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terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

CANAL CONVERSA AFORA



O meu canal do YouTube, chamado CONVERSA AFORA, tem sido disponibilizado por e-mail na lista de recebedores deste blog.

Para que possam melhor identificar a origem dos vídeos, informo estou utilizando o meu endereço ozbpereira@gmail.com para enviá-los.

Acabei de postar o capítulo acima, A RÚSSIA E O COMUNISMO – PARTE 3. É a segunda série do Canal. A primeira, em cinco partes, foi O FIM DA RÚSSIA DOS CZARES.

Gostaria imenso que os meus fiéis e pacientes leitores seguissem e se inscrevessem no CONVERSA AFORA. Não custa nada e é só um clic do mouse.

Um grande abraço,

Oswaldo Pereira

Fevereiro 2023

domingo, 5 de fevereiro de 2023

DEZ ANOS

 


No dia cinco de fevereiro de 2013, há, portanto, exatos dez anos, uma súbita crise de imodéstia fez-me tomar a iniciativa. Já havia escrito dois livros (O Pátio de Atenas e A Fórmula Etrusca), cujos arquivos haviam dormitado por anos em algum disco rígido até que eu conseguisse a coragem necessária para publicá-los. Nunca foram, é claro, grandes sucessos literários e, além de alguns gentis amigos e parentes que os adquiriram, definharam nos catálogos das livrarias on line.

Assim, nada havia na maré dos incentivos que me permitisse insistir numa nova aventura com as letras. Mas, como disse alguém (acho até que fui eu...), há vontades que nos fazem desprezar os avisos do bom senso. E eu, nos momentos em que a guarda da censura interna baixava, sentia extravasar pelos poros dos meus neurônios a vontade incontrolável de escrever.

Acabei por bulir com a paciência de um seleto grupo de conhecidos enviando, com certa regularidade, os meus escritos. Sem que eu mesmo sentisse, isto foi o embrião deste blog. Assim, naquele gelado fevereiro de há 10 anos (eu estava em Portugal), produzi o texto Palavra Escrita   (se quiser lê-lo, é só clicar em cima)  que deu nome e início a esta página eletrônica.

Já foram quase 600 artigos. Um pouco de tudo, mas, principalmente, um muito daquilo que vi e vivi ao longo da vida. Dei testemunhos e contei histórias, fiz poesia e falei de filmes, celebrei fatos e datas, descrevi as terras por que passei e os alguns livros que li. Pensando bem agora, após esta década de amor febril pela escrita, tenho de confessar. Embora concedo-me imaginar que alguns de meus textos tenham, porventura, proporcionado momentos prazerosos a alguém, o MEU prazer em escrevê-los foi imenso. Ou seja, o que aqui se trata é de um cavalar exemplo de egoísmo, do qual, contritamente, espero que me perdoem.

Só como referência (não há a menor intenção minha de obriga-los a lê-los), selecionei abaixo dez textos (dos 575 publicados) que considero importantes para ilustrar o espírito do “Palavra Escrita”. Basta clicar em cima.

Variações Sobre Um Tema

Binômio Encantado

Sonhos de Um Carioca

A Grande Nuvem

O Brasil E O Futuro

Ecos de Março

E Se?

A Terra Não É Mais Azul

O Violento Pitecantropo


Muito obrigado a todos os que, em sua infinita condescendência, tiveram a pachorra de ler o que aqui escrevi ao longo desta conturbada década. Mais agradecido ainda fico aos que me deram o prazer de comentá-los e, mais ainda, de divulga-los.

Obrigado, mesmo.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2023

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

ANTIVAX

 


Neste momento, em que alguns arautos catastrofistas apregoam uma nova investida do inimigo público no. 1 desta segunda década do século 21, o COVID (será a? ou um neutro da moda?) e a consequente reação das autoridades sanitárias para empurrar mais vacinas, deparei-me com uma recente publicação da Fundação Hippocrate.

A Fundação é uma organização privada suíça, com sede em Lausanne, que, entre outros afazeres, reúne artigos sobre Medicina e faz análises e críticas a trabalhos de cientistas, pesquisadores e médicos de todo o mundo.

Na publicação em causa, a Hippocrate comenta o recente livro de Xavier Bazin, um jornalista investigativo na área da saúde e um apaixonado pela medicina natural, intitulado Antivax! Toi Même... Seus livros e suas reportagens têm constituído um libelo contra as políticas sanitárias dos Governos e contra os grandes laboratórios. Nem é preciso dizer então que Bazin é um juramentado antivax, isto é, um opositor das vacinas contra o COVID 19.

Sua tese, inclusive, vai mais além. Segundo sua convicção, todas as grandes pandemias erradicaram-se ANTES que algum esforço de vacinação fosse empreendido. De acordo com este princípio, as doenças transmissíveis de grande difusão entre as populações obedecem a um ciclo natural de deflagração, abatimento e extinção que independe da ministração das vacinas.

Evidentemente, é uma afirmação mais do que polêmica. E rios de tinta (e horas de Web) já foram gastos discutindo o assunto e não será aqui, neste modesto blog, que eu meterei minha mão nessa cumbuca cheia de marimbondos.

Mas, na citada publicação da Fundação Hippocrate, há algumas considerações que achei por bem aqui colocar, numa tradução livre do francês.

“COMO A INDÚSTRIA FARMACÊUTICA E OS PODERES PÚBLICOS TRABALHAM DE MÃOS DADAS PARA IMPOR AS POLÍTICAS SANITÁRIAS GLOBAIS

Contrariamente a uma parte importante da Medicina ou da Ciência, a vacinação apenas pode ser aceita se tiver uma intervenção maciça e permanente das autoridades públicas. O que não é realmente uma surpresa se verificarmos que se trata de uma ferramenta de prevenção. Por definição, demonstrar que um risco irá ou não se produzir é uma tarefa difícil.

Para impor a vacinação às populações, é necessário que os Governos utilizem todas as prerrogativas da força pública à sua disposição. As políticas de vacinação são constituídas graças a uma rede institucional cada vez mais estreita entre a indústria farmacêutica, os Governos, seus administradores sanitários e a OMS (Organização Mundial da Saúde).

A OMS, que se tornou referência em seu campo depois da Segunda Guerra Mundial, é, na realidade, um organismo sob influência e que depende mais de financiamentos privados do que dos Estados. Assim, a Fundação Bill Gates tornou-se o seu maior doador e de quem a OMS muito depende financeiramente.  E esta Fundação é, por sua vez, financiada pelos dividendos das ações que ela possui... da indústria farmacêutica! É o que se pode chamar de um gigantesco conflito de interesses...”

