segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

CHUVAS



É só fevereiro, e duas bofetadas do destino já explodiram no rosto de um Rio de Janeiro que resfolegava no verão mais quente de sua história. Um aviso? Um castigo? Ou, na sua simplicidade seca, apenas o resultado de um “país sem alvará”, como muito bem definiu o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos.

Na sua febril procura por culpas no varejo, o carioca e, por extensão, o brasileiro, toda vez que uma tragédia nos golpeia, saem à caça de responsáveis. Na maioria das vezes, é uma caça desordenada, e de pouca duração. Na maldição de nossa memória curta, passado o estardalhaço da raiva, esqueceremos, como esquecemos de Mariana até acontecer Brumadinho, da Chapecoense até acontecer o Flamengo, de Nova Friburgo até acontecer o Vidigal.

No caso das chuvas da semana passada, a síndrome persiste. Procuraram-se réus na atual Prefeitura, na Defesa Civil, no Serviço de Meteorologia. Têm sua parcela de culpa? É claro que sim, mas se os que acusam prestassem um pouco de atenção e calibrassem mais sua justa revolta, poderiam ver o óbvio.

Um temporal como o da última quarta-feira traria graves transtornos a qualquer grande cidade. Há dois anos, passei por uma tempestade semelhante em Berlim. A capital alemã virou um caos. Engarrafamentos monstruosos, ruas interditadas, alagamentos por toda parte. Mas, a diferença entre lá e cá não foi a superior qualidade dos serviços públicos berlinenses.

Uma diferença foi a topografia. Berlim é plana como um tabuleiro de xadrez. O Rio esgueira-se entre as montanhas e o mar. O que o faz uma maravilha da natureza, condena-o a sofrer os horrores das enxurradas em dilúvios estivais.

Mas, a segunda, e enorme, diferença, é a ocupação criminosa, ilegal e desenfreada dos morros cariocas. Temos as maiores favelas urbanas, agora eufemisticamente batizadas de “comunidades”, do mundo. São milhares de casas, barracos, “puxadinhos”, pequenos prédios, estabelecimentos comerciais precários, armazéns clandestinos construídos em terrenos invadidos, levantados em cima de declives sem qualquer precaução, criando vielas íngremes e tortuosas, escadarias improvisadas, becos para onde o lixo é atirado com abandono. Tudo sem planejamento. Tudo à margem dos registros imobiliários, dos impostos e da fiscalização. Tudo deixado ao acaso.

E tudo isto cresceu ante os nossos olhos plácidos. Tudo isto recebeu o aval cúmplice de Prefeitos e Governadores eleitos pelo nosso voto inconsciente e descuidado. Se prestarem mesmo atenção, as consequências mais gravosas destes destemperos climáticos ocorrem exatamente onde habitações tornadas vulneráveis por sua localização de risco e fragilizadas por sua construção primária são abatidas pela fúria das corredeiras de suas vielas estreitas.

Nem todo o aparato dos órgãos de defesa civil de Berlim, ou, mesmo, de qualquer outra cidade do mundo civilizado, seria capaz de remediar uma situação tão dramática quanto a do Rio, numa noite de horrores como a do dia 6 de fevereiro.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2019

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

LAMA




A cena, por todo o drama impiedoso que carrega, traz uma sensação de desamparo. Repetida vezes e mais vezes nestes últimos três dias, nos afunda numa tristeza surda, mesclada de uma raiva impotente.

É a cena dos helicópteros trazendo, um a um, os corpos das vítimas do desastre de Brumadinho. A cada um que pousa, trezentas famílias entram num transe dolorido. São famílias que ainda falam de seus parentes desaparecidos no presente, na esperança doida de que sejam resgatados com vida. E aquele helicóptero pode estar trazendo o fim deste presente e o esfacelamento do futuro. Vai restar apenas o passado. Momentos compartilhados, de repente, na última sexta-feira, um convite, um beijo, um programa, um sonho.

Como pôde isto acontecer?

A culpa é imensa, maior que a lama cruel que escorre da barragem desfeita. A lista engloba empresas e governos, incompetências e descuidos, cálculos errados e avaliações enganosas, ganâncias e descasos. A rigor, esta lista deveria imputar nomes. Empresas e governos são feitos de gente, de políticos e funcionários, públicos e privados, cuja responsabilidade no desastre tem de ser revelada, cujas decisões têm de ser examinadas à luz do terror desencadeado, da perda de vidas, da destruição da propriedade, do crime ambiental.

