein encheram mais os seus cofres com thrillers interplanetários focados no planeta encarnado.

Como não podia deixar de ser, a corrida espacial, mais científica que ficção e mais empolgante que a fábula, sepultou a visão romântica que se tinha de Marte. Com o homem chegando à Lua, o astro ficara mais perto. E mais ainda ficou quando as primeiras sondas pousaram em suas areias vermelhas. Nada havia de fantasmagórico nas fotografias tiradas pelas naves Viking, embora secretamente muita gente torcesse para que, de repente, a carinha verde de um marciano aparecesse diante das câmeras.

VIKING LANDER EM SOLO MARCIANO

Hoje, os probes Opportunity e Curiosity trafegam ágeis pela topografia marciana, enviando preciosos dados para a Terra. O planeta está mapeado e parece tão desprovido de vida quanto o nosso satélite natural. Parece. A certeza virá somente quando a caminhada, que esta semana começou com a viagem orbital do equipamento que levará os primeiros astronautas, a cápsula Orion, chegar ao seu destino, em algum momento de 2033.

Alyssa Carson, uma adolescente de 13 anos, já está se preparando para a grande aventura. Ela terá 32 anos então. Poderá ser o primeiro ser humano a pisar em Marte. E, finalmente, dirimir as dúvidas que assaltavam aquele homo sapiens que, na noite pré-histórica, primeiro notou um ponto vermelho no céu.


Oswaldo Pereira
Dezembro 2014

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

ETERNIDADE POR UM FIO








Ufa!

Acabei de virar a última página, a de número 1003 nesta edição de capa dura, de Edge of Eternity. A última, não só do livro, como da alentada trilogia The Century (O Século) criada por Ken Follett, o aclamado escritor galês que trocou sua carreira vitoriosa como criador de thrillers, como The Eye of the Needle  (O Buraco da Agulha), por outra mais vitoriosa ainda como historiador, iniciada no mundialmente reverenciado The Pillars of the Earth (Os Pilares da Terra).
Como já abordei a história de Follett na crônica que escrevi em dezembro do ano passado, quando acabei de ler o primeiro volume (Fall of Giants) da trilogia, não vou repeti-la.  Mas não posso deixar de comentar esta sua mais recente obra, que conclui um meticuloso trabalho de reconstituição de um dos séculos mais decisivos da História.
O Século XX, com duas guerras mundiais, vertiginosos avanços da ciência e palco de turbulências sociais modificadoras de vidas e comportamentos, superou tudo o que veio antes dele em termos de velocidade das mudanças e sua amplitude. De transatlânticos a naves espaciais, da metralhadora aos mísseis nucleares intercontinentais, do rádio de galena à TV em cores, da valsa ao funk, do telégrafo à internet, não deixou pedra sobre pedra.   Tabus, conceitos e valores inquestionáveis foram revirados sem remorso, produtos e mercados surgiram e desapareceram sem deixar suas marcas na poeira do esquecimento. Em cem anos, muitos ismos regeram a cena política, muitas fés prometeram seus céus particulares, muitos bálsamos trouxeram cura, muitas epidemias trouxeram a morte. O último ato do Segundo Milênio foi arrasador.

Isto tudo Follett, filtrando os acontecimentos pelo dia-a-dia de cinco famílias imaginárias, traz para o leitor, usando seus conflitos, seus sonhos e suas escolhas de vida como veículo. É evidente que, para isto funcionar, suas criaturas precisam ter o condão de estarem sempre presentes, ou até participar ativamente, na maior parte das ocorrências que mudaram o mundo no período. O que já valeu comentários, comparando-os a uma dinastia de Forrest Gumps, e críticas ao caráter às vezes raso e didático dos diálogos.   

Só posso dizer que as observações procedem. Por outro lado, entretanto, há que se aceitar esta técnica literária como a única capaz de produzir o efeito desejado por Follett, ou seja, enredar o fato histórico no personagem e repassá-lo ao leitor já emoldurado pelos seus batentes culturais ou emocionais e pelo impacto causado na sua psique. E digo mais. Neste último volume, Follett amenizou aquele aspecto bi dimensional dos diálogos, tornando-os mais redondos, mais carne e osso (principalmente carne nas inúmeras passagens de relacionamento sexual do livro), e com muito mais drama. Ao mesmo tempo, coloriu mais as cenas descritivas, algumas verdadeiramente magníficas.

Assim, foi mais fácil percorrer as mil paginas de “Eternidade por um Fio” (a péssima tradução do título para o Português), do que as duas mil dos volumes precedentes. Partindo da construção do Muro de Berlim e terminando com sua queda, os netos das cinco famílias criadas por Follett no início da saga (americana, inglesa, galesa, alemã e russa) vivem, convivem e interagem com as lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, o assassinato dos Kennedys e de Martin Luther King, a crise dos mísseis de Cuba, a repressão soviética aos movimentos na Hungria e na Tchecoslováquia, a luta pela liberdade na Alemanha Oriental, os meandros da Guerra Fria, a Guerra do Vietnam, a revolução musical dos anos sessenta, o summer of love e as drogas, Nixon & Watergate. Enfim, os monumentais terremotos sociais ocorridos entre 1961 e 1989. Há também um elegante epílogo, no qual uma das famílias assiste pela televisão o discurso de vitória de Barack Obama, em quatro de novembro de 2008. Um primoroso ponto final.

Um porém (há sempre um...) Assim como Ken Follett ignorou a imensa hecatombe da gripe espanhola no volume que cobria as décadas de 1910 e 1920, também agora passou por cima de outra tão ou mais trágica. Não há, em qualquer das 1003 páginas de Edge of Eternity uma SÓ menção ao flagelo da AIDS. Tenho de concluir que o famoso escritor galês possui memória curta para pandemias.

 
Oswaldo Pereira
Dezembro 2014

 
PS.: Para os que não leram o meu texto sobre o primeiro volume de “O Século”, Queda de Gigantes, ou quiserem relê-la, é só clicar no link abaixo.

http://obpereira.blogspot.com.br/2013/12/queda-de-gigantes.html