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sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

DESTINOS CERTOS: NASA



Quando o Sputnik foi lançado, eu tinha 17 anos. Como toda a minha geração, a fascinação pelo espaço e pelas viagens interplanetárias havia sido poderosamente instilada em meus sonhos pelos quadrinhos de Flash Gordon e Brick Bradford, e filmes como Destino À Lua (Destination Moon, de 1950). Além disso, o mundo vivera, a partir de 1953, uma verdadeira paranoia com os discos voadores. Notícias, relatos e testemunhos enchiam jornais e revistas. E eu, um adolescente ávido por coisas extraterrenas, tive a pachorra de recortar e colar num álbum todas as reportagens publicadas às quais eu conseguia ter acesso (Um dia ainda vou escrever um texto sobre isto...). Passava horas lendo e relendo os recortes, e torcendo para que eu tivesse a ventura de ser abduzido...

A colocação no espaço do pequeno satélite russo, além de encantar e/ou alarmar o mundo inteiro, deu início a uma acirrada competição, que duraria mais de uma década: a corrida espacial, uma disputa de prestígio entre os dois superpoderes de então.  Um tio meu torcia pelos soviéticos; eu, pelos americanos. As discussões eram intermináveis...

Já era jovem adulto, casado e pai, quando, numa das mais vívidas memórias que tenho, vi a imagem em preto e branco, um pouco desfocada e indefinida, de Armstrong descendo no Mar da Tranquilidade. Com a informação de que, pela primeira vez, centenas de milhões de pessoas viam a mesma cena naquele momento, foi a única vez que me senti parte de uma coisa chamada Humanidade.

E foi como parte dessa Humanidade que segui os angustiantes momentos do problema da Apollo XIII, o alívio toda vez que paraquedas coloridos e gigantescos pousavam gentilmente as cápsulas no mar, as declarações dos astronautas sobre as sensações vividas ao verem a Terra como uma bola azul recortada pela imensidão do Universo.

Assim, os meus parcos, mas resilientes leitores podem avaliar o que foi para mim visitar, há dias, a NASA ou, melhor dizendo, o Centro Espacial Kennedy, em Cabo Canaveral.  

Prá começo de conversa, quis o destino (e, é claro, um dedicado monitoramento de minha filha Andrea), que a visita tivesse, como bônus, a oportunidade de assistir ao lançamento do Space X Falcon, em sua missão de colocar pequenos satélites em órbita. Estar ali, contritamente acompanhando com os presentes a contagem regressiva, vendo o artefato elevar-se e ouvindo os poderosos rugidos do lift off, fez-me entrar numa máquina do tempo.

A partir daí, não consegui mais voltar ao presente. Estava de novo nos anos cinquenta/sessenta. A sala de controle das missões lunares, os ciclópicos foguetes Saturno, as acanhadas cápsulas e claustrofóbicos módulos, a incrível nave Atlantis, os trajes espaciais, todo o drama e toda a glória de uma história de coragem, desafio, inteligência e trabalho duro estão ali. O Centro, afinal, é uma Disney do espaço. Mas uma Disney que tem como mote, não uma inspiração ficcional e lúdica, mas a saga real do milagre da tecnologia e da ousadia de gênios loucos que, há mais de 50 anos, colocaram homens na Lua.

Foi um dia de sonho. Dos meus sonhos. Se você participou desse extraordinário tempo, ponha na sua agenda uma visita a Cabo Canaveral. Não irá se arrepender.

Oswaldo Pereira

Janeiro 2023

segunda-feira, 23 de maio de 2022

DESTINOS CERTOS: NAZARÉ

 


Agora, o mar está calmo. A maré é chã, apenas um ligeiro carreiro de espumas serpenteia a superfície, talvez a única e inocente indicação do extraordinário berçário de titãs marinhos que, temporariamente adormecido, repousa no fundo, bem lá no fundo, deste oceano azul.

Estou falando de Nazaré, a pequena vila portuguesa, à beira mar plantada e lugar de História e estórias, lendas e tradições, como também o são as centenas e centenas de vilas que adornam este jardim chamado Portugal.

