sexta-feira, 21 de junho de 2019

O TIRO QUE SAIU PELA CULATRA


Sempre que possível, prefiro ver os fatos em primeira mão. Sabê-los por segundas vias nos impõe o risco de encontrá-los eivados de interpretações e adições daqueles que os repassam. É o velho quem conta um conto aumenta um ponto.

Por isso mesmo, resolvi assistir ao vivo a atuação do Ministro da Justiça Sérgio Moro na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal. Apresentando-se de espontânea vontade, Moro suportou as quase 10 horas da sabatina a que 43 senadores (mais da metade do Senado) o submeteram sobre o assunto que ocupou todas as atenções políticas na última semana: a invasão dos celulares dos procuradores da Operação Lava-Jato, através do aplicativo Telegram, pelo site de hackers profissionais chamado The Intercept. Este site tem como administrador o americano Glen Greewald, que foi parceiro de Edward Snowden no Wikileaks.

Esta violação teria revelado conversas entre Moro, então juiz encarregado da Lava-Jato, e alguns procuradores, nas quais ele fornecia sugestões de ação e instruções investigativas nos processos da Operação, principalmente nos relacionados com a acusação a Lula da Silva.

Imediatamente, os partidários do ex-Presidente irromperam num frenesi de declarações, qualificando as conversas como um conluio criminoso entre juiz e agentes do processo e, indo mais além, exigindo a demissão de Sérgio Moro, a anulação de todas as fases processuais e, sonho de consumo da Esquerda brasileira, a libertação de Lula.

Numa atitude não muito comum, Sérgio Moro ofereceu-se a ir ao Senado explicar-se. E de sua prestação, nesta cansativa maratona de perguntas e respostas, pude constatar várias coisas bastante esclarecedoras.

A primeira foi a distinta superioridade intelectual, protocolar, republicana e objetiva de Moro sobre a grande maioria dos membros do colegiado que o arguia. Alguns senadores foram grosseiramente agressivos, outros até caricatos na sua falta de qualquer vislumbre de argumentação racional.

Depois, a sua firmeza e serenidade na recolocação do assunto nos seus devidos termos. A saber:

- as supostas gravações das aludidas conversas foram obtidas por hackeamento de telefones particulares de juízes e procuradores, o que, em qualquer país do mundo, é crime. Só esta circunstância já seria suficiente para as invalidar, porque obtidas ilegalmente, como prova;

- mesmo se admitidas, teriam elas de passar por um crivo de verificação que confirmasse sua autenticidade. Até onde se sabe, não há qualquer arquivo em audio, e sim transcritos das conversas, o que suscita a dúvida se o que lá está escrito corresponde à verdade.

Apesar disto, Moro, repetidamente, declarou que, mesmo que essas gravações fossem autênticas, não há nada em seu teor que configure qualquer ilicitude, pois o direito processual brasileiro permite que, durante a fase de instrução, juiz, procuradores e advogados de defesa troquem informações e sugestões sobre o processo.

No seu açodamento, no bojo de uma tempestade fabricada em copo d’água, a Esquerda pretendeu derrubar Moro com um tiro de festim. Que saiu pela culatra. O Ministro da Justiça, nesta reunião no Senado, saiu maior do que entrou. E vozes começaram a ser ouvidas de uma possível candidatura Moro para 2022...

Um último adendo.

Não tenho nada contra ideologias. Como formado em Direito e do signo de Libra, sou um ferrenho defensor da liberdade de opinião e de escolha. Aceito, e até tenho vários grandes amigos que assim o fazem, quem professa e crê no ideário social-comunista, embora pessoalmente tenha eu uma convicção diferente. Mas, não posso deixar de me colocar contra a postura que alguma Esquerda brasileira, principalmente na imprensa e da intelectualidade, vem adotando na veiculação de sua ira e sua histeria no exterior. Como estou em Portugal, tenho presenciado episódios em que informações mal-intencionadas e fantasiosas são deliberadamente divulgadas, mostrando uma imagem distorcida, tendenciosa e até grosseiramente falsa do nosso país. Exemplos?

No conceituado jornal O Expresso da semana passada, o não menos conceituado colunista e escritor Miguel Sousa Tavares vociferou contra Sérgio Moro por conta das denúncias acima comentadas, publicando que Moro “jaz soterrado sob um mar de lama que nenhum Lava-Jato poderá limpar.”  Fico imaginando em que fonte Sousa Tavares terá ido beber para escrever uma insanidade destas.