De propósito, deixei de fora, no parágrafo anterior, a palavra mais importante. A palavra que faltou na tragédia precedente de Mariana. De três anos para cá, a empresa Samarco, responsável direta, num evento semelhante, pela destruição da cidade de Bento Rodrigues e pelo maior desastre ecológico ocorrido no país, com a poluição quase terminal do Rio Doce, vem protelando, com sucesso, as decisões processuais. Das 26 multas que recebeu, está pagando apenas uma, em suaves prestações. Ninguém, até hoje, foi condenado e preso.

Pois é. A palavra que deixei para o final é PUNIÇÃO. Sem ela, nada adianta. Sem ela, os helicópteros nunca pararão de trazer sua carga funesta, a lama continuará escorrendo e engolindo sonhos, a Natureza ficará mais ferida, o presente perderá seu futuro e nós choraremos mais.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019


terça-feira, 22 de janeiro de 2019

PAPO DE BAR: ÀS ARMAS...




«Prá que que eu fui voltar...»

«Antonia! Mal chegou e já está reclamando?»

«Pois é, não estava mais aguentando o Trump. E depois da derrota do PT, resolvi voltar para o Rio. Mas, mal chego...»

«Qual é o problema? Você não sente a renovação no ar? Menos ministérios, pessoas técnicas em suas áreas substituindo as indicações políticas, enxugamento da máquina, reformas sendo propostas... Não é um começo saudável?»

«É... pode ser... mas esta da liberação das armas me derrubou. Que insensatez é essa?»

«Insensatez?! Prá começo de conversa, o que houve foi uma flexibilização maior de um direito que sempre existiu. A posse de armas nunca foi proibida, desde que atendidos os regulamentos de registro e propriedade. Pensando bem, a nova legislação até aperfeiçoa o que antes havia. Agora, o cidadão tem de ter seus antecedentes examinados, precisa fazer um curso de uso da arma, tem de ser morador em áreas estatisticamente perigosas. É um avanço.»

«O inferno está cheio de boas intenções, Cezar. Você acha mesmo que este protocolo todo vai ser observado tintim-por-tintim? Como diz o Batman, santa ingenuidade...»

«Ora, por que não acreditar? E não me diga que você concorda com a situação que temos, os bandidos com um bruto arsenal e a sociedade desarmada?»

«Claro que não concordo, mas o que se está fazendo é uma inversão de valores. É como aquela história de dois garotos preparando-se para uma briga. Um deles tem um porrete nas mãos. O que você faz? Tira o porrete da mão dele, ou dá um porrete também para o outro? O que podia ser uma briguinha de socos e pontapés transforma-se numa coisa muito mais violenta e perigosa... O que o Governo tem de fazer é acabar com a bandidagem e garantir a segurança do cidadão comum.»

«Não me venha com fábulas. A bandidagem, como você chama, não acaba assim, de uma hora para outra. É evidente que o Governo também vai ocupar-se disto, mas leva tempo. Tem de se tentar tudo para assegurar a defesa do povo. Dar-lhe um meio de se defender pode inibir as ações de violência da criminalidade.»

«É, mas em compensação, a violência doméstica pode aumentar. Com o feminicídio nos níveis em que já está, o que impede um marido bêbado de usar seu revólver contra a mulher ou, numa discussão acalorada de uma reunião de condomínio, um cabeça quente ir até seu apartamento e voltar com um pau de fogo na mão? O povo, que você quer ver defendido, não é composto de santos justiceiros e bem-intencionados. É gente, às vezes com os nervos à flor da pele. E, please, não me venha com a alegoria do liquidificador do Lorenzoni...»

«Bem, o que ele quis dizer é que a culpa da violência não é só da arma. Quando o indivíduo é mau, ele irá praticar um ato violento com ou sem arma. Por outro lado, o cidadão de bem, armado, terá a chance de se defender e proteger sua residência.»