A aldeia já existia em 1182, quando D. Fuas Roupinho, cavaleiro de D. Afonso Henriques, possivelmente também templário e reconhecido primeiro almirante da nascente marinha lusa, experimentou a graça de um milagre. Entre uma batalha e outra, D. Fuas praticava o esporte real da caça ao veado quando, perseguindo um animal numa manhã coberta de espesso nevoeiro, sentiu de repente, e sem qualquer motivo, seu cavalo empacar bruscamente. Apeando-se em meio à névoa impenetrável, verificou que estava a centímetros de cair de um alto penhasco. Uma ermida edificada no local atesta o reconhecimento desse fenômeno milagreiro.

O MILAGRE DE D. FUAS




O SÍTIO DA NAZARÉ

O penhasco faz parte do Sítio, a parte elevada da vila, de onde se pode vislumbrar o magnífico panorama das praias da Nazaré, onde, por muitos e muitos anos, as mulheres quedavam sentadas à espera de seus maridos pescadores. Lembro-me de, há muito tempo atrás, vê-las, de negro, com suas sete saias a protege-las do vento (mas não da angústia), imóveis e silenciosas sentinelas nas tardes de mar bravio. Stanley Kubrick e Cartier-Bresson foram dois dos muitos cineastas e fotógrafos que captaram a beleza triste destas cenas.

Hoje, porém, Nazaré está no mapa turístico mundial como o lugar das ondas gigantes. Entre novembro e março, o Inverno europeu, um extenso e profundo canyon (ou canhão em bom Português) submarino, com a maré e ventos propícios, produz as maiores vagas do planeta. Esses monstros chegam a bater os 30 metros de altura (só para ter uma ideia, esta é a altura de um prédio de 10 andares...) e são o desafio dos homens e mulheres de aço que os cavalgam em suas pequenas pranchas de silicone. E que fazem o emocionado deleite das centenas de turistas que se aglomeram na segurança do promontório do farol da Nazaré.

É claro que não as vi, no ensolarado dia de maio em que lá estive. Mesmo nos meses frios, é preciso paciência e sorte para observar as ciclópicas ondas. Mas, mesmo sem elas, a visita merece ser feita. A mansidão do mar, a imponência dos penhascos, o perfume praieiro e, nem é preciso dizê-lo, os deliciosos peixes, só na companhia de azeite e batatas, são argumentos mais que suficientes para lá ir.

Oswaldo Pereira
Maio 2022

terça-feira, 6 de agosto de 2019

DESTINOS CERTOS: MADRI



No século IX, auge da idade de ouro islâmica, a região fazia parte do Al-Andaluz. Sua planície e o rio que a cruzava pertenciam ao emirado de Córdova, governado por Muhammad (ou Maomé) I. Maomé tinha bom gosto, cultura e dezenas de excelentes arquitetos à sua disposição. Nas margens desse rio, cujo nome era Fonte de Água, ordenou a construção de um palácio para seu deleite e seu harém. Fonte de Água em árabe escreve-se al-Majrit. Quando, 700 anos depois, o rei de León, Afonso VI, a conquistou durante sua avançada para Toledo, a pequena vila que crescera ao redor do palácio já havia transformado o nome al-Majrit. Ela agora se chamava Madrid.

Hoje, ela está no centro geográfico, político, econômico e cultural da Espanha. Em 2010, a prestigiada revista Monocle a qualificou como a décima cidade mais habitável do planeta. Dez milhões de turistas a visitam todos os anos. Para quem está passando uma temporada em Portugal, ela está aqui ao lado. Menos de uma hora de voo, e você está no Aeroporto de Barajas. E a aventura começa.

Minha aventura inicial teve um sabor amargo. Logo na primeira viagem de metrô, um ardiloso (ou ardilosa) punguista surrupiou-me a carteira e lá se foram documentos e cartões bancários. Minha manhã de abertura em tierras madrileñas foi um rosário de ligações às agências bancárias e um périplo apressado entre a delegacia de polícia e o Consulado, para obter uma documentação que me permitisse pegar o avião de volta.

Mas aí, de repente, a tarde abriu-se num delicioso sol de verão e, aos poucos, o amargo do início foi sendo substituído pelo sabor de um delicioso prato de presuntos de diversas categorias no Museo del Jamón. Daí para a frente, Madri venceu.

