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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O REI QUE CONHECI

 


É difícil escrever sobre um símbolo. Tudo o que eu poderia dizer sobre Pelé, aqui neste acanhado blog, já foi dito, vezes e vezes sem conta. Foi, e será sempre, o brasileiro mais conhecido em todo o mundo e por todas as gentes. Perdi a conta de lugares que visitei, mesmo nas mais recônditas vilas do Camboja, em aldeias portuguesas, vales da Irlanda, estradas da Índia, bares do Canadá, ruas da Rússia, nos quais, toda vez que eu declarava que vinha do Brasil, recebia como resposta: Pelé, dito reverencialmente com um brilho nos olhos e o polegar para cima. Na maioria das ocasiões, era tudo o que sabiam sobre o Brasil. E era suficiente.

A única coisa que posso oferecer como homenagem são as imagens dos momentos em que eu tive a fortuna de presenciar, ao vivo e em pessoa, acontecimentos extraordinários de arte desportiva protagonizados por Pelé. Copiando Gonçalves Dias, eu posso proclamar, alto e bom som e com profundo orgulho: meninos, eu vi.

.em 1958, a seleção brasileira titular tinha na meia esquerda (para os novos, era a posição do camisa 10) Dida, jogador do Flamengo que eu, como fervoroso rubro-negro, achava indiscutível. Nos dois primeiros jogos da Copa da Suécia, ainda foi assim. Mas, no terceiro, contra a poderosa União Soviética, a história de um gênio começou a ser escrita. Pelé, chamado então de a novidade por Geraldo Romualdo da Silva, o maior locutor esportivo da época, entrou no time. E o mundo do futebol encontrou o seu Rei;

.Maracanã, 17 de setembro de 1959. Taça Bernardo O’Higgins. Na goleada de 7 a 0 contra o Chile, Pelé faz três gols. Até aí, normal. Mas, já ao final do jogo, ele pega a bola na intermediária brasileira e sai driblando, um após outro, os atordoados chilenos. Prossegue até a grande área adversária. E depois volta, repetindo a dose. Eu e as 120.000 pessoas no estádio, de pé, aplaudimos por mais de um minuto. Magia pura;

.Maracanã, 5 de março de 1961. Torneio Rio-São Paulo. O Santos enfrenta o Fluminense, a melhor defesa da competição. Final do primeiro tempo. Pelé toma a bola ainda na defesa, avança, dribla seis jogadores tricolores e, na saída do excelente goleiro Castilho, marca o mais belo gol que o estádio, e eu, havíamos já visto. Joelmir Betting, ao tempo cronista do jornal O Esporte dá a ideia e uma placa de bronze eterniza o momento. Gol de Placa vai servir para apelidar todos os gols feitos com arte daí para a frente;

.Maracanã, 18 de julho de 1971. Jogo do Brasil contra a Iugoslávia. Ao fim do primeiro tempo, Pelé se despede da seleção brasileira com uma volta olímpica. A emoção toma conta de todos nós. Afinal, não é todo dia que se assiste ao fim de uma era.

A ocasião, entretanto, que mais vive na minha memória foi meu encontro pessoal com o Rei. Quando a seleção voltou vitoriosa do Chile, em 1962, uma recepção foi organizada no Palácio Guanabara, no Rio de Janeiro. Por obra e arte de um grande amigo, que, por sua vez, tinha um amigo do amigo do amigo de um funcionário do palácio, consegui penetrar na solenidade. E estava mesmo na porta do salão nobre quando os jogadores chegaram. Não sei que fada benfazeja fez com que a primeira pessoa que Pelé visse ao entrar fosse eu. E me deu um grande abraço.

Há outros relatos que me foram prometidos por um fraterno amigo, que prometo repassar assim que me forem enviados. Pelé é grande demais para uma só crônica.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2022

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

MARADONAS


No meu último texto, eu escrevi mal tracejadas linhas sobre a agressividade que campeia pelas redes sociais e a opção pela polêmica e pelo confronto verbal nos relacionamentos sociais. Discute-se apaixonadamente por tudo e por nada, desde ideologias de gênero, vacinas contra a COVID e até se a Terra é redonda ou plana.

Como não podia deixar de ser, a morte de Diego Armando Maradona acendeu nova cizânia, mesmo entre aqueles que nunca adentraram em um estádio de futebol. Trincheiras de argumentação foram cavadas para defender ou atacar o jogador, indo desde aqueles que o idolatram aos que o denigrem.

No cerne da disputa está a propalada dicotomia que, segundo a maioria, segregou o fabuloso gênio da bola do homem amargo, instável e subjugado pelo vício das drogas. É como se tratassem de duas pessoas, irreconhecíveis e irreconciliáveis entre si, um ser bipartido que nem a mais profunda bipolaridade conseguiria explicar.

Todas as mensagens de despedida, de amigos, de contemporâneos dos gramados, de jornalistas e comentaristas esportivos, da gente comum que o viu jogar, acentuavam esta imagem, tentando usar a figura de um Maradona super-herói de chuteiras para compensar o Maradona infeliz e derrotado pela cocaína. A frase de Paulo Roberto Falcão, o ex-jogador brasileiro, é exemplo disto. Maradona no campo foi um deus; na vida, foi humano.

Para mim, Maradona foi um só e tudo o que lhe aconteceu é decorrência de seu desmesurado talento desportivo e efeito do endeusamento que experimentou desde que apareceu pela primeira vez com a bola nos pés.

Garoto pobre de periferia, aos 9 anos já assombrava quem o via jogar. Numa ascensão meteórica, nos dez anos seguintes, operou milagres para os times que defendeu, o Argentinos Juniors e o Boca Junior e deu início ao culto que o entronizou no Olimpo dos torcedores portenhos. Faltava conquistar o mundo, e isto ele fez, primeiro no Barcelona e depois no Napoli. A inesquecível campanha de Maradona no time italiano não só fez com que uma equipe antes medíocre subisse aos píncaros das tabelas europeias como conquistou o coração de uma cidade inteira. A ponto de os napolitanos torcerem pela Argentina e contra seu país na Copa de 1986, só porque Maradona estava em campo.

Essa Copa, inclusive, marcou o seu auge. A vitória do time argentino sobre a Inglaterra, apenas quatro anos depois que os britânicos haviam humilhado a Argentina na Guerra das Malvinas, ganhou cores mais vivas do que uma simples partida de futebol. Era uma “vingança”.