«Agora, você me confundiu. Você acha mesmo que o seu cidadão de bem, mesmo com suas eventuais aulas de tiro, vai ter alguma chance contra um bandido que entra na sua casa? O ladrão convive diariamente com a sua arma. É sua ferramenta de trabalho. E você, no recesso de seu lar, não anda todo o tempo com a sua na cintura, feito um cowboy. O bandido já entra com a dele na mão. E se você tiver crianças em casa e, de acordo com a nova legislação, for obrigado a guardar a sua em um cofre? Imagine a cena. Ó seu ladrão, espere um pouquinho enquanto eu acerto a combinação do segredo e...»

«Você, então, é adepta do nunca reagir, política adotada nestes últimos anos... E que nos trouxe à situação de hoje, uma sociedade com medo, à mercê de qualquer borra-botas, às vezes até desarmado, que infunde um terror tão grande que as pessoas entregam tudo sem discutir...»

«Não sei, não sei... Tem de haver uma solução. Só acho que esta não vai funcionar.»

«Vamos ver. As estatísticas vão nos dizer...»

«Desde que nós dois não façamos parte delas...»

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

SOCIALISMO?




É claro que o comprador da casa sabia. Os comentários do bairro apontavam graves problemas de estrutura, de canalização, da parte elétrica e do telhado. Falavam também que o dono estava devendo impostos e que os empregados não recebiam salário há meses.

O proprietário, entretanto, negava tudo. Está tudo em ordem, declarava. Se há problemas, eles são de pequena monta e estão em vias de solução, era o que dizia. E o comprador resolveu fechar negócio. Quando dias mais tarde entrou na casa, percebeu que o buraco, além de ser mais embaixo, era maior, muito maior...

Esta pequena estória é o Brasil de hoje. O que o Governo Bolsonaro está descobrindo é um descalabro acima dos piores sonhos, um pesadelo de dimensões bíblicas. E é com muita propriedade que os novos gerentes nacionais afirmam que vão ter muito mais o que desfazer do que na realidade fazer.

Muito além da nossa constatação do dia-a-dia, em que somos massacrados pelas notícias de uma saúde pública na UTI de corredor de hospital, de uma educação que forma, na melhor das hipóteses, analfabetos funcionais, de ruas dominadas pela bandidagem, onde há um toque de recolher imposto pelo medo, há números que pintam um quadro de terror e de abandono. Por exemplo.

28% da população nacional vive abaixo da chamada linha da pobreza, isto é, têm um rendimento mensal menor que um salário mínimo (US$270). Nas regiões Norte e Nordeste, este percentual chega a 45% e 43%, respectivamente. No país todo, são 56 milhões de pessoas. Destas, um terço está na miséria profunda, sobrevivendo (?) com menos de US$10 por mês. É o nível da fome.

Após 16 anos de governo socialista, a desigualdade atinge patamares intoleráveis. 1% detém 25% da renda nacional. Os 5% mais ricos ganham mais do os outros 95% somados. 0,1% concentra 48% da riqueza pátria. Dos 26 estados, 22 estão quebrados. Há mais de 60 milhões de brasileiros inadimplentes, e o desemprego ronda os 12%.

Há dias, Cacá Diegues, o cineasta, escreveu um artigo onde discordava do momento do discurso de posse de Jair Bolsonaro, em que ele proclamava o fim do socialismo no Brasil. Cacá argumentava que aquilo que tivemos nos últimos 16 anos não foi socialismo.  Concordo. O que tivemos foi outra coisa.

Foi o descaso com a coisa pública, os petrolões e os mensalões utilizados para manter o poder a qualquer preço, os infindáveis propinodutos desviando os recursos das escolas, dos hospitais, dos transportes, da segurança e enchendo bolsos, malas e contas bancárias espúrias. Foi uma crônica obscena que, desde Brasília até o mais recôndito município, canta a vitória da corrupção, este monstro cevado na impunidade assegurada por grande parte de um judiciário atento, não ao mérito, mas aos intrincados meandros de uma legislação benevolente.

Assim está a casa. Vamos ter de rezar pelo comprador...

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019


domingo, 6 de janeiro de 2019

JANUS





Fiquei aguardando a poeira de 2018 baixar. Mesmo assim, reconheço que ainda é próximo demais para avaliar um ano, mormente um ano tão complexo como o que terminou há dias. Como as grandes vidas, só o distanciamento do tempo dá a correta medida de sua análise, de sua compreensão e de seu julgamento. Mas, não custa arriscar...

