domingo, 16 de junho de 2013

PAPO DE BAR - BIG BROTHER








«É um absurdo! E logo no país que proclama ser o campeão das liberdades individuais. E logo no governo de um homem que jurou que protegeria a privacidade de seus cidadãos. Esse Edward Snowden é um herói. Traidor é o Obama!»









«Discordo. Totalmente. As pessoas que acham que este bisbilhoteiro está com a razão não entendem nada da situação atual. Não vêem que é uma questão se segurança nacional. E...»






«Que segurança nacional droga nenhuma. Esta desculpa não cola mais. Lá já existe a CIA, o FBI e mais não sei quantas agências super aparelhadas para perseguir bandidos. Os americanos já acabaram com o Sadam Hussein, com o Bin Laden, já invadiram o Afeganistão. Mantêm ilegalmente um bando de árabes em Guantánamo, sem julgamento sem nada. Prá que precisam xeretar a vida alheia?»

«Porque, minha querida, o mundo mudou. E continua mudando, rapidamente. Antigamente, na Guerra Fria, o inimigo era a União Soviética, a China Vermelha. Os espiões eram uns românticos que bebiam vodka martini e transmitiam suas mensagens em código por rádios escondidos no sótão. Tudo muito preto no branco. Os adversários tinham rosto e nome, sabia-se de onde vinham. Hoje é diferente...»

«Diferente? No quê? Só se for na quebra dos direitos da pessoa, na invasão da sua intimidade, no monitoramento dos seus passos. Não estou falando de Mata Haris, X-9´s e 007´s. Estou falando do cidadão comum, eu e você. Que poder é esse que viola um dos princípios constitucionais mais básicos, que instrui seus agentes a vasculhar a vida de quem quer que seja, especialmente de estrangeiros, em seu território? Nada pode justificar...»

«É claro que pode! Entenda o seguinte. Hoje o grande perigo não é uma guerra, nos moldes da Coréia, do Vietnam.  O terrorismo veio mudar tudo. E mesmo este novo inimigo já mudou de cara. Primeiro, as ações eram planejadas por organizações complexas, tipo Hezbollah, Al Qaeda. Eram esquemas de ataque caros, que envolviam um grupo de operativos profissionais. Levavam meses para serem montados e executados, como o onze de setembro, as explosões nos trens de Madri, o ônibus de Londres»

«E sabe por que isto pôde acontecer? Não foi por falta de polícia e agentes secretos. Foi por ineficiência deles. Se tivessem examinado bem seus registros e arquivos, teriam descoberto alguma coisa antes dos atentados. Os árabes que pilotaram os aviões jogados contra as torres produziram um monte de indícios antes de agirem. Era só o aparelho de defesa da Estado estar mais atento e teria prevenido o desastre. Não é necessário espionar milhões de cidadãos para isso»

«Não era. Agora é. O ataque não vem mais do terrorismo organizado. Hoje qualquer adolescente imberbe e cheio de espinhas, devidamente doutrinado, pode montar sua bomba caseira no porão de casa e explodí-la, e a ele, numa estação de metrô às cinco da tarde e matar centenas de pessoas. Pode ser qualquer um. Pode ser aquele cara sentado ali naquela mesa, pode ser aquela sua vizinha bondosa, o entregador de pizza. Pode ser todo mundo. E, assim, todo mundo é suspeito»

«Não sei... Tudo isso me incomoda. Este clima de Big Brother. Não o da TV, que é lamentável. Mas o de George Orwell. Um grande Estado voyeur nos observando, colhendo dados, anotando nossas ações diárias.  Me dá arrepio...»

«Pois você já devia estar arrepiada há muito tempo.  O programa americano de monitoramento começou em 2001, na era Bush. Obama só fez continuar, incorporando, é claro, os avanços tecnológicos. E, no fundo, mesmo sem as decisões de Obama ou Bush, e morando aqui no Brasil, nos já somos monitorados o tempo todo. Você está com o seu celular?»