Dá ou não dá para pensar?...

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2023

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

REPENSAR

 


A Direita Conservadora brasileira vai precisar reinventar-se, se quiser obter algum sucesso em sua oposição à Esquerda que acaba de tomar o poder no país. É claro que há motivos mais que justos para legitimar sua revolta e seu inconformismo.

Tudo começou com a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin de anular, por filigranas técnicas, todos os processos contra Lula, que em várias instâncias e por inúmeros juízes fora condenado por corrupção, e permitir sua candidatura à Presidência. Outra lenha na fogueira da discordância foi a recusa das autoridades eleitorais em permitir, numa eleição exclusivamente eletrônica, cuja diferença entre vencedor e vencido foi de apenas 1,6%, uma inevitável análise dos códigos de totalização dos votos. Creio que uma abertura que comprovasse a lisura do processo evitaria grande parte das manifestações de repúdio ao resultado. Na mão inversa, o sigilo teimosamente praticado pelo Tribunal Superior Eleitoral fomentou dúvidas sobre a legitimidade das eleições. A exacerbada reação dos juízes, rotulando de “criminosas” as multidões que foram às ruas protestar serviu para elevar a temperatura.

Então, motivos não faltaram. Faltaram, isto sim, estratégia, organização, inteligência e liderança. E que acabou culminando na facilidade com que as manifestações de Direita caíram na arapuca das invasões em Brasília. É impossível não prever que era a situação ideal para que uma minoria se aproveitasse e transformasse uma ação que, pacifica e ordeiramente, permanecera por mais de 60 dias nas ruas, num pandemônio.

O diletantismo e a ingenuidade, inclusive, já haviam permitido o retorno da Esquerda, afogada no mar de corrupção e politicamente destroçada há apenas quatro anos, ao cenário nacional.   

Não é assim que se confronta adversários que, há mais de cem anos, têm como cartilha uma incessante luta pelo poder, uma dedicação total ao objetivo de implantar sua doutrina. Seus métodos e sua agenda estão lá, em todos os livros, todos os panfletos, todos os manifestos do social-comunismo. O controle da mídia, das pautas de ensino nas escolas, do meio intelectual e artístico, do judiciário é seu programa de ação básico. Trabalham nisso 24 horas por dia, todos os dias e são, reconheçamos, extremamente competentes no assunto.

Para enfrentá-los, a Direita Conservadora brasileira não precisa de Sir Galahad. Precisa de Maquiavel. E de um líder. Bolsonaro, apesar de bem intencionado e genuinamente patriota, foi presa fácil. Lindos atos patrióticos, hinos cantados com fervor, bandeiras enroladas nos ombros, infelizmente, não fazem parte desta luta. As armas são outras. Ou aprendemos a usá-las, ou vamos perder sempre.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

 

 

domingo, 1 de janeiro de 2023

2022

 


Não sei como os livros (digitais, claro) do futuro irão se referir a 2022. Mas, só com muita boa vontade um historiador, consultando os arquivos em seu computador de bordo a caminho de umas férias em Marte, poderá anotar algo de positivo sobre este ano que acabou de findar.

Talvez, o suspiro de alívio de toda a humanidade pelo fim da pandemia. As janelas foram novamente abertas, os rostos voltaram a exibir os sorrisos que as máscaras ocultavam, os parques encheram-se de crianças e de velhos, a vida voltou a pulsar.

Mas, em compensação...

Tivemos a guerra da Ucrânia, o Oscar do tapa, chuvas torrenciais, incêndios gigantescos, ciclones devastadores, temperaturas congelantes. E a Taça foi para Argentina.

Fizemos 200 anos em meio a uma desagregadora polarização política, a Terra contabilizou 8 bilhões de habitantes ainda às voltas com desigualdades cruéis, inflação e recessão grassaram em economias de primeiro mundo, perdemos um Rei, uma Rainha e um Papa.  

Muita gente boa das nossas artes partiu. Jô, Erasmo, Gal, Boldrin, Elza, Milton, Jabôr, Rangel. Pablo Milanez, o gentil cubano, também. As telas de cinema ficaram menores sem Sidney Poitier, Olivia Newton-John, Angela Lansbury, William Hurt, Robbie Coltrane e tantos outros.

É... um ano com um numeral romano tão carismático (MMXXII) vai deixar no seu verbete um rosário de infortúnios. Talvez seja emblemático verificar que, em 2022, dois acontecimentos, um de ficção e o outro real, ligados às estrelas e ao infinito, nos fizeram pensar. O primeiro foi um filme que nos sugeria não olharmos para cima (Don´t Look Up); o outro foi o lançamento do super telescópio espacial James Webb, que nos revelou as imagens do começo do universo. Ambos escancararam nossa pequenez e nossa fragilidade.

Afinal, tudo passa...

Resta a consolação de que 2023 não precisará fazer muito esforço para ser melhor. Assim,

                                                             UM FELIZ ANO NOVO!

 

Oswaldo Pereira
Janeiro 2023

segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

DESALENTO

 


Os poucos (mas valorosos) seguidores deste blog sabem que eu procuro não publicar assuntos, especialmente os políticos, que deliberadamente suscitem polêmicas e confrontações. Na grande maioria, os textos que aqui apresento, com a pretensão única de atrair um pouco da sua atenção, versam sobre experiências deste modesto escriba, sejam de viagens, de livros lidos, de filmes assistidos e, especialmente, de observações da vida e do universo que me cerca, filtradas pela perspectiva de muitos anos de uma existência atenta e uma mente curiosa.

Momentos houve, entretanto, que acontecimentos importantes do ambiente institucional brasileiro impeliram-me a externar minha opinião, sempre ressaltando que era uma manifestação individual e apoiada tão somente no arcabouço de informações que estavam ao meu alcance. Dado que este blog nasceu em fevereiro de 2013, portanto no terceiro ano do primeiro mandato de Dilma Rousseff, minhas pontuais crônicas de cunho político cingiram-se ao período compreendido entre aquele ano e o presente. As mais incisivas intervenções procuraram, de um lado, espelhar minha aversão àquela governante que, com sua imensa estupidez e imperdoável arrogância, significou para mim o que de pior esteve no comando deste país, pelo menos com relação aos presidentes que conheci nestes meus 82 anos de idade.

Outra circunstância que me levou a escrever sobre a nossa situação política foi o gigantesco esquema de corrupção engendrado e comandado pelo Partido dos Trabalhadores, tendo como beneficiários e cúmplices a grande maioria de um Congresso venal e um Judiciário desonesto. Foi como um horrorizado cidadão que não pude resistir ao impulso de externar meu nojo e minha repulsa.

