quinta-feira, 20 de junho de 2013

EXERCÍCIO DE CIDADANIA


 
 
 
 
 
Pois é, seu moço.

Eu venho aqui falar com autoridade. Legítima, clara e soberana. Conferida pelos cinquenta e dois anos em que à volta de 40% dos meus vencimentos, ganhos com esforço e dedicação, foram subtraídos pelo Governo antes mesmo que eu os recebesse. Pelas cinco décadas em que outros 30% me foram empurrados pela boca abaixo, ou pelo bolso afora, junto com os bens e os serviços que comprei para prover a minha família. Sete em cada dez das moedas que recebi em troca de meu trabalho escorregaram das minhas mãos, sob forma de imposto. Como, em algum momento desses anos, vivi em outras sociedades, pude constatar que os seus cidadãos também contribuíam para as suas administrações públicas e, em certa medida, quase tanto quanto eu.

Se achei que estava correto?

Para falar a verdade, nunca me deram a oportunidade de achar. Mas, sempre percebi que a grande proposta da distribuição de renda funcionava muito mais lá fora do que aqui. Lá, cheguei a ver excelentes sistemas públicos de saúde, de educação, de segurança e adequadas estruturas de transporte e energia. Sim. Lá fora parecia estar, se não correto, pelo menos adequado ao desejo do povo. Aqui, vi pouco deste retorno, desta mão dupla. Assim, das 3 moedas que me sobraram, quase todas foram usadas para adquirir o bem estar que o Governo me devia e não me entregou. Uma boa escola para os meus filhos. A segurança do meu lar. Um hospital onde eu não corresse o risco de morrer na fila.

O que eu fiz a respeito?

Durante muitos anos, esperei por D. Sebastião. Explico. O desaparecimento deste Rei em 1580, justamente no momento em Portugal atingia o ponto mais fulgurante de sua história, marcou para sempre a alma lusa. Como seu corpo nunca foi achado, a crença em seu retorno alimentou a esperança de que tudo ficaria bom de novo quando o Rei voltasse, vivo e inteiro. Portugal carregou este sebastianismo por séculos. Nós o herdamos. A situação iria melhorar sempre no futuro. O próprio país carregava este apelido – do Futuro. Iria ser com a eleição de Juscelino. Depois, com o Jânio. E, assim, sucessivamente, com vários dons sebastiões em sequência, o Parlamentarismo,  a volta do Presidencialismo, os militares, a anistia, o retorno da Democracia, as Diretas, o Collor, a nova Constituição, o PT...

Se fomos culpados?

Sim. Acho que, de certo modo, sim. Nós éramos os que pagavam as contas. E continuamos pagando enquanto o sistema político se transformava no monstro insaciável que é hoje. Não soubemos fazer uso da Democracia. Demos votos aos nossos pseudo-representantes com a indiferença de quem cumpre uma exigência chata. Demos votos aos de quem se dizia “rouba mas faz”, aos malufes, aos cacarecos, aos tiriricas. Deixamos aqueles que deveriam honrar suas promessas de campanha enclausurarem-se em seus castelos, construídos com a argamassa dos conchavos partidários, e erguerem as pontes levadiças que os afastaram da nossa realidade, das nossas reivindicações, se auto engendrarem imunidades que agora os tornam inatingíveis.  Deixamos correr. Mesmo quando a imprensa nos abria o baú viscoso de alguma maracutaia, esboçávamos uma justa repulsa. Depois bocejávamos entediados e íamos assistir ao futebol.

Se há solução?

Bem... há caminhos. Vi muita coisa nestes meus anos de vida. Duas ditaduras, uma Revolução, tentativas de golpe, uma renúncia, um impeachment. Vi multidões em ondas cantando hinos, gritando slogans. Fiz até parte delas, com a fé dos sonhos e a alma aberta. Mas, mudar o poder é complicado. Há vias rápidas, às vezes sangrentas. Tomar o palácio pela força tem sido, historicamente, privilégio de generais que acordam mais cedo e, às vezes até chamados pelo povo, vão apear o governo. Já vimos este filme, aqui e na vizinhança. Acho que não queremos uma reprise. Nem as forças armadas o querem. O desgaste foi grande e a história sombria.

Há a resistência fiscal, recusar-se a pagar os tributos, dentro da lógica simples de que, se esses tributos alimentam os salários que a organização pública recebe para prestar-nos serviços, e se esses serviços não são prestados, cessa a nossa obrigação de pagá-los. Só que a maioria dos impostos come o rendimento da classe trabalhadora na fonte, antes que cheguem aos bolsos. Mais estão embutidos nas faturas dos supermercados, nas contas de luz, de gás, de telefone. Sobraria a sonegação, entregar a declaração de imposto de renda em branco. Irmos todos para a malha fina. Teria de ser um compromisso nacional, todos ao mesmo tempo. Milhões de inadimplentes. Teríamos organização para isto?

Se quisermos, entretanto, optar pelo caminho da legitimidade, isto vai exigir o exercício da vigilância diária, que nos faltou nestes últimos tempos. O grande pecado da nossa sociedade foi ter deixado os nossos políticos se afastarem de nós, montarem livremente seu bunkers em Brasília, nas Assembleias Estaduais, nas Câmaras Municipais. Dividirem o Congresso, não em partidos com programas bem definidos, mas em bancadas de interesse dúbio e mãos pegajosas, untadas de corrupção. Onde estávamos nós todo este tempo? Por que só fomos capazes de demonstrar nossa ira quando íamos hostilizar os jogadores que haviam perdido um título, um técnico que não ganhara a Copa? Por que não fomos vaiar um deputado desonesto, que traiu o seu mandato, que cuspiu em nosso voto, nos aeroportos quando chega ou parte em viagens financiadas pelos nosso impostos, na porta de sua casa paga por nós, em frente ao seu automóvel comprado e abastecido com o nosso dinheiro? Por que não o alvejamos com tomates podres, como se fazia antigamente a maus atores? Por que não enchemos sua caixa eletrônica de e-mails enraivecidos cobrando uma promessa de campanha não atendida? Por que não o fazemos sentir, ele que lá está em seu cargo graças à nossa vontade e à nossa confiança, que estamos atentos e vamos cobrar, todos os dias, todas as horas?

Só aí, seu moço, as coisas começarão a mudar.

 

Oswaldo Pereira

Junho 2013

 

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