«Sim»

«Pois então alguém lá na sua operadora sabe que você está aqui no ZanziBar. Já experimentou viajar com ele? Então, assim que chegou ao seu destino, você deve ter recebido uma mensagem informando que uma operadora local passaria a controlar as suas ligações. Saiba também que todas as suas conversas telefônicas, de aparelhos celulares ou de fixos, são gravadas. Uma ordem judicial pode expô-las. Mais. Tudo o que você acessa na internet, sejam e-mails, sites, redes sociais, pesquisas no Google, no Yahoo, tudo o que você posta, consulta, envia ou recebe viverá para sempre na grande nuvem que paira sobre nós.  Você acha que a coisa some quando você carrega no delete? Engano seu...»

«Deus meu...»

«Deus?... É... Do jeito que a coisa está, há alguém que sabe sobre nós quase tanto quanto Ele...»


Oswaldo Pereira
Junho 2013



sábado, 8 de junho de 2013

MORRE UMA SEREIA





Alô, moçada das novas gerações. Morreu Esther Williams.

Esther, quem?!...

Pois é. Só mesmo para a turma que já passou dos setenta a noticia faz tilintar algumas lembranças, ou ainda, faz respingar água clorada em cima de retalhos de memórias. Para as meninas e os meninos de sessenta para baixo, o nome ecoa em neurônios vazios.

Então, deixem-me contar.
 
ESTREIA NO CINEMA
Esther Jane Williams foi uma estrela diferente. Nas palavras dela própria, não sabia cantar, dançar ou representar. Mas fazia uma coisa muito bem: nadava como um peixe. Ou melhor, como uma sereia. Este foi o apelido-sinônimo da ruiva de olhos verdes que dominou as telas e encheu os cofres da MGM entre 1942 e 1956. Foram 25 filmes, a maioria deles tendo piscinas gigantes como base do roteiro e uma história que envolvesse um romance açucarado com o ator de sucesso do momento. Foram vários, desde Mickey Rooney a Clark Gable, passando por Peter Lawford, Victor Mature, Gene Kelly, Van Johnson, Howard Keel e Ricardo Montalbán. Até Tom & Jerry contracenaram com ela. Anos mais tarde, ela própria declarou: All they ever did for me at MGM was change my leading man and the water in my pool (tudo o que fizeram por mim na MGM foi trocar meu galã e a água da minha piscina...) Mas, na era do technicolor, Esther reinou suprema, chegando a ser a segunda atriz mais bem paga pelo famoso estúdio (a primeira era Betty Grable). 

Nascida em 1921 na Califórnia de uma família pobre e numerosa, aos oito anos já trabalhava na piscina de uma escola das vizinhanças contando toalhas. Lá aprendeu a nadar e com dezesseis começou a ganhar competições de natação pelo Los Angeles Athletic Club. Em 1939, foi escolhida para integrar o time olímpico dos Estados Unidos. Seu grande sonho era então ganhar uma medalha nos Jogos de Tóquio, no ano seguinte. A Segunda Guerra Mundial não deixou isto acontecer. Mas, em compensação, abriu-lhe uma carreira inesperada.
"ESCOLA DE SEREIAS"

Em 1940, um espetáculo aquático-musical chamado Acquacade resolveu selecionar nadadoras de primeira linha para contracenar com Johnny Weissmuller, o mais famoso Tarzan das telas e, ele mesmo, nadador de competição (cinco medalhas de ouro nas Olimpíadas de 1924 e 1928). Das 75 concorrentes, ele escolheu Esther Williams. Daí para Hollywood, foi um passo. Melhor dizendo, uma braçada.

Nos próximos 14 anos, ela foi um dos rostos mais fotografados do planeta. Sua influência foi poderosa na divulgação do nado sincronizado e no aumento da venda de piscinas domésticas. Sabendo que a fama não dura para sempre, criou uma griffe de roupas de banho que até hoje é extremamente conceituada.
"A FILHA DE NETUNO"

Em 2007, um AVC prendeu-a a uma cadeira de rodas. Mas, até morrer anteontem, aos 91 anos, ainda entrava diariamente na piscina de sua casa.

E, quer saber, foi vendo suas evoluções na água que me convenci a, aos nove anos, ir aprender a nadar, no Copacabana Palace, onde as aulas eram dadas por Maria Lenk, outra nadadora de carreira olímpica.

