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terça-feira, 20 de dezembro de 2022

NATAL 2022





UM GRANDE NATAL PARA TODOS, COM MUITA PAZ, MUITO AMOR E MUITA SAÚDE. E, para manter a tradição, o conto de Natal deste ano:


«Como assim?»
«Foi o que eu falei. Ele está no whatsapp, aqui no meu celular. Insiste em falar com você...»

A conversa entre ele e a mulher era na cozinha, de manhã. Noel havia se levantado com uma pequena dor de cabeça. Faltavam poucos dias, mas ainda havia alguns atrasos na preparação dos embrulhos, o programa de recebimento de pedidos, agora inundado de e-mails, tweets, instagrams, whatsapps estava congestionado. Que saudade das velhas e boas cartinhas, havia ele dito dias antes. Além disso, a fabricação de brinquedos, que havia sido terceirizada quando a preferência do público abandonara os tradicionais soldadinhos, tambores, carros de corda, bonecas falantes e castelos em miniatura por cada vez mais sofisticados app’s e rpg’s, tivera problemas com um inesperado overload do sistema. Muitos empregados, talvez os melhores que tinha, haviam sido atraídos por irrecusáveis propostas de trabalho da crescente área de entretenimento.

Mas, não era só isto. O fato mais preocupante era que ele estava cansado. A idade começara a pesar. A perspectiva de girar o mundo a bordo de uma desconfortável carruagem descoberta, guiada por tração animal, na noite mais fria do ano, já não era tão atraente como antes.

Talvez por isto mesmo, no início de novembro, ele havia namorado, por alguns dias, a ideia de passar o negócio para frente. Mamãe Noel, depois de considerar o assunto com sua costumeira ponderação, acabara por concordar que isto poderia ser uma opção viável no futuro. Não tinham filhos nem herdeiros para quem deixar o empreendimento. Vamos esperar passar este próximo Natal, dissera.

Noel, entretanto, com a ideia volteando insistentemente em sua cabeça, acabara por comentar o assunto com alguns vizinhos. Embora pedindo que a guardassem para si, a notícia acabou por transpor o diminuto círculo de amigos da pequena aldeia da Lapônia. 


Noel pegou o celular.
«Elon?...»
«Sim, old boy, tenho uma proposta bilionária. Você não vai recusar. Depois do Tweet, é a coisa que eu mais desejo comprar. O Natal...»

Oswaldo Pereira

Dezembro 2022

Quem quiser ler os contos de natais anteriores, é só clicar em:

sábado, 2 de julho de 2022

OS DONOS

 


Quase dois anos. Desde outubro de 2020, a mansão não recebia seus donos. Apenas o staff permanecera, desde a última reunião, em que os sete proprietários haviam acessado seus ganhos com a situação fabricada por eles e que criara a maior crise (até agora) do século XXI.

Se você não leu os relatos anteriores sobre esta história (se desejar, clique nos dois links a seguir  LINK 1 e LINK 2    ), saiba o seguinte: os integrantes desse grupo de 7 (seis homens e uma mulher) são os verdadeiros controladores do planeta. Abandone todas as suas outras teorias da conspiração. Através de participações acionárias secretas e usando uma intrincada engenharia societária, eles são, na sombra e no anonimato, os donos do mundo.

Procurando manter o sigilo sobre suas identidades, mesmo nestas reuniões secretas e esporádicas eles se fazem conhecer apenas por seus codinomes. Herr Doktor, o alemão, é o rei dos fármacos; Mr Green, o americano, detém o controle global da banca e da indústria de entretenimento; Sheik, o saudita, comanda a OPEP; Zhivago, o mega oligarca russo, domina a indústria bélica e o mercado internacional de ouro; Samurai, o japonês, os conglomerados de distribuição de energia; Rio, o brasileiro, o agro negócio internacional e a distribuição global de alimentos; e Madame Z, a chinesa que, para a alegria e o lucro de todos, havia engendrado  a crise COVID e era a eminência parda por trás do novo capitalismo chinês.

Como de praxe, os sete haviam chegado na noite anterior em seus helicópteros. Agora, às 9 da manhã, o eficiente staff da casa já deixara tudo pronto para a reunião e, pontualmente, o grupo entrou na imensa sala. O clima era descontraído e de inegável satisfação. Especial atenção era dedicada ao russo. Todos queriam ouvi-lo. Zhivago não se fez de rogado.

«Caros amigos. Isto era tudo o que precisávamos. Com a pandemia arrefecendo, eu tinha de fazer algo. E, posso confessar sem modéstia, a minha ideia de bancar a eleição de um ator ambicioso na Ucrânia há dois anos foi genial. O vaidoso do Putin achou que ia engoli-lo. Mas, aí contamos com a inestimável ajuda do nosso colega Mr Green (Zhivago inclina respeitosamente sua cabeça na direção do americano) que, com a mídia internacional, transformou o pequeno Zelensky num super herói. Spassiba, tovarich Green. Agora temos uma guerra de duração imprevisível. O que poderia ser melhor?»

«Nada!», exclamou Sheik. «É só ver o preço do barril de petróleo. Alá seja louvado...» Samurai, Rio e Madame Z também sorriam. Mr Green complementou.

«E o melhor é a atuação do meu amigo Biden. Foi fácil botar pilha no Sleepy Joe, que estava com a sua popularidade caindo pelas tabelas. Com ele e seus amigos da NATO colocando cada vez mais lenha nessa fogueira, vamos ter esta zona de instabilidade ardendo por muito tempo. Como costumamos dizer cá entre nós, nada melhor do que uma...»

