segunda-feira, 15 de julho de 2013

CAMINHO



A paisagem ali estava. A mesma, ano após ano, virgem, intocada. Ninguém a ferira ou a acariciara durante as vezes sem conta em que ele, a intervalos regulares, passava para vê-la.

A cordilheira azulada ao fundo, o ondular das colinas de mesmo verde agreste, as árvores de sempre, envelhecendo aferradas ao solo eterno, matinalmente agitadas do vento norte, a serpente castanha do caminho de terra volteando a campina até perder-se de vista. Toda vez se perguntava “por que não o fizeram reto?” já que não subia nem descia e nem obstáculo algum lhe tolhia o destino.  Talvez não levasse a parte alguma. Nunca vira uma só alma palmilhá-lo, nem vindo nem indo. Também nunca se dispusera a percorrê-lo.

 Até hoje.

Hoje uma estranha urgência bulia-lhe o peito. Estranha porque o fazia sentir-se irrequieto, que era o avesso de seu humor normal, de costume ensimesmado e avarento de ilusões. Havia começado de repente, esta urgência, este sobressalto que lhe dizia baixinho “vai...a vida foge...anda...”

“Um pé à frente do outro...”, pensou, “ o que pode haver de tão arriscado nisto?...”

E assim ele começou.
Jamais andara por caminhos como aquele. Seus percursos na vida tinham sido cuidadosamente planejados, seguros e precisos, sem os acasos das curvas nem a dúvida das rotundas. O destino aparecia-lhe sempre à frente, desprovido de alarmes, domesticado pela vontade.

Olhou à frente. Respirou fundo. O ar que encheu-lhe os pulmões soube ligeiramente a funcho e manjerico. O perfume aumentou-lhe o alvoroço. E começou a andar.

Aos poucos, foi-se acostumando à rudeza das pequenas pedras que se misturavam à poeira do chão, uma que outra espetando-lhe o pé. Depois de algum tempo, já sentia prazer no caminhar resoluto, desfrutando o ar fino da manhã quase a pino, um sol gentil de primavera aquecendo-o com doçura.

Mas, o que na realidade o intrigara desde que dera os primeiros passos era o contínuo cambiar da paisagem, antes tão familiar. À medida que os volteios da estrada iam sendo percorridos, a perspectiva remexia os ângulos, revelava nuances inéditos que sua imobilidade anterior negava.

Assim, insuspeitados campos de flores passaram a surpreendê-lo, bosques aconchegados em pequenos regatos surgiam num aceno. Até a serra azul agora mostrava-lhe sua verdura pujante.

Pela primeira vez na vida, não sabia para onde estava indo. Mas ia, sem resistências maiores, ligeiramente inebriado pelo sabor do vento em seu rosto, pelas cores que salpicavam a campina. Ia, sim. E era bom ir.

À frente, houve chuva. Houve também sudoeste seco, escaldante como um simum do deserto. Geadas cristalizaram a relva das margens e depois derreteram-se como lágrimas que a brisa borrifou em seu rosto. Viveu as estações e os desatinos do tempo. Quando o céu se zangava, sentia um arrependimento ligeiro, logo afastado pelas estrelas que brilhavam limpas pela tempestade

Ao fim do caminho, nem precisou olhar para trás. Chegara. Nem pensou no que teria sido se tivesse permanecido no ponto de partida, na segurança da paisagem imutável, do amanhã assegurado por um pacto de submissão à sorte.

Estava queimado de sol, curtido de vento, rijo de tanto andar. Olhou em torno. Eram as margens de uma lagoa azulada, cercada de palmas, um oásis que se espreguiçava ao poente. 

Sentou-se, cansado mas feliz. E escreveu na areia.

“HÁ SEMPRE UM CAMINHO. SIGA-O, ANTES QUE DESAPAREÇA NO ONTEM. E, SE LER ESTA MENSAGEM, TERÁ AQUI CHEGADO E DESCOBERTO QUE A VIDA NÃO É PARA SER VISTA DE LONGE...”

Oswaldo Pereira

Julho 2013

Um comentário:

  1. Grande Oswaldo
    Tenho lido sempre seus textos que admiro muito, mas esse de hoje está especialmente bonito.
    Zé Correa

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