A primeira palavra que os sentidos escolhem é imperial. A cidade foi feita para ser a capital de um império, cujo limite era a metade de um mundo que os espanhóis dividiam com os portugueses. Sua arquitetura, desenhada ao longo de grandes avenidas, parece falar disto em todas as rebuscadas fachadas barroco-clássicas, em seus parques, nas suas fontes e em suas praças.

Onde, no século XVI, os não-crentes ardiam nos autos-de-fé da Inquisição, você hoje, mesmo crendo apenas nos desígnios do destino, pode caminhar num enorme quadrilátero cercado de prédios palacianos e arcadas elegantes, repletas de lojinhas charmosas e restaurantes ao ar livre. É a Plaza Mayor.

PLAZA MAYOR

 Dê alguns passos preguiçosos e encontre outra imperdível experiência, esta deliciosamente gustativa. O Mercado de San Miguel, reino das tapas e das cavas, lugar de eleição dos naturais e dos turistas no pré-poente dourado de uma sexta-feira. Cheire, olhe, prove, beberique. E saia tão leve que a centena de metros para chegar à Puerta del Sol vão parecer um ligeiro flutuar.
PUERTA DEL SOL

Lá chegando, tire logo um selfie de seu pé em cima do Km 0, e saiba que você está bem no centro de Madri e da Espanha, de onde partem e aonde chegam todos os caminhos. Só então olhe a Praça, que vive em permanente adoração ao Sol que lhe dá nome. Coloridas tribos de artistas de rua, estátuas vivas, dançarinos, acrobatas e músicos de toda sorte cutucam o hippie que você deve ter no fundo da alma. Cantarole mentalmente Let the Sun Shine In e faça uma reverência.

Parar para descansar? Nem em pensamento. Mergulhe no caudaloso rio de gente que flui nas largas avenidas radiais que saem da Praça, como a Calle del Arenal ou a Calle de Alcalà. Deixe-se levar pela correnteza e você aportará na Fonte de Cibeles e no início da Gran Vía. Faça uma prece ao deus dos caminhantes e palmilhe essa broadway latina até chegar à Plaza de España. E então, só então, escolha uma esplanada, dê um merecido repouso às pernas e regale o estômago vazio com os petiscos da terra.

GRAN VÍA
No dia seguinte, se bem lhe aprouver, alimente o espírito. Juntinhos, ao redor do Paseo del Prado, estão três dos mais importantes museus de arte da cidade. O Thyssen, o Reina Sofia e o maior e mais famoso deles todos. O Museo del Prado.

Como qualquer dos mais comuns mortais, você já deve ter visto fotografias e reproduções do Las Niñas de Velásquez, dos autorretratos de Rembrandt, das Majas de Goya, d’O Jardim das Delícias de Bosch, do Autorretrato de Dürer, d’O Batismo de Cristo de El Grieco. Pois todas elas, junto com centenas de outras, estão a um palmo do seu nariz no Prado. São horas de puro êxtase.

'LAS NIÑAS" DE VELÁSQUEZ











Se a viagem for curta como a minha, arranje ainda um tempo para ir à Catedral de la Almudena, a imensa igreja sede de Madri. E, impreterivelmente, ao Palácio Real. Construído no mesmo sítio onde Maomé I erguera o seu no século IX e dera origem à cidade, o edifício reafirma o caráter monumental da capital espanhola. Tudo é grande, majestoso, imperial.

PALÁCIO REAL DE MADRI
Por fim, coma uns churros con chocolate no San Ginés e ande. Ande sempre. Há vielas, esquinas, feiras populares, como a de El Rastro, cantinhos, portas, janelas, cheiros sons e cores esperando por você. E depois, volte para casa com a sensação que ainda há muito, muito para ver neste destino certo que é Madri.