Outro dia, um sobrinho meu veio informar-me ter ouvido de alguém que, no Brasil, a Polícia Federal estava proibindo a emissão de passaportes para impedir a fuga de brasileiros para o exterior. Coisa de loucos...

Acho que a Esquerda brasileira precisa se reinventar. Se continuar neste processo de exercer oposição apenas como vingança e como defesa cega de um governo enleado em propinodutos, vai afastar-se cada vez mais da realidade, correndo o risco de se ver identificada com o crime e a corrupção.

Oswaldo Pereira
Junho 2019

terça-feira, 18 de junho de 2019

MEDO




“Real power is – I don’t even want to use the word – fear” (O verdadeiro poder é – eu até não quero usar a palavra – medo).

Esta frase foi dita por Donald Trump a Bob Woodward numa entrevista em março de 2016. E é a abertura do último livro deste, Fear, lançado no ano passado. Acabei de lê-lo, e posso confessar que fiquei com medo. Não no sentido que Trump quis dar, mas pelo que o relato de Woodward inspira, ou transpira, sobre a personalidade errática, imatura e instável do Presidente dos Estados Unidos.

Woodward é um dos mais premiados e respeitados jornalistas americanos. Sua fama começou há 48 anos quando, ainda um jovem repórter do prestigiado Washington Post, publicou, juntamente com seu colega Carl Bernstein, as reportagens que iriam desaguar no histórico escândalo do Watergate e na eventual renúncia de Richard Nixon. Seu livro sobre o acontecimento, All The President’s Men (Todos Os Homens do Presidente), transformou-se num dos maiores sucessos editoriais do mundo inteiro e acabou sendo levado para as telas. De lá para cá, Bob Woodward já publicou 19 livros sobre a cena política americana e extensas avaliações das administrações de Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Credenciais não lhe faltam.

O Donald Trump que emerge das suas páginas é um indivíduo quase paranoicamente egocêntrico, avesso a conselhos e opiniões alheias, desrespeitoso com assessores e perigosamente impulsivo nas decisões que toma. Como a maioria dessas decisões carregam em si o peso de mexer com a ordem mundial, avalie-se o risco. Contra a recomendação da quase totalidade de seus secretários e conselheiros civis e militares, gente da melhor competência que foi cruelmente destratada por ele, Trump tem rasgado acordos, insultado aliados, quebrado protocolos da liturgia do cargo, abusando do impromptu em seus contatos com a grande imprensa (a quem acusa de persegui-lo) e nas explosões às vezes infantis que despeja nos seus twitters.

No primeiro capítulo de Fear, Woodward relata a fixação de Trump na extinção do KORUS, o acordo entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, firmado há mais de 50 anos. O dinheiro gasto na manutenção de 28.000 soldados americanos na península e um generoso favorecimento comercial aos coreanos eram as razões do Presidente. Muito embora sua assessoria em mercado internacional e os chefes militares tivessem contra argumentado que o preço era pequeno dado o acesso que, pelo acordo, os americanos tinham à inteligência sul-coreana e à possibilidade de detectar o lançamento de mísseis da Coreia do Norte em apenas 3 segundos (versus 15 minutos na base de Portland, no Alasca), Trump bateu o pé. Mandou preparar a carta de revogação do KORUS. Que só não foi assinada porque seu secretário particular retirou-a da pilha de papéis da escrivaninha do Salão Oval, valendo-se de outra característica da personalidade do Presidente. Trump tende a esquecer rapidamente das suas instruções, não tem agenda e nem sentido de follow-up. O KORUS continua em força até hoje.

O livro termina em meados de 2018. Desde então, temos presenciado a guerra comercial com a China, a briga com a NATO, as idas e vindas dos encontros com Kim Jong-un, as ameaças ao México, a denúncia do acordo nuclear com o Irã, a marcha do inquérito sobre a influência dos hackers russos no processo eleitoral. Rajadas de vento que perturbam as águas da estabilidade global.

No ano que vem, novas eleições presidenciais. Paralelamente a tudo o que Woodward nos mostrou, os Estados Unidos estão crescendo a níveis mais altos do que nos anos anteriores e o desemprego caiu significativamente. Será o suficiente para que o eleitor americano queira repetir a dose?