«CRISE!», outros repetiram em uníssono.

Oswaldo Pereira
Julho 2022

 

terça-feira, 11 de maio de 2021

ERA UMA VEZ


Era uma vez, na Baixa Esfregônia medieval, um povoado chamado Redwood. Era uma comunidade rural e pacífica, de gente alegre e propensa a imaginar que os deuses a haviam abençoado com um clima ameno e terras dadivosas. Já afastado do centro da vila, e quase em plena zona de plantio, havia um pequeno bairro, chamado Little Alligator, cujos habitantes, de uns tempos para cá, viviam em permanente sobressalto. O problema era um dragão.

O tremendo bicho havia estabelecido seu habitat perto da pobre comunidade e, diariamente, investia contra as singelas plantações e alguns casebres da periferia. Suas afiadíssimas garras e o mortífero fogo que expelia pelas narinas levavam o terror e a morte, queimando os campos cultivados, matando animais domésticos, estorricando os açudes. Alguns habitantes do bairro já haviam sido consumidos pelas chamas do monstro.

A população de Redwood estava amedrontada. E exigia das autoridades uma ação imediata, severa e decisiva contra aquela terrível ameaça. Alguns, inclusive, criticavam uma determinação do Supremo Magistrado do burgo, um indivíduo de antepassados italianos, chamado Fachini, que, tempos atrás, proibira a aproximação da guarda municipal dos domínios onde o dragão se instalara. Deu-se tempo para que o bicho crescesse e ficasse mais sanguinário, comentavam.

Um belo dia, o Comandante da guarda resolveu agir. Consultando seus melhores assessores em assuntos reptílios, ordenou um ataque contra o tenebroso cospe-fogo. Embora um dos guardas fosse atingido mortalmente pelas baforadas ígneas do gigantesco e feroz monstrengo, logo no início da ação, os valorosos policiais conseguiram estocar mais de vinte lanças em seu corpanzil, fazendo-o retroceder e afastar-se do povoado.

Ao retornar para Redwood, os combatentes regozijavam-se na antecipação de uma calorosa acolhida por toda a população e preparavam-se para obter nova permissão para continuar atacando o bicho, até exterminá-lo.

Não foi bem o que aconteceu. Embora parte dos habitantes de Redwood tenham festejado o êxito da bem planejada ação, a comitiva não foi bem recebida pelos mandatários do burgo. O Supremo Magistrado estava furibundo, exigindo explicações do Comandante da guarda sobre o que, classificava ele, fora uma atrocidade contra o dragão. Clamava Fachini: 24 estocadas de lança? Que absurdo... Alguns membros do Conselho Municipal também vociferavam contra o exagero no emprego da força.

No dia seguinte, o Redwood Globe, único jornal da vila (manualmente escrito, pois Gutemberg ainda não nascera) estampou a seguinte manchete: O Assassínio de Um Dragão. Em seguida, vários grupos apareceram nas estreitas vielas do povoado. Eram os membros de várias organizações, que incluíam os “Defensores da Vida dos Grandes Répteis”, “Unidos Em Defesa das Escamas Verdes”, “Dragões Unidos Jamais Serão Vencidos”, entre muitos outros.

Os guardas ficaram em silêncio. Choraram o companheiro calcinado e foram para casa. Enquanto isto, numa caverna escondida na floresta, o dragão lambia suas feridas e recuperava suas forças. Ia voltar, claro. Era só esperar...

Obs.: Para os meus leitores que estão distantes da realidade brasileira, explico que, há dias, uma operação policial na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, confrontou e eliminou 24 bandidos armados, aliados ao narcotráfico. Um policial foi morto. Por incrível que pareça, parte da população, da justiça e da imprensa reagiu adversamente.

Oswaldo Pereira

Maio 2021


segunda-feira, 19 de outubro de 2020

CORONAVÍRUS - UM CONTO (PARTE II)


 

Há algum tempo, escrevi “Coronavírus – Um Conto” (se quiserem, releiam-no neste LINK). Agora, vai a Parte II.

A última reunião acontecera em dezembro. Agora, outubro de 2020, a magnífica mansão agitava-se novamente. E, claro, com aquela agitação contida e eficiente de uma equipe altamente treinada de excelentes profissionais.

Os sete proprietários haviam chegado na noite anterior, como sempre. O breakfast já fora servido e a reunião iria, também como sempre, ter início às 9 da manhã.

Desta vez, no entanto, quebrando o protocolo, os seis homens entraram primeiro na grande sala. Quando Madame Z surgiu, uma salva de palmas a recebeu. Todos os outros membros do seleto grupo prestavam assim sua homenagem à mentora de um dos mais bem-sucedidos planos de sua recente história.

Assim que todos tomaram seus lugares ao redor da grande mesa, Herr Doktor, o alemão, como de praxe, foi o primeiro a ter uso da palavra.

«Senhores, quero propor um voto de louvor à nossa colega. Uma estratégia impecável! E com resultados muito acima do esperado. Parabéns, cara senhora.»

Realmente, a linha de ação proposta pela chinesa no final do ano anterior ultrapassara em muito as projeções e as expectativas. O aproveitamento de um surto gripal causado por uma variação do vírus SARS, na cidade de Wuhan, para causar uma epidemia global e gerar uma crise sem precedentes no século, desencadeando um pânico em escala planetária, proporcionara aos sete membros oportunidades negociais extraordinárias.

