segunda-feira, 13 de junho de 2016

ALI



O ano era 1978. Setembro. A luta, valendo o título de campeão dos pesos-pesados, era em Los Angeles. A audiência, planetária.
O desafiante, ex-campeão em busca de, pela quarta vez, recuperar a coroa, tinha 36 anos e 241 dias, uma idade em que a maioria dos praticantes do esporte já pedira a aposentadoria. Seu adversário o vencera sete meses antes, sua terceira derrota numa carreira que começara há 18 anos. Mesmo os seus apoiadores mais otimistas não nutriam grandes esperanças de vitória.

Acontece que seu nome era Ali.

A equipe americana de boxe, nas Olimpíadas de Roma em 1960, ganhou três medalhas de ouro. Entre os campeões, um garoto de 18 anos chamava a atenção pela rapidez com que se deslocava no ringue e desnorteava seus adversários com golpes velozes e certeiros. Uma postura técnica comum de ser observada nos lutadores das categorias inferiores de peso, mas nunca antes vista num heavyweight. Nascia o bailado gracioso combinado com jabs e cruzados eficientes que o próprio boxeador iria mais tarde resumir em seu lema tático. To float as a butterfly, to sting as a bee (flutuar como uma borboleta, picar como uma abelha).

EQUIPE AMERICANA DE BOXE EM ROMA. NO CENTRO, CLAY/ALI

Quando seu nome começou a aparecer aqui no Brasil, o garoto já se profissionalizara e era postulante ao cinturão dos pesos-pesados. Para nós, que nos lembrávamos de outras lendas como Joe Louis, Jack Dempsey, Rocky Marciano, de suas defesas fechadas e de guarda alta e sua movimentação lenta, a dança ligeira deste novo candidato ao título era uma sensacional novidade. Até seu nome, Cassius Marcellus Clay era inspirador, numa época de filmes como Ben Hur e O Manto Sagrado. Um gladiador moderno com um nome romano...

Torcer por ele foi natural para nós, que partilhávamos a mesma idade, em que podíamos, como ele, proclamar nossas bravatas, nossa embriaguez com o futuro, nossa imortalidade. Éramos jovens e, portanto, invencíveis. Como ele.

Sua opção de recusar o recrutamento militar e de trocar sua religião e seu nome fez-nos sentir um pouco traídos. Daqui, não tínhamos como avaliar sua escolha e, para nós, o herói descera um degrau de seu pedestal.
Quando 1978 chegou muita coisa se passara. Muhammad Ali amadurecera, e nós com ele. Seu desafio de reconquistar o título soava como um último brado de juventude. Com os quarenta anos chegando, ainda sonhávamos. Os limites não existiriam enquanto pudéssemos dizer – se o quiser, ainda posso ser astronauta. Ali dizia – se eu quiser, ainda posso ser campeão.

A luta contra Leon Spinks durou 15 rounds. E, vencemos.

Os feitos de Ali nos anos seguintes foram em outra arena. A luta pela cidadania dos negros, os combates pela melhoria de vida dos mais desafortunados, a cruzada pela paz. E contra o mal que o assolava. Os milhares de golpes que ele parecia tão bem absorver cobravam seu preço. A tocha olímpica em sua mão trêmula, na cerimônia de 1996, ficou para sempre. O herói eterno.



Oswaldo Pereira
Junho 2016








11 comentários:

  1. Ótimo!!
    Adorei as semelhanças entre vocês dois.... 'Vencemos!'
    E que bom que ressaltou o último título dele.
    As pessoas comentam mais os dois primeiros.
    Tenho publicado no Facebook sobre ele.
    Depois, compilarei para o blog...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Valeu, Homerix. O comeback dele em 1978 foi sensacional. Lembro-me que após a luta, fomos comemorar numa buate...

      Excluir
  2. Aliás, senti exatamente como você, quando ele se recusou a ir à guerra e mudou de religião... Eu tinha 9 anos e fiquei realmente decepcionado...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Todos nós ficamos. Alguns até classificaram como covardia. E, pôxa, trocar um nome como Cassius Marcellus por Maomé, foi decepcionante mesmo...

      Excluir
  3. Bela crônica. Lembro da decepção na derrota para o Joe Frazier e da vitória magnífica contra o George Foreman quando ficou apanhando para cansar o adversário e atacar feito a abelha.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado, Ricardo. Dizem que o Foreman sentiu que ia perder a luta quando, ao desferir um potentíssimo soco no Ali, ouviu-o dizer: is that all you've got?

      Excluir
  4. Realmente marcou a todos nós, da mesma geração e mudança de Cassius Clay para a religião muçulmana foi decepcionante. Mas que foi muito bom foi mesmo, com qualquer nome. Abraço do Thomaz.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Foi pena que Mike Tyson e Ali não partilharam da mesma geração no boxe. Já imaginou uma luta entre os dois?...

      Excluir
  5. Por sua crônica senti a emoção da vida dele. Realmente impressionante.

    ResponderExcluir