Oswaldo Pereira
Agosto 2019

sábado, 13 de julho de 2019

DESTINOS CERTOS: SOTAVENTO ALGARVIO



Há algum tempo, num dos muitos momentos em que me senti embalado pelas terras de Portugal, escrevi isto:

“Nove da manhã. O sol explode na porta da pequena pousada e surpreende quem sai da semipenumbra do saguão de entrada.  Além dele, o mar, lá embaixo, verde-azul profundo, abraçado por uma delicada enseada de areias prateadas pelo dia algarvio e levemente ondulado pelo sopro de uma brisa tão benfazeja como o silêncio que abençoa tudo em volta. É manhã de verão nesta vilazinha praieira do sul português e é como se o mundo e o tempo parassem para render seu tributo a este momento de paz maior que os sentidos. É hora de usá-los com sapiência e saborear os cheiros de suave maresia, cheirar as cores que branqueiam as casas e enverdecem a verdura dos campos, degustar com os olhos bem abertos a sensação de primeiro dia do universo e ouvir a quietude reinante.
A escada de pedra vai serpenteando preguiçosa em direção à água, contornando com carinho a aldeia de arquitetura simples e repousada em suas origens árabes. Afinal, o norte africano está logo ali, do lado de lá deste azul real que se estende à frente. Terras mouras, de onde eles vieram para dominar, por séculos, esta península e deixarem, antes de partir, seu indelével traço genético que ainda azeitona a pele dos que aqui vivem, além de sua arte e do vasto repertório de palavras que enriquecem o nosso vocabulário. Como Al-Gharb, estreita faixa de terra entre o mar e a montanha, que ficou para nomear esta província, a mais meridional do Portugal Continental.
É uma terra de histórias, do projeto das descobertas concebido em Sagres, de saudades de um Dom Sebastião que partiu atrás de uma miragem para seu destino em Alcácer-Quivir, dos pedaços de nevoeiro que nunca mais o trouxeram de volta.
E é aqui, nesta costa de casario alvo, manhãs claras, poentes mágicos, degraus rústicos e silêncio dourado, perfumada pelo cheiro salgado do Atlântico, onde mais se sente o esplendor, a eternidade e o feitiço do verão português.” 

Estava eu, então, enfeitiçado pelo dourado verão português, espreguiçado numa manhã de brisa leve, sol quente e mar manso, em mais uma das incontáveis praias do litoral algarvio.

E é para este Algarve que voltei há dias. Fui para a metade leste deste retângulo que vai da ponta de Sagres até o rio Guadiana, que o separa de Espanha, sempre banhado por um Atlântico de águas mornas. É terra de areais infinitos, de braços de mar gerando ilhas brancas e lagoas cristalinas, de mesas fartas de ostras, polvos e vinhos brancos espertos. E de História.

CASTELO DE CASTRO MARIM
Como Castro Marim, vila que foi fenícia, cartaginesa, grega, romana e visigótica. Dominada pelos mouros no século VIII, foi reconquistada pelos portugueses em 1242. E foi para lá que os perseguidos templários vieram de França e foram recebidos por um generoso de D. Dinis, que os acolheu na Ordem dos Cavaleiros de Cristo.


Como Cacela Velha, vila mourisca debruçada sobre a miragem da Ria Formosa. Foi uma das pérolas muçulmanas da época do califado, lar de poetas e cronistas. Hoje, apesar de cristã desde o século XII, ainda canta versos árabes em suas ruas estreitas.

CACELA VELHA

E há Tavira, onde numa praia chamada da Terra Estreita a vista se perde na contemplação da longa língua de areia entre o oceano e as rias. Há também Vila Real de Santo Antônio, desenhada pelo Marques do Pombal, no limite mais oriental da província, como que a mostrar aos espanhóis do outro lado do Guadiana o engenho e a arte dos portugueses.
OLHÃO
Há mais, muito mais. Há Olhão das grandes marés, há Quarteira de dunas infinitas. Muitas cores e muito mar, neste Sotavento Algarvio. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Julho 2019

domingo, 9 de junho de 2019

DESTINOS CERTOS: ESCÓCIA




O sol pouco aparece. E, quando o faz, nos acena de longe. O vento, este está sempre presente, o bastante para revoltar os cabelos e entortar guarda-chuvas mais baratos. E a chuva. No decorrer de uma típica hora primaveril escocesa, os três se vão revezar sucessivamente. Preparados para tudo, é assim que devemos andar pelas charmosas ruas de Edimburgo. A melhor previsão dos humores do tempo termina sempre com a palavra “mixed”. Ou seja, um pouco de tudo.

