quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

ROCK IN RIO






Trinta anos e mais dois dias.

A tarde era de sol, mas não muito quente. Chovera bastante na véspera e havia a promessa de mais água para a noite.  Tínhamos levado umas duas horas para chegar lá, baldeando ônibus da Zona Sul e andando um bocado a pé. E, mesmo antes de chegar perto, a excitação da multidão crescente que nos acompanhava eletrificava o ar, fazia brotar um sorriso espontâneo de alegria meio boba e meio louca, como se fossemos cruzados chegando a Jerusalém, marinheiros de Colombo aportando o Novo Mundo, alpinistas fincando a bandeira do topo do Himalaia. Estávamos chegando. E, depois dessa noite na terra encantada que brotara nos confins da Zona Oeste do Rio, iriamos poder dizer: EU FUI, eu fui ao ROCK IN RIO!

Ninguém acreditava. O desenho do evento era grandioso demais, ambicioso demais. Tratava-se simplesmente de trazer ao Brasil TODAS as bandas mais expressivas da atualidade musical de seu tempo, reis dos palcos do Primeiro Mundo, gente que jamais pisara na América do Sul. E ícones internacionais do pop e do jazz, grandes vendedores de discos que frequentavam a lista dos top ten planetários.  Tudo isso, e mais uma infraestrutura nunca antes vista em terras tupiniquins, distribuída por uma área de 250 mil m², sonhadoramente chamada de “Cidade do Rock”, localizada nos contrafortes de Jacarepaguá. Dez dias seguidos de uma estravaganza sonora no maior palco da história (cinco mil metros quadrados), dois imensos fast foods, dois shoppings com mais de 50 lojas e dois centros de atendimento médico.

“Não vai dar certo...”, era a voz corrente. As cassandras de plantão anunciavam muitos artistas não virão (vieram todos, menos o Def Leppard, cujo baterista perdera um braço num acidente dias antes – foi competentemente substituído pelo Whitesnake), com tanta gente, vai faltar comida e bebida (se faltou, ninguém deu por isso), vai haver muita confusão (não foram registradas ocorrências violentas de qualquer espécie). Por fim, vai chover muito e haverá problemas de transporte e muita lama. Isto sim, aconteceu. Choveu sem parar e levavam-se horas para ir e vir. Mas aí, o bem-aventurado espírito carioca interveio. Chuva e a lama serviram de refresco e décor para a alegria incontida da galera. E quem se importava com o tempo passado nos coletivos cheios de gente que ansiava por ver gigantes como Rod Stewart, B-52's, Nina Hagen, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e Yes? Ou ídolos caseiros como Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Erasmo Carlos, Blitz, Ney Matogrosso e o Kid Abelha?

300.000 PESSOAS NA "CIDADE DO ROCK"
Entre 11 e 20 de janeiro de 1985, quase um milhão e meio de espectadores compareceram ao Rock in Rio. Cinco Woodstocks. O projeto estava consagrado. Roberto Medina operara o milagre e a franquia estava criada. De lá até hoje, foram mais 13 Rock in Rio’s, que acabaram por ganhar outros sobrenomes e outras moradas, como Lisboa e Madri. É um dos festivais de música mais conhecidos em toda a Terra.

Pois é. Naquele dia, eu e minha mulher pudemos sentir a mágica. Ivan Lins abrindo o espetáculo. Elba Ramalho começando um agito que cresceu com Gilberto Gil. Era noite, nuvens de fumo da melhor marijuana flutuavam na chuva fina, quando James Taylor embalou todo mundo. Depois, Al Jarreau jogou o feitiço do seu vozeirão, e o dia nascia molhado no momento em que George Benson fez sua guitarra cantar. Lama e magia.

Várias histórias ficaram gravadas. Dizem que James Taylor, na época dependente químico e sofrendo sua separação de Carly Simon, havia decidido parar de cantar depois do Rock in Rio. A calorosa resposta do público à sua apresentação o fez repensar e reiniciar sua carreira. Dizem também que Ivan Lins quase perdeu a voz durante o show. Sentindo que a causa podia ser o cigarro, parou de fumar a partir daquele momento.

E ninguém jamais esquecerá um apoteótico Freddy Mercury, comandando um coro de centenas de milhares de vozes, cantando para a Eternidade a sua antológica interpretação de Love of My Life. 

Vale a pena ver de novo...







Lembra-se da música do Roupa Nova? 

Ôôôô...Ôôôô.... Rock in Riôô...

EU FUI!

Oswaldo Pereira
Janeiro 2015



Um comentário:

  1. Inesquecível ! Obrigada por nos lembrar. Não sou simpatizante de apoteoses e multidões. Nina Hagen e sua banda ficaram hospedados aqui em casa. Qdo voltei tudo rescendia ao melhor Vetiver que já conheci. Com o din din da locação, editei meu segundo livro de poemas:,Naves do Silencio. E viva o rock and roll.

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