Nunca cheguei verdadeiramente a publicar análises mais profundas sobre o Governo Bolsonaro. Com a pandemia tirando o foco dos outros temas e prejudicando uma avaliação correta da atuação de seu mandato, não me entendi capaz de fazê-lo. De qualquer modo, o simples fato de verificar sua férrea vontade de colocar uma trava no obsceno rega-bofe dos governos anteriores já o credenciava favoravelmente. E, no período pós-Covid, com a economia recuperando, o Brasil voltando a crescer em níveis superiores a outros países, com a inflação em baixa, o desemprego em queda e com quase todos os indicadores desenhando uma curva virtuosa, minha simpatia aumentou.

A vitória de Lula me desencantou. Mesmo verificando que Bolsonaro, ao mesmo tempo que comandava um séquito de milhões de brasileiros (como raras vezes tive a oportunidade de testemunhar na história recente), também suscitava uma disseminada rejeição ao seu modo truculento e, em grande medida, a surda revolta de fortes interesses contrariados, cheguei a crer que o povo não iria permitir a volta daqueles que haviam jogado o país num pântano de desmandos e corrupção.

Estava enganado. E perplexo de ver muita gente que conheço conscientemente escolher o candidato do PT.

Os primeiros movimentos do novo Governo vêm-me confirmar os meus maiores temores. A visão de um anunciado descontrole fiscal, o aumento do número de Ministérios, o leilão político de cargos que deveriam ser ocupados por técnicos competentes, o retorno ao poder de nomes que causam arrepios, tristemente conhecidos por sua inépcia ou suas falcatruas, o ressurgimento do peleguismo em suas piores formas dá-me uma profunda sensação de desalento, de desencanto e de luto por um futuro que está morrendo.

E aí, eu me permito perguntar aos que votaram em Lula. É isto mesmo que vocês queriam? É esta a imagem que vocês defendem e em que acreditam como sendo a melhor opção para o bem estar da população brasileira? É este o uso dos impostos que vocês reputam como a mais adequada? É este o país     que vocês querem apresentar para seus filhos? Espero fervorosamente que sim porque, embora tendo o pleno direito de escolher, há um direito que vocês não têm. O de se arrependerem.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2022

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

O BAÚ



Quanto mais vivemos, mais lembranças temos. É um axioma. E, dito assim, parece uma obviedade gritante. A vida nos faz acumular passado que, no fundo, nada mais é do que um baú de histórias que o destino, ou alguém regendo em seu lugar, nos fez protagonizar. À medida que nossa trajetória se alonga, estes pedaços de memória vão resvalando para dentro deste baú, acumulando-se juntamente com a poeira do tempo. Alguns vão tão fundo ou são tão distantes no tempo que acabam se apagando, como papéis velhos e amarelecidos que se desfazem no sopro do esquecimento.

A ruína, no entanto, é seletiva e pouco tem a ver com o passar dos anos. O que mantém algumas dessas lembranças vivas e coloridas é a maneira com que elas nos encantaram, feriram ou nos modificaram. De repente, o som de uma canção ouvida na infância e que nos trouxe uma revelação está mais vivo do que a desimportante sinfonia tocada anteontem. Primeiros amores, primeiras dores, primeiras encruzilhadas, primeiras epifanias – são elas as imagens que mais perduram, são delas que nosso enredo seletivo mais lança mão, quando a idade nos abre o baú.

Nós, os velhos, estamos cheios dessas coleções de momentos passados e recordá-los é um dos mais praticados exercícios e um dos prazeres mais cultuados da velhice. E a suprema felicidade vem quando podemos compartilhá-los com aqueles que os experimentaram ao nosso lado.

Acontece que, com o correr do tempo, muitos dos nossos interlocutores vão partindo, levados pelo mistério que é o destino. Vamos ficando sós, sem ter conosco as testemunhas dos episódios do nosso passado. Aquele amigo com quem vimos um gol de Garrincha num Maracanã lotado, que foi conosco numa matinê do Metro Copacabana ver a plateia batendo palmas para Gene Kelly dançando na chuva, aqueles com quem amarramos a primeira bebedeira de cuba-libre ou ainda os que, juntos, após um festa de reveillion de vestidos longos e smokings, fomos ver a alvorada de um novo ano na praia de Ipanema.

Podemos até continuar contando estas mesmas estórias para outros ouvidos, mas a magia do compartilhamento de uma experiência comum não aflora, a linguagem cifrada dos segredos divididos não é mais reconhecida.

Vamos ficando mais sozinhos com o nosso baú, pois cada vez menos há aqueles que sabem a senha de seu cadeado.

Envelhecer também é isto.

Oswaldo Pereira

Dezembro 2022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

OITO BILHÕES

 


A data de referência é o dia 15. Mas, tenha sido hoje ou ontem, seja amanhã ou na semana passada, nossa querida Terra chegou à marca de 8 bilhões de habitantes. Oito seguido de nove zeros. Para se ter uma ideia do tamanhão deste número, se você começasse a contar agora, com a voz pausada e sem parar um segundo, só terminaria em novembro de 2075.

Quando eu nasci, em 1940, o mundo contabilizava 2 bilhões de pessoas; ou seja, no espaço de uma vida (a minha), o número de moradores deste planetinha multiplicou-se por quatro. Hoje temos mais seis bilhões de pares de pulmões e seis bilhões de bocas metabolizando ar, água e comida do que no ano do meu nascimento. E olhe que tivemos, neste hiato de tempo, nada mais nada menos do que uma guerra mundial e algumas catástrofes ecológicas e sanitárias. Nada que pudesse impedir a festa do crescimento demográfico.

E essa nossa eficiência em povoar o mundo revela-se numa espetacular progressão geométrica, especialmente de 220 anos para cá. Levamos duzentos mil anos para chegar ao primeiro bilhão, no ano de 1800. E, excetuando-se o interregno da Peste Negra, havíamos crescido sem parar.

Mas nada em comparação ao ritmo que se observou no século vinte, especialmente no período entre 1950 e 1970, impulsionado pelo histórico baby boom (terminada a Segunda Guerra Mundial, milhões de jovens soldados retornaram a casa pensando numa só coisa...). Durante aqueles vinte anos, o aumento populacional anual foi de 2,3%.