E eu fico pensando. Raríssimas pessoas na História experimentaram essa sensação de mundo a seus pés, de adoração de milhares de vozes, de bajulação incontida, de declarações apaixonadas, de triunfo e de glória. Como administrar isto tudo? Como relativizar uma visão de paraíso, de poder aparentemente ilimitado? Como suportar o fim deste sonho?

Não é outro Maradona, o que desceu do Valhala. É o mesmo homem que, de pibe nos campos de terra das favelas de Buenos Aires subiu aos céus. E teve de descer.

Oswaldo Pereira

Novembro 2020

domingo, 30 de agosto de 2020

A VOLTA DE JESUS


JESUS ESTÁ VOLTANDO!...

Não, eu não me tornei messiânico nem estou em vias de liderar qualquer seita fundamentalista.

Estou falando como o rubro-negro de pai e mãe que sou. Sou aquele flamenguista histórico, que viu com estes olhos que a terra há de comer figuras mitológicas como Zizinho e Perácio envergando o manto sagrado. Vi também Biguá, Bria e Jaime, no tempo em que eram chamados de halfs, com a camisa de listas vermelhas e pretas (ainda sem número atrás), e Luis Borracha no gol de joelheiras, bonezinho e sem luvas. Década de 1940, caros leitores.

Então, o grito no início deste blog não é o aviso da segunda reencarnação do Cristo. O Jesus neste caso é o técnico português Jorge Fernando Pinheiro Jesus, treinador e condutor do time de futebol do Flamengo durante uma das mais espetaculares campanhas da história recente do clube. Sob sua batuta, e no prazo de pouco mais de um ano, conquistou 5 títulos (Libertadores, Brasileirão, Recopa Sul-Americana, Supercopa do Brasil e o Campeonato Carioca). Foram 57 jogos e a impressionante marca de 43 vitórias, 10 empates e somente 4 derrotas.

A saudade de casa e um irresistível convite do Benfica, onde também comandara uma época dourada, levaram-no de volta a Portugal. Mas agora, indicações surgem de que o retorno à terrinha não foi tão auspicioso quanto se esperava. Isso, e a lembrança da sua apoteótica consagração no calor do Rio e nos braços da maior torcida do Mundo, podem estar pesando na balança de uma decisão de regressar ao Brasil e à Gávea.

Para a proverbial imensa nação rubro-negra, nada mais alvissareiro. Sem Jesus, o time amarga a décima quinta posição na tabela de classificação do atual Campeonato Brasileiro. Sua volta é o sonho de consumo de todo torcedor do Flamengo. Eu, inclusive.

Seu eu fosse Jorge Jesus, entretanto, pensaria duas vezes.

É quase impossível repetir a coleção de títulos e o rosário de vitórias da temporada 2019-2020. Essas coisas não têm o condão de se sustentarem indefinidamente. Como se diz na pátria de Jesus, os dias não são permanentemente de sol na eira e chuva no nabal (o equivalente em português tupiniquim seria dias de chuva na horta e sol na piscina), isto é, sempre o melhor dos mundos. E o futebol é o inspirador por excelência de emoções exacerbadas. Já vi técnico ser idolatrado como um deus ao vencer um certame e, logo a seguir, tornar-se alvo de um ódio furibundo por perder três partidas em série, ou ser goleado por um tradicional adversário.

Como dizem os americanos you better quit while you’re ahead. É melhor sair enquanto se está ganhando.

Mas isto é problema dele, Jorge Jesus. Por mim, que venha. E que, pelo menos, nos resgate das gozações de tricolores, botafoguenses, vascaínos et caterva...

 

Oswaldo Pereira

Agosto 2020

domingo, 9 de fevereiro de 2020

LUTO



Um estimado amigo e, como eu, fervoroso rubro-negro, sugeriu que escrevesse sobre este doloroso assunto. Não pude deixar de atende-lo.

Airá Ocrespo é um artista de rua. Com o pseudônimo de MC Grafiteiro, é um dos mais conceituados de sua arte, com obras espalhadas pelos muros do Rio de Janeiro.

Há dias, MC Grafiteiro começou a pintar, na parte externa do Estádio do Maracanã que dá para a Radial Oeste, os rostos de dez meninos. Suas idades variavam entre 14 e 17 anos. Seus nomes.
Rykelmo
Christian
Jorge Eduardo
Athila
Gedson
Vitor Isaías
Arthur Vinicius
Bernardo
Pablo Henrique
Samuel

No dia 8 de fevereiro do ano passado, todos eles morreram queimados, dentro de um container, num campo de treino chamado de Ninho do Urubu. Para aqueles que não têm familiaridade com o futebol carioca, esse campo de treino pertence ao Flamengo, um dos mais tradicionais clubes do Brasil.

Todos eles eram alunos da escolinha que forma jogadores da base e prepara-os para um futuro profissional nas equipes de ponta. No dia 8 de fevereiro, esse futuro deixou de existir para eles.

O container havia sido a forma prática que o Flamengo encontrara para alojar aqueles alunos que, ou por morar longe, ou por quererem economizar na passagem, haviam preferido permanecer no campo de treino durante a semana.

O caminho para a fatalidade foi sendo pavimentado aos poucos. Containers não são soluções adequadas para servir de dormitórios. Nem temporárias e muito menos permanentes, como afinal o clube a resolvera considerar. O calor de uma instalação desse tipo no verão tropical do Rio determinou a indispensável montagem de um sistema de refrigeração. A falta de um disjuntor e um curto-circuito num dos aparelhos de ar-condicionado deflagrou um incêndio que, alimentado pelo material das divisórias, transformou em segundos o alojamento numa ratoeira infernal. O container só tinha uma porta.

Da tragédia até hoje, o Flamengo vem negociando indenizações com as famílias das vítimas. Algumas já fecharam acordos com a direção do clube. Outras discutem o valor. Mas, como valorizar uma vida abruptamente terminada em seu início? Como colocar preço num futuro que não aconteceu? O que cada um desses jovens poderia ter sido? Um grande jogador, já que este era o seu sonho? Que tipo de contribuição daria?

Num dos anos esportivos mais gloriosos de sua história, este espinho vai continuar doendo por muito tempo na carne rubro-negra. E ele só poderá ser extirpado quando culpas e desleixos forem devidamente apurados, reconhecidos, identificados, corrigidos. E punidos.

Oswaldo Pereira
Fevereiro 2020

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

JESUS



Segunda parte do Hino do Flamengo, composto pelo genial Lamartine Babo em 1945:

“Na regata ele me mata
Me maltrata, me arrebata
Que emoção no coração
Consagrado no gramado
Sempre amado, o mais cotado
Nos Fla-Flus é o ai Jesus!...”