Mas, isto é outra história. 


Aproveitem para conhecer melhor Esther Williams no pequeno filme abaixo.





Oswaldo Pereira
Junho 2013



sexta-feira, 7 de junho de 2013

FUTEBOL NO MOTEL






Dia de jogo. Brasil em campo, pátria de chuteiras, hino nacional, todo mundo de camisa amarela em frente a TVs espalhadas por lares, bares, etc., etc.
«Vem cá, amorzinho...»
«........»
 Se o penhor desta igualdade... o letreiro na telinha vai acompanhando a música que ecoa no estádio.
«Amorzinho...»

 Close nos jogadores, uns poucos cantando, seguros da poesia intrincada, outros fazendo um lip sync hesitante para escapar do vexame de não saber a letra.

 «Vem, amorzinho... Já nuinha...»

 Foguetório. Fotografias. Últimas entrevistas: vamos dar do nosso melhor... o time tá preparado...  quero agradecer a galera....

 «Então, Josué?!...»

«Peraí, fofinha...»

«Que peraí é esse?» 

«É que o jogo vai começar...»

«Não me diga que você me trouxe para o Motel para ver jogo de futebol...»

«Não, mas é que é a seleção...»

«É um amistoso contra a Tailândia, que você mesmo falou que não estava nem aí.»

«Mas, é preparação para a Copa...»

«Que Copa, Josué? A Copa é daqui a três anos, nem começaram as eliminatórias ainda...»

«É, mas... É preciso já ir vendo como é que o time jogando, se o Pato e o Ganso se entrosam...»

«Que mané Pato e Ganso? O Ganso machucado e o Pato nem o Milan liberou para um amistoso tão fuleiro...»

 O jogo começa. O Brasil engrena logo um ataque, o volante escapa pela direita, centra, o atacante emenda com força, a bola passa a um centímetro da trave. Uuuuuu, o rugido do estádio enche o quarto.

 «Viu, quase gol...»

«E daí. Desliga esta porcaria. Ou então, procura um canal de sacanagem, pra ver se você entra no clima...»

«Eu no clima...»

«nada, eu aqui nua em cima da cama e você nem olha...»

 Falta ríspida no zagueiro brasileiro.

 «Porra! Cartão vermelho, seu juiz, bota esse assassino na rua! Esses babacas são uns cabeças de bagre e vão acabar machucando a gente...»

«OK, entendi. Você perdeu o interesse por mim...»

«Que é que foi?»

«Você perdeu o interesse por mim...  Não faz nem um ano que a gente sai, e você já perdeu o interesse por mim.»

«Não diga bobagens... caraca!»

 O chute do meia armador bate na trave.

 «Não diz bobagem, fofinha...»

«Não, eu sei como é que é. No início é aquele tesão todo: deixa eu fazer isso, deixa eu botar naquilo, me pega aqui... Depois que já viu tudo e já fez tudo, é isso que se vê. Assistindo a um Brasil e Finlândia num quarto de motel e eu pelada aqui, jogada às traças...»

«Brasil e Tailândia...»

«Tailândia, Finlândia, Islândia...quero lá saber. Se você não quer mais nada comigo, porque me trouxe para cá?»

«Mas eu quero. É claro que eu quero.»

«Quer nada. O que é que foi? Engordei?»

«Hein?»

 Ataque perigoso do time tailandês. Doni salva por milagre.

 «Caraca... quase...»

«Então, engordei, não foi?»

«O quê, engordou, como assim?...»

«Pois fique sabendo que ainda sou muito gostosa, ouviu? Mesmo com essas celulitesinhas, ainda tem muito cara olhando para a minha bunda na praia, ouviu?»

«Sim, sim, claro...»

 Novo ataque tailandês.

 «Os caras estão começando a gostar do jogo...»

«Olha, quer saber, eu vou embora. Chama um táxi e fica aí vendo o teu jogo.»

 Há uma interrupção na partida, para socorrer um jogador se contorcendo no gramado.

 «bom, bom, eu indo.»