Mas, esta é a proposta. A capital e o país ficam melhor assim, emoldurados pelas nuvens eternas, molhados pela garoa fina que produz campos de um verde infinito, afagados pela ventania que serpenteia nas passagens estreitas e pelas praças. Assim é a Escócia, uma terra de tradições arraigadas em seus magníficos vales, de gente empedernida e forte como os rochedos de sua costa nortenha, de rebanhos em pastagens de infinita verdura, de uma história povoada de heróis e lendas.

E a história está em todo lugar por onde se ande.

Ocupada pelos romanos no século I, a região entrou na Idade Média povoada pelos celtas, cuja cultura predominou sobre a influência de algumas tribos menores e as sucessivas invasões viquingues. Mas foi a permanente turbulência de seus conflitos com os anglo-saxões ao sul que desenhou a principal característica de sua crônica medieval. Foram várias batalhas, vários confrontos, que eternizaram os nomes de William Wallace, de Robert the Bruce, de Rob Roy. A sua própria independência viu-se, às vezes, posta em causa pela rivalidade dos clãs. E pela disputa enraivecida entre Elizabeth I e Mary Stuart. Finalmente, no início do século XVIII, a Escócia uniu-se à Inglaterra na criação do Reino Unido. E lá está até hoje.

Edimburgo
CASTELO DE EDIMBURGO

Com cerca de 550 mil habitantes e uma área histórica concentrada, Edimbra, como a chamam os da terra, é uma cidade ideal para se andar a pé.  Da Princess Street, onde está o melhor da zona comercial, até a extensa rua chamada Royal Mile, é um pulo. E dali é só subir em direção ao Castelo. Construído em cima de um vulcão extinto chamado Castle Rock (e aí, galera do Game of Thrones, já viram onde George Martin foi buscar inspiração?), é o ícone turístico da cidade. Vale o passeio, a vista e a história encrustada nas pedras negras dos muros e das ameias. Dentro, estão dois museus militares e um memorial, testemunhas do envolvimento escocês nas batalhas travadas pelo Reino Unido. Só nas duas guerras mundiais, foram mortos mais de 180.000 filhos da terra.

Perto fica a impressionante Catedral de Saint Giles. Um pouco mais para leste, o Palácio de Holyrood, onde Mary Stuart viveu o período mais determinante de sua vida. Lá, ela tentou ser rainha. Não conseguiu. E, como ninguém é de ferro, depois de encharcados de história e salpicados pela chuva, nada melhor do que um acolhedor pub e um copo do supremo tesouro nacional. O whisky.

Esta mistura de cevada, água e fermento, processada por destilação, apareceu na Escócia lá pelo final do século XV. Seu primeiro registro é uma encomenda feita a um frei chamado John Cor para fabricar 500 garrafas de uisge beatha, o nome celta para água da vida. De início, só os mosteiros tinham autorização de produzir a bebida para uso medicinal. Entretanto, como o remédio era bom demais, logo um mercado mais imaginativo foi surgindo e os saxões, que não conseguiam falar corretamente uisge beatha (pronuncia-se uishguebau), o simplificaram para seu atual nome. Hoje, existem mais de 90 grandes destilarias na Escócia.  E um mercado planetário.

Highlands
A população da Escócia é de 5,4 milhões de habitantes, fortemente concentrada na parte central do país, no eixo Edimburgo/Glasgow. Isto faz com que nas outras regiões existam grandes espaços verdes. Viaja-se por largo tempo sem se ver uma povoação. Só pastagens. E ovelhas, carneiros e vacas.

Nas Highlands, as Terras Altas, que compõem a parte setentrional do país, não é diferente. Aí também estão os glens, os acentuados vales, desenhados entre picos sempre enevoados, que nos trazem os contos de clãs em eternas disputas territoriais, suas lendas medievais, seus castelos misteriosos, seu vento cortante. Também aí estão os lochs, os lagos de água impenetrável. É quase obrigatório um passeio de barco no Loch Ness e curtir a esperança de ver o mítico monstro emergir da superfície escura.

