Desde
quarta-feira de Cinzas, quando foi decretada a intervenção federal na Segurança
do Estado do Rio de Janeiro, o assunto tomou conta das redes sociais. Não podia
ser de outra forma. Embora não possam ser consideradas como “termômetro” da
opinião nacional (a maioria dos brasileiros ainda está à margem do mundo
digital), o Face, o Twitter e outros que tais chegam a dar conta do pensamento
de uma parte da população dos centros mais avançados do país.
Deste
painel que ainda se desenrola nas redes, emerge a mensagem de que a franca
maioria defende a medida. Para ela, é a resposta a um pedido de socorro, depois
de um Estado que sofreu a maior ação de pilhagem dos cofres públicas de que se
tem notícia no Brasil, e no mundo, perder sua capacidade de gerir os serviços
mais básicos da administração pública. Sérgio Cabral e seus comparsas
surrupiaram até a última gota de recurso do erário, deixando para o atual
Governador um imenso buraco vazio nos cofres e montanhas de contas a pagar. Seria
necessário um Gerente com G maiúsculo
e com muito talento para equilibrar a situação. Mas Luiz Fernando Pezão não é
esse tipo de administrador. Longe disto.
Como
uma desgraça nunca vem só, o Prefeito da cidade do Rio é, na avaliação que
também aflora das já citadas redes sociais, uma das maiores nulidades da
história municipal. E olhe que o Rio já passou por figuras que nem a pior das
maldições conseguiria engendrar. Marcelo Crivella, além de sua proverbial
alienação quando confrontado com os problemas da metrópole que supostamente
deveria governar, resolveu partir em doce vilegiatura pela Europa em pleno
Carnaval. Um pecado de lesa pátria. Na
maior festa do calendário carioca, o Prefeito some! Dizem que, por ser bispo
evangélico, abomina a festividade símbolo da Cidade Maravilhosa. Então, por que
se candidatou? Como se diz por aqui se
não sabe brincar, não desce pro play...
Sem
comando e sem dinheiro, a cidade vinha experimentando uma escalada de violência
e insegurança, com indícios de que o aparato policial já não conseguiria
controlar a situação. Na última quarta-feira, Pezão jogou a toalha.
Mas,
como sou carioca há 77 anos, preciso testemunhar o seguinte. A culpa pode ser
dos atuais políticos. A responsabilidade, porém, vem de longe.
Vem
do abandono romântico com que se deixaram vicejar as invasões que deram origem
às primeiras favelas. Vem do mitológico laissez-faire
dos habitantes de uma cidade abençoada por um dos mais deslumbrantes
cenários do planeta. Vem do espírito irreverente com que os eleitores
praticaram o voto de protesto, escolhendo
incompetências notórias para administrar os nossos destinos. Qualquer pessoa
que olhe o Rio de hoje, desfigurado por quase duzentas favelas, cuja população soma perto de um terço do seu total de
habitantes, pergunta-se. Como foi
possível deixar isto acontecer?
Já
em 1965, elas começavam, aos poucos, a invadir áreas nobres da cidade.
Lembro-me de um aglomerado que ocupava o alto do morro do Pasmado, ali mesmo,
sobre o Túnel Novo, de cara para a Praia de Botafogo e o Pão de Açúcar. Carlos
Lacerda, recém empossado no Governo da Guanabara, não fez por menos. Cercou o
morro e deu 48 horas para as pessoas saírem. Depois, mandou queimar tudo. Nunca
mais se viu um barraco no Pasmado.
Mas,
não se fizeram mais Lacerdas. Fizeram-se foram muitos Brizolas, Beneditas,
Rosinhas e Garotinhos. E, hoje, não há mais como erradicar essas comunidades. A cidade
deslumbrante terá de conviver com suas feridas. Feridas que ainda sangram,
guetos que se transformaram, com nossa passividade e conivência, em fortalezas
inexpugnáveis dos cartéis da droga, labirintos construídos pelas invasões de
terra que ninguém quis enxergar, construções condenadas que deixarão para
sempre suas cicatrizes no rosto de um Rio que desaparece no passado.
Oswaldo Pereira
Fevereiro 2018