Oswaldo Pereira
Junho 2019

domingo, 9 de junho de 2019

DESTINOS CERTOS: ESCÓCIA




O sol pouco aparece. E, quando o faz, nos acena de longe. O vento, este está sempre presente, o bastante para revoltar os cabelos e entortar guarda-chuvas mais baratos. E a chuva. No decorrer de uma típica hora primaveril escocesa, os três se vão revezar sucessivamente. Preparados para tudo, é assim que devemos andar pelas charmosas ruas de Edimburgo. A melhor previsão dos humores do tempo termina sempre com a palavra “mixed”. Ou seja, um pouco de tudo.

Mas, esta é a proposta. A capital e o país ficam melhor assim, emoldurados pelas nuvens eternas, molhados pela garoa fina que produz campos de um verde infinito, afagados pela ventania que serpenteia nas passagens estreitas e pelas praças. Assim é a Escócia, uma terra de tradições arraigadas em seus magníficos vales, de gente empedernida e forte como os rochedos de sua costa nortenha, de rebanhos em pastagens de infinita verdura, de uma história povoada de heróis e lendas.

E a história está em todo lugar por onde se ande.

Ocupada pelos romanos no século I, a região entrou na Idade Média povoada pelos celtas, cuja cultura predominou sobre a influência de algumas tribos menores e as sucessivas invasões viquingues. Mas foi a permanente turbulência de seus conflitos com os anglo-saxões ao sul que desenhou a principal característica de sua crônica medieval. Foram várias batalhas, vários confrontos, que eternizaram os nomes de William Wallace, de Robert the Bruce, de Rob Roy. A sua própria independência viu-se, às vezes, posta em causa pela rivalidade dos clãs. E pela disputa enraivecida entre Elizabeth I e Mary Stuart. Finalmente, no início do século XVIII, a Escócia uniu-se à Inglaterra na criação do Reino Unido. E lá está até hoje.

Edimburgo
CASTELO DE EDIMBURGO

Com cerca de 550 mil habitantes e uma área histórica concentrada, Edimbra, como a chamam os da terra, é uma cidade ideal para se andar a pé.  Da Princess Street, onde está o melhor da zona comercial, até a extensa rua chamada Royal Mile, é um pulo. E dali é só subir em direção ao Castelo. Construído em cima de um vulcão extinto chamado Castle Rock (e aí, galera do Game of Thrones, já viram onde George Martin foi buscar inspiração?), é o ícone turístico da cidade. Vale o passeio, a vista e a história encrustada nas pedras negras dos muros e das ameias. Dentro, estão dois museus militares e um memorial, testemunhas do envolvimento escocês nas batalhas travadas pelo Reino Unido. Só nas duas guerras mundiais, foram mortos mais de 180.000 filhos da terra.

Perto fica a impressionante Catedral de Saint Giles. Um pouco mais para leste, o Palácio de Holyrood, onde Mary Stuart viveu o período mais determinante de sua vida. Lá, ela tentou ser rainha. Não conseguiu. E, como ninguém é de ferro, depois de encharcados de história e salpicados pela chuva, nada melhor do que um acolhedor pub e um copo do supremo tesouro nacional. O whisky.

Esta mistura de cevada, água e fermento, processada por destilação, apareceu na Escócia lá pelo final do século XV. Seu primeiro registro é uma encomenda feita a um frei chamado John Cor para fabricar 500 garrafas de uisge beatha, o nome celta para água da vida. De início, só os mosteiros tinham autorização de produzir a bebida para uso medicinal. Entretanto, como o remédio era bom demais, logo um mercado mais imaginativo foi surgindo e os saxões, que não conseguiam falar corretamente uisge beatha (pronuncia-se uishguebau), o simplificaram para seu atual nome. Hoje, existem mais de 90 grandes destilarias na Escócia.  E um mercado planetário.

Highlands
A população da Escócia é de 5,4 milhões de habitantes, fortemente concentrada na parte central do país, no eixo Edimburgo/Glasgow. Isto faz com que nas outras regiões existam grandes espaços verdes. Viaja-se por largo tempo sem se ver uma povoação. Só pastagens. E ovelhas, carneiros e vacas.