Com o auxílio, involuntário ou não, de governos, autoridades médicas, formadores de opinião e, last but not least, da própria OMS, os impérios financeiros controlados pelos sete haviam auferido ganhos substancialmente maiores do que os percentuais anteriormente estimados.

Zhivago, o russo, cujo comando do mercado mundial de ouro era indisputável, estava radiante.

«O preço do metal está no mais alto nível dos últimos 20 anos. O bastante para que um agradecido Putin passasse a cortejar-me. Grande parte das ações do laboratório que está distribuindo a Sputnik V já está em nossas mãos. Os lucros projetados são astronômicos. Spassiba, Madame Z.»

O brasileiro Rio agitou-se na sua cadeira.

«Eu também tenho de agradecer. A venda de equipamento hospitalar para unidades médicas dirigidas por políticos corruptos foi uma festa! Respiradores, hospitais de campanha, UTI’s móveis, só para falar em alguns itens, foram selvagemente superfaturados. Por outro lado, as nossas redes de supermercados puderam aumentar os preços para uma população acovardada e sem outra alternativa de compra, com a redução das feiras livres. Como se diz em meu país, Beleza Pura!»

O charuto já estava na mão de Mr. Green, o americano. Apenas não o acendera por deferência à sua colega.

«Outstanding! A quebra na Economia americana, ajudada pela própria irresponsabilidade do Trump, colocou em sérias dúvidas a reeleição daquele bastard. Minhas baterias contra ele na mídia vão fazer o resto. Vou eleger o Sleepy Joe Biden. E ele vai ficar me devendo esta. Thanks, Z!»

«Arigato, honorável colega.» O japonês Samurai fez uma elegante curvatura com a cabeça em direção à chinesa e continuou.

«A pandemia arrefeceu a lenga-lenga dos verdes. O foco mudou. Embora o consumo mundial de energia tenha diminuído, isto acabou por nos ajudar. Estamos adquirindo por preços irrisórios grande parte da indústria de energia limpa. Com o seu comando nas nossas mãos, os projetos vão andar a passo de cágado.»

Herr Doktor esperou o japonês terminar de falar limpando cuidadosamente as lentes de seus óculos. Seu sorriso era inusitadamente amplo quando falou.

«O pânico do COVID está causando uma movimentação histórica no mundo dos fármacos. Os lucros dos nossos laboratórios são exponenciais. E isto antes de começarmos a empurrar pela goela abaixo da humanidade inteira as vacinas. Bilhões delas! Wunderbar!»

Mesmo na área do Sheik, em que a OPEP, sob sua direta influência, experimentara uma sensível diminuição no consumo global de combustíveis, principalmente pela redução das atividades das gigantes aéreas, ganhos potenciais estavam previstos. Debaixo de seu turbante, os olhos de águia franziam de satisfação.

«Aproveitamos para adquirir vultosas posições acionárias de montadoras, companhias de aviação e da indústria de cruzeiros marítimos. Tudo a preços irrisórios. E já se percebe um crescimento nessas áreas. Numa possível retomada, vamos lucrar imensamente, Alá seja louvado!»

Foi a vez de Madame Z falar.

«Xié xié, muito obrigado, honoráveis colegas. E acho que iremos comemorar ainda por muito tempo. O mundo está refém do pânico. O volume de informações contraditórias mantém a balança do terror em todo o planeta. Governos medrosos ou mal-intencionados e até corruptos fazem o resto. Um quadro sem previsão de mudança, no curto prazo. A simples menção a uma suposta segunda onda já colocou a Europa de rastros. As estimativas de nossos ganhos são agora incalculáveis.»

Nova rodada de aplausos encerrou a reunião.



Oswaldo Pereira

Outubro 2020

quinta-feira, 21 de maio de 2020

A NAVE




A nave vinha de longe, muito longe. Saíra de seu sistema solar, uma confederação de 5 planetas semi gasosos, localizado na Nebulosa de Orion, há mais de 5.000 anos.

Sua tripulação era a mesma, desde o início. Um comandante, 1 imediato, 4 operadores e dois navegadores. Todos feitos de uma matéria próxima do silício, anaeróbicos e retroalimentados por ions retirados do ambiente que circundava a nave, ou seja, partículas de vento estelar, abundantes em qualquer ponto do universo.

Chamá-los de inteligência artificial seria o mesmo que, aqui na Terra, classificar os supercomputadores da NASA como máquinas de calcular. A raça a que eles pertenciam não encontraria entre nós qualquer parâmetro de definição existente ou minimamente sequer aproximada do que estes viajantes efetivamente eram.  “Seres” já seria uma desclassificação. Eram mais, muito mais do que isto.

O objetivo da viagem era exploratório. Como os Descobridores do nosso século XVI, a missão era a de mapear todo o território estelar existente entre o seu sistema e uma galáxia em forma de espiral que os dados coletados durante um incontável tempo de observação haviam indicado ser um celeiro de planetas viáveis. Mas, o real propósito da viagem era outro. Procuravam inteligência.

Uma pequena bola azul, terceiro planeta a partir de uma diminuta estrela, situada quase na borda sul da tal galáxia espiral, havia despertado o interesse da tripulação há mais ou menos 120 anos. Os ultrassofisticados sensores externos da nave haviam captado esparsas emissões de rádio vindas de lá. Logo as análises descartaram qualquer possibilidade de distúrbios aleatórios ou fortuitos. Depois de milênios cruzando regiões estéreis, onde as poucas formas de vida encontradas eram incipientes ou estacionadas em níveis primitivos de evolução, os presentes indícios eram promissores. Naquela bola azul, alguém se desenvolvera o bastante para mandar mensagens ao universo.