Jorge Fernando Pinheiro Jesus é um português com sólida história no futebol de seu país. Na juventude, chegou a jogar pelo Sporting, mas seu destino estava mesmo fora, ou melhor, ao lado das quatro linhas. Treinou um bom número de equipes, até chamar a atenção quando levou o Belenenses a uma inédita final da Taça de Portugal. Do Restelo foi para o Minho, dando continuidade à sua série de vitórias e conquistas no comando do Sporting de Braga. Como não podia deixar de ser, logo um dos integrantes da tríade máxima do panorama futebolístico português chamou-o para treinador. Foi o Benfica. E, entre 2009 e 2015, Jorge Jesus comandou um dos mais vencedores períodos da vida benfiquista, quase comparável à Época de Ouro de Coluna, Torres e Euzébio. Foram 10 títulos, duas finais da Champions League e um rosário de recordes vitoriosos.

A missão seguinte não foi tão brilhante. Saindo do Benfica para o seu tradicional rival, Jesus não conseguiu reverter a situação de profunda crise em que vivia (e ainda vive), o Sporting de Lisboa. Acabou fazendo um acordo com o clube e foi para a Arábia Saudita. E lá, no início deste ano, uma improvável esquina do destino apareceu em seu caminho. O convite do Flamengo.

Não sei se Jesus imaginava a paixão em que iria mergulhar. O time havia saneado suas finanças e fizera um inteligente programa de novas contratações. A conquista do campeonato carioca, logo no início do ano, já dava indicações de que o trem rubro-negro deixara a estação em que amargara um insípido jejum de títulos. Estava ganhando movimento. Mas, precisava de mais velocidade. Precisava de um maquinista que soubesse disparar a pressão que vinha da caldeira. E, o que este novo maquinista fez, foi dirigir o comboio para além do limite de velocidade da linha. O trem agora parece voar.

Disciplina, plantel e inspiração. Com esta trinca de cartas, Jesus desembaralhou a monótona cena do futebol brasileiro, de partidas e mais partidas sem imaginação nem entusiasmo, de retrancas e caneladas, de passes para o lado. E mais. Sua obsessão com um esquema sempre ofensivo, ao mesmo tempo em que fecha os espaços na defesa, atraiu a admiração dos que se recordavam do espírito atacante que, por muito tempo, foi a característica do jogo brasileiro.

Lamartine adivinhou. O Flamengo de hoje é o Ai, Jesus.

Oswaldo Pereira
Novembro 2019

quarta-feira, 20 de junho de 2018

CR7




Começou a grande festa.

Neste mundo atribulado, a Copa da Rússia serve como uma pequena catarse, um doce oásis em que as emoções escapam atrás de uma bola, trazendo disputas, diferenças e desavenças para as quatro linhas de um campo de futebol. É claro que a vida segue à margem dos estádios, mas pelo menos, durante alguns momentos, o mais importante é o grito de GOL.

Como estou em Portugal, não podia deixar de sentir a proximidade da trajetória da seleção “das quinas”, que é como os da terra carinhosamente chamam o seu time, e da figura de seu expoente maior. Cristiano Ronaldo aqui é deus.

E, até onde eu posso enxergar com a minha percepção de seguidor assíduo desse esporte por quase sete décadas, ele o faz por merecer. Num permanente esforço de superação, CR7 tem feito o que o planeta exige dele. Tem matado um leão por dia.

Teoricamente, esta seria sua última copa. Mas, nada é certo. Recentemente, exames constaram que Cristiano Ronaldo, embora tenha já 33 anos, detém a forma física de 25. E isto não é nenhuma surpresa. Desde o início da carreira, ele obedece a uma auto imposta disciplina de treinos e dedicação. Sempre foi o primeiro nos ginásios e o último a sair. Não fuma e, por ter perdido o pai cedo, vítima de alcoolismo, não bebe uma gota. Por ser doador regular de sangue, talvez seja o único jogador de fama que não ostenta uma tatuagem sequer.

Como pessoa, tem-se desdobrado em ajudar financeiramente várias organizações dedicadas à infância e são inúmeras as ocasiões em que aparece ajudando crianças carentes ou com doenças graves. Há dois dias, após o jogo contra a Espanha, desceu do ônibus que levava a delegação portuguesa para o hotel e confortou um garoto que chorava, dando-lhe uma recordação para toda a vida.

Por qualquer parâmetro que se examine, é um jogador decisivo. Basta rever os inúmeros lances de seus jogos, desde os tempos do Manchester United. Na história do futebol português, desde Eusébio não aparece ninguém como ele. Na partida de sexta-feira passada contra os espanhóis, repetiu a dose e seu gesto de “eu estou aqui”. Está, sempre.

Só para comparar, Cristiano Ronaldo converteu o pênalti que sofreu, chutou a bola que queimou a mão do De Gea e bateu com extrema competência a falta. Três gols. O Messi não fez nada disso. Nem o Neymar...

Oswaldo Pereira
Junho 2018

sábado, 3 de dezembro de 2016

GANÂNCIA



Assim como os maços de cigarro são obrigados a estampar uma frase de advertência, todos as relações humanas deviam ser precedidas de um aviso.

A GANÂNCIA MATA.

Desde que Caim matou Abel e ficou com suas ovelhas, até à noite do dia 29 passado, quando o piloto e dono da empresa aérea Lamia, por causa de uma economia porca e arriscada, não abasteceu o seu avião como deveria, colocando na linha sua própria vida, a ganância tem sido a causa primordial de centenas de milhões de mortes ao longo dos séculos. No caso do voo em que viajava o time da Chapecoense, a incúria gananciosa de Miguel Quiroga levou, além dele, mais 76 pessoas.

A ganância é um monstro insaciável. Edifícios que caem porque seus construtores economizam fraudulentamente nos materiais, ciclovias que desabam pelo mesmo motivo, carros que enchem os nossos pulmões de gases nocivos porque suas montadoras correm atrás de um lucro extra e indevido, laboratórios que manipulam as fórmulas para ganhar mais dinheiro, empresas químicas que escamoteiam as informações sobre a quantidade de veneno com que dosam seus pesticidas, donos de restaurantes que não querem jogar fora comida já vencida são algumas das muitas formas letais da ganância por riqueza. Outra mais letal ainda é a ganância por poder. Esta leva a guerras, genocídios e holocaustos.