Nas Highlands, as Terras Altas, que compõem a parte setentrional do país, não é diferente. Aí também estão os glens, os acentuados vales, desenhados entre picos sempre enevoados, que nos trazem os contos de clãs em eternas disputas territoriais, suas lendas medievais, seus castelos misteriosos, seu vento cortante. Também aí estão os lochs, os lagos de água impenetrável. É quase obrigatório um passeio de barco no Loch Ness e curtir a esperança de ver o mítico monstro emergir da superfície escura.

LOCH NESS

 Scottish Borders
É a região fronteiriça. Com a Inglaterra, claro. E, por isso mesmo, o cenário dos grandes conflitos dos escoceses com seus incômodos vizinhos. Como não há qualquer grande obstáculo natural entre os dois países, os embates eram frequentes, determinados pelo incessante desejo dos saxões em dominar o norte da ilha. No final do século XIII e no início do seguinte, este desejo era personificado pelo rei inglês Eduardo I. Mas, seus sonhos foram contrariados por dois legítimos heróis. William Wallace e Robert the Bruce. Nas batalhas de Sterling Bridge e Banockburn, os escoceses levaram a melhor e reafirmaram sua independência. Os sítios históricos estão abertos à visitação.

Se quisermos visitas mais amenas, há dois edifícios religiosos merecedores de uma vagarosa descoberta. Um, é a Capela de Rosslyn. Fundada em 1446 por Sir William St. Claire e dotada de um minucioso trabalho em pedra em seu interior, cheio de figuras intrigantes e de simbolismo quase esotérico, a capela ficou ainda mais famosa depois que o escritor Dan Brown a incluiu na parte final de seu livro “O Código Da Vinci”.
 
ROSSLYN CHAPEL
Outro, é a Abadia de Melrose, construída no início do século XII pelos monges cistercienses e onde foram enterrados vários reis escoceses. Afirmam que uma caixa contendo o coração de Robert the Bruce está lá. Em algum lugar.

Esta é a Escócia que vi. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Junho 2019

quarta-feira, 22 de maio de 2019

THE END




Já que acabou a mini “quarentena” de três dias após o término do último episódio e que entrados estamos no período aberto a spoilers, chegou a hora das avaliações.

Como todos os meus parcos, mas abnegados, leitores já sabem, eu fui (e sou), desde a primeira hora, um juramentado seguidor da mais badalada série televisiva de todos os tempos. Assisti a todas as temporadas (a maioria delas vi e revi) e li todos os cinco livros da obra que as inspirou, A Song of Ice and Fire (Uma Canção de Gelo e Fogo), magistralmente escrita pelo “bruxo” George R. R. Martin.

Game of Thrones bateu todos os recordes de audiência em todo o planeta e conseguiu envolver milhões de fãs na teia de um fervor quase religioso. Foram muitos os polos de atração. Primeiro, o cenário. As brumas da Idade Média sempre tiveram seu lugar mágico no imaginário das gentes, com seus castelos, reis, rainhas, duendes, cavalos e lanças. GOT acontece numa Idade Média milenar, desenrolada numa tapeçaria de brasões, cavaleiros, feiticeiras e dragões. Depois, o fumegante caldeirão de conflitos humanos, onde uma luta insana pelo Poder desperta toda a gama de sentimentos, do amor ao ódio, da lealdade à traição, da submissão à vingança.  Em terceiro lugar, o roteiro rápido, de diálogos candentes como flechas de fogo, a trama inquieta que aniquilava sem dó nem piedade personagens pelos quais começávamos a torcer. A frase em Alto-Valiriano, Valar Morghulis (todos os homens devem morrer), uma espécie de mantra basilar da série, nunca foi levada tão a sério. A seguir, jogue-se em cima disto tudo fartas doses de sexo, onde abuso, incesto, prostituição e homossexualidade derramavam-se sobre a linha mestra da história como um complemento natural. Afinal, era Idade Média ou não? Finalmente, amarre-se este pacote todo numa embalagem visual jamais vista num trabalho para a telinha.  A Direção de Arte de Game of Thrones ganhou, merecidamente, todos os prêmios à disposição. De cenas de alcova até os campos de batalha, passando por desfiladeiros gelados, mares em procela, desertos de pedra, campinas bucólicas, cidades entre muros e salões reais, imagens, cores e detalhes contribuíram, e muito, para o monumental sucesso da produção.