Este percentual é hoje de 1,1%. O ritmo abateu-se. As estatísticas mostram que, atualmente, há 140 milhões de nascimentos e 60 milhões de mortes por ano; as previsões indicam que, com a diminuição progressiva de partos, em algum tempo perto de 2100 haverá um empate. Daí para a frente, só declínio.

Razões? É difícil precisar. Não é por falta de recursos naturais, pois a nossa dadivosa mãe Terra, embora maltratada, parecer ter ainda capacidade de nos alimentar por muito tempo. Nos dias de hoje, os problemas de fome e necessidades devem-se mais a uma distribuição desigual do que à escassez. Pode ser mais um ciclo, dos muitos que regem a Natureza.

Só sei que, de duzentos mil anos para cá, conseguimos espalhar-nos pelos mares e continentes, e assegurar nosso lugar no topo da cadeia alimentar. Quanto tempo durará este reinado?

Oswaldo Pereira
Novembro 2022

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

BOLA NAS COSTAS

 


No futebol, o pesadelo de todo jogador de defesa é ser enganado numa jogada em que o atacante adversário recebe um passe perfeito atrás de si. No linguajar futebolístico, é a popular bola nas costas.

Para que meus leitores de além-mar entendam, aqui em Pindorama é de praxe usar imagens do esporte bretão para ilustrar paisagens políticas. As famosas quatro linhas, o ufanismo da camisa amarela, o Brasil de chuteiras, tudo isto comprova o quanto o espírito do futebol permeia o imaginário pátrio e os modelos de comparação.   

Nesta linha, algo me inspira a dizer que o lance desportivo descrito acima cai como uma luva para desenhar o cenário que, embora propositalmente ignorado por uma mídia acovardada ou desonestamente partidária, cobre o país de norte a sul: as gigantescas manifestações de repúdio ao resultado das eleições, que já perduram por 15 dias.

Sem entrar no mérito de sua possibilidade ou não de sucesso, e, para já, defendendo o direito constitucional que o cidadão brasileiro tem de poder, pacificamente, expressar sua opinião e externar seu desagrado, gostaria de opinar sobre o local que as multidões escolheram para fazer sentir sua voz. Enquanto as bandeiras e os pedidos de socorro se agitam e ecoam em frente as casernas, a cena principal, na qual se prepara a aprovação de um pacote irresponsável e desastroso para a Economia brasileira, acontece no palco do Congresso.

É para lá que se deve dirigir a nossa vigilância. E à sua porta (e antes que algum açodado leitor me acuse de trumpista e de incitar um seis de janeiro em Brasília), pacífica e ordeiramente, como, de resto, tem acontecido Brasil afora, exercer sua pressão sobre os nossos ínclitos representantes. Foi para isso que o povo os lá colocou e é neles que deve refluir o poder que dele emana.  Aos seus ouvidos e ante seus olhos é que a multidão deve oferecer o espetáculo, este sim, da Democracia em pleno movimento.

Acho que este seria o posicionamento adequado, para não levarmos uma bola nas costas...

Oswaldo Pereira
Novembro 2022

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

E É SÓ O COMEÇO...

 


Irresponsabilidade fiscal, aumento do número de Ministérios, retorno de nomes que já provaram sua incompetência no trato da coisa pública...

E isto é só o começo. Como dizem que nada é tão ruim que não possa piorar, o inconsequente e popularesco discurso de Lula desta quinta-feira, cujo efeito negativo no mercado de capitais foi imediato, dá o tom do que pode vir por aí.

Só quem ainda não chegou na quarta série do primário ou vive numa redoma impenetrável ignora (ou finge ignorar) as consequências do descontrole das contas públicas. Para estes, e para todos nós, eu aconselho que se preparem. Gastar mais do que se ganha, tanto no microcosmo de uma contabilidade familiar como na economia nacional, tem como corolário o aumento do nível de endividamento. Parece simples. E é. No caso dos Governos, a cobertura do furo ou vem do aumento da arrecadação (vulgo aumento de impostos) ou da emissão de moeda (no popular, inflação).

Então, apertem os cintos. Com esse discurso, que até fez levantar os poucos cabelos do Alkmin, Lula pode assustar os grandes investidores internacionais que, durante os últimos quatro anos, descobriram o Brasil como uma opção e um destino interessante e confiável. Capital não tem pátria e é veloz em suas movimentações. Uma fuga para outros portos mais seguros vai enfraquecer o real, diminuir a arrecadação e destruir empregos.

Se acham que estou exagerando, tudo bem. Mas, certas leis econômicas são imutáveis e, se puxarem um pouquinho pela memória, concluirão que já vimos este filme num passado não muito distante, durante o desgoverno e as pedaladas de Dilma. Discursos emocionados não mudam certas verdades. O que Lula está propondo é uma pedalada gigante, cujo valor pode chegar a R$200 bilhões.

Ao final de sua conferência, Lula fez alusões jocosas à reação da Bolsa e do câmbio e até perguntou, em tom de galhofa: Por que o mercado não havia ficado nervoso durante os quatro anos de Bolsonaro?

Será que é preciso explicar?

Oswaldo Pereira
Novembro 2022

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

DUAS ARENAS

 


Esperando a poeira baixar, enquanto ouço e vejo as explosões de alegria dos apoiadores de Lula e o desespero e a tristeza dos seguidores de Bolsonaro. E, aos poucos, à medida que a névoa da batalha se dissipa e eu me recupero da ressaca de uma esperança contrariada, tento enxergar além deste cenário imediato do pós-pleito.

Para mim, o que tivemos foram duas eleições, duas arenas em que se delineou o que o Brasil realmente quer. Na arena mais ampla, aquela que define o panorama político que vai comandar o Parlamento e a administração dos Estados brasileiros, houve a demonstração de uma clara e indiscutível preferência dos eleitores pela direita conservadora ou, pelo menos, pela fatia que se identificou com o Governo Bolsonaro. Praticamente, todos os seus ex-ministros se elegeram, todos os que tiveram seu incisivo apoio durante a campanha foram, com larga margem, premiados pelas urnas.  Houve uma significativa renovação, tanto na Câmara Federal como no Senado e, na maioria dos Estados mais importantes da União, os candidatos alinhados com o atual Presidente venceram.

Sem medo de errar, podemos dizer que a direita foi a grande vencedora. E isto quer dizer muita coisa. Quer dizer, por exemplo, que muitas das pautas da preferência petista encontrarão uma imensa dificuldade de passar no Congresso. Quer dizer que as casas legislativas estarão prontas a instalar CPI’s à menor indicação de atos irregulares do Governo Lula. E quer dizer também que o próprio STF terá agora pela frente um Senado hostil. Só para brincar de cenário, imaginem se, por exemplo, Sergio Moro for eleito Presidente da casa. Quantos pedidos de impeachment de Alexandre Moraes et caterva vão ser exumados de debaixo do tapete onde Rodrigo Pacheco os colocou?