No tempo que levaram para se aproximar, foram coletando informações e mais informações sobre o tal planeta, alimentadas por um fluxo cada vez maior de emissões. Ao chegarem perto do cinzento satélite natural que circundava a bola azul, já sabiam quase tudo sobre ela. Depois três bilhões de anos, em que evoluíra de um caldo fumegante a um mundo de atmosfera estável e alimento abundante, várias estirpes de criaturas haviam-se revezado no seu domínio. Até, coisa de uns dois milhões de anos atrás, uma raça aparentemente frágil surgir de um desvio improvável na evolução, munida de uma característica notável e decisiva. Adaptabilidade.

Após o período de um século até chegarem perto, em que puderam dissecar e analisar todo o manancial de dados captado pelos sensores, o conhecimento sobre o pequeno mundo, que agora surgia inteiro e brilhante na janela da nave, era total.  Além de toda uma fauna e uma flora pujantes, ali existiam mais de 7 bilhões de seres inteligentes. Metabolizavam oxigênio, água e alimentos para viver, embora por pouco tempo. Mas, praticavam a reprodução da espécie em ritmo alucinante, o que garantia sua permanência ininterrupta na face do planeta. Haviam-se dividido em países, de línguas e costumes diferentes. Haviam guerreado uns aos outros, haviam-se subjugado mutuamente, haviam lutado contra e se aproveitado de uma natureza que às vezes parecia querer extingui-los. Mas, haviam sobrevivido.

Em tempo terrestre, era o dia 21 de maio de 2020 quando finalmente estacionaram a nave no perímetro externo da densa e protetora atmosfera do planeta que, agora já sabiam, era chamado de Terra em um dos seus mais falados idiomas. Sabiam também que, neste momento, o planeta passava por mais um episódio de ataque viral, um acontecimento quase cíclico na história daqueles seres.

A comunicação entre os tripulantes da nave era imediata. Com seus “cérebros” interligados, a decisão foi tomada em nano segundos. Embora soubessem que aquela raça iria superar facilmente mais esse pequeno contratempo, tão fascinados estavam por encontrarem uma espécie inteligente que, contrariando o protocolo, resolveram dar uma ajudinha.

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Após um interregno que, nos relógios da Terra, corresponderia a 78 horas, o imediato retornou à nave. Três dias antes, por determinação do comandante, ele recebera a missão de descer à bola azul. Observá-la de longe já não satisfazia a curiosidade que sentiam. Precisavam saber mais.

Depois de livrar-se da metamorfose que usara para movimentar-se pelo planeta, uma composição genética que o transformara na réplica perfeita de um terráqueo, o imediato transferiu seu relatório para os outros tripulantes. Tudo em frações de segundo. E na linguagem sem palavras que utilizavam. Mas, talvez por capricho, o imediato guardou em algum escaninho de sua memória uma versão do que reportara numa das muitas línguas absorvidas em sua peregrinação exploratória pela Terra. Se um dia pudéssemos lê-la, seu texto seria este:

Complexo. O povo da Terra é complexo. Paradoxal seria outro adjetivo aplicável. Evoluem rapidamente, mas de maneira atabalhoada. Alguns exemplos:
.amam a natureza que os cerca. Até entendem que, graças a ela, puderam sobreviver. Por outro lado, a agridem.
.apesar disso, há abundância. Só que não a distribuem como seria lógico. Há poucos com muito e muitos com pouco.
.conseguiram visualizar Deus. Mas o mitificaram numa variedade enorme de nomes e seitas diferentes.
.embora todas estas seitas preguem a paz, o amor e o perdão, guerras terríveis e atrocidades inimagináveis são praticadas em nome delas.
.conseguem ser solidários e agressivos ao mesmo tempo. Assim como se emocionam com uma criança morta num conflito, fomentam as condições para a existência deste mesmo conflito.
.conhecem e idolatram um sentimento chamado “amizade”, mas o abandonam e repudiam por questões triviais.
.são altruístas e egoístas, sensatos e loucos, generosos e cruéis, construtores e destruidores, mansos e irados, pacíficos e guerreiros, gênios e tolos. Tudo ao mesmo tempo.
O ataque viral que experimentam não é o primeiro nem será o último. Mas não porá em risco a sua existência. Seria preciso muito mais do que isto para eliminá-los, se é que isto é possível. Sua resiliência os manterá vivos. Não necessitam nossa ajuda. Acho que deveríamos voltar no futuro para observá-los novamente. Sugiro daqui a mais 5.000 anos.

Oswaldo Pereira
Maio 2020

terça-feira, 10 de março de 2020

CORONAVÍRUS - UM CONTO




No meio da floresta subtropical, a grande mansão de dois andares era uma imagem magnífica. Cercada por um terreno impecavelmente cuidado de cerca de 10.000m², embora fosse uma construção moderna, suas linhas clássicas e austeras davam-lhe uma aura de elegância e poder e, ao mesmo tempo, de extrema funcionalidade. Na parte traseira da propriedade, estavam as garagens, um hangar para helicópteros e três heliportos.

A estreita estrada asfaltada que a ligava a rodovias de grande movimento não mostrava qualquer indicação. Só mesmo quem tinha conhecimento autorizado conseguiria descobrir o desvio que a ela conduzia. Mesmo que algum desavisado nela penetrasse, guaritas posicionadas ao longo dos 12 quilômetros que a distanciavam do grande trânsito impediriam o progresso de intrusos. Gentil, mas firmemente, seriam convidados a voltarem por onde vieram.