«Não precisa vir. Se não com vontade, eu não quero nada forçado.»

«Não com vontade? Então o que é isso aqui...»

 O amistoso continua parado no estádio, mas, na cama, o jogo finalmente começa. Por uns dez minutos, a voz do locutor, os ecos da torcida, as opiniões dos analistas servem apenas de backing vocal para o solo de gemidos e sussurros que domina o quarto.

 De repente,

 É gooool! Gooooolll da Tailândia!!  Sulimar Bhopal, camisa número nove, aproveitando uma verdadeira lambança da defesa brasileira...

 «Você ouviu?»

«O quê, o quê?»

«Gol da Tailândia.»

«, mas não para não, fofinha, eu quase gozando...»

«Como não para não? É gol da Tailândia, cara.»

«Sim, bem, mas...»

«Que bem que nada. O Brasil perdendo.» 

«Tá. Depois a gente vê o replay no intervalo. Não...não me tira agora... vem cá, poxa...»

«Cê tá maluco?! O Brasil perdendo da Tailândia, Josué, e você pensando em sexo?!»  

 E ele ficou ali, sozinho, na cama, até o final da partida. O Brasil perdeu. E Josué não saiu do zero a zero.   


Oswaldo Pereira
Maio 2010

terça-feira, 4 de junho de 2013

UM HERÓI




João Barone, baterista da banda Paralamas do Sucesso, é, reconhecidamente, um dos brasileiros que mais entendem de um assunto que também sempre me interessou – a Segunda Guerra Mundial. Ele, talvez porque seja filho de um soldado que participou do conflito. Eu, talvez porque tenha nascido em plena guerra e minhas primeiras lembranças me remetam a discussões que presenciei entre meu pai e seu professor de inglês, um austríaco que lutara ao lado dos alemães entre 1914 e 1918 e defendia que Hitler ganharia. Meu pai confiava em Churchill. Embora, ainda muito pequeno, eu não conseguisse decifrar o que se passava, já percebia que o assunto era importante, solene e que algo de muito sério iria acontecer se papai estivesse enganado.

Além disso, nas sessões da manhã de domingo, o Cineac Trianon (Nota do tradutor: Cineacs eram salas de cinema que apresentavam sessões contínuas de variedades, jornais cinematográficos e documentários. Era um must para a criançada. O Trianon ficava na Avenida Rio Branco, perto de onde hoje é o Edifício Avenida Central), entre uma aventura animada do Super-Homem e um desenho do Pato Donald, passava filmes das ações armadas na Europa e no Extremo Oriente.  Sempre em preto e branco - para nós, a cor da guerra.

Em maio de 1944, assisti ao desfile de despedida das tropas que iam para a Itália. No ano seguinte, também estava no centro da cidade para ver o retorno dos “pracinhas”.
Portanto, era inevitável.

Mas, voltando a João Barone, soube recentemente que ele irá lançar seu segundo livro (o primeiro teve por título A Minha Segunda Guerra) sobre a atuação dos brasileiros em combate e em outras situações militares durante a conflagração. Chama-se 1942: O Brasil e sua Guerra Quase Desconhecida. Como a obra não chegou ainda às bancas, não tenho como saber se ele incluiu em seu texto a história de um excepcional herói, um carioca que viveu na penumbra do esquecimento até sua morte e, ainda hoje, só é lembrado por um punhado de admiradores. Chamava-se Apollo Miguel Rezk.

Para dar uma ideia de quem era Apollo Rezk, vou copiar abaixo a tradução de duas citações de combate expedidas pelo Exército Americano em 1945. A primeira, como ato de concessão da Silver Star (Estrela de Prata):

Por bravura em ação, em 12 de dezembro de 1944, em Monte Castelo, Itália. Comandando seu pelotão, através de fogo intenso de metralhadoras e morteiros, chegou até uma posição alemã, assaltou-a e continuou seu avanço. Chegando a Fornelo, seu pelotão recebeu intenso fogo de frente, de flanco e da retaguarda, porém o Tenente Apollo tenazmente manteve a posição até ser forçado a retrair, em virtude de pesadas perdas. O seu bravo exemplo no combate reflete as elevadas tradições dos exércitos aliados.”