Como se isto não bastasse, o monstro, assim que surgiu, engendrou e pariu uma filha, igualmente hedionda. A corrupção. Sua forma mais comum é a de uma podridão pegajosa que se apodera daqueles que estão próximos do poder e do dinheiro. Os escaninhos e os meandros da Política são seu habitat, o seu receptor complacente, seu meio de propagação mais célere.

E seu efeito é igualmente mortal. Nas filas dos hospitais saqueados pelos desvios de verbas, na condenação ao analfabetismo funcional em escolas semidestruídas pelo descaso e pelo roubo, nas curvas de estradas mal sinalizadas e cheias de buracos cavados por propinas indecentes.

Estas duas Górgonas cavalgam juntas.  São os flagelos da Humanidade. Quando as virem, fujam. Elas matam.

Em tempo. Foi noticiado que Cristiano Ronaldo irá doar 3 milhões de euros (mais de 10 milhões de reais) à Chapecoense. Quem conhece a vida do craque português não se surpreende. O jogador auxilia um sem número de pessoas e associações. Se ainda há quem fale mal dele, que pare um pouco para pensar nisto com seriedade.

E os endinheirados reis da bola brasileiros? Neymar, Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Kaká. Pelé. Cadê vocês? Nem um trocadinho? Só mensagens de solidariedade no twitter? Francamente...


Oswaldo Pereira
Dezembro 2016



terça-feira, 12 de julho de 2016

PAIXÕES NACIONAIS



Em algum momento nos tempos da Grécia Clássica, um jogo diferente começou a ser praticado.  Dois grupos perseguiam uma bexiga de boi inflada, usando os pés e o que mais fosse preciso para impulsioná-la e fazê-la passar pelas linhas adversárias. O jogo, cujo nome era episkyros, “bola comum” numa tradução livre, foi herdado pelos romanos, como tudo mais da civilização helênica. E, mesmo neste estágio primitivo de sua história, já produzia notícia. O venerando Cícero relata o caso de um pacato cidadão de Roma morto ao ser atingido por uma bola enquanto se barbeava...

Com pequenas modificações em sua maneira de jogar, o episkyros, nos vários nomes que foi adquirindo ao longo do tempo, sobreviveu à queda do Império e espalhou-se pela Europa medieval. Foi jogado por nobres e plebeus, padres e leigos, soldados e paisanos. Sua atração era tão grande que alguns governantes, como o Rei Eduardo III da Inglaterra, teve de proibi-lo, pois sua prática desenfreada era uma perigosa distração dos outros deveres de seus súditos.

As primeiras consolidações de suas regras começaram a aparecer no século XVII quando, em Florença, criou-se a modalidade do calcio fiorentino.  Ainda era, entretanto, um esporte bastante violento, sendo inclusive empregado como uma forma de treinamento militar.

Foi só no início do século XIX que, na Grã-Bretanha, seu regulamento incorporou e definiu os aspectos básicos e o nome pelo qual o mundo inteiro o conhece atualmente – o Football Association, o nosso Futebol.

Em 1994, durante a realização da XV Copa do Mundo nos Estados Unidos, a revista americana National Geographic dedicou um número especial ao evento e ao esporte. E, logo no editorial de apresentação, ressaltou que apenas duas coisas eram capazes de levar o fervor nacional de um país e de seu povo ao extremo – a Guerra e o Futebol. Na Eurocopa que terminou domingo passado, basta ter observado o fenômeno ocorrido com a Islândia, de pouquíssima tradição futebolística, para se acreditar nisto. Dez por cento da população islandesa foram para os estádios da França. O grito viking, a coreografia dos braços erguidos e a vibrante e histórica recepção aos heróis em seu retorno a Reikjavic, pelo simples fato de terem chegado às quartas de final, não deixam dúvidas. A National Geographic tinha razão.

Outro exemplo?

Em 2004, cheguei a Lisboa na semana que antecedeu ao início do Campeonato Europeu, sediado por Portugal. Havia, claro, uma excitação no ar. Mas, embora entusiasmados amantes do esporte, os portugueses eram contidos em suas demonstrações de nacionalidade nas atuações de sua seleção de futebol. Pelas ruas, nada havia que revelasse o desejo de torcer e o suporte popular à sua equipe.

Mas, na mesma noite da minha chegada, o técnico do time, o brasileiro Luiz Felipe Scolari, deu uma entrevista na televisão declarando que, em seu país, as janelas e as ruas enchiam-se de bandeiras sempre que o Brasil entrava em campo. Foi o suficiente. Como uma centelha que acende um rastilho de pólvora, os pavilhões nacionais começaram a aparecer. E, na medida que Portugal avançava na competição, um verdadeiro frenesi tomou conta do povo.

Ao chegar à parte final do certame, o deslocamento do ônibus que levava os jogadores portugueses da concentração em Alcochete até o estádio tornou-se uma apoteose deslumbrante, com séquitos de carros seguindo o cortejo, milhares de pessoas postadas à beira do caminho, agitando bandeiras, frotas de barcos seguindo ao longo da ponte Vasco da Gama, um país inteiro coberto de verde e vermelho.

De lá para cá, a mística só fez aumentar.

E é só olhar o fervor vibrante da recepção oferecida aos campeões desta última Eurocopa para se lembrar. Era assim que os generais romanos eram recebidos. Uma parada triunfal pelas ruas de Roma ao voltarem vitoriosos... da Guerra.


Oswaldo Pereira
Julho 2016










quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

PERSPECTIVA




Uma das vantagens (são poucas...) da idade avançada é poder ver as coisas em perspectiva.

Por exemplo.

No domingo passado, pude assistir pela televisão ao jogo entre Flamengo e Vasco da Gama pelo Campeonato Carioca.  Num aparelho com mais de 50 polegadas e high definition, é quase (e, em certos casos, até melhor) do que se estar fisicamente no estádio. Como o Maracanã está sendo preparado para as Olimpíadas, a partida foi em São Januário, o lendário campo dos vascaínos. E aí me lembrei.

Há 67 anos assisti, dessa vez in loco, ao mesmo jogo. Mesmos dois times, mesmo estádio, mesmo campeonato. Tinha eu oito anos e fui com meu pai, que já me inserira no DNA a paixão pelo time rubro-negro. Éramos, portanto, o inimigo. Para agravar as coisas, papai conseguira, com um amigo português, duas entradas para a “social do Vasco”, uma espécie de tribuna de honra, onde ficava a elite dos sócios cruzmaltinos. Para quem não está familiarizado com a história do futebol do Rio, o time da Cruz de Malta era, à época, sustentado pela abastada colônia portuguesa, patrícios endinheirados que transferiam para a agremiação o mesmo amor por Portugal, que a saudade da “terrinha” aumentava ainda mais. Nas cadeiras da “social”, não havia lugar para manifestações contrárias. Recordo-me vivamente das instruções paternas antes de sairmos de casa. Se o Flamengo fizer um gol, não abra o bico!...