Seus ocupantes permanentes eram funcionários dedicados. Cinco guardas armados, uma recepcionista, uma secretária, um chef, dois copeiros e um mordomo. Os donos da mansão não moravam ali.

Eram sete. Todos essencialmente discretos. Apesar de donos de fortunas incalculáveis e controladores de grandes fatias dos mercados, das finanças e da política internacionais, sua presença era sentida apenas nos bastidores. Eram como entidades sem rosto, eminências pardas no comando supremo nas suas áreas de atuação.

A mansão era utilizada pelos sete como lugar de suas ultrassecretas reuniões, e que só aconteciam quando uma determinada situação fosse emergencial, importante ou sigilosa o bastante para substituir os sofisticados meios de contato à distância que usavam.

Nesta gelada manhã de dezembro, a mansão vibrava no ritmo contido de uma dessas ocasiões. Os sete, cada um em seu helicóptero, haviam chegado na noite anterior e, como acordado para esses encontros, com dois assessores. Após um jantar frugal, haviam-se recolhido aos seus quartos no segundo andar.

Eram 8 em ponto quando o brunch matinal foi servido. Enquanto isso, os assessores e a secretária moviam-se numa eficiência silenciosa, preparando a imensa sala de reunião do primeiro andar. Tudo estava impecavelmente pronto às 9, quando as portas da sala foram fechadas e os sete tomaram seus lugares na grande mesa redonda.

Seis homens e uma mulher. Mesmo no recôndito e protegido ambiente da sala, não mencionavam seus verdadeiros nomes. O alemão, a quem chamavam de Herr Doktor, através de trusts não identificados, posições acionárias difusas e acordos de acionistas assinados por procuradores de procuradores, controlava a indústria e o mercado de fármacos em todo o mundo. Mesmo os mais habilidosos contadores e fiscais jamais conseguiriam descobrir o fio da meada que possibilitasse demonstrar seu absoluto domínio sobre o setor.

O mesmo poder-se-ia dizer do príncipe saudita, o Sheik, e seu total e invisível poder sobre a OPEP, do Samurai, o japonês e seu mando secreto da indústria de energia mundial, do russo Zhivago, que puxava os cordéis da indústria bélica que restara da extinta União Soviética e dirigia das sombras o mercado internacional de ouro, do brasileiro Rio, rei desconhecido do mercado planetário de alimentos, do norte-americano Mr. Green, que por via do financiamento de seus bancos aos moguls da imprensa e da indústria de entretenimento globais os tinha nas suas mãos enluvadas e da chinesa Madame Z, que misteriosamente possuía o controle absoluto da manufatura de têxteis, componentes eletrônicos, brinquedos, material esportivo e tudo o mais que leva estampado em seu invólucro a frase made in China. Os sete detinham também posição majoritária no capital do BIS (Bank for International Settlements) que, por sua vez, controlava os bancos centrais dos países do G-20.

Se você um dia ouviu alguém falar na teoria da conspiração que afirma existirem dez famílias que controlam o mundo, esqueça. Estes sete é que são os senhores da Terra.

Às 9:01, Herr Doktor iniciou a reunião.
«Os nossos negócios, este ano, cresceram menos que o esperado. Os grandes laboratórios estão sofrendo com a disseminação da medicina preventiva, com as práticas alternativas e com o culto à vida saudável. Comidas balanceadas, banimento do tabagismo, joggings...»

O russo tomou a palavra.
«Pior ocorre com o mercado de armamentos. Os conflitos diminuem. Os americanos estão recolhendo suas tropas. O Putin está saindo do meu controle. Esse tzar de merda está articulando com o sacana do Erdogan o fim da guerra da Síria, só para ficar bem no filme. Um descalabro!»

Um a um, os outros homens foram repetindo ladainha parecida. Energias limpas estavam prejudicando o nível de preços na área do Samurai, os verdes de todos os países civilizados culpavam os combustíveis fósseis como os grandes responsáveis pelo aquecimento global e o Sheik sentia já um nervosismo latente nas petrolíferas. Rio reclamara dos limites impostos pelas das leis ambientais para as áreas do agronegócio. Até Mr. Green expôs suas preocupações.

«Meu problema é o Trump. Incontrolável. Mesmo eu dirigindo as baterias da grande imprensa contra ele, o homem é impermeável. Corremos um sério risco de reeleição deste bastard. A Economia americana vai de vento em popa. Imbatível.»

Foi quando Madame Z resolveu falar.

«Eu já identifiquei a razão dos nossos problemas. O mundo não está em crise, honoráveis colegas. Ou melhor, está em vias de solucionar a maioria delas. E, neste ambiente, o crescimento das nossas fortunas vai ficar restrito ao mesmo ritmo dos investimentos dos comuns dos mortais.»

Houve um murmúrio de assentimento ao redor da mesa. Ela prosseguiu.

«À frente dos senhores está um dossiê preparado pelos meus assessores. É um plano de ação destinado a reverter esta situação e precisa contar com a participação de todos. Vou resumi-lo.»

Num gesto estudado, Madame Z colocou seus óculos cravejados de brilhantes e continuou.

«Logo agora em dezembro, a equipe médica de um nosso hospital de Wuhan, uma cidade de quase 11 milhões de habitantes, que está sofrendo o início de um surto de gripe vulgar, comum nesta época do ano, alertará para o aparecimento de uma nova variação do vírus corona. Testes laboratoriais encomendados por nós irão comprovar o diagnóstico e aumentar o alerta. A partir daí a progressão do que, na verdade, é um surto esperado para gripes como essa, será transformada pelos meios de comunicação, e aí entrará a colaboração de nosso parceiro Mr. Green, numa verdadeira história de terror. Paralelamente, a rede de deep fake do nosso amigo Zhivago multiplicará nas redes sociais de todo o planeta a produção de estatísticas aumentadas e direcionadas a amedrontar cada vez mais a população mundial.»