Há dias, li algo sobre o deus Janus, a divindade romana que acabou por batizar o nosso mês de janeiro. Janus tinha duas faces, que olhavam para direções diametralmente opostas. Para o passado e para o futuro. Assim, ninguém melhor para caracterizar o momento em que deixamos para trás um caminho percorrido e encaramos a estrada à frente.

Pois eu acho que 2018 teve um pouco de Janus.

Donald Trump chega à metade de seu mandato. Nos primeiros dois anos, teve um Congresso republicano apoiando-o. Não tem mais. A maioria democrata vai dar um novo ritmo ao seu Governo, cortando suas asas de pavão. Ou se enquadra, ou viverá um pesadelo que durará vinte e quatro meses.

Francisco chegou ao limite de sua irritação com a pedofilia de batinas e partiu para o confronto com o clero que a protegia. Vai bater de frente com anjos negros e demônios de púrpura, mas a história recente da Igreja Católica vai virar uma página.

As duas Coreias, de costas uma para a outra desde 1950, resolveram virar-se e dar as mãos. É claro que falta muito para uma convivência franca, mas é um começo. China, Rússia e Estados Unidos dão tratos à bola para tentar entender o novo mapa da península.

A Comunidade Europeia esgotou sua paciência com o Reino Unido. Não tem mais vem cá meu bem. É o Brexit de acordo com as leis que o regem. E os ingleses perderam o sangue frio e a fleugma que tanto os caracterizavam. E vão perder muito mais.

E aqui em Pindorama, precisa dizer alguma coisa? O improvável virou mito, a mídia das campanhas migrou para o WhatsApp, o brasileiro resolveu regurgitar todos os sapos que engolira em 16 anos. Deu no que deu. E vai dar mais. Imensamente mais.

Então, ao contrário de alguns anos, como 1968, sobre os quais corre a lenda de que ainda não terminaram, 2018 acabou. MESMO.

Salve 2019.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019

domingo, 23 de dezembro de 2018

NATAL 2018






FELIZ NATAL PARA TODOS!

AOS MEUS ABNEGADOS LEITORES, DESEJO UM NATAL CHEIO DE PAZ & AMOR

E, PARA NÃO PERDER A TRADIÇÃO, AÍ VAI MAIS UM

 CONTO DE NATAL 




“24 de dezembro. Oito da noite. Uma vila no norte da Estragônia Setentrional.

«Não acredito, não acredito, NÃO ACREDITO!!»
O pai e a mãe entreolham-se. E depois, olham para o filho, sete anos, na mais completa contestação. O pai tenta argumentar.
«Mas, filho, é claro que ele existe. Quem é que você acha que coloca os seus presentes ao pé da árvore, na noite de Natal, enquanto você dorme? E quem...»
O filho não o deixa terminar.
«Ora, papai, não me faça de bobo. Na escola, os meus colegas já me contaram tudo. Fizeram até troça de mim. Quem coloca os presentes são os pais!»
A mãe ainda tenta.
«Mas...»
«Que mais que nada. Vocês me enganaram!»
E vai correndo para o seu quarto, batendo a porta atrás de si.

O silêncio da consternação abate-se sobre a pequena sala. Até as luzes do pinheiro comprado há dias parecem abrandar sua intensidade colorida. A mãe pergunta.
«E agora? Sem ele crer nesta nossa encenação, a Noite perde o sentido...» Seus olhos estão úmidos. O pai procura racionalizar.
«Bem... Mais cedo ou mais tarde, ele iria mesmo descobrir que Papai Noel não existe. Acontece com todo o mundo, faz parte das dores do crescimento.» A mulher retruca.
«Pare já com este seu cinismo costumeiro! Se ia acontecer mais cedo ou mais tarde, por que não mais tarde? Por que perdermos mais esta magia? Nosso filho sonhando com o bom velhinho trazendo os seus presentes, a inocência de seu olhar, a alegria em seu coração menino...»
«Ora, vamos mas é parar com este drama. As coisas são assim mesmo. As pessoas crescem. Amadurecem. Perdem algumas fantasias, perdem...» A mulher está irada.
«Cale-se! Vá já mas é resolver este problema. Sem aparecer um Papai Noel aqui em casa, não vai haver ceia, ouviu bem?»
«Resolver?! Mas, como? São oito da noite. Está tudo fechado nesta vila. Está escuro e frio lá fora...» A mulher vira-lhe as costas.
«Não me interessa! Vire-se!»