Mas, tivemos uma outra arena. Uma arena de dois contendores, disputando um round de rejeições. A apertadíssima vitória de Lula nesse ringue dá a dimensão de quão acirradas e diametralmente opostas são as paixões e as preferências pessoais. Deve-se notar, também, que, mesmo apanhando da mídia todos os dias durante os quatro anos de seu mandato, enxovalhado pela classe artística e influenciadores de plantão, e alfinetado constantemente por uma Justiça partidarizada, Bolsonaro quase derrotou Lula.

Disto tudo, percebe-se que Lula terá dificuldade para governar. O Brasil de hoje é muito diferente do Brasil de 2002, de 2006, e mesmo de 2010, quando Dilma ganhou as eleições. Para já, há um modo novo de divulgação e propagação de ideias e notícias e, não há dúvidas, é um fator que pode desestabilizar o ambiente político. Além disso, Lula estará muito só no mandato que ele iniciará em primeiro de janeiro de 2023. A esquerda está sem lideranças. Haddad, Boulos, Freixo e muitos outros foram rejeitados pelas urnas. Em contrapartida, duas grandes estrelas da direita estão surgindo e já anunciando seu protagonismo: o mineiro Romeu Zema e o carioca Tarcísio de Freitas.

O que realmente me preocupa é a reconhecida orientação esquerdista de, comendo pelas bordas, cooptar, seja pela corrupção ou pela ameaça, os pilares do poder. É um filme que já estamos assistindo aqui mesmo perto de casa e que já vivenciamos em Pindorama. Outra é a reação internacional. Não aquela que muita gente boa está comemorando, destacando a aceitação de Lula pelos governos estrangeiros. Isto de tapinha nas costas de chefes de Estado é muito bonito para fotografias e discursos. O que me interessa é a aceitação e a confiança dos grandes investidores internacionais, aqueles que trazem dinheiro e criam trabalho e riqueza. Nestes anos de Bolsonaro, o Brasil foi o eleito por eles como porto seguro para seus empreendimentos. Será que Lula não irá assustá-los, como aconteceu na Venezuela, na Argentina, no Chile e agora começa a acontecer na Colômbia?

Isto é o que eu consigo enxergar. Vão ser anos difíceis. Se Lula, paralisado num ambiente político adverso, estagnar o país, logo-logo a lua-de-mel acaba. Até a grande imprensa, que agora perdeu seu Judas preferido para malhar, poderá dar um giro de 180º em suas baterias. A ver.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

domingo, 16 de outubro de 2022

COMO FOI POSSÍVEL?

 


Logo após as eleições de 2018, um amigo francês enviou-me um e-mail perguntando: Por que Bolsonaro? Respondi-lhe também por e-mail. Foi uma resposta sucinta e apenas em grandes linhas. Resolvi, porém, qualificar melhor a minha resposta e escrevi um texto sobre o assunto, em que procurei colocar em perspectiva político-histórica o resultado das urnas (se você estiver interessado, poderá lê-lo neste   LINK  ).

Passados quatro anos, e nas vésperas do segundo turno de uma eleição crucial, sou eu que me pergunto: como foi possível chegar ao ponto em que estamos, com Lula disputando palmo a palmo a escolha para a Presidência do país?

Em outubro de 2018, o PT estava de rastros. A gigantesca corrupção que havia sido praticada durante os governos petistas, reveladas pela Operação Lava-Jato, havia horrorizado o povo brasileiro. Pela primeira vez, e devido principalmente ao incontestável teor da desonestidade conluiada entre as grandes empreiteiras e a base política do Governo, vimos, com o aplauso da sociedade brasileira, o revigorante espetáculo da justiça sendo feita. Caciques graduados e antes intocáveis recebendo a visita da Polícia em suas indevidas mansões e indo para a cadeia era a justa retribuição pelos zilhões de dinheiro do nosso esforço como contribuintes que tinham ido para o ralo da roubalheira.

O tenebroso projeto de poder da esquerda, colocando na folha de pagamentos do propinoduto, financiada pelos nossos impostos e à custa da dilapidação de empresas e fundos de pensão estatais, uma considerável fatia do Congresso, bateu fundo na indignação do cidadão pátrio. Umbilicalmente identificado com esse quadro de desonestidade, o PT e seus puxadinhos pareciam ter caído no ostracismo político. A nítida sensação de que Lula e Dilma, chefes da nação durante o período, se não participantes diretos no botim, teriam no mínimo pecado por omissão, havia destroçado seu capital político e sua imagem.

Então, a pergunta. Como se explica a ressurreição de Lula?

Um argumento poderia ter sido uma péssima administração de Bolsonaro. Naquele meu texto, eu repetia o que todos diziam na ocasião: o hercúleo trabalho que o novo Presidente tinha pela frente, ao assumir um Governo aparelhado e uma situação econômico-institucional complicada. Escalando um time de ministros de reconhecida competência e fechando os buracos da malversação do erário, Bolsonaro conseguiu surpreender favoravelmente. Hoje, ninguém duvida do sucesso de seu trabalho, com o país, após enfrentar uma prolongada pandemia, condições climáticas adversas e uma guerra com várias implicações, voltando a crescer, e com inflação e desemprego em queda. Essa aprovação ficou evidente na votação do dia 2. A direita conservadora aumentou consideravelmente sua presença no cenário político.

Assim, não é por aí. O que nos faz voltar ao problema da rejeição. E, neste quesito, eu acho que houve uma inversão de marcha. Nos últimos quatro anos, observou-se uma redução da ojeriza a Lula, dominante em 2018, a ponto de muita gente que o renegava ter bandeado para o grupo que é capaz de apagar seus registros de memória e imaginar que ele possa ser uma alternativa melhor. Lula mudou? É claro que não. Pela retórica de sua campanha, o que ele anuncia é um revanchismo enraivecido e o que se vislumbra é a volta à prática do jabaculê partidário, do toma lá dá cá indecente. Seu currículo e seu retrospecto não permitem esperar nada diferente.