Em 1949, o futebol brasileiro começava a formar sua escola, mas ainda estava longe de ser reconhecido como uma força importante fora de suas fronteiras. Transferência de jogadores para o exterior, à exceção de alguns vizinhos sul-americanos, era inexistente. Mas, a aproximação da IV Copa do Mundo, a ser realizada no Brasil, enchia-nos da esperança quase juvenil de podermos mostrar ao mundo a arte de craques extraordinários como Zizinho, Jair, Bauer, Danilo, Ademir e a maneira alegre e desconcertante de como jogávamos um esporte que nascera na Europa.

Naquela época, também, o que existia de melhor no esporte gravitava no eixo Rio-São Paulo. Estávamos ainda muito distante de um certame de âmbito nacional e os campeonatos regionais destas duas cidades eram os eventos de maior importância no calendário futebolístico. Ser campeão carioca ou paulista era a glória.

O Flamengo tinha um bom time, mas o Vasco era a base da seleção nacional que iria chegar às finais do Mundial no ano seguinte e encantaria o planeta com goleadas históricas em cima de suecos e espanhóis, antes de sucumbir no desastre frente ao Uruguai. Ostentava o apelido de “Expresso da Vitória” e, no carioca de 1949, já desancara quase todos os adversários. Ao irmos para o São Januário, não carregávamos grandes esperanças...

Mas, aí começam as comparações. Fomos de bonde (tradução: bonde era um transporte de massa movido a energia elétrica que andava sobre trilhos. Na década de 1940, era a maneira preferencial de se deslocar pela cidade). E papai foi, como era de rigueur na tribuna de qualquer estádio, de terno e gravata. Não havia qualquer ameaça de tumulto, além da algazarra feita pelos vascaínos, cantando seu refrão da época (Cazaca, cazaca, cazaca zaca zaca, a nossa turma é boa, é mesmo da fuzarca...). A boa educação coibia os palavrões e, mesmo se fossemos descobertos como torcida contrária, no máximo teríamos sido convidados a nos retirarmos...

Passei a ver, então, os dois jogos em paralelo. As mesmas cores, as mesmas paixões, a mesma ânsia de vitória, a mesma catarse. Mas, em mundos completamente diferentes, distanciados pela erosão de gerações, de avanços e de retrocessos, pela voragem das mudanças, por esperanças, algumas que se desfizeram, outras que ultrapassaram os sonhos. Dois mundos sobrepostos. Só mesmo a idade nos faz poder vê-los em perspectiva. O que não deixa de ser um grande privilégio.

Em tempo. Naquele dia de 1949, o Flamengo fez dois gols logo no início. Não sei até hoje como consegui segurar o grito de Mengooo! na minha garganta infantil... Mas, o Vasco era mesmo um grande time. Virou o jogo e goleou por 5 a 2. Domingo passado, nem deu para torcer muito. O jogo foi fraco. E o Flamengo perdeu. De novo...


Oswaldo Pereira
Fevereiro 2016  

domingo, 13 de julho de 2014

ACABOU...






O grande espetáculo termina. O pano cai.

E os números estão aí. Em termos esportivos, foi uma das melhores Copas de todos os tempos. O público total nos estádios superou a marca de 3,5 milhões, com a maior média por partida (53,6 mil) desde 1994. A quantidade de tentos marcados igualou o recorde de 1998: 171 gols. Ganhou o país que talvez tenha investido mais na sua preparação para o torneio e serão sempre lembradas as sensacionais participações de times surpreendentes, como a Costa Rica, que vieram demonstrar que se joga bem o futebol em qualquer parte do planeta.

Em termos de acolhimento também. Fomos anfitriões impecáveis e este talvez seja o grande legado, senão o único – o povo deste país encantou a todos os que nos visitaram e mandou uma rica mensagem de simpatia mundo afora, cujos dividendos em termos de maior interesse turístico estrangeiro deverão ser contabilizados no futuro.

Mas, para nós brasileiros, ficou um gostinho mais do que amargo. Era a Copa em casa, a revanche de 1950, a reafirmação do nosso talento futebolístico, a nossa grande vitória. A torcida estava pronta, cantando o Hino a plenos pulmões, a esperança num sorriso tão grande quanto o próprio país. O revés foi brutal, doeu e vai deixar marcas que nos incomodarão por um largo tempo, juntamente com a conta que ficou para pagar, os elefantes brancos dos estádios milionários que não gerarão receita, o espetáculo triste de campeonatos nacionais e estaduais medíocres, da conversa fiada do “vamos mudar, vamos investir na melhoria do esporte, etecetera e tal...”, dita por homens que não farão nada, até porque o buraco é mais embaixo e está inserido na corrupção endêmica que nos assola.

Por qualquer prisma estatístico, a seleção foi muito mal. Errou 80% dos passes decisivos, finalizou menos e sofreu mais gols do que em todas as outras Copas. E nunca, nestes 100 anos de existência, levou uma goleada tão humilhante. Se estivéssemos no Japão dos samurais, a Comissão Técnica teria de cometer hara kiri, para redimir sua honra. Se a CBF fosse uma empresa privada, seriam todos sumariamente demitidos. Se Luís Felipe Scolari quisesse ser honesto e assumisse realmente a responsabilidade pelo fracasso, já deveria ter entregado o cargo e devolvido a grana que recebeu como treinador do time. Nunca mostramos tamanha incompetência técnica e tática.

Só nos resta desinflar esta nossa excessiva entrega ao futebol. Chega de tanta bajulação, tanta babação, tanta tietagem. E, finalmente, chega de conceder títulos indevidos. Felipão nunca foi pentacampeão. Ele ganhou, como técnico, o título do Mundial em 2002 e isto o faz apenas campeão daquele ano. Da mesma forma, Bebeto e Romário NÃO são tetracampeões. O Brasil é. Eles não.