Cinco minutos depois, ele já está do lado de fora da porta, o pesado capote com a gola levantada, o vento gelado quase arrancando seu gorro, as mãos enluvadas nos bolsos. Ninguém nas ruas. Para complicar, há uma névoa espessa. Ele quase não enxerga um palmo à frente do nariz. Mas, ele sabe que tem de tentar achar uma solução. Seu amor de pai cutuca-lhe o coração. E ele começa a caminhar sobre a neve.

Passado um quarto de hora, ele se sente perdido. O fog ficou mais grosso. Sabe que andou em direção à praça principal da vila, mas agora não tem mais certeza. Aos poucos, começa a enxergar um clarão alaranjado, muitos metros à frente. Vai chegando. E, então, ele vê.

Segurando um candeeiro, um homem alto e gordo está encostado num muro, como que à espera de alguma coisa. Com cautela, ele saúda.
«Olá... Como vai?»
O homem solta uma larga risada. Prestando mais atenção, ele nota que o desconhecido está vestido com calças largas e bufantes, um casaco curto com golas de pele e um barrete na cabeça. Vermelhos. As botas negras apoiam-se firmes na neve.
Ele arregala os olhos, enquanto o outro lhe pergunta, entre mais risadas.
«Surpreso?»
Ele sente-se um pouco inseguro.
«É... Desculpe, mas quem é você? E o que faz aqui?... Posso tentar chamar alguém e...»
O homem afasta-se do muro. Parece amistoso.
«É claro que você sabe quem eu sou. E o que estou fazendo aqui, agora.»
Ele procura resistir à sensação estranha que o invade lentamente.
«Não... Não sei...»
«Ora, vamos. Com esta indumentária, esta risada que mais parece um urso com soluços. E nesta noite? O que você acha?»
Ele se refaz um pouco.
«OK, qual é a pegadinha?»
O outro fita-o nos olhos.
«Pegadinha?! Não há nenhuma pegadinha, amigo. Sou eu mesmo. O próprio. Papai Noel, em pessoa.»
Ele começa a rir.
«Ora, cara. Tá pensando que eu sou trouxa? Papai Noel não existe.»
Nova risada cavernosa.
«Não existo? Espere um momento...»
O homem endireita o torso e solta um curto assobio. Da escuridão, saem três renas. Estão com os chifres enfeitados e têm o olhar doce. Ele levanta o braço, num gesto de apresentação
«Prancer, Dancer e Vixen.»
«Bem... E daí? Às vezes, aparecem umas renas lá nas montanhas... Estas podem ter vindo da...»
O outro torna a assobiar. Mais uma rena aparece. Só que esta tem o nariz de um encarnado brilhante.
«E este é Rudolph... Venha»
Levantando o candeeiro, o homem dirige-se para o final da pequena rua. Uma sombra larga vai sendo clareada e revelando suas formas. É um imenso trenó, de desenho elaborado e festivo, com um enorme compartimento na parte de trás. Está atulhado de sacos vermelhos de vários tamanhos. Ao chegar perto, o homem aciona um botão e o trenó ilumina-se. São milhares de luzinhas de todas as cores, piscando incessantemente.
«E então?...»
Ele está desnorteado. Embora parte de seu cérebro lute contra, a magia do momento quer sucumbir seu ceticismo. Por que alguém estaria aqui, nesta noite agreste, fingindo ser Papai Noel? Quais as chances de isto acontecer numa vila perdida na Estragônia Setentrional?
O homem fala com voz alegre.
«Você me perguntou o que eu estava fazendo aqui. Pois estava esperando seu filho adormecer para lhe levar os presentes. Está na hora. Vamos.»

Cinco minutos depois, o trenó está parando na frente da porta. A vinda foi tranquila, parecia que as renas sabiam de cor o caminho, mesmo através da neblina. Com cuidado, eles entram na casa.