LOCH NESS

 Scottish Borders
É a região fronteiriça. Com a Inglaterra, claro. E, por isso mesmo, o cenário dos grandes conflitos dos escoceses com seus incômodos vizinhos. Como não há qualquer grande obstáculo natural entre os dois países, os embates eram frequentes, determinados pelo incessante desejo dos saxões em dominar o norte da ilha. No final do século XIII e no início do seguinte, este desejo era personificado pelo rei inglês Eduardo I. Mas, seus sonhos foram contrariados por dois legítimos heróis. William Wallace e Robert the Bruce. Nas batalhas de Sterling Bridge e Banockburn, os escoceses levaram a melhor e reafirmaram sua independência. Os sítios históricos estão abertos à visitação.

Se quisermos visitas mais amenas, há dois edifícios religiosos merecedores de uma vagarosa descoberta. Um, é a Capela de Rosslyn. Fundada em 1446 por Sir William St. Claire e dotada de um minucioso trabalho em pedra em seu interior, cheio de figuras intrigantes e de simbolismo quase esotérico, a capela ficou ainda mais famosa depois que o escritor Dan Brown a incluiu na parte final de seu livro “O Código Da Vinci”.
 
ROSSLYN CHAPEL
Outro, é a Abadia de Melrose, construída no início do século XII pelos monges cistercienses e onde foram enterrados vários reis escoceses. Afirmam que uma caixa contendo o coração de Robert the Bruce está lá. Em algum lugar.

Esta é a Escócia que vi. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Junho 2019

sábado, 20 de outubro de 2018

DESTINOS CERTOS: OS PASSADIÇOS DO PAIVA




Como todo país inteligente, Portugal tem investido pesado em turismo. Aproveitando o declínio e a insegurança de outros destinos turísticos, como Tunísia, Egito e Turquia, por exemplo, antes sonho de consumo dos europeus nórdicos, e marqueteando com extrema habilidade seu clima temperado, a sua prodigiosa História e a excelência de sua infraestrutura hoteleira, Portugal está na moda. Em 2018, a expectativa é de mais de 24 milhões de visitantes.

E basta andar por aqui para constatar esta verdade. Do Terreiro do Paço às praias do Algarve, dos vales do Minho às planuras do Alentejo, turistas de todas as categorias se regalam com intermináveis dias de sol, pratos regionais de revirar os olhos, vinhos soberbos na melhor relação custo/benefício deste lado do Mundo e paisagens ainda pristinas se alongando por entre pedaços de um rico e majestoso passado.

Mercê de um excelente sistema de autoestradas, que fazem ainda menores as distâncias já reduzidas de um país geograficamente pequeno, a descoberta das inúmeras sutilezas de seu território resulta numa tarefa fácil, tranquila e extremamente prazerosa. Ciente disto, o Governo português vem, desde a virada deste século, disponibilizando recursos às administrações municipais, além de crédito e vantagens fiscais a empreendedores privados, para recuperação e manutenção de sítios naturais e históricos de interesse e potencial turísticos. E, acredite, são muitos. Com quase 900 anos de existência, fora seu período pré-independência, que remonta ao tempo dos fenícios, e abençoado com dezenas de regiões de climas diversos, Portugal é sempre uma novidade.

Um exemplo.

A mais ou menos 30 quilômetros da cidade do Porto, existe uma belíssima região em cujo território corre um sinuoso rio, esgueirando-se por entre encostas escarpadas, formando em seu caminho ora furiosas corredeiras, ora remansos de profunda calma. Conhecida como a Garganta do Paiva, é o cenário onde o rio do mesmo nome oferece paisagens deslumbrantes, até há pouco conhecida apenas por tenazes montanhistas e empedernidos aficionados do rafting.
Em junho de 2015, ciente das possibilidades turísticas do lugar, o Governo português fez construir um passadiço, ou seja, um extenso caminho em madeira ao longo da margem esquerda do Paiva.  Margeando o fluxo d’água por mais de 8 quilômetros, iniciando com uma subida de 400 metros e mais de mil degraus, esse passadiço propicia um passeio inesquecível, no qual, a cada curva, o visitante se depara com uma natureza ainda em estado puro, em que cabras montesas equilibram-se nas pedras, árvores fornecem sombras acolhedoras, a vista se perde nos encantos do vale acentuado e um silêncio reverencial parece tudo rodear.