Aliás, pensando bem, nem o Brasil é. Nem PENTA, nem TETRA. E nem TRI. Raciocinem comigo. Quando se fala em tri campeonatos, no futebol carioca, por exemplo, recorda-se a campanha do Flamengo em 1953, 1954 e 1955 e, mais recentemente, em 2007, 2008 e 2009; do Vasco em 1992, 1993 e 1994 e do Fluminense em 1983, 1984 e 1985.  Ou o do São Paulo no Brasileirão em 2006, 2007 e 2008.  O adjetivo é devido porque os títulos foram em sequência. Essa bobagem de chamar o Brasil de TRI começou na Copa de 70. O país havia sido, de pleno direito, BI CAMPEÃO em 1962, pois vencera o certame anterior, em 1958. Esperava-se que vencesse também em 1966, mas todos sabem que a atuação brasileira foi fraquíssima (saiu ainda na Fase de Grupos). Quando voltou a ganhar no México, o famoso jeitinho brasileiro resolveu subverter a realidade e celebrou indevidamente um TRI fajuto. Então, vamos combinar. Nunca teve TRI e, claro, nem TETRA, nem PENTA. E nem terá HEXA, a não ser que a seleção canarinha vença TODOS os campeonatos mundiais entre 2018 e 2038...


Oswaldo Pereira

Julho 2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

COPA DAS COPAS






Precipitei-me. No último post, acreditei que esta Copa seria marcada pela atuação dos fantásticos goleiros que deslumbraram o mundo com suas incríveis defesas. Erro meu. O Mundial de 2014, cada vez mais a Copa das Copas, será lembrado para sempre por outra coisa.

Como já escrevi algumas vezes neste blog, eu vivi o Campeonato de Futebol de 1950. Hoje, 64 anos depois, sinto ainda, como se hoje fosse, a decepção do Maracanazo. Ficou gravada na alma, não só minha, mas de todos os brasileiros que habitavam este planeta no dia, a derrota. Tanto é verdade que, toda vez que um Campeonato Mundial acontece, as emissoras de televisão nacionais trazem de volta às telas as velhas imagens em preto e branco, tremidas pelo tempo, de Ghiggia se aproximando do gol do Brasil, da bola escura estufando a rede, de Barbosa lentamente se reerguendo do chão. Mesmo depois de todas as conquistas posteriores, de cinco vitoriosas e inesquecíveis campanhas, de seleções que encantaram as gerações subsequentes, o espectro daquele longínquo 16 de julho sempre voltou a assombrar. Uma Copa perdida em casa, deixada escapar-se aos 34 minutos do segundo tempo. E olhe que foi só 2 a 1...

O que aconteceu terça-feira passada no Mineirão suplantará para a eternidade a lembrança doída de 1950. E não será pelo fato de termos perdido. Uma derrota “normal” para a Alemanha, um placar apertado, numa prorrogação ou nos pênaltis teria um impacto desagradável para nós, sim, mas seria algo moderado, “aceitável”, até compreensível. Entraria, claro, para a História, mas com fatalismo, como um verbete de fácil assimilação nas enciclopédias do esporte. O problema foi COMO aconteceu. O espantoso diferencial foi o desaparecimento de um time em campo, a falência total de um suposto esquema tático, o escuro psicológico que envolveu os brasileiros no gramado, principalmente nos fatídicos seis minutos em que a Alemanha ampliou a goleada.

Outra recordação que ficou de 1950 foi o silêncio de um Maracanã de 200.000 pessoas.  De terça-feira, ficará a visão da torcida atônita e depois aos prantos, dos olhos aterrorizados dos jogadores, da perplexidade que atingiu a todos como um tsunami cruel e inesperado.

Para mim, o que marcará esta Copa será a imagem indelével do menino de óculos, segurando um copo de refrigerante, o choro solto saindo desamparado e incontrolável, o estilhaçar de uma ilusão infantil. Deve ter a mesma idade que eu tinha em 1950. Por isso, eu sei como é...


Oswaldo Pereira

Julho 2014

domingo, 6 de julho de 2014

GOLEIROS







Os primeiros “guarda-metas” que vi em ação foi em um jogo na Gávea (para os modernos, “Gávea” era o nome do antigo estádio do Flamengo, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas). Era a última partida do Campeonato Carioca de 1944, um Flamengo e América só para cumprir tabela, pois o título já era do rubro-negro. No gol do América, Batatais encerrava uma carreira gloriosa, que o levara a defender a Seleção Brasileira na Copa de 1938. No do Flamengo, outra lenda, o mineiro Luís Borracha.
Vi muitos guarda-metas, depois apelidados de guarda-redes, e atualmente simplificados para goleiros, e sua figura solitária sempre me fascinou.  Seu uniforme era diferente dos demais, era o único a quem se permitia usar as mãos num esporte de pés, sua liberdade de ação estava constrangida ao quadrado de cal que delimitava a Grande Área. Se a bola não rondasse por ali, era abandonado à própria solidão. Nem nas comemorações dos gols de seu time ele era chamado, vibrando sozinho em sua “prisão” regulamentar. Quando os campos ainda não tinham o padrão atual de manutenção, debaixo das traves havia um semicírculo sem grama. O motivo era evitar que a relva, às vezes molhada da chuva, pudesse trazer escorregões fatais, mas a frase onde goleiro pisa não nasce grama, magistralmente criada por Don Rossé Cavaca (o jornalista e humorista José Martins de Araújo Filho), definiu a sina de maldição que ronda o arqueiro (outro apelido em desuso) desde a concepção do futebol.

Apesar de tudo isto, em criança e adolescente, sempre preferi jogar no gol. É claro que esta profunda decisão era também inspirada pelo fato de que, nas outras posições, bem... De qualquer modo, cheguei a ter uns fugazes momentos de brilho, na praia de Copacabana, onde guarneci, com atléticas defesas, metas improvisadas com montinhos de areia em muitas sessões de linha de passe, hoje mais conhecida como altinho. Eram três passes e uma finalização...

Assim, até hoje nutro uma especial admiração pela vocação de herói trágico, que se equilibra entre os extremos de salvador da pátria ou escória da humanidade. Vi Carbajal, Costa Pereira, Banks, Yashin, Higuita, Chilavert, Zoff, Kahn. Vi Barbosa, Castilho, Gilmar Neves, Manga, Taffarel. Ainda vejo Ceni. E Czech. Todos ícones, capazes, em seu tempo, de segurar o mundo inteiro debaixo dos paus. E de, também, comer a poeira do desastre, uma falha imperdoável na agonia de um segundo tempo...

