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quinta-feira, 23 de junho de 2022

O RIO DE JANEIRO CONTINUA LINDO...

 


Em agosto de 2017, quase cinco anos atrás, eu escrevi o texto abaixo. Havia estado em Hamburgo, mais uma vez, e, como sempre, visitado um lugar que sempre me fascina.

“Mas, há um em especial que procuro visitar toda vez que vou à Alemanha. Chama-se Miniature Wunderland (A Terra Maravilhosa da Miniatura). Criada pelos irmãos gêmeos Frederik e Gerrit Braun no ano de 2001, essa maravilhosa terra ocupa atualmente quase 1.900 m² em dois andares na Hafen City de Hamburgo. São cenas de incrível detalhe, mostrando paisagens dos Alpes, da Suiça, da Áustria, dos Estados Unidos e da Escandinávia, além da própria Hamburgo, tudo na escala HO, ou seja, 87 vezes menor que o tamanho real.

Em constante crescimento, a Miniature Wunderland vive inaugurando novidades. Há dois anos, foi a réplica do aeroporto da cidade, com todas as instalações de passageiros, terminais, estacionamento, hangares e pistas de pouso e decolagem. E, pasmem, os aviões realmente decolam e pousam. Este ano, a adição foi a Itália, com direito a todos os pontos turísticos de Roma, extensas partes da Riviera italiana e um Vesúvio que entra em erupção.

O complexo todo tem 15.000 metros de linhas férreas, 1.300 trens, 10.000 vagões, 100.000 veículos, 400.000 figuras humanas e 500.000 luzes. E pretende continuar crescendo até 2020.

Vale a viagem...”

Estive aí, novamente, na semana passada. Desta vez, a novidade é o Rio de Janeiro. E lá está ela, a minha cidade, mostrada aos milhares de pessoas que afluem diariamente à exposição. Com todas as suas facetas e charmes, seus deslumbramentos e seus problemas, sua beleza visceral de metrópole tropical.

Logo de cara, Corcovado e Pão de Açúcar, seus dois cartões de visita e em rigorosa escala, debruçam-se sobre a baía da Guanabara, povoada de barcos, e dirigem os visitantes para a praia de Copacabana, com centenas de mini banhistas nas areias, quiosques, carros, barracas, o desenho ondulado da calçada, a orla de edifícios, terminando na avenida Princesa Isabel. Depois vem o centro da cidade, com a Catedral e o prédio da Petrobrás. No Sambódromo, uma escola de samba, ao comando de alguns botões colocados nas laterais das maquetas, inicia seu desfile com uma animada bateria marcado o ritmo para o casal de mestre-sala e porta bandeira.

A seguir, estão os morros, as favelas e os bairros da periferia. E todo o drama do cotidiano das comunidades. Como a área é imensa, o encantamento é ir descobrindo os pequenos detalhes das cenas montadas, as poses e os dioramas das centenas e centenas de miniaturas humanas, é espreitar por janelas e terraços das pequenas construções, pelas arquibancadas da Marquês de Sapucaí, examinar os liliputianos habitantes dessa formidável Cidade Maravilhosa em escala.

E, para um carioca como eu, sentir uma ponta de orgulho ao ver a excitação, a alegria e o deslumbramento dos turistas que se acotovelam para ver um Rio de brinquedo e, talvez, imaginarem lá  estar.

Aglumas fotos














Oswaldo Pereira

Junho 2022

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

ANOTAÇÕES DO JAPÃO




A Idade Média, no Japão, terminou em meados do século XIX. Antes disso, o país vivera 200 anos sob o mando dos shoguns, fechado para o mundo, preservando sua cultura e o código de honra dos samurais. Mais para trás, os primeiros ocidentais a aparecer haviam sido os portugueses, à espera de incluir aquelas ilhas de pescadores em sua rota de comércio. Ao tentarem implantar a cruz do cristianismo num povo profundamente enraizado nos princípios de suas crenças ancestrais, os portugueses cometeram um erro. Foram rechaçados. A experiência gerou o isolacionismo. Só em 1866, quando o Imperador Meiji iniciou sua reforma, abolindo o shogunato e o regime feudal, o Japão abriu-se para o mundo. E isto explica muita coisa.