E então, após 8 temporadas e nove anos, eis-nos frente à frente com o episódio final. Os cellos da abertura pareceram até mais pesados e mais solenes que o normal. Seria a derradeira vez que ouviríamos a vinheta musical no início de um capítulo inédito.

Mas, antes de aí chegarmos, a oitava temporada já havia causado torcidas de nariz. A rigor, desde quando os produtores David Benioff e D. B. Weiss haviam ultrapassado o último livro escrito por Martin na sexta temporada (Martin parou no quinto livro. Segundo ele próprio, por preguiça...), que algumas tribos de seguidores já haviam reclamado. Agora, entretanto, as vozes aumentaram. Acho natural. Ao longo de todos esses anos, cada um de nós foi criando sua versão própria para o desfecho. E, à medida que o roteiro daí se desviava, uma certa decepção cutucava a audiência.

Assim, mesmo tendo sentido um leve tremor na minha fé de admirador em algumas cenas do quinto episódio (achei a luta entre Jaime Lannister e Euron Greyjoy muito faroeste demais e a reação final de Cersei meio incompatível com o caráter delineado ao longo da trama), cheguei ao capítulo sexto com minha devoção intacta.

E não me arrependi.

Cheio de simbolismos (inclusive com a engraçada apresentação de Samwell Tarly a Tyrion Lannister de um livro intitulado A Song of Ice and Fire...) e citações históricas (a cena de Daenerys Targaryen proclamando que iria conquistar o mundo, de cima de um palanque e com os Imaculados formados embaixo, enquanto uma chuva de cinzas cai, lembrando Hitler e os fornos crematórios), o encerramento deu-se num tom intimista e solene. Se pensarmos bem, cada um teve o destino que procurava ou merecia, inclusive a Mãe dos Dragões. A cena final, com Arya Stark, talvez a personagem mais forte da saga, partindo para o desconhecido e para o futuro é bastante emblemática. E abre a porta para um universo de spinoffs.

Que, espero, não aconteçam. Acho que George Martin pensa igual...

Oswaldo Pereira
Maio 2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

CENÁRIO DE GUERRA



Atravessa-se o Atlântico e é como se um protetor de ouvidos amortecesse os sons. O eco das vozes enraivecidas perde-se na distância, ainda que o Face insista em avivá-las. Mas, apesar da lonjura arredondar as imagens, é na relativa quietude política de Portugal que se evidencia a excessiva polarização da vida partidária brasileira.

Não que aqui seja uma mansidão republicana. Este é um ano de eleições legislativas, aquelas que decidem a formação do Parlamento e, por consequência, quem vai ocupar o cargo de Primeiro Ministro. Há várias décadas, Portugal vem sendo governado por um pêndulo que oscila entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD). Em que pese alguma divergência, principalmente na escolha das alternativas fiscais e orçamentárias, há uma grande convergência na adoção da social democracia, regime, aliás, de eleição de quase todos os países do bloco europeu. Os partidos à esquerda e à direita desse espectro servem apenas como contraponto e têm um breve protagonismo quando compõem alianças com os partidos maiores.

É claro que há discursos inflamados, acusações de má administração de parte a parte, embates no Congresso, tricas e futricas na imprensa. Mas a margem de antagonismo é estreita. No fundo, os princípios básicos da organização do Estado e o arcabouço do funcionamento da máquina governamental não estão em causa. O ajuste é fino, o balançar do pêndulo de somente alguns graus.

Comparado a isto, o Brasil é hoje um cenário da Grande Guerra. O campo das opiniões é um teatro de trincheiras opostas, que se encaram no dia a dia das redes sociais. Há tiroteio entre partidos, morteiros cruzando o ar no Judiciário, sabotagens e artilharia pesada em vários escalões, terrenos minados por toda a parte.

Só que, contrariamente à Primeira Guerra Mundial, terminada em novembro de 1918 com a vitória da França e seus aliados, a nossa, do jeito que está, não terá vencedores. Mas, certamente, terá um perdedor. O Brasil.

Oswaldo Pereira
Maio 2019

quinta-feira, 2 de maio de 2019

TORCIDA CONTRA



O brasileiro continua me surpreendendo. Dois recentes episódios de nossa cena pública deixaram-me aturdido e extremamente confuso na hora de explicar o país àqueles que não são de cá.