Tudo isto é para dizer que, em minha opinião, a Copa FIFA 2014 passará à História como a Copa dos Goleiros. Zagueiros, laterais, meio-campistas e atacantes que me perdoem, mas o que ficará nas retinas e nos documentários serão as soberbas, quase sobrenaturais atuações de santos milagreiros como Júlio Cesar (Brasil), Guillermo Ochoa (México), Claudio Bravo (Chile), David Ospina (Colômbia), Keylor Navas (Costa Rica), Hugo Lloris (França), Vincent Enyeama (Nigeria), Rais M’Bolhi (Argélia), Manuel Neuer (Alemanha), Thibaut Courtois (Bélgica) e, quebrando um recorde que vinha desde o Mundial de 1978, o americano Tim Howard, com inacreditáveis 16 defesas portentosas num só jogo. Evidente é que este fulgor não vem de graça. Os candidatos à posição, atualmente, são homens com estatura de jogador de basquete. Só para comparar, o belga Courtois mede 1,99m; Barbosa tinha 1,70m. Some-se uma envergadura de quase 2 metros, mais agilidade e reflexos treinados por intermináveis horas, e temos as “muralhas” de hoje. E o requinte da seleção holandesa, que tem uma “muralha” destas que só entra para defender pênaltis.

Deus salve os “guarda-metas’!


Oswaldo Pereira

Julho 2014

sexta-feira, 27 de junho de 2014

PAUSA



Pausa. Vinte e quatro horas sem a esfuziante adrenalina da bola rolando. Acabou a primeira parte do grande espetáculo, o drama global que nós, terráqueos, resolvemos chamar a celebração quadrienal do futebol, este esporte que, há alguns anos, o National Geographic Magazine considerou o segundo maior motivador da honra nacional. O primeiro, a Guerra. Um alienígena que porventura aportasse seu disco-voador por estas plagas poderia até convencer-se que, por uma suave ordem planetária, as diferenças eram resolvidas por uma esfera de couro pintado.

Se fosse uma refeição sofisticada, é a hora do trou normand, o “buraco normando”, geralmente representado por um sorbet de limão com vodca, que a culinária francesa resolveu apelidar a pausa entre os acepipes de entrada e o prato principal. Um momento entre a sofreguidão do início e a solenidade grave dos sabores profundos.

Para mim, terminou a melhor fase da Copa. A fase da festa, até da inconsequência, onde uma derrota não significa necessariamente a despedida, em que alguns pecados até podem ser perdoados. Foi a hora em que as trinta e duas seleções ainda nutriram esperanças ligeiras, trinta e duas nacionalidades de torcedores coloriram as margens dos estádios, e os bares das cidades-sede. E foi aí, neste carnaval multicor que o Brasil, e o futebol, se superaram.  O país, pelo acolhimento generoso que comoveu todas as delegações estrangeiras, pelo fervor na hora do Hino capado deselegantemente pela FIFA, pela superação dos problemas deixados por uma administração incompetente. Pelo amor de todos os seus deuses, caros leitores, não creditem nas urnas o sucesso (até agora) desta Copa ao Governo, seja ele qual for, Federal, Estadual ou Municipal. Quem garantiu o placar foi o povo brasileiro.

Quanto ao esporte, já há motivos de regozijo. Com raríssimas exceções, foram 48 jogos em que a magia do futebol mostrou-se sem reservas. A média de gols, 2,83, já é uma das maiores. Surpresas abundaram, derrubando opiniões de experts e bolsas de apostas pelo mundo afora, como a eliminação prematura da Espanha, da Itália, da Inglaterra, do Portugal de Cristiano Ronaldo. Numa chave que reunia sete títulos mundiais, a Costa Rica (!?) classificou-se em primeiro lugar. Várias coisas entrarão para a história, até a maior punição imposta a um jogador, Luiz Suárez do Uruguai (cá entre nós, um prato cheio para um analista...)

Agora, algumas arenas ficarão vazias. As suas cidades, esvaziadas das hordas coloridas. Terão de enfrentar o seu destino e procurar defender os estádios milionários da mordida do abandono. E uma nova fase começa. É hora dos gladiadores, do ave Caesar, morituri te salutant, do mata-mata. Não há mais lugar para deslizes, passes mal dados, chutes a esmo.

Mais 15 dias e o drama baixará as cortinas. E aí, para nós brasileiros, começará outro desafio.

PS.: Os meus livros continuam disponíveis aí no lado direito. É só clicar...


Oswaldo Pereira

Junho 2014

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

PANTERA NEGRA





Assim são as lendas vivas. Quando morrem, mais vivas ficam. Aconteceu com Mandela. E acontece agora com Eusébio da Silva Ferreira, a lenda viva do futebol português. Sua morte, na manhã do dia 5, vem comovendo todo um país e entroniza o jogador na categoria dos deuses olímpicos. Ficará eterno, como os outros deuses.

A história de Eusébio não difere muito do percurso palmilhado por incontáveis craques em todo o mundo. Uma infância pobre, a fome de bola que os arrasta das salas de aula para os campos de várzea, onde seus pés descalços fazem maravilhas. A perspicácia de algum caçador de talentos, o primeiro contrato. Depois, um clube grande trazendo o menino para sua grei, o investimento visando futuros lucros, a primeira grande plateia, a glória.

BANDA DESENHADA SOBRE A VIDA DE EUSÉBIO


Às vezes, a rapidez do processo confunde uma personalidade ainda em formação, os cantos de sereia abrindo alcovas e fortunas, a Terra toda aos seus pés, palavras doces e traiçoeiras sendo sussurradas em noites de festa. O caminho se perde em labirintos dourados, a fama dissolve seu pedestal, o gigante cai.





Nada disso aconteceu com Eusébio. Desde sua primeira chuteira, aos 15 anos, pela equipe d´Os Brasileiros Futebol Clube, na antiga Lourenço Marques, em Moçambique, até encerrar sua carreira em 1979, manteve-se íntegro e imutável em sua humildade fidalga. Quer um exemplo?

Vinte e nove de maio de 1968. Final da Taça dos Campeões Europeus. Manchester United versus Benfica. Dez minutos do segundo tempo, partida empatada. Eusébio arranca em direção ao gol, irresistível, entre dois zagueiros ingleses. Já dentro da grande área, dispara seu chute imparável. Alex Stepney, goleiro do Manchester faz o impossível, defendendo milagrosamente o tento certo que poderia selar a sua derrota. Eusébio se aproxima dele. Toca no seu ombro e o aplaude. O jogo foi para a prorrogação e os britânicos venceram. Mas, o ato de impecável fair-play marcou para sempre a partida.