Herr Doktor interrompeu.
«Eu posso determinar que os produtores de antigripais e utensílios de prevenção contra infecções restrinjam a produção. O cenário de prateleiras vazias nas farmácias irá aumentar o medo.»

Rio acrescentou.
«Posso fazer o mesmo com os supermercados.»

Madame Z voltou a falar.
«Rapidamente, o pânico se instalará. Artigos e documentários espalhados pelas redes de TV e pela Net sobre a Peste Negra e a Gripe Espanhola irão ajudar. Em breve, autoridades médicas em todo o mundo não irão mais enxergar que se trata de uma infecção normal. Apesar do número de casos da doença ser infinitamente menor do que outras endemias já existentes, o pavor de serem acusados de minimizar o problema os fará entrar na paranoia. Logo, Governos e até a OMS seguirão o mesmo caminho.»

Mr. Green interveio.
«Quantos casos de infecção estão previstos?»

Madame Z consultou seu dossiê por cima dos óculos.
«No mundo inteiro, pouco mais de 500 mil, com cerca de 15 mil óbitos entre 4 e 6 meses.»

Rio agitou-se em sua cadeira.
«Só?! Mas isto é menos do que endemias como sarampo, dengue, zika, chicungunha, febre amarela e uma simples pneumonia infectam e matam em uma semana. Acha que a comunidade médica mundial vai entrar nessa?»

Madame Z respondeu.
«Sem dúvida. Com a disseminação do pânico, os países vão estabelecer barreiras e quarentenas para tentar evitar uma epidemia em seus países. As linhas aéreas, o turismo e a indústria de entretenimento sofrerão um forte impacto. E isto vai levar o resto atrás. De acordo com as previsões do plano, a economia mundial vai entrar numa rápida recessão. As bolsas retrairão imediatamente. Aí teremos o que tanto desejamos. Uma crise global.»

Zhivago pigarreou e disse.
«Acho que eu e o Sheik podemos dar uma ajudinha. Se conseguirmos fazer com que o Putin do meu lado e a OPEP do lado dos árabes simulem um desacordo quanto ao nível de produção de petróleo, num momento de expectativas ruins do crescimento global, o preço do barril vai despencar.»

O Sheik inclinou a cabeça em sinal de aceitação.

Mr. Green, enquanto Madame Z fazia uma careta, tirou um charuto do bolso do casaco e ponderou.
«De qualquer maneira e como toda crise fabricada, ela será curta. Teremos duas semanas para agir, enquanto os mercados afundam e se recuperam após a paranoia ser substituída pela racionalidade e pelo bom-senso. Quanto acha que poderemos ganhar, Madame Z?»

Ela olhou para seus papéis.
«De acordo com estas estimativas, nossos assets poderão aumentar entre 17.2 e 26.8 por cento, dependendo do tempo que o mundo levará para acordar.»

De charuto na boca, Mr. Green começou a aplaudir. Todos acompanharam.

Oswaldo Pereira
Março 2020


domingo, 22 de dezembro de 2019

FELIZ NATAL 2019






FELIZ NATAL PARA TODOS!

E, para manter a tradição dos natais passados, aí vai o Conto de Natal de 2019.

Mamãe Noel acordou. Madrugada. Olhou para o lado da cama. O marido não estava. E ela sabia o porquê.

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Tudo começara há um mês e meio. No dia seguinte ao Halloween, o primeiro sinal. Nenhuma carta. O sub encarregado da recepção postal estranhara. Dois dias depois, ainda com as caixas de entrada do correio vazias, resolveu falar com o chefe da repartição. Após alguns minutos em silêncio, este dissera: Não deve ter problema. O pessoal ainda deve estar se divertindo com as bruxas. Vamos esperar...

No dia 15 de novembro, soou um primeiro alarme. Convocados para uma reunião, os diversos superintendentes foram para a grande Sala da Situação. Sentaram-se ao redor da imensa mesa. A preocupação era evidente nos cenhos franzidos. Papai Noel chegou.

«HO!HO!HO! everybody... Então, como estamos?»
O Chefe dos Correios pigarreou e começou, soturno.
«Mal, é quer dizer... Isto nunca aconteceu. Falta um mês e dez dias para o Natal e nenhuma, eu repito, nenhuma correspondência chegou até nós. Não consigo encontrar uma explic...»
O Supervisor dos Embrulhos Coloridos, um duende brincalhão e otimista, atalhou.
«Ora, não seja tão alarmista. Atrasos na correspondência não são nenhuma tragédia. Há gente que deixa tudo para a última hora. Os brasileiros, por exemplo. Suas cartinhas só chegam lá para o dia 23 de dezembro. Portugueses, italianos, os latinos em geral não ficam muito atrás...»
O Gerente da Linha de Produção de Bonecas Articuladas, um elfo de óculos grossos e pragmático, retrucou.
«Sim, mas e os alemães? Seus pedidos começam a chegar logo depois da Páscoa. Os escandinavos, assim que o verão vem e vai naquela quarta-feira de agosto, já mandam suas mensagens. Há razão para alarme, sim! Eu acho...»
Papai Noel tossiu suavemente.
«Desculpe interromper... Seção de e-mail?» E olhou para uma moça de cabelos pintados de vermelho.
«Nada, Mestre...»
Noel recostou na poltrona de costas altas. Ficou algum tempo em silêncio. Depois, disse.
«Realmente, alguma coisa está fora do lugar. Temos de verificar. Pessoal das Relações Públicas. Quero que vocês investiguem. Procurem averiguar o que há. Nova reunião daqui a dez dias. Boas Festas.»