ITÁLIA, 1945. CONDECORAÇÃO DO TEN. REZK
A segunda, pela entrega da Distinguished Service Cross (Cruz de Serviços Notáveis). Aí vale notar que esta Cruz é a segunda maior condecoração do exército dos Estados Unidos, sendo superada apenas pela Medal of Honor (Medalha de Honra), cuja atribuição é prerrogativa do Congresso americano.

“Por heroísmo extraordinário na ação de vinte e quatro de fevereiro de mil novecentos e quarenta e cinco, em La Serra, Itália. Foi confiada ao Primeiro Tenente Rezk a missão de comandar o seu pelotão no ataque e ocupação de La Serra, na frente de determinada resistência inimiga. A despeito de campos de minas desconhecidos, terreno excessivamente difícil e forte oposição, o Primeiro Tenente Rezk conduziu galhardamente os seus homens através uma cortina de fogo de metralhadoras, morteiros e artilharia para assaltar e arrebatar o objetivo inimigo. Embora gravemente ferido quando dirigia o ataque, nunca hesitou; pelo contrário, continuando firmemente o avanço. Depois de colocar o seu pelotão em posição, repeliu três fortes contra-ataques, infringindo pesadas perdas aos alemães pela sua habilidade na direção de tiro. Depois, embora em posição vulnerável ao fogo das casamatas do inimigo circundante e a despeito das bombas que caíam e da gravidade dos seus ferimentos, o Primeiro Tenente Rezk defendeu resolutamente La Serra contra todas as tentativas fanáticas dos alemães para retomar a posição.”

O tenente Rezk recuperou-se de seus ferimentos e retornou ao Brasil ao fim da guerra. Apesar de ter sido recebido inúmeras citações de combate, elogios de todos os seus comandantes, brasileiros e estrangeiros, e terem-lhe sido entregues todas as condecorações do nosso exército, só foi promovido a capitão seis anos depois, já no Batalhão de Guardas. Depois de, a seguir, ter cumprido algumas funções burocráticas, foi reformado em 1957, aos 39 anos, no posto de major. As forças armadas começavam a esquecê-lo. O país já o havia feito há muito, à exceção de uma homenagem num programa de rádio e uma reportagem da revista O CRUZEIRO. Só.

Conheci-o em 1997. Um grande amigo meu, Sérgio Pinto Monteiro, então Presidente da Associação de Oficiais da Reserva, iniciara dois anos antes o resgate do velho soldado. Numa cerimônia durante as comemorações do cinquentenário do término da Segunda Guerra, que reunira cerca de quarenta oficiais da Força Expedicionária Brasileira oriundos do CPOR, o Major Rezk, já semiparalítico e cego pelo diabetes, fora-lhe apresentado como o mais destacado combatente da FEB. Sérgio tomou a si a missão de tirá-lo do ostracismo e recuperar sua história, escrevendo, inclusive, um livro. Seu nome foi dado à sede da Associação; palestras foram feitas contando sua saga; matérias foram publicadas em veículos de informação das forças armadas.

No dia de seu funeral, em janeiro de 1999 fui um dos primeiros a chegar ao cemitério do Caju. Já lá estavam Monteiro e um oficial da Marinha americana. Era o enviado do Adido Militar dos Estados Unidos e primeiro representante fardado a comparecer ao enterro. O seu país não se esquecera daquele que recebera uma de suas mais altas condecorações.  
Se tivesse nascido lá, talvez a vida do Tenente Apollo fosse tema para grandes produções de cinema do tipo Resgate do Soldado Ryan, Sargento York, Patton ou um caprichado seriado de TV como Band of Brothers. Os feitos do nosso soldado nada ficam a dever aos atos mostrados na tela.

A diferença é que lá os heróis são cultuados, não só como homenagem ao passado mas, principalmente, para servirem de exemplo ao futuro. Aqui....


