quarta-feira, 16 de outubro de 2013

EDUCAÇÃO






Eu poderia dar-me o luxo de ser saudosista. Às vezes até sou. Mas, não gosto muito de ficar olhando só pelo retrovisor. Pensar no que o Brasil foi, ou pior, no que poderia ter sido, não adianta. Afinal, este é um país que não gosta de aprender do passado, desconfia da sua História, sente-se ligeiramente envergonhado de seu pedigree. Cansei de ouvir baboseiras como “Ah! se tivéssemos sido colonizados por este ou aquele povo”. Certa vez, num ônibus de turismo que fazia um tour pelo local da batalha dos Guararapes, ouvi do guia, que não parava de elogiar Mauricio de Nassau, uma pergunta retórica. “Já pensaram o que seria o Brasil se tivéssemos sido colonizados pelos holandeses?”, jogou ele no ar triunfalmente, sem na verdade esperar uma resposta. Mas, eu estava inspirado. Levantei o braço e gritei : “Eu sei, eu sei...” Achando que eu iria corroborar com seu ufanismo flamengo, declarando que certamente Recife seria Amsterdam, o guia alegremente deu-me a palavra. “Seríamos o Suriname!”, eu falei, para o silencio magoado dele e dos demais...

Não dá mais para ficar culpando a colonização portuguesa pela nossa situação, qualquer que seja ela. Daqui a oito anos comemoraremos dois séculos de independência. Mesmo que a influência do descobridor fosse totalmente desastrosa, já houve tempo mais que suficiente para termos revertido o possível dano. E, se pensarmos bem, Portugal não agiu diferentemente dos outros poderes europeus de sua época. E basta olhar o mundo colonizado de então, das Américas à África, ao Médio e ao Extremo Orientes e à Oceania. Quem daí conseguiu entrar no clubinho do Primeiro Mundo depois de conquistar sua identidade como país? A resposta vem logo: os Estados Unidos e o Canadá! Então viva os ingleses e os franceses... Um momento. A ocupação do Norte da América não foi fruto da exploração do governo inglês. No primeiro século da descoberta, o interesse da Inglaterra estava muito mais no lucrativo expediente de atacar os navios espanhóis que vinham da América do Sul cheios de prata. Grandes extensões de terra sem muita promessa de encontrar ouro ou pedras preciosas não estavam no seu cardápio. Quem acabou indo para lá foram os membros de uma dissidência religiosa. E foram para ficar, não para usufruir. O gelo do Canadá também só atraiu alguns valentes exploradores e comerciantes de peles. Alguém vai mencionar a Austrália. Pode até ser, mas isto não se deve certamente ao Império Britânico, que a usou como estabelecimento penal por mais de um século.

Do México para baixo, do Mediterrâneo Sul até o Cabo da Boa Esperança, dos desertos da Arábia ao Sudoeste Asiático e ao Pacífico Meridional, ninguém até hoje entrou na confraria das nações mais ricas, com melhor IDH.  Nem sheiks com petrodólares, nem os diamantes da África do Sul, nem a fortuna dos marajás. Estamos todos por ali, com as nossas mazelas endêmicas, grandes hiatos entre uma ínfima minoria milionária e o resto da populaça miserável, serviços públicos execráveis, infra-estruturas cambaleantes. Recentemente, a maioria se converteu a um regime democrático. Mas, Democracia requer Civismo, e Civismo requer Educação. Sem eles, o exercício do voto é apenas uma festa vazia, uma pose falsa para a mídia e para o mundo. Alguns professam que o caminho é mesmo esse, persistir, repetir, até depurarmos o processo e melhorarmos o padrão. Mas eu me inclino para o que uma vez disse o grande filósofo Millor Fernandes: É errando que se aprende...a errar.

Assim, enquanto não houver um compromisso continuado em considerar a Educação como prioridade absoluta, não há longo prazo de tentativas que nos leve para um patamar superior. Que necessariamente, nem precisa ser exatamente igual ao da Europa Ocidental, da América do Norte ou do Japão. Cada povo tem seu DNA próprio, sua idiossincrasia particular, seu jeito de ser feliz.  Somos um continente, como a Rússia, a China, a Índia. Jamais podemos pretender que o bem estar chegue da mesma forma e na mesma medida para todos os habitantes, como na Bélgica, por exemplo. Ou na Holanda. O que o guia pernambucano tentava visualizar é impossível. Recife jamais poderia ser Amsterdam. Mas poderá ser uma cidade sem crianças nas ruas, sem bairros deteriorados, com boa infra-estrutura sanitária e de transporte e um sistema eficiente de Saúde Pública. Como, de resto, assim também poderão ser todas as cidades deste país. Basta sair do círculo vicioso em que estamos enredados. Não é a Democracia que nos resgatará deste redemoinho perverso. É a Educação.

Oswaldo Pereira
Outubro 2013


5 comentários:

  1. É mesmo a educação que nos resgata! Apesar de todos os erros!

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  2. É isso Oswaldo
    nada se cria nem se transforma sem um povo educado. Você disse bem, somos uma ficção de democracia. Mas enquanto educação for apenas uma bandeira de políticos e não uma política séria, não iremos longe.
    Abraço
    Zé Correa

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  3. Anamaria Prado Barbosa16 de outubro de 2013 às 23:56

    Falou tudo. Gostaria que os políticos e educadores pensassem assim.
    Ana

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  4. Muito bem lançado, Oswaldo, estou inteiramente de acordo. Para mim, educação e democracia, mais do que compatíveis, se completam.

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  5. Tem muito brasileiro que vive dizendo que o Brasil é um pais jovem, que ainda esta engatinhando (isso em relação aos paises europeus) e também para justificar a falta de educação e outros atrasos do povo brasileiro, mas eu sempre respondo : "pois é, chega de engatinhar ; ja esta na hora dele aprender a andar ... !!!

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