No primeiro, o Presidente Bolsonaro pediu à Petrobrás que adiasse o reajuste de 5,7% do óleo diesel, com receio de que o aumento provocasse nova insatisfação nos caminhoneiros. É bom lembrar que, no ano passado, uma greve prolongada do setor causou imensos problemas ao país, como desabastecimentos e perdas na produção e na exportação, inclusive sendo responsável pela redução do PIB. Imediatamente, imprensa e oposição levantaram-se contra Bolsonaro, acusando-o de “intervencionismo” e, como numa reação esperada do mercado, as ações da empresa caíssem, de ter causado um “prejuízo” de R$32 bilhões à Petrobrás. Até Miriam Leitão, uma reputada colunista de Economia, abriu suas baterias. O que muito me espanta, porque é inadmissível que uma jornalista desse calibre confunda movimentações do mercado de ações com perda efetiva. Dias depois, as ações haviam retornado aos patamares normais. O interessante é que nunca vi Miriam Leitão vociferar contra o saque perpetrado pelo PT, que desviou (isto sim, um real prejuízo) bilhões de dólares dos cofres da empresa.

No segundo, Bolsonaro, num encontro com representantes do agronegócio, sugeriu (até em tom de brincadeira, como ele próprio definiu no momento) que o Banco do Brasil diminuísse os juros dos empréstimos bancários aos agricultores. Nova reação enfezada da imprensa e da oposição.

Mas, a redução dos preços do combustível e no valor dos juros não foi sempre uma reivindicação do povo? Por que, diabos, estão contra?

Em outra polêmica, vários setores insurgiram-se contra a declaração de Bolsonaro, em que ele determinou a flexibilização da posse de armas para os proprietários agrícolas, num país em que o MST (Movimento dos Sem Terra) tem protagonizado invasões de terras produtivas e ocupadas por seus donos. Esqueceram-se de ler o Código Civil. Lá está consagrada a autotutela territorial, isto é, a prerrogativa legal que todo proprietário tem de defender seu próprio imóvel contra esbulhos, ameaças e ataques, inclusive pela força (tá lá escrito, é só conferir).

É pena constatar que há milhões de brasileiros que torcem contra, que querem ver o circo pegar fogo, que professam o “quanto pior, melhor”.

Isto não pode dar certo. E fica difícil de explicar.

Oswaldo Pereira
Maio 2019

domingo, 28 de abril de 2019

DÚVIDAS EXISTENCIAIS




Depois de uma certa idade, a vida parece escorrer. Passados os tsunamis da adolescência, as marés vivas da juventude e as procelas e bonanças da maturidade, a última idade chega com seu marulhar constante, em que apenas percalços de saúde podem estremecer o regular fio d’água do dia-a-dia.

Assim é, e assim deve ser. Faz parte do roteiro que nos foi imposto por um deus severo, que escamoteou o grande desejo da criatura por ele mesmo criada. A perpetuidade. Definidos como finitos, vivemos nossos ciclos. Na melhor das hipóteses, conseguimos viver todos eles. Nascimento, crescimento, apogeu, declínio e morte.

Não sei como será nos outros planetas, mas posso adivinhar que esta lei vale para todos os seres existentes no universo. Tudo o que há, mais cedo ou mais tarde, deixará de haver. Por expansão ou por regressão, seremos apenas capítulos de uma gigantesca história, cujo propósito escapa ao nosso entendimento.

É claro que há, dentre nós, os que não se deixam inquietar com isto. Abençoados por uma fé religiosa, creem nas decifrações desse propósito e entendem que este universo, todo ele, nada mais é que a preparação para uma eternidade em outro plano, aí sim o destino final do ser inteligente. Daí pode inferir-se que só os seres capazes ter esperança, ou seja, somente os homo sapiens, ou que nome tenham pelas galáxias afora, poderão lá chegar.

O problema é quando você é dotado de discernimento bastante para esperar, e não crê nas explicações da fé. Assim, a certeza da finitude parece uma grande injustiça. Por que me deram as asas do sonho, se me proíbem de voar? Por que me foi dada a visão da eternidade, se jamais lá chegarei?

E aí, as coisas complicam ainda mais. Injustiça é um ato. E um ato exige um agente. Quem? Todas as religiões têm o mesmo nome para ele. Então, ou você admite Deus, ou terá de se conformar com a suprema aleatoriedade de tudo.

Dá para dormir com um barulho destes?

Oswaldo Pereira
Abril 2019