Após parar de jogar, foi-se transformando em ícone, não só do Benfica mas, principalmente, da seleção portuguesa. Sua presença nos jogos internacionais de Portugal era tão certa e importante como a própria bandeira. Gritava, incentivava, chorava. Dava conselhos aos jogadores. Sua figura nas arquibancadas ou à beira do gramado ficará gravada na alma dos adeptos e torcedores, assim como seus dois apelidos. O Pantera Negra. O Rei.

Um testemunho. Quando vim morar em Lisboa, nos idos de 1967, tive a oportunidade de conhecer Eusébio pessoalmente. Por estas estranhas circunstâncias da vida, o Diretor Comercial da General Electric Portuguesa, onde vim trabalhar, era Duarte Borges Coutinho. Para quem o nome nada diz, explico que Borges Coutinho era, além de Marquês, Presidente do Benfica. Em Portugal, agora e então, um cargo rivalizando de importância com o de Presidente da República. Ficamos amigos, a ponto de ganhar um título de sócio do clube e ser convidado a acompanhar a delegação do time nos jogos pelo campeonato nacional. Assim, pude conviver com os lendários jogadores de uma equipe também lendária, campeã nacional várias vezes, finalista do Europeu de Clubes, famosa no mundo inteiro. Mario Coluna, Torres, Costa Pereira, Simões. E Eusébio.

Apesar de ser o maior astro do futebol de sua época, nada mudava sua postura gentil, atenciosa e simpática. Lembro-me até que era o mais calado de todos, tranquilo em sua humildade fidalga.


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014.






sexta-feira, 7 de junho de 2013

FUTEBOL NO MOTEL






Dia de jogo. Brasil em campo, pátria de chuteiras, hino nacional, todo mundo de camisa amarela em frente a TVs espalhadas por lares, bares, etc., etc.
«Vem cá, amorzinho...»
«........»
 Se o penhor desta igualdade... o letreiro na telinha vai acompanhando a música que ecoa no estádio.
«Amorzinho...»

 Close nos jogadores, uns poucos cantando, seguros da poesia intrincada, outros fazendo um lip sync hesitante para escapar do vexame de não saber a letra.

 «Vem, amorzinho... Já nuinha...»

 Foguetório. Fotografias. Últimas entrevistas: vamos dar do nosso melhor... o time tá preparado...  quero agradecer a galera....

 «Então, Josué?!...»

«Peraí, fofinha...»

«Que peraí é esse?» 

«É que o jogo vai começar...»

«Não me diga que você me trouxe para o Motel para ver jogo de futebol...»

«Não, mas é que é a seleção...»

«É um amistoso contra a Tailândia, que você mesmo falou que não estava nem aí.»

«Mas, é preparação para a Copa...»

«Que Copa, Josué? A Copa é daqui a três anos, nem começaram as eliminatórias ainda...»

«É, mas... É preciso já ir vendo como é que o time jogando, se o Pato e o Ganso se entrosam...»

«Que mané Pato e Ganso? O Ganso machucado e o Pato nem o Milan liberou para um amistoso tão fuleiro...»

 O jogo começa. O Brasil engrena logo um ataque, o volante escapa pela direita, centra, o atacante emenda com força, a bola passa a um centímetro da trave. Uuuuuu, o rugido do estádio enche o quarto.

 «Viu, quase gol...»

«E daí. Desliga esta porcaria. Ou então, procura um canal de sacanagem, pra ver se você entra no clima...»

«Eu no clima...»

«nada, eu aqui nua em cima da cama e você nem olha...»

 Falta ríspida no zagueiro brasileiro.

 «Porra! Cartão vermelho, seu juiz, bota esse assassino na rua! Esses babacas são uns cabeças de bagre e vão acabar machucando a gente...»

«OK, entendi. Você perdeu o interesse por mim...»

«Que é que foi?»

«Você perdeu o interesse por mim...  Não faz nem um ano que a gente sai, e você já perdeu o interesse por mim.»

«Não diga bobagens... caraca!»

 O chute do meia armador bate na trave.

 «Não diz bobagem, fofinha...»

«Não, eu sei como é que é. No início é aquele tesão todo: deixa eu fazer isso, deixa eu botar naquilo, me pega aqui... Depois que já viu tudo e já fez tudo, é isso que se vê. Assistindo a um Brasil e Finlândia num quarto de motel e eu pelada aqui, jogada às traças...»

«Brasil e Tailândia...»

«Tailândia, Finlândia, Islândia...quero lá saber. Se você não quer mais nada comigo, porque me trouxe para cá?»

«Mas eu quero. É claro que eu quero.»

«Quer nada. O que é que foi? Engordei?»

«Hein?»

 Ataque perigoso do time tailandês. Doni salva por milagre.

 «Caraca... quase...»

«Então, engordei, não foi?»

«O quê, engordou, como assim?...»

«Pois fique sabendo que ainda sou muito gostosa, ouviu? Mesmo com essas celulitesinhas, ainda tem muito cara olhando para a minha bunda na praia, ouviu?»

«Sim, sim, claro...»

 Novo ataque tailandês.

 «Os caras estão começando a gostar do jogo...»

«Olha, quer saber, eu vou embora. Chama um táxi e fica aí vendo o teu jogo.»

 Há uma interrupção na partida, para socorrer um jogador se contorcendo no gramado.

 «bom, bom, eu indo.»

«Não precisa vir. Se não com vontade, eu não quero nada forçado.»

«Não com vontade? Então o que é isso aqui...»

 O amistoso continua parado no estádio, mas, na cama, o jogo finalmente começa. Por uns dez minutos, a voz do locutor, os ecos da torcida, as opiniões dos analistas servem apenas de backing vocal para o solo de gemidos e sussurros que domina o quarto.

 De repente,

 É gooool! Gooooolll da Tailândia!!  Sulimar Bhopal, camisa número nove, aproveitando uma verdadeira lambança da defesa brasileira...

 «Você ouviu?»

«O quê, o quê?»

«Gol da Tailândia.»

«, mas não para não, fofinha, eu quase gozando...»

«Como não para não? É gol da Tailândia, cara.»

«Sim, bem, mas...»

«Que bem que nada. O Brasil perdendo.» 

«Tá. Depois a gente vê o replay no intervalo. Não...não me tira agora... vem cá, poxa...»

«Cê tá maluco?! O Brasil perdendo da Tailândia, Josué, e você pensando em sexo?!»  

 E ele ficou ali, sozinho, na cama, até o final da partida. O Brasil perdeu. E Josué não saiu do zero a zero.   


Oswaldo Pereira
Maio 2010