O que operou esta redução? Para mim, a resposta vem de uma estratégia da esquerda que é mais velha do que eu: a cooptação da cultura, da escola e dos meios de comunicação, a célebre e decantada tática gramsciana, que o socialismo brasileiro tão eficazmente soube instalar neste país. Com isso feito e consolidado, ficou fácil capitalizar em cima dos interesses contrariados pela firme atitude anticorrupção de Bolsonaro, diminuir ou simplesmente esconder na mídia os avanços e as realizações do Governo, explorar ad nauseam a belicosidade do Presidente, suas falhas de comunicação e sua personalidade combativa, de quem não gosta de levar desaforo para casa.

E, apesar de a direita ter reagido através das redes sociais, a inimaginável volta por cima de Lula acabou acontecendo. E nos pondo na encruzilhada deste segundo capítulo das eleições.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

FALAM AS URNAS

 


Quando há uma Copa do Mundo, aparecem de repente, no Brasil, duzentos milhões de técnicos de futebol. Assim também, após cada eleição, milhões de analistas políticos surgem de todos os lados, prontos a oferecer aos seus interlocutores as mais abalizadas opiniões sobre os porquês e porcomos do comportamento dos eleitores.

Não perdendo a oportunidade, resolvi, para não ficar para trás, surfar nesta onda. Afinal, também sou gente. Desta forma, os meus parcos, mas abnegados leitores, vão ter de se munir de sua proverbial paciência e dedicar alguns preciosos minutos à minha modesta análise.

Em primeiro lugar, os números mais significativos do pleito ocorrido em dois de outubro último apontam um importante crescimento da Direita ou, traduzindo, do espectro político que apoia Jair Bolsonaro. Só o seu partido aumentou o número de cadeiras no Parlamento para 99 (de 76) e, considerando a união de forças resultante de uma ideologia comum, a base de Bolsonaro na Casa pode chegar a 273 representantes, o que lhe assegura ampla maioria.  No Senado, não foi diferente. Os 14 eleitos (de 27) pelo voto conservador irão alimentar as bancadas ligadas ao atual Governo. Também na disputa dos Governos Estaduais, pelo menos os reeleitos em importantes unidades da Federação (Rio, Paraná e Minas) e os prováveis vencedores no segundo turno (São Paulo e Rio Grande do Sul) já declararam seu incondicional suporte a Bolsonaro.

Isto quer dizer que houve uma demonstração alargada de aplauso à presente administração do país, coisa que os próprios indicadores positivos de satisfação com o seu desempenho, divulgados antes, já mostravam. A pergunta que se faz, então é: se há um claro recado das urnas de apoio ao seu pensamento, por que não elegeram o homem?

O problema é que há, tanto em relação a Bolsonaro quanto a Lula, um conteúdo de rejeição que influencia poderosamente o ato de votar. Conheço muita gente boa que reconhece o trabalho e os méritos do atual Presidente, mas não consegue superar a sua antipatia pela pessoa. E, convenhamos, há momentos em que Bolsonaro perde oportunidades de ouro que, se mais político fosse, teria aproveitado para diminuir esse sentimento desfavorável.

Na direção diametralmente oposta, ambos os candidatos têm multidões de torcedores, aqueles adeptos que continuam amando seus clubes apaixonadamente, mesmo depois de uma goleada adversária ou um rebaixamento de divisão.

Acho que tanto objetores quanto aficionados não irão mudar muito sua escolha até o dia 30.  Será no delicado balanço daqueles percentuais de indecisos é que a eleição se definirá. Se a evidente aprovação que veio das urnas prevalecer sobre a antipatia, Bolsonaro emplacará mais quatro anos. Com uma base parlamentar favorável, poderá governar com mais amplitude e deslanchar as reformas de que este país tanto precisa.

Se, por outro lado, a rejeição ao homem for tão forte que leve o eleitor ainda em cima do muro a esquecer o mar de corrupção que afogou o governo petista em 2018, poderemos ter um Lula lutando contra um ambiente político hostil, que certamente o paralisará. Não creio que ele consiga reeditar as práticas do Mensalão e do Petrolão num Congresso tão renovado.

Em termos simples, a escolha é esta. Alea jacta est.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

domingo, 2 de outubro de 2022

DOIS DE OUTUBRO

 


Love Me Do/P.S. I Love You
Dr. No

Se você estivesse em Londres no dia 2 de outubro de 1962, talvez pudesse, meio sem saber porque, ter comprado o compacto com as duas músicas da primeira frase acima, lançado naquele dia nas lojas de discos londrinas e, se ainda estivesse de bobeira, ido ao cinema ver a estreia do filme com o título da segunda.

Pronto. O destino o haveria premiado com a magia de ter testemunhado, em primeira mão, o nascimento das duas maiores lendas do entretenimento do século XX – os Beatles e James Bond. Cada um a seu modo, esses dois poderosos ícones iriam impregnar sua imagem na música e no cinema e influenciar centenas de milhões de aficionados mundo afora. Sessenta anos depois, diferentemente de tantos outros fenômenos que nasceram durante seu tempo, tiveram sua medida de sucesso, mas depois ficaram pelo caminho, os Fab4 e 007 ainda suscitam o interesse das novas gerações e alimentam o saudosismo daqueles que os viram surgir.

Entre estes, eu me permito incluir dois veteranos blogueiros. O meu amigo Homero Ventura, alcunhado mui merecidamente de Enciclopédia Beatlanica, dado o seu profundo e inesgotável conhecimento da obra dos Beatles e que, há meses, vem desenvolvendo uma magnífica e antológica resenha sobre o imenso mundo dos garotos de Liverpool, levando-nos aos mais pormenorizados detalhes de suas vidas e de suas canções, um trabalho que o levou a ser convidado a fazer parte da equipe do programa radiofônico “Submarino Angolano” de uma emissora de Luanda. 

O outro, modestamente, sou eu, com a minha série sobre os filmes de Bond. Ambos reverenciamos a data em que, há exatos sessenta anos, inescrutáveis desígnios fizeram coincidir o início de duas fabulosas carreiras.

O que nos faz pensar também sobre o poder de certas datas. Há tempos, escrevi um blog sobre o dia quatro de março de 1968, data da première do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço e do assassinato de Martin Luther King. Este dois de outubro também não fica atrás. Ao mesmo tempo em que comemoramos os milagres do passado, aqui no Brasil joga-se uma cartada importante sobre o nosso futuro. Raramente uma escolha é tão diametralmente oposta e, consequentemente, tão crucial. Não por acaso, dois de outubro é o Dia do Anjo da Guarda...

