quarta-feira, 14 de setembro de 2022

MEMÓRIA SELETIVA

 


Nossa memória é seletiva. Por defesa, ou por qualquer outro motivo, ao distanciarmo-nos de algum acontecimento, fato ou experiência, tendemos a enxugar seu lado negativo, amaciar seus defeitos ou prejuízos, colocar uma pátina difusa sobre uma má lembrança. O lado bom sempre perdura mais em nossas recordações.

Estes devaneios, talvez próprios de aposentados sem muito o que fazer, como este que vos aborrece, vieram-me ao ler e ouvir algumas narrativas que tendem a olhar com saudosismos o Século XX. Nestes recentes dias, em que se pranteia a morte de Elizabeth II, um turbilhão de imagens de sua marcante presença nos anos 1900 inspirou muita gente a compará-los com estas primeiras décadas do Terceiro Milênio. E, a mais das vezes, com nítido desfavorecimento ao presente.

Também, não é para menos. Da virada do ano 2000 para cá, muita desgraça acometeu o nosso atribulado mundo. O onze de setembro foi o cartão de visita. Nem bem havíamos guardado as guirlandas e os balões do réveillon dos novos mil anos, e as tremendas imagens das torres desabando nos encheram de horror.

Em sequência, tivemos a renúncia de um Papa, coisa que só acontecera há mais de 400 anos, e que deflagrou uma torrente de vaticínios de mau agouro das cassandras de plantão. Quando outros arautos, estes navegando numa aura cor-de-rosa, previram a chegada de um beatífico período de elevação e bem-aventurança, quem chegou foi o vírus. Uma pandemia que ceifou (até agora) mais de 6 milhões de pessoas, infectou cem vezes mais e confinou quase toda a população do planeta numa quarentena de desesperança e medo.

E agora, no momento em que o mundo começava a novamente respirar sem máscara, a guerra da Ucrânia, com todos os seus ingredientes de crises, conflitos e consequências desastrosas para a economia global, vem azedar o caldo da recuperação. de bom tamanho? E todos suspiram de saudades do formidável Século XX...

Será?

Bem, vamos começar as comparações. Só para medir no taco a taco cronológico, em 1922 já tínhamos amargado o desastre do Titanic, a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola. O naufrágio esfacelara o hubris dos que acreditavam que o século das luzes iria proclamar a vitória do homo sapiens sobre a Natureza. O conflito de 1914-1918 é considerado até hoje como a mais cruel e sanguinária guerra de todos os tempos. E a Pandemia da Espanhola matou mais de 20 milhões.

Se continuarmos para a frente, tivemos a Grande Depressão da década de 1930, mais uma Guerra Mundial, o apocalipse atômico sobre os habitantes de Hiroshima e Nagasaki, genocídios na Armênia, na China, na Rússia, no Cambodia. O Holocausto. A AIDS. No filme The Devil’s Advocate (O Advogado do Diabo), em que Al Pacino magistralmente encarna Satanás na pele de John Milton, um super bem sucedido dono de uma firma de conselheiros legais, há um momento em que ele, divagando sobre a luta pela supremacia do Bem contra o Mal entre ele e Deus, diz: Quem, em sua inteira razão, poderá negar que o Século Vinte foi inteiramente meu?

É claro que o vigésimo primeiro século ainda tem 78 anos pela frente. Pode ser que ainda se recupere e passe à História como um romance de Paz e Amor. Mas, esta análise só poderemos fazer a partir de primeiro de janeiro de 2101...

Oswaldo Pereira
Setembro 2022

3 comentários:

  1. Tomando de empréstimo o título do filme: "ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE"

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    1. Um caminho de altos e baixos. Afinal, assim somos: contraditórios e imprevisíveis. Ainda bem. Se assim não fosse, seria tudo uma grande chatice...

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  2. Excelente análise. Adorei!

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