Em junho de 2016, entretanto, um incêndio, insuflado em grande parte pelo denso eucaliptal que cobria as encostas, destruiu 1.200 metros do percurso. Felizmente, em rápida ação, as autoridades portuguesas repararam o dano, reconstruído a parte afetada e cuidando para que árvores autóctones substituíssem os eucaliptos.

E os Passadiços lá estão, novamente em todo o seu esplendor, como pude constatar há dias, numa abençoada manhã de verão tardio.

Oswaldo Pereira
Outubro 2018





segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DESTINOS CERTOS: O FIM DO MUNDO


A 12 quilômetros a oeste da cidade de Ushuaia, o Parque Nacional Tierra del Fuego é um dos lugares mais visitados da região. Dentro de seus 630 km², situa-se uma lindíssima baía, cujo nome, Lapataia, significa “baía do bosque”, no idioma dos índios yáganes. Na realidade, a baía é um fiorde da margem setentrional do Canal Beagle e marca o limite ocidental da fronteira entre a Argentina e o Chile. No caminho que leva às suas águas, num painel em madeira, está escrito o seguinte: “Aqui finaliza la Ruta no. 3 – Alaska 17.848 km.”  Para os caminhantes de todo o mundo, é um lugar de reverência. La Ruta no. 3 é o trecho final da Estrada Panamericana, cujo início fica no extremo norte do Continente. E é aqui que ela termina. No fim do mundo.

Vir para estes confins da Patagônia é uma viagem que atrai cada vez mais os turistas. De barco, como fizemos, ela começou em Santiago, uma capital abençoada pelos vinhos e pela brisa constante do Pacífico. Daí, é sempre para o sul, com as latitudes aumentando e os dias, neste verão meridional, também.

Dizem que descrever a Patagônia é tarefa para uma vida. Eu discordo. A verdade mesmo é que é impossível. O que a gente pode fazer é tirar centenas de fotos, selfies para convencer-nos depois que realmente estivemos lá, e tentar guardar na memória os poentes infinitos, as manhãs primordiais, os horizontes sem fim, as montanhas serenas e as noites estreladas. Em qualquer ordem...
Mas, para não deixar a minha dezena de leitores com uma ponta de frustração, aqui vão algumas breves anotações.

Puerto Montt
SALTOS DO PETROHUE

É a região dos lagos, com uma forte pincelada de arquitetura germânica. Se você estiver distraído, vai pensar que acordou na Baviera. Só que há vulcões por perto. O Osorno pode estar coberto de neve, mesmo no verão, mas não se engane. Sua classificação é ainda de vulcão ativo. E não deixe de ir aos saltos do rio Petrohue, onde o azul das águas e o branco das espumas oferecem um espetáculo deslumbrante de cascatas e corredeiras. Se ainda houver tempo, alugue um barco e dê uma volta pelo Lago Todos los Santos. Seu apelido é Lago Esmeralda. É só olhar para a sua superfície e perceber o porquê.

Punta Arenas
Aqui você chegou a uma página da história. Para aportar em Punta Arenas, é preciso entrar no Estreito de Magalhães. E, enquanto o barco singra placidamente entre as montanhas, sentir a saga do navegador português, indo rumo ao desconhecido e à glória em sua nau quinhentista. Mas, nem só de história vive o homem. É a hora e o lugar para saborear um must culinário destas plagas. Uma centolla, ou, traduzindo, a imensa santola que é um ícone da gastronomia patagônica...
ESTREITO DE MAGALHÃES

Ushuaia
A Terra do Fogo é uma imensa ilha, dividida entre Chile e Argentina. O Canal Beagle, de que falamos acima, banha a parte norte da ilha. Deve seu nome a um navio, famoso por ter transportado até aqui Charles Darwin e sua prodigiosa curiosidade. É uma região lindíssima. E esta, caros amigos, não dá mesmo para descrever. Sorry... Mas, contentem-se com esta foto que tirei, ao mesmo tempo em que saboreava a deliciosa cerveja feita aqui. E que também se chama Beagle...