A primeira grande percepção de quem chega é cultural. É um Oriente quase paradoxal, em que hábitos ocidentais estão apenas na superfície, nos ternos escuros dos executivos, nos vestidos de grife das mulheres, na profusão intoxicante de celulares e grande magazines de eletrônica, nos imensos edifícios empresariais feericamente iluminados, nos trens a 300 quilômetros por hora.

Debaixo desta pátina de modernidade está um Japão austero, hierárquico, ritualístico e religioso. É o Japão de uma paisagem repetida de casas cinzentas, de templos e santuários em permanentes celebrações silenciosas, de relacionamentos secos e sem efusão, de uma dedicação quase visceral à limpeza, à ordem e ao respeito. A família está na base de uma sociedade altamente competitiva, onde a formação e a disponibilidade para trabalhar acima e além do razoável são indispensáveis. O bushido, o código de honra dos samurais, ainda está muito presente na alma japonesa. A autodisciplina e a exigência pessoal de cumprir à risca os propósitos de sucesso na escola, no trabalho e na vida familiar geram uma pressão às vezes insuportável. São 30.000 suicídios por ano.

TÓQUIO (GINZA) À NOITE

Para quem vem passear, entretanto, é uma viagem, no sentido mais delicioso da palavra. Uma experiência que toca com nitidez e força os sentidos. Os intrigantes sabores dos sashimis, do sakê e dos doces de chá verde, o som reverencial de um gongo num templo budista, a energia de uma manhã  fria e sem nuvens no sopé do Monte Fuji, a deslumbrante profusão outonal de incríveis matizes nas folhas dos plátanos nos Alpes Japoneses, a poderosa mensagem de Paz nos jardins de Hiroshima, a majestade  do grande Tori vermelho flutuando na preamar da ilha de Myiagima, o Grande Buda de Nara, as geikos do bairro Gion em Quioto, o formigueiro humano no cruzamento de Shibuyia e as luzes de Ginza em Tóquio ficarão para sempre na minha memória.
ILHA DE MYIAGIMA

MONTE FUJI, COMO EU O VI...

Um enigma e um sonho. Assim é o Japão.

Oswaldo Pereira
Novembro 2018

sábado, 20 de outubro de 2018

DESTINOS CERTOS: OS PASSADIÇOS DO PAIVA




Como todo país inteligente, Portugal tem investido pesado em turismo. Aproveitando o declínio e a insegurança de outros destinos turísticos, como Tunísia, Egito e Turquia, por exemplo, antes sonho de consumo dos europeus nórdicos, e marqueteando com extrema habilidade seu clima temperado, a sua prodigiosa História e a excelência de sua infraestrutura hoteleira, Portugal está na moda. Em 2018, a expectativa é de mais de 24 milhões de visitantes.

E basta andar por aqui para constatar esta verdade. Do Terreiro do Paço às praias do Algarve, dos vales do Minho às planuras do Alentejo, turistas de todas as categorias se regalam com intermináveis dias de sol, pratos regionais de revirar os olhos, vinhos soberbos na melhor relação custo/benefício deste lado do Mundo e paisagens ainda pristinas se alongando por entre pedaços de um rico e majestoso passado.

Mercê de um excelente sistema de autoestradas, que fazem ainda menores as distâncias já reduzidas de um país geograficamente pequeno, a descoberta das inúmeras sutilezas de seu território resulta numa tarefa fácil, tranquila e extremamente prazerosa. Ciente disto, o Governo português vem, desde a virada deste século, disponibilizando recursos às administrações municipais, além de crédito e vantagens fiscais a empreendedores privados, para recuperação e manutenção de sítios naturais e históricos de interesse e potencial turísticos. E, acredite, são muitos. Com quase 900 anos de existência, fora seu período pré-independência, que remonta ao tempo dos fenícios, e abençoado com dezenas de regiões de climas diversos, Portugal é sempre uma novidade.

Um exemplo.

