quarta-feira, 9 de outubro de 2019

ABSTENÇÕES



Portugal foi às urnas. Ou melhor, METADE de Portugal foi às urnas. A abstenção no pleito do passado dia 6, cujo objetivo era a escolha dos membros do Parlamento da Nação, chegou aos 45%. Nesta eleição de 2019, 300.000 portugueses a mais do que na última votação legislativa, cuja abstenção já fora alta, abriram mão do seu direito cívico de votar. O que isto quer dizer?

Quer dizer que há um desencanto. Que mais significativo fica quando verificamos que o fenômeno acontece na maioria das democracias europeias. O percentual médio de abstenção no Mercado Comum tem sido de 47%. Ou seja, um abandono maciço à opção usar uma das prerrogativas mais fundamentais das sociedades livres. A de escolher seus representantes, aqueles que farão as leis que regerão a vida e o destino de um povo durante seus mandatos.  Quando se pensa no sacrifício, na luta e no caminho árduo que muitos destes países tiveram de percorrer para conseguir chegar ao paraíso de uma liberdade plena, maior ainda fica esta perplexidade. O que está havendo?

Há várias opiniões e várias análises. Há os que prenunciam um declínio na vocação democrática de muitos países, indo até a especularem que a própria eficácia do princípio do decantado governo do povo, pelo povo e para o povo está com os dias contados. Muitos vaticinam que há países maduros para o apetite de algum populista ardiloso, cujo discurso mais radical possa arrebatar corações e mentes.

Outros veem defeitos não na filosofia democrática, e sim no mau uso do sistema, na falta de proximidade entre eleitor e eleito, que leva o cidadão a questionar e a desconfiar do verdadeiro valor de seu voto. No momento em que a sensação de representatividade amortece, o ideal da participação popular e de sua influência no comando político também desvanece, desaguando numa apatia profunda com relação ao dever de votar.

É este o grande desafio atual das sociedades democráticas. Resgatar o interesse do eleitor. Modificar, talvez, o processo eleitoral, estreitando a distância entre representantes e representados, convencer o cidadão de que seu destino pode estar em suas mãos, e fazê-lo aceitar que Democracia é um exercício constante, permanente, que não acaba no momento em que a cédula cai na urna ou um botão é premido num terminal. Que só vive em sua plenitude se o povo nela acreditar de verdade.

Oswaldo Pereira
Outubro 2019

10 comentários:

  1. Ora pois! Esta posto que os cidadãos ja perceberam que
    O PODER, assim como A ESCOLAainda que com os veus diafanos da Democracia e do Saber, está mais para vaidade, ganância, abuso, violência do que para qq outra coisa. Acho essa recusa mto bem vinda, sinal de que esse mundo controlado pelo outro já era. Já deu. Que cuide cada um de sua pp
    Vida.

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    1. Ora pois pois! Democracia não é mesmo para todos. E exige um grau de conscientização cívica generalizada rarissimamente atingido por qualquer sociedade. E, será que no tempo de Péricles havia isto, ou Democracia era apenas um conceito?

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    2. Se não é para todos, não é democracia. Qto as expectativas para o Futuro ... doce ilusão. Bem sabia sobre isso o carismático Sigmund. Vale a pena rever seus ensaio:"O Futuro de uma Ilusão". Por sinal, além do mais, uma peça literária da melhor qualidade.

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    3. Outra coisa. Acho que nos tempos de Sócrates, o figurino proporcionava aos humanos outro aplomb, outra liberdade. Essa humanidade embalada à vacuo ... sei não. Perdeu a validade.😥

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    4. E, com os sacos de plástico a serem brevemente banidos, nem embalada à vácuo vai ser... God help us!

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    5. ...mas é mto bom receber comentários e informações através dos seus textos; sem aquele ranço mediático.

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  2. Muito apropriada sua análise. Apesar de todas as imperfeições o regime democrático ainda é aquele menos ruim. É o que permitiu o grande desenvolvimento que o ocidente atingiu em todos os campos. Este desalento com o regime democrático causa calafrios ao pensar nas desgraças que regimes autoritários já causaram e ainda causam. Por outro lado como não desanimar com a classe política que ao longo do tempo se encastelou nos parlamentos. Levaremos algum tempo até que a sociedade tome consciência de que essa classe política que agora rejeitamos foi gestada lentamente pela própria sociedade.

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    1. Olá Zé,
      Como na resposta que dei ao comentário da Solange acima, Democracia requer um alto nível de Educação cívica e responsabilidade do povo que vota. Se isto não existe, então, como dizia Bernard Shaw, o sistema democrático permite a chegada ao poder de verdadeiras nulidades.

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