Os olhos da mulher brilham, banhados em lágrimas de cristalina emoção. «Como você conseguiu?...» Ele leva os dedos aos lábios. «Shhh... Depois eu explico.» Com a mão, indica o quarto do menino. «Por aqui, Papai Noel...»
Os três entram. Enquanto os embrulhos são colocados ao pé da cama, o menino acorda. Olha com intensidade para a figura que despeja seu saco encarnado. Depois, com um pouco de contrariedade, resmunga.
«Ora, papai, não adianta tentar me enganar. É você vestido de novo de...»
O pai sai da sombra.
«Eu estou aqui, filho.»
O rosto do menino transforma-se num súbito encantamento.
«Papai Noel... Você existe...»

Enquanto o menino fica no quarto desempenhando-se da alegre rotina de abrir os presentes, os outros três dirigem-se para a porta de saída. O pai, ainda profundamente emocionado, fala.
«Obrigado, Papai Noel. Não sei como lhe agradecer.»
O outro solta um sorriso curto.
«Agradecer?!» Leva a mão ao bolso superior do casaco e tira um cartão. Nele, está escrito:

JOÃO DA SILVA
Personal Papai Noel

«São 250 dólares.»
O pai entra em choque.
«Mas, como assim?... Você então não é o...»
O outro olha, intrigado.
«Espera aí... Não acredito... Você pensou MESMO que eu era o Papai Noel de verdade?»

Oswaldo Pereira
Dezembro 2018

domingo, 16 de dezembro de 2018

INVERSÃO DE VALORES



Deu no GLOBO:

As lixeiras laranjinhas da COMLURB têm sumido das ruas da cidade. Repórteres do GLOBO percorreram 1,5 quilômetro da orla de Ipanema e encontraram apenas uma.
A COMLURB alega que parte foi furtada ou vandalizada. Diz também que algumas foram recolhidas para manutenção e serão repostas para o revéllion, as férias escolares e o carnaval.
Melhor pedir aos cidadãos que só descartem lixo em épocas de festas ou férias escolares.

Esta última frase é um exemplo típico da posição da mídia brasileira com relação a culpabilidades e responsabilidades. Quer dizer, uma parte da população quebra, estraga, rouba e destrói um bem público e o pequeno editorial empurra toda a culpa em cima da COMLURB. Isto, para mim, é uma tremenda inversão de valores.

E isso vem de longe. O posicionamento jornalístico (e estamos falando aqui de todas as formas de jornalismo, noticioso e editorial, falado, escrito e televisivo) brasileiro segue a linha da santificação do malfeitor, da glorificação do bandido, da glamurasização do ladrão romântico. Um episódio icônico foi o tratamento dado a um dos assaltantes do trem pagador britânico, o inglês Ronald Biggs, que aqui viveu foragido durante quase três décadas, bajulado pelos informativos nacionais com status de grande celebridade. Só voltou ao seu país no fim da vida, doente. E lá esperava-o a pena e a prisão pelo crime contra a sociedade que havia cometido.

Continuando, não quero aqui dizer que a nossa Polícia Militar seja isenta de problemas. Dentro da corporação, há, sabidamente, elementos tão mal-intencionados como os criminosos que ela tem como dever perseguir e prender. (Como parênteses, quero revelar que, nas duas únicas vezes nas quais tive contato pessoal em situação de emergência com policiais militares, uma delas num momento de muita tensão durante um assalto ao prédio onde moro, o seu comportamento foi de extrema competência e profissionalismo.) Sua atuação, entretanto, nos sangrentos confrontos, que se tornaram o dia-a-dia de muitas comunidades nos grandes centros, revela, às vezes, o despreparo de seus soldados e oficiais e a truculência de seus métodos.

E, quase sempre, é só este lado negativo que a nossa imprensa se compraz em divulgar, como se os pecados cometidos pela PM servissem de absolvição para as ações dos bandidos.

Se queremos viver em segurança, é preciso entender que o crime é uma ruptura da ordem. Nos países em que vivi fora do Brasil, a sociedade percebe e aceita a noção de que, ao se propor iniciar um comportamento que ponha em perigo ou traga intranquilidade aos cidadãos, o indivíduo é responsável pela reação das forças de preservação da Lei, que, afinal, são pagas por aqueles próprios cidadãos.

Assim, culpar somente a coitada da COMLURB pela escassez de latas de lixo é isentar de responsabilidades aqueles que as depredam e roubam. É contra eles que o pequeno editorial do GLOBO devia ter-se voltado.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2018