A mais ou menos 30 quilômetros da cidade do Porto, existe uma belíssima região em cujo território corre um sinuoso rio, esgueirando-se por entre encostas escarpadas, formando em seu caminho ora furiosas corredeiras, ora remansos de profunda calma. Conhecida como a Garganta do Paiva, é o cenário onde o rio do mesmo nome oferece paisagens deslumbrantes, até há pouco conhecida apenas por tenazes montanhistas e empedernidos aficionados do rafting.
Em junho de 2015, ciente das possibilidades turísticas do lugar, o Governo português fez construir um passadiço, ou seja, um extenso caminho em madeira ao longo da margem esquerda do Paiva.  Margeando o fluxo d’água por mais de 8 quilômetros, iniciando com uma subida de 400 metros e mais de mil degraus, esse passadiço propicia um passeio inesquecível, no qual, a cada curva, o visitante se depara com uma natureza ainda em estado puro, em que cabras montesas equilibram-se nas pedras, árvores fornecem sombras acolhedoras, a vista se perde nos encantos do vale acentuado e um silêncio reverencial parece tudo rodear.

Em junho de 2016, entretanto, um incêndio, insuflado em grande parte pelo denso eucaliptal que cobria as encostas, destruiu 1.200 metros do percurso. Felizmente, em rápida ação, as autoridades portuguesas repararam o dano, reconstruído a parte afetada e cuidando para que árvores autóctones substituíssem os eucaliptos.

E os Passadiços lá estão, novamente em todo o seu esplendor, como pude constatar há dias, numa abençoada manhã de verão tardio.

Oswaldo Pereira
Outubro 2018





sexta-feira, 18 de agosto de 2017

TURISMO


Grupos. Séquitos. Hordas.

Rios. Torrentes. Tsunamis.

É a maré dos turistas. E as cidades-alvo veem suas ruas, suas praias, seus monumentos, seus bares, seus restaurantes e seu dia-a-dia afogados em ondas e mais ondas de gente ávida por selfies, comida típica e diversão barata. Não necessariamente nesta ordem.

Com o esfacelamento do turismo exótico em terras africanas e nos mistérios orientais, engolfados em rebeliões internas, guerras cruéis e desassossego político, os europeus sedentos de sol voltaram-se este ano para endereços dentro de seu próprio continente, especialmente os que prometiam céu azul, areia banca, águas mornas e suaves brisas vespertinas.

Assim, já que Grécia e Italia penam os dissabores de ver barcos e mais barcos de refugiados aportarem às suas costas, veranistas de todo os nortes concentraram sua mira, e seu sonho de um verão dos deuses, nas Ilhas Baleares, no sul e no leste espanhóis, nas Canárias. E em Portugal.

Na Espanha, a coisa já está ultrapassando os limites. Não há mais quartos livres na hotelaria de Barcelona e em Palma de Maiorca esgotaram-se os centímetros de areia para estender a toalha de praia. Em Tenerife e Lanzarote o sol já não chega para todos e muito menos tapas para matar a fome no final do dia. Em alguns lugares, há locais se rebelando contra a invasão às vezes predatória e que contabiliza mais prejuízos do que ganhos. Tem havido demonstrações de turistofobia em vários lugares.

Por aqui, ainda não chegamos a isto, mas é visível o significativo aumento na revoada estival deste ano nas ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra. O Algarve, preferido por dez entre dez beach lovers, e agraciado recentemente pela indústria de viagens com o apelido de A Califórnia Europeia, regurgita gente por todos os lados. Estima-se que 35 milhões de turistas deverão visitar Portugal em 2017. Contratempos à parte, é um grande sucesso financeiro e de prestígio internacional.

E eu fico pensando no Brasil. Seria a nossa hora. 2017. Um ano depois dos Jogos do Rio. Uma dádiva da natureza envolvida em sol, céu, mares e florestas. Uma linha de praias brancas com dezenas de quilômetros, recôncavos de baías virgens e colinas verdes, montanhas míticas. E penso nas oportunidades perdidas, no sonho de um Rio olímpico que se desfaz lentamente no pântano do descaso, da incompetência e da corrupção. No fosso intransponível criado pela insegurança, pela falta de vontade política para resolver o problema, pelos projetos corroídos pela ferrugem dos desmandos, estruturas carcomidas pela estupidez e pela irresponsabilidade.

Mais uma que perdemos...