Oswaldo Pereira
Junho 2013






     

sexta-feira, 31 de maio de 2013

DESTINOS CERTOS: SANTORINI








Se você estivesse aqui, pelos idos de 1650 a.C., teria vivido numa das mais deslumbrantes ilhas do mar Egeu. O lugar era chamado de Strongyle, a redonda ou Kallisté, a mais bela, em grego. A cultura minóica, absorvida da vizinha Creta, florescia em seus palácios magníficos, cobertos de afrescos mostrando cenas rupestres e figuras humanas longilíneas e elegantes. Strongyle era um rico entreposto do império comercial cretense e em Akrotiri, sua cidade principal, viviam mais de 30.000 pessoas.

Certo dia, entretanto, você teria acordado para ver uma chuva fina de cinzas caindo lentamente sobre a ilha. O fenômeno durou alguns dias, alarmando a população. E servindo de aviso. Rapidamente, providenciou-se a remoção dos habitantes, provavelmente para Creta, 70 milhas náuticas para o sul. Você teria partido triste, por ter abandonado sua linda cidade e por ter também saído de mãos limpas – dada a urgência da retirada, todos os pertences haviam ficado para trás.

Sorte sua. Dias depois, a mais catastrófica erupção vulcânica da história fez desaparecer toda a parte central de Strongyle, ejetando 30 km³ de magma e levantando uma coluna de fumaça e detritos que podia ser vista por centenas de milhas ao redor. Seus efeitos foram mais poderosos que o de cem bombas atômicas. Uma cortina de fumo encobriu o sol por várias semanas em boa parte do mundo e tsunamis gigantescos atingiram os litorais de toda a região.

O terrível desastre deu início ao declínio da civilização minóica, uma das mais importantes da Idade do Bronze. E é mote inspirador de várias teorias. Uma delas atribui à erupção a passagem bíblica da travessia do Mar Vermelho pelos judeus. A retração da maré antecedente ao tsunami teria abaixado o nível das águas, permitindo a Moisés e seus seguidores cruzarem em segurança. A chegada da grande onda teria afogado as tropas de Ramsés. Outra, mais conhecida, estabelece uma correlação entre a ilha redonda e a descrição feita por Platão de outra ilha, também redonda, chamada Atlantis, alimentando o mito da lendária Atlântida.

Depois do cataclismo, o mar penetrou na boca do vulcão e criou uma lagoa cercada pelo que restou das paredes do cone vulcânico. Do fundo do lago, camadas de lava derretida e solidificada foram-se acumulando e uma ilhota de solo escuro emergiu no centro. Aos poucos, os escombros foram sendo reabitados.  Lacedemônios, Fenícios, Bizantinos. A denominação da ilha também mudara, para Thira ou Tera. No século XIII chegaram os venezianos. Devotos de Santa Irina, renomearam o lugar.
VISÃO 3D DE SANTORINI


SANTORINI







Em Fira e Oia, as casas ficam encarapitadas nas bordas de um precipício de 300 metros. Lá embaixo, a caldera do vulcão, cheia de água. Você até se pergunta. Que motivo leva as pessoas a morar num lugar como este?
Resposta: basta chegar à janela. A espetacular vista tira o fôlego, ao mesmo tempo em que algo sussurra que você está num dos pontos mais encantadores do planeta.

Aqui, é a Grécia dos sonhos. O casario branco com seus domos  azuis, a festa das flores em abundância, o céu mitológico. Não há ruas retas, nem sinais de trânsito, nem asfalto negro. São intrincadas vielas que sobem e descem, lojinhas charmosas vendem artesanato, roupas e lembranças. O importante é andar sem rumo, sentando aqui e ali para ver as cores, ouvir os sons, saborear a maresia.



Quando vier, venha de barco. A entrada na baía, a vista das duas vilas encasteladas no alto do imenso paredão circular, o índigo profundo do mar valem várias vezes a passagem e as horas de travessia desde o porto do Pireu.















Também não deixe de visitar a pequena ilha de pedras negras que se situa no meio da lagoa. Chama-se Nea Kameni. A paisagem lunar ainda fumega e relembra que ali, a alguns quilômetros abaixo, lá nas profundezas, câmaras de magma ainda fervem. O monstro, como um apocalíptico titã adormecido, apenas repousa.