Uma coisa, entretanto, merece ser dita. Acabei de voltar para casa, depois de votar e não tenho, evidentemente neste momento, qualquer ideia sobre o resultado. Tenho minhas preferências, é claro, mas o que me mais me conforta neste momento é verificar que, de tudo o que eu vi e vivi nestes meus 81 anos de Brasil, sinto hoje a alegria de presenciar um espetáculo genuinamente democrático acontecendo. Um gigantesco colégio eleitoral de 150 milhões de brasileiros está, enquanto escrevo, exercendo seu direito de escolha livremente, sem coações, peias, proibições ou constrangimentos.

Se isto, por si só, não é uma vitória, eu não sei o que é.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

TEMPESTADE

 


É de sabedoria comum que, nos dias atuais, uma falha solitária não derruba um avião. Só a conjunção de algumas delas pode interromper um voo e causar um desastre. Assim também, incêndios florestais de grande porte só ocorrem se a fórmula 30/30/30 (mais de 30 graus centígrados de temperatura ambiente, menos de 30% de umidade do ar e ventos acima dos 30 nós) for verificada.

Tempestades perfeitas não acontecem por acaso. São obra de um conjunto de coincidências nefastas, cuja sobreposição num mesmo momento desencadeia uma catástrofe ambiental de consequências trágicas.

Isto me veio à cabeça no amanhecer chuvoso deste dia nublado. E, se você parar um pouco para pensar, vai sentir um leve arrepio ao fazer uma lista de algumas coincidências inquietantes que hoje afloram, aqui e ali, em nosso atribulado planeta. Quer conferir a lista?

.na Rússia, temos um presidente acuado, dono de um considerável porrete nuclear, que não gosta muito nem de blefes e nem que mexam no seu quintal;

.na China, há um líder com mais poder do que qualquer antigo Imperador Ming jamais teve, cuja agenda contempla nada menos do que levar seu país ao posto de nação mais poderosa do mundo;

.nos Estados Unidos, o comando está nas mãos de um homem com alguns sinais de senilidade, com problemas incômodos de liderança interna e disposto a compensar tudo isso com uma retórica externa extremamente belicosa;

.na liderança do Mercado Comum Europeu, encontramos uma senhora que gosta de vociferar ameaças de sanções contra os russos, aparentemente sem se importar com o fato de que o seu bumerangue vai retornar com mais força e que o inverno se aproxima do Hemisfério Norte;

.na chefia da OTAN, existe um legítimo falcão militar, deleitado com o aumento de seu arsenal, proporcionado pelos americanos, e ansioso para usar os seus brinquedinhos bélicos;

.na Ucrânia, imersa num conflito cruel e já demasiado longo, a cena é dominada por um ator que se viu de repente como protagonista no maior palco que se podia desejar – o mundo inteiro;

.na Europa, um punhado de dirigentes políticos vê-se tonto e desorientado, sem saber como sair da enrascada em que meteram seus países e como se preparar para um longo período de vacas emagrecidas por suas próprias decisões inconsequentes;

.na Coreia do Norte, já sabemos, um imprevisível herdeiro de uma dinastia de implacáveis ditadores continua se divertindo com seus foguetes e suas ameaças;

.no eternamente instável Oriente Médio, um Irã nuclear pode baralhar o delicado xadrez cujo tabuleiro tem à volta talibãs, xiitas, sunitas, curdos, vários grupos terroristas – e mais Israel;

.na América Latina, uma eleição pode determinar a queda do último baluarte conservador da região, deixando terreno mais que livre para a hegemonia da esquerda social-comunista, com inevitáveis consequências para o balanço político do continente.

Há mais? Deve haver. Mas, eu prefiro parar por aqui. Acho que vai chover. Um boa noite de sono para todos.  Se conseguirem...

Oswaldo Pereira
Setembro 2022

sábado, 17 de setembro de 2022

O VOTO



De tempos em tempos, assim como nós, também os países chegam a encruzilhadas do destino. São momentos em que parece que a História nos empurra para decisões cruciais, para uma inadiável escolha entre caminhos diametralmente opostos. São acontecimentos que ficarão para os livros, para deleite dos analistas que viverão num amanhã e que, como sempre, irão desenvolver várias teorias e explicações de como e porque uma nação e seu povo enveredaram para um lado e não para o outro. Será assunto para teses, compêndios e, não sei se será porventura o caso, muita polêmica na Web.

Mas, esses analistas estarão olhando pelo retrovisor, para um passado que, para nós, ainda é futuro. Por mais que as pesquisas pretendam nos fazer ver uma realidade que as ruas desmentem, a única coisa que sabemos é que as eleições brasileiras de outubro de 2022 são uma incógnita. E, pelo bem ou pelo mal, uma democrática incógnita.

Democracia, desde que os gregos a inventaram, é a palavra-chave dos anseios políticos da Humanidade. Embora o termo e o conceito tenham nascido na Grécia, na mítica agora, a suposta praça em que todos os cidadãos levantavam suas mãos para apontar seus governantes, a sua VERDADEIRA prática só foi realidade a partir do final do século XVIII. Foi no jovem Estados Unidos da América que seu exercício teve o poder de levar o país o mais próximo possível de um governo do povo, pelo povo e para o povo.

Entendamos bem, entretanto. Democracia não é uma dádiva. E nem uma bênção. Pressupõe uma série de atributos do grupo que a professa. Uma delas, talvez a principal, seja a Educação. Um povo educado tenderá sempre a fazer escolhas mais sábias e, girando num círculo virtuoso, aquelas que propiciarão o aumento e a disseminação de mais educação, e assim por diante. Em meus aborrecidos textos, tenho repetido sempre que, no meu provecto pensar, a Educação tem de preceder a Democracia, sob pena de, num ambiente de baixa civilidade, ser esta um instrumento de opressão e regresso.

Outra necessidade é a vigilância. Não vou aqui repetir a citadíssima frase de Thomas Jefferson, mas, efetivamente, Democracia exige um trabalho incansável de acompanhamento e cobrança. É preciso entender que na base do exercício democrático está o voto. E este nada mais é do que um mandato, uma delegação. Eu, eleitor, delego ao meu candidato representar-me nos diversos níveis da Administração Pública. Se eu não me mantiver atento à atuação de meu mandatário, todo o sentido do voto foi por água abaixo.

Daqui a mais alguns dias, mais de cento e cinquenta milhões de nós iremos às urnas. Não quero entrar aqui na polêmica da confiabilidade do nosso sistema de apuração. É um campo cheio de considerações técnicas que não entendo e, portanto, é-me impossível emitir qualquer opinião. Prefiro acreditar nele, até que alguma prova evidente me mostre o contrário. O que me preocupa mais é o grau de seriedade com que o eleitor brasileiro irá apertar as teclas de sua escolha. Se o fizer com convicção, de acordo com o que seu grau de informação e seu desejo de uma nação feliz e justa, estará praticando o melhor que a Democracia tem a oferecer. Se, ao contrário, usar seu direito apenas como manifestação de mesquinho despeito, de interesses venais contrariados ou, mesmo, de desinteresse, se terá tornado indigno do momento histórico em que vivemos.