Oswaldo Pereira
Agosto 2017


domingo, 6 de agosto de 2017

MINIATURE WUNDERLAND



Mundos em miniatura têm sido uma atração irresistível para muita gente. Desde os antigos egípcios, como vários museus exibem em cenas fabricadas há mais de 3.000 anos, mostrando barcos cerimoniais, soldados em marcha, sacerdotes em procissão, construídos em tamanho muito menor que a realidade.

Um dos mais conhecidos exemplos desta arte são os presépios. Símbolos religiosos da Natividade, sua presença é quase universal, espalhados por todos os recantos onde se professa a fé católica. Há-os de todos os tamanhos, feitios e preciosidade.

Reproduzir em escala a vida real é um trabalho minucioso, que requer observação, imaginação, atenção suprema ao detalhe. E muita paciência. Mas, o impacto visual de se deparar com paisagens e cenários condensados em universos reduzidos agrada a maioria das pessoas, de repente promovidas à categoria de gigantes, e todo o investimento pode-se transformar num sucesso financeiro e num ponto turístico famoso e procurado.

Atualmente, há em todo o mundo vários desses empreendimentos, alguns internacionalmente aclamados. A maioria deles está equipada com centrais de controle que fazem trens trafegarem, barcos navegarem, veículos se deslocarem, luzes acenderem-se e até pessoas caminharem. Um universo vivo e em movimento.

O Miniature World, em Victoria, no Canadá, o Gulliver Gate de Nova Iorque, o parque de Madurodam na Holanda e até o Mini Mundo, na brasileira Gramado, entre muitos outros, são exemplos da perfeição com que os miniaturistas replicam o cotidiano do nosso planeta.

Mas, há um em especial que procuro visitar toda vez que vou à Alemanha. Chama-se Miniature Wunderland (A Terra Maravilhosa da Miniatura). Criada pelos irmãos gêmeos Frederik e Gerrit Braun no ano de 2001, essa maravilhosa terra ocupa atualmente quase 1.900 m² em dois andares na Hafen City de Hamburgo. São cenas de incrível detalhe, mostrando paisagens dos Alpes, da Suíça, da Áustria, dos Estados Unidos e da Escandinávia, além da própria Hamburgo, tudo na escala HO, ou seja, 87 vezes menor que o tamanho real.

Em constante crescimento, a Miniature Wunderland vive inaugurando novidades. Há dois anos, foi a réplica do aeroporto da cidade, com todas as instalações de passageiros, terminais, estacionamento, hangares e pistas de pouso e decolagem. E, pasmem, os aviões realmente decolam e pousam. Este ano, a adição foi a Itália, com direito a todos os pontos turísticos de Roma, extensas partes da Riviera italiana e um Vesúvio que entra em erupção.

O complexo todo tem 15.000 metros de linhas férreas, 1.300 trens, 10.000 vagões, 100.000 veículos, 400.000 figuras humanas e 500.000 luzes. E pretende continuar crescendo até 2020.

Vale a viagem...





















































Oswaldo Pereira

Agosto 2017

sábado, 29 de julho de 2017

POTSDAM


Fica perto de Berlim. E, depois de se deliciar com os encantos dessa fantástica capital, vale a pena programar uma ida até lá. Estou falando de Potsdam.

Para quem se interessa pelo passado recente, o nome evoca uma histórica Conferência de Paz. Entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, os três grandes vencedores da Segunda Guerra Mundial reuniram-se no Palácio Cecilienhof, uma elaborada construção erigida entre 1914 e 1917 pelo Imperador Guilherme II para seu filho. As reuniões decidiram o futuro do mundo no pós-guerra e, segundo vários analistas, semearam as sementes da divisão que iria, logo a seguir, empurrar o planeta para a Guerra Fria.

CONFERÊNCIA DE PAZ - 1945

Muitos creditam à ausência de dois dos líderes que haviam derrotado os nazistas (Churchill, que já estava em Potsdam quando recebeu a notícia de que não havia sido reeleito para o cargo de Primeiro Ministro, e Roosevelt, falecido em abril), os ganhos obtidos pelos soviéticos nas negociações. Clement Atlee, pelos britânicos, e Harry Truman, pelos americanos, estavam “verdes” demais para enfrentar Josef Stalin.

Outro acontecimento importante foi a ordem, emitida por Truman enquanto se encontrava em Potsdam, para o lançamento das duas bombas atômicas contra o Japão, encerrando o último capítulo da Segunda Guerra.