Cabo Horn
Desde o século XVI até o advento dos grandes oceanliners modernos, a simples menção a este nome era o suficiente para gelar o sangue dos mais intrépidos marinheiros. O mau humor constante do tempo, as traiçoeiras correntes, os ventos assassinos e as rochas submersas fizeram do Horn um cemitério de navios. Cruzá-lo e sobreviver era tão raro que ao pirata que conseguisse passar incólume era concedida a honra de poder usar uma argola de ouro na orelha esquerda. No dia que atravessamos, o mar estava misericordiosamente manso. Mesmo assim, eu quero a minha argola...
CABO HORN












Falklands
Ou Malvinas. A disputa tem origem no século XVI e, até hoje, persiste. Da guerra de 1982 entre a Grã-Bretanha e a Argentina restam memoriais e minas ainda espalhadas em algumas praias. O perigo está mapeado e não atrapalha em nada um lindo dia de verão em Gypsy Cove, onde pinguins desfilam nas areias brancas com a solenidade de lordes ingleses em passeio dominical. Port Stanley, a capital, continua britânica até a medula, com direito a pub e fish & chips...

Puerto Madryn
A cidade é a porta de entrada para a fascinante Península Valdés, paraíso dos guanacos, das ovelhas, de mais pinguins e de leões e elefantes marinhos. Para vê-los, é preciso rodar horas entre estâncias espalhadas num horizonte totalmente plano e de vegetação baixa. É claro que vale a pena. Enseadas recortadas entre o mar cor de anil e rochas fossilizadas abrigam várias populações destes simpáticos animais do mar, cuja aparente ocupação principal é espreguiçar-se ao sol e posar para as nossas fotos.

PINGUINS NA PENÍNSULA VALDÉS



















Dias de 18 horas de luz, pôr do sol no mar, neve nos cumes, vales profundos, planuras até onde a vista alcança, paisagens que parecem recém-nascidas. A Natureza mostrando sua força e sua poesia. Isto é a Patagônia. Um destino certo no fim do mundo.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2018


  





quinta-feira, 14 de setembro de 2017

DESTINOS CERTOS: O RIO DOURO


Ele nasce na Espanha, a dois mil metros de altura, num desvão inclinado, em um dos picos da Sierra de Urbión. Frágil de início, vai ganhando corpo e velocidade, engrossando seu caudal, à medida que serpenteia pela meseta castelhana e pelas províncias de Castela e Leão. Quando atravessa a fronteira e passa a ser português, já é quase um deus fluvial, amplo, forte, majestoso. Muda seu nome.

Em Espanha, chama-se Duero. A palavra vem dos celtas, dur, que significa água. Em Portugal, o Douro suscita outras explicações. Alguns defendem que a denominação vem de dûr, um rio sinuoso, com desníveis e corredeiras traiçoeiras, perigoso e duro de navegar. Outros, que as pedras que resvalavam pelas suas margens eram pepitas de ouro. Rio de Ouro, portanto, uma versão romântica para seu nome.

Com o tempo, o rio foi sendo domesticado. Desde o século XVIII, o Douro recebeu intervenções que o dotaram de barragens e eclusas, regularizando seu curso e abrindo caminho para sua exploração como via comercial de escoamento de seu mais precioso tesouro – o vinho.  

Com as cidades do Porto e de Vila Nova de Gaia como terminal, a produção vinícola da região experimentou um extraordinário crescimento a partir do início dos anos 1800. Gravuras de época são pródigas em representar barcos carregados de tonéis a descer o rio. Dentro deles, o divino néctar das uvas douradas que cresciam em suas margens. Principalmente, com uma versão deliciosa desse líquido, obtida pela fermentação interrompida e pela adição de aguardente, que ganhou os cálices de todo o mundo com o nome de vinho do Porto.

Hoje, uma outra indústria vem aproveitar-se deste rio agora domado, com suas plácidas águas, seus pedaços de História surgindo a cada curva, as montanhas que ladeiam o curso d’água, cobertas, até onde a vista pode alcançar, de vinhas verdes, debruçadas nos socalcos como ondas esmeraldas. O Turismo, que enche o Douro de barcos panorâmicos e de gente ávida por provar o sabor superlativo de seu vinho. No ano passado, foram 800 mil visitantes. Este ano promete mais.



É a magia do Douro Vinhateiro, uma das mais belas regiões deste pequeno paraíso que é Portugal.

Oswaldo Pereira

Setembro 2017