Oswaldo Pereira

Setembro 2022

quarta-feira, 14 de setembro de 2022

MEMÓRIA SELETIVA

 


Nossa memória é seletiva. Por defesa, ou por qualquer outro motivo, ao distanciarmo-nos de algum acontecimento, fato ou experiência, tendemos a enxugar seu lado negativo, amaciar seus defeitos ou prejuízos, colocar uma pátina difusa sobre uma má lembrança. O lado bom sempre perdura mais em nossas recordações.

Estes devaneios, talvez próprios de aposentados sem muito o que fazer, como este que vos aborrece, vieram-me ao ler e ouvir algumas narrativas que tendem a olhar com saudosismos o Século XX. Nestes recentes dias, em que se pranteia a morte de Elizabeth II, um turbilhão de imagens de sua marcante presença nos anos 1900 inspirou muita gente a compará-los com estas primeiras décadas do Terceiro Milênio. E, a mais das vezes, com nítido desfavorecimento ao presente.

Também, não é para menos. Da virada do ano 2000 para cá, muita desgraça acometeu o nosso atribulado mundo. O onze de setembro foi o cartão de visita. Nem bem havíamos guardado as guirlandas e os balões do réveillon dos novos mil anos, e as tremendas imagens das torres desabando nos encheram de horror.

Em sequência, tivemos a renúncia de um Papa, coisa que só acontecera há mais de 400 anos, e que deflagrou uma torrente de vaticínios de mau agouro das cassandras de plantão. Quando outros arautos, estes navegando numa aura cor-de-rosa, previram a chegada de um beatífico período de elevação e bem-aventurança, quem chegou foi o vírus. Uma pandemia que ceifou (até agora) mais de 6 milhões de pessoas, infectou cem vezes mais e confinou quase toda a população do planeta numa quarentena de desesperança e medo.

E agora, no momento em que o mundo começava a novamente respirar sem máscara, a guerra da Ucrânia, com todos os seus ingredientes de crises, conflitos e consequências desastrosas para a economia global, vem azedar o caldo da recuperação. de bom tamanho? E todos suspiram de saudades do formidável Século XX...

Será?

Bem, vamos começar as comparações. Só para medir no taco a taco cronológico, em 1922 já tínhamos amargado o desastre do Titanic, a Primeira Guerra Mundial e a Gripe Espanhola. O naufrágio esfacelara o hubris dos que acreditavam que o século das luzes iria proclamar a vitória do homo sapiens sobre a Natureza. O conflito de 1914-1918 é considerado até hoje como a mais cruel e sanguinária guerra de todos os tempos. E a Pandemia da Espanhola matou mais de 20 milhões.

Se continuarmos para a frente, tivemos a Grande Depressão da década de 1930, mais uma Guerra Mundial, o apocalipse atômico sobre os habitantes de Hiroshima e Nagasaki, genocídios na Armênia, na China, na Rússia, no Cambodia. O Holocausto. A AIDS. No filme The Devil’s Advocate (O Advogado do Diabo), em que Al Pacino magistralmente encarna Satanás na pele de John Milton, um super bem sucedido dono de uma firma de conselheiros legais, há um momento em que ele, divagando sobre a luta pela supremacia do Bem contra o Mal entre ele e Deus, diz: Quem, em sua inteira razão, poderá negar que o Século Vinte foi inteiramente meu?

É claro que o vigésimo primeiro século ainda tem 78 anos pela frente. Pode ser que ainda se recupere e passe à História como um romance de Paz e Amor. Mas, esta análise só poderemos fazer a partir de primeiro de janeiro de 2101...

Oswaldo Pereira
Setembro 2022

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

UMA PENA...

 


Em 1922, o Rio de Janeiro preparou-se para a festa. Desde 1916, um detalhado planejamento foi sendo desenvolvido, não só na então capital da República, mas em quase todas as grandes e médias cidades do país. Como centro político e cultural, o Rio liderou a extensa programação festiva. Além das várias solenidades cívico-religiosas, desfiles militares e festejos populares, uma grande exposição internacional dominou a cena. Nada menos de que 25 prédios foram construídos na área da recente demolição do Morro do Castelo. Seu propósito era abrigar as mostras das 13 nações convidadas, um caleidoscópio de novidades nas áreas da indústria e do comércio, das artes e do progresso tecnológico. Vários pavilhões nacionais também procuravam mostrar ao mundo o que o país tinha de melhor.









PRÉDIOS CONSTRUÍDOS PARA A EXPOSIÇÃO RIO, 1922



Foi um estrondoso sucesso. Houve dias em que mais de 14 mil visitantes percorram o enorme local. Isto e toda uma sequência de eventos serviram para promover um ambiente de genuíno orgulho. Não era para menos. O Brasil comemorava o seu primeiro centenário.

Cem anos são passados. E, triste e desencantado, eu vejo que nada do fervor de 1922 revive hoje. O ano do bicentenário vai passando amortecido, sem fanfarras nem girândolas, sem grandes eventos e sem celebrações. Alguns dirão que o momento crucial em que estamos e a polarização política impedem que se pense muito em festa. Mentira. O ano de 1922 foi muito mais conturbado. Houve revoltas, como os 18 do Forte, embates entre as classes, panfletos incendiários entre Governo e militares, o nascimento do Tenentismo. Até a área cultural estava em chamas, com a realização da Semana de Arte Moderna em São Paulo.

Então, por que? O que nos embota, nos impõe este ar blasé, destacado do sentimento de justo ufanismo pela nossa pátria? Será que a imagem histórica está-se apagando neste país de memória curta? Por que uma data de tão enorme significado passa batido e ignorado pela imprensa? Onde estão os desfiles escolares, as recriações teatrais, sei lá, um filme sobre o tema, um convite nacional para comemorar em uníssono o momento?

Muitos dos prédios construídos para a Exposição Internacional do Centenário da Independência estão até hoje de pé, no Rio de Janeiro, como o Museu da Imagem e do Som e o Museu Histórico Nacional. São marcos deixados de uma época em que algumas coisas ainda valiam, ainda faziam sentido, como o culto a um intangível patrimônio – a identidade nacional.

O que ficará deste bicentenário?

Oswaldo Pereira
Agosto 2022