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Mamãe Noel resolveu levantar-se. Sabia onde encontrar marido. Quando abriu a porta da grande sala, encontrou-o, de semblante amargurado, a olhar para o Relógio Calendário que dominava a parede do fundo. Debaixo do letreiro com a data, outro maior ainda. Em neon verde, anunciava N – 10. Dez dias para o Natal. E nenhuma cartinha chegara.

O resultado das pesquisas, apresentado pelo pessoal da RP após a reunião de novembro, eram desalentadores. No fundo, ele se resumia a alguns nomes. Amazon, E-Bay, AliBaba, e outros sites menores. O mundo estava coberto pela Internet.  Ninguém mais utilizava o tradicional ato de escrever sua lista de presentes e mandar para o Bom Velhinho. As crianças do planeta tinham agora suas wish lists nas plataformas comerciais. Tudo ia para as grandes nuvens virtuais e dali saiam os sedex dos pacotes natalinos. Trenós, renas, meias em cima das lareiras, descidas pelas chaminés, tudo isso ficara obsoleto. Noel também.

Mamãe Noel tocou o ombro do marido.
«O mundo mudou, querido. Não há nada que possamos fazer. Vamos dormir. Ainda é muito cedo.»

Horas depois, o dia ainda não raiara quando as campainhas começaram a tocar. Todas. Uma grande movimentação parecia ter tomado conta de tudo. Mamãe e Papai Noel foram acordados por alguém que esmurrava a porta do quarto. Era a Vice-Diretora de Operações, uma fada já entradona que vivia perdendo sua varinha de condão. Estava agitadíssima e trazia um barrete vermelho por sobre os cabelos desalinhados. Papai Noel ainda tentou falar.
«Não precisa mais usar este chapéu. Nós...»
Ela interrompeu.
«Venham rápido!»

Quando chegaram à Sala da Situação, a efervescência era enorme. Todos olhavam para as gigantescas telas de televisão. Nelas, repórteres e âncoras, comentaristas e operadores de câmera transmitiam dos quatro cantos do planeta algo de extraordinário. As nuvens haviam sido atacadas e destruídas.
«Nuvens?», perguntou Noel. Alguém mais próximo explicou.
«Sim! As nuvens virtuais que guardam os dados digitais de todo o mundo. Hackers invadiram-nas e as apagaram. A Humanidade está em pânico!»

Noel levou algum tempo para digerir a imensidade do problema. Foi só quando Mamãe Noel falou de mansinho.
«Agora, quem quiser ganhar presentes de Natal vai ter que usar o método tradicional...»
Nesse exato instante, o Chefe da Recepção Postal entrou correndo e gritando.
«Ei, pessoal! Estão chegando as cartas. São milhares por minuto. O que vamos fazer?»
Os olhos de Noel brilharam. Sua voz ecoou potente por toda a grande sala.
«HO! HO! HO! everybody. Vamos trabalhar!»

Oswaldo Pereira
Dezembro 2019

domingo, 23 de dezembro de 2018

NATAL 2018






FELIZ NATAL PARA TODOS!

AOS MEUS ABNEGADOS LEITORES, DESEJO UM NATAL CHEIO DE PAZ & AMOR

E, PARA NÃO PERDER A TRADIÇÃO, AÍ VAI MAIS UM

 CONTO DE NATAL 




“24 de dezembro. Oito da noite. Uma vila no norte da Estragônia Setentrional.

«Não acredito, não acredito, NÃO ACREDITO!!»
O pai e a mãe entreolham-se. E depois, olham para o filho, sete anos, na mais completa contestação. O pai tenta argumentar.
«Mas, filho, é claro que ele existe. Quem é que você acha que coloca os seus presentes ao pé da árvore, na noite de Natal, enquanto você dorme? E quem...»
O filho não o deixa terminar.
«Ora, papai, não me faça de bobo. Na escola, os meus colegas já me contaram tudo. Fizeram até troça de mim. Quem coloca os presentes são os pais!»
A mãe ainda tenta.
«Mas...»
«Que mais que nada. Vocês me enganaram!»
E vai correndo para o seu quarto, batendo a porta atrás de si.

O silêncio da consternação abate-se sobre a pequena sala. Até as luzes do pinheiro comprado há dias parecem abrandar sua intensidade colorida. A mãe pergunta.
«E agora? Sem ele crer nesta nossa encenação, a Noite perde o sentido...» Seus olhos estão úmidos. O pai procura racionalizar.
«Bem... Mais cedo ou mais tarde, ele iria mesmo descobrir que Papai Noel não existe. Acontece com todo o mundo, faz parte das dores do crescimento.» A mulher retruca.
«Pare já com este seu cinismo costumeiro! Se ia acontecer mais cedo ou mais tarde, por que não mais tarde? Por que perdermos mais esta magia? Nosso filho sonhando com o bom velhinho trazendo os seus presentes, a inocência de seu olhar, a alegria em seu coração menino...»
«Ora, vamos mas é parar com este drama. As coisas são assim mesmo. As pessoas crescem. Amadurecem. Perdem algumas fantasias, perdem...» A mulher está irada.
«Cale-se! Vá já mas é resolver este problema. Sem aparecer um Papai Noel aqui em casa, não vai haver ceia, ouviu bem?»
«Resolver?! Mas, como? São oito da noite. Está tudo fechado nesta vila. Está escuro e frio lá fora...» A mulher vira-lhe as costas.
«Não me interessa! Vire-se!»