E, definitivamente, não perca o pôr do sol. Vai ser difícil ver outro igual. Como será difícil encontrar outro lugar tão mágico como Santorini.





Oswaldo Pereira
Maio 2013






















segunda-feira, 27 de maio de 2013

PAPO DE BAR - VIAGRA FEMININO








«Só pode ter sido uma invenção masculina! »












«Talvez tenha sido, Antonia. E qual é o problema?! Já criaram o Viagra e seus similares. Por que não criar também uma pílula do desejo para as mulheres?»






«Quando é que vocês machos vão perceber que nós somos diferentes, física e psicologicamente?  Nosso corpo responde de outra maneira aos estímulos, sexuais ou não. Não somos objetivas, imediatistas, nossa cabeça gira de outra forma. Nosso afrodisíaco compõe-se de inúmeras nuances, depende de ambientes, luzes, perfumes...»


«Presentes, jóias...»

«Sim, e por que não? Atenção e carinho não fazem mal a ninguém. Se vocês pensam que uma pílula vai nos ligar e desligar a libido assim como quem não quer nada, estão muito enganados. Isto pode funcionar para vocês. Aliás, vocês já andam com isso na cabeça mesmo...»

«Não seja simplista.  É claro que temos o sexo mais na superfície, mas isto tem a sua razão genética. Vem do tempo da pré-história e da necessidade de preservação da raça. Era imperativo que o ser humano procriasse rapidamente para sobreviver num mundo terrivelmente hostil. E a procriação dependia do desejo masculino. Sem ereção, necas. O cara, então, saia da caverna para achar comida e correr de volta antes que algum tigre de dentes de sabre o abocanhasse. Adrenalina a mil. Depois de saciar a fome, só podia pensar naquilo»

«E o trabalho da mulherzinha, hein? Carregar o bebê na barriga, parir, amamentar, proteger os filhotes, cuidar das feridas do maridão. Isto não era também preservar a raça?»

«Sim, claro, mas para o ato em si, a excitação feminina era irrelevante. Ao contrário dos outros animais, o acasalamento humano não era comandado pelo cio da fêmea. Nem com isso o macho homem podia contar para disparar seu tesão. Tinha que ter, como você disse, aquilo permanentemente na cabeça. Foi assim durante milhões de anos. E a nossa civilização tem só uns seis mil. A informação ainda é muito recente»

«Quer dizer que temos de aceitar sermos desacordadas com uma marretada na cabeça, puxadas pelos cabelos até o fundo da caverna e créu... Pois deixa eu te dizer uma coisa. Nestes tais seis mil anos de civilização, foi a mulher que evoluiu. Muito mais que vocês. Sofremos em silêncio, fomos subjugadas pela força e pelas leis durante milênios, desrespeitadas até pela própria família. A nós foram negadas instrução e cidadania. Em muitos lugares, em pleno século XXI, ainda assim é.  Mas, fomos vencendo. Aos poucos, devagar, descobrindo trilhas no meio da floresta do preconceito, do desconhecimento, até do medo. Tivemos de ser prostitutas, escravas, bruxas. Até que as guerras do século passado nos levaram para as fábricas e para a independência financeira de um trabalho remunerado e a pílula anti concepcional nos libertou do fantasma de uma gravidez indesejada»

«Mas nós também evoluímos. O homem de hoje, pelo menos o homem informado, na maioria dos países, recebe com entusiasmo a participação da mulher em todos os campos da atividade social. Basta olhar para a política. Angela Merkel, Cristina Kirchner, a Dilma. E há outras inúmeras que comandam grandes empresas, são generais das forças armadas. Mandam e seus subordinados homens obedecem numa boa. E, na verdade, o sexo hoje não é mais exclusivamente uma iniciativa masculina. É um encontro de vontades. Então, por que não existir um remédio que aumente o interesse sexual feminino?»

«Não precisamos excitantes em drágeas, queridinho. Mande flores, elogie, paparique, fale pissilones no ouvidinho dela. Funciona maravilhosamente. Muito mais que qualquer pílula, te garanto...»


Oswaldo Pereira

Maio 2013