Cinco minutos depois, ele já está do lado de fora da porta, o pesado capote com a gola levantada, o vento gelado quase arrancando seu gorro, as mãos enluvadas nos bolsos. Ninguém nas ruas. Para complicar, há uma névoa espessa. Ele quase não enxerga um palmo à frente do nariz. Mas, ele sabe que tem de tentar achar uma solução. Seu amor de pai cutuca-lhe o coração. E ele começa a caminhar sobre a neve.

Passado um quarto de hora, ele se sente perdido. O fog ficou mais grosso. Sabe que andou em direção à praça principal da vila, mas agora não tem mais certeza. Aos poucos, começa a enxergar um clarão alaranjado, muitos metros à frente. Vai chegando. E, então, ele vê.

Segurando um candeeiro, um homem alto e gordo está encostado num muro, como que à espera de alguma coisa. Com cautela, ele saúda.
«Olá... Como vai?»
O homem solta uma larga risada. Prestando mais atenção, ele nota que o desconhecido está vestido com calças largas e bufantes, um casaco curto com golas de pele e um barrete na cabeça. Vermelhos. As botas negras apoiam-se firmes na neve.
Ele arregala os olhos, enquanto o outro lhe pergunta, entre mais risadas.
«Surpreso?»
Ele sente-se um pouco inseguro.
«É... Desculpe, mas quem é você? E o que faz aqui?... Posso tentar chamar alguém e...»
O homem afasta-se do muro. Parece amistoso.
«É claro que você sabe quem eu sou. E o que estou fazendo aqui, agora.»
Ele procura resistir à sensação estranha que o invade lentamente.
«Não... Não sei...»
«Ora, vamos. Com esta indumentária, esta risada que mais parece um urso com soluços. E nesta noite? O que você acha?»
Ele se refaz um pouco.
«OK, qual é a pegadinha?»
O outro fita-o nos olhos.
«Pegadinha?! Não há nenhuma pegadinha, amigo. Sou eu mesmo. O próprio. Papai Noel, em pessoa.»
Ele começa a rir.
«Ora, cara. pensando que eu sou trouxa? Papai Noel não existe.»
Nova risada cavernosa.
«Não existo? Espere um momento...»
O homem endireita o torso e solta um curto assobio. Da escuridão, saem três renas. Estão com os chifres enfeitados e têm o olhar doce. Ele levanta o braço, num gesto de apresentação
«Prancer, Dancer e Vixen.»
«Bem... E daí? Às vezes, aparecem umas renas lá nas montanhas... Estas podem ter vindo da...»
O outro torna a assobiar. Mais uma rena aparece. Só que esta tem o nariz de um encarnado brilhante.
«E este é Rudolph... Venha»
Levantando o candeeiro, o homem dirige-se para o final da pequena rua. Uma sombra larga vai sendo clareada e revelando suas formas. É um imenso trenó, de desenho elaborado e festivo, com um enorme compartimento na parte de trás. Está atulhado de sacos vermelhos de vários tamanhos. Ao chegar perto, o homem aciona um botão e o trenó ilumina-se. São milhares de luzinhas de todas as cores, piscando incessantemente.
«E então?...»
Ele está desnorteado. Embora parte de seu cérebro lute contra, a magia do momento quer sucumbir seu ceticismo. Por que alguém estaria aqui, nesta noite agreste, fingindo ser Papai Noel? Quais as chances de isto acontecer numa vila perdida na Estragônia Setentrional?
O homem fala com voz alegre.
«Você me perguntou o que eu estava fazendo aqui. Pois estava esperando seu filho adormecer para lhe levar os presentes. Está na hora. Vamos.»

Cinco minutos depois, o trenó está parando na frente da porta. A vinda foi tranquila, parecia que as renas sabiam de cor o caminho, mesmo através da neblina. Com cuidado, eles entram na casa.

Os olhos da mulher brilham, banhados em lágrimas de cristalina emoção. «Como você conseguiu?...» Ele leva os dedos aos lábios. «Shhh... Depois eu explico.» Com a mão, indica o quarto do menino. «Por aqui, Papai Noel...»
Os três entram. Enquanto os embrulhos são colocados ao pé da cama, o menino acorda. Olha com intensidade para a figura que despeja seu saco encarnado. Depois, com um pouco de contrariedade, resmunga.
«Ora, papai, não adianta tentar me enganar. É você vestido de novo de...»
O pai sai da sombra.
«Eu estou aqui, filho.»
O rosto do menino transforma-se num súbito encantamento.
«Papai Noel... Você existe...»

Enquanto o menino fica no quarto desempenhando-se da alegre rotina de abrir os presentes, os outros três dirigem-se para a porta de saída. O pai, ainda profundamente emocionado, fala.
«Obrigado, Papai Noel. Não sei como lhe agradecer.»
O outro solta um sorriso curto.
«Agradecer?!» Leva a mão ao bolso superior do casaco e tira um cartão. Nele, está escrito:

JOÃO DA SILVA
Personal Papai Noel

«São 250 dólares.»
O pai entra em choque.
«Mas, como assim?... Você então não é o...»
O outro olha, intrigado.
«Espera aí... Não acredito... Você pensou MESMO que eu era o Papai Noel de verdade?»

Oswaldo Pereira
Dezembro 2018