Dividida a Alemanha, Potsdam ficou no Leste, mas encostada no muro. Lá ainda assombram os edifícios das instalações da sinistra KGB e a Glienicke Brücke, mais conhecida como a “Ponte dos Espiões”, cenário de tensas trocas entre os dois lados.

Mas, se nos encaminharmos para traz no tempo, vamos encontrar uma emblemática figura, a quem a cidade deve inteiramente o seu charme cosmopolita, sua elegância leve e imponente ao mesmo tempo, seu rococó iluminado.

FREDERICO II, O GRANDE

Trata-se de Frederico II, rei da Prússia entre 1740 e 1786. Exemplo mais que perfeito do absolutismo esclarecido, Frederico o Grande foi um homem ambivalente. Músico, poeta e filósofo de um lado, era a antítese de seu pai, o austero Frederico Guilherme, o Rei-Soldado. Na sua outra vertente, foi um dos mais extraordinários comandantes militares de todos os tempos, capaz de liderar e vencer campanhas contra inimigos vastamente superiores em números. Brilhante estrategista, consolidou e aumentou o tamanho da sua Prússia. Simultaneamente, era amigo de Voltaire e exímio flautista. Esta dupla personalidade revela-se de maneira inequívoca em duas magníficas obras de arquitetura que mandou construir.

Uma é o Palácio Sanssousci. Sem problemas. O nome diz tudo. Era aí, numa delicada sequência de salões e quartos, flanqueada por alegorias gregas e tendo à frente um magnífico jardim de vários níveis e inúmeras fontes, que o rei se reunia com sua entourage para se dedicar a intermináveis horas de lazer. Mulheres estavam na categoria de problemas e não eram convidadas. E a homossexualidade de Frederico não é segredo para ninguém.

PALÁCIO SANSSOUCI

Outra é o Neues Palais, o Palácio Novo. Símbolo de poder e de riqueza, foi construído após a vitória prussiana da Guerra dos Sete Anos, justamente num momento em que os cofres do reino estavam vazios. A intenção era mostrar que o país mantinha-se forte, invencível.

NEUES PALAIS
Antes de morrer, Frederico determinou que queria ser enterrado à noite num túmulo singelo num dos lados de Sanssouci. Seu sobrinho e sucessor, Frederico Guilherme II, não atendeu seu desejo. Só duzentos e cinco anos depois, em 1943, seus restos finalmente repousaram onde ele queria.

É uma lápide simples, na ponta de uma pequena galeria de esculturas neorromanas. Ao lado, doze campas menores marcam o lugar onde estão enterrados seus amados cães.

O nome do rei está quase apagado. Em cima da pedra, não há rosas. Há... batatas. Foi Frederico que, vencendo muita resistência, introduziu o plantio do tubérculo na Prússia. Salvou o país da fome. 

Assim como entrelaçou seu nome na alma de seu povo e na aura suave e eterna de Potsdam.

Oswaldo Pereira

Julho 2017  

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ALJUBARROTA



Que os portugueses respeitam o seu passado e procuram preservá-lo com cuidado e carinho, já todo mundo sabe. Neste modesto blog eu já me referi diversas vezes a isto.

No último domingo, eu tive mais uma agradável prova deste invejável sentido de preservação da História.

Muitas pessoas já visitaram o Mosteiro da Batalha. Situado relativamente perto do Santuário de Fátima, outra conta preciosa do rosário de lugares de importância cultural, de que Portugal é pródigo, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, nome de batismo da magnífica construção em estilo manuelino, foi mandado erigir por D. João I em agradecimento aos céus pelo sucesso de suas tropas na batalha de Aljubarrota.

O que pouca gente já foi visitar é o local onde os combates realmente ocorreram. Fica a uns três quilômetros do Mosteiro e hoje abriga um Centro de Interpretação, magnífico trabalho de reconstituição de um evento determinante da civilização ocidental. A visita, que pode ser feita em não mais que duas horas, inclui a apresentação de um detalhado vídeo sobre os acontecimentos que desaguaram no confronto e, mercê de um excelente trabalho de computação gráfica, a recriação de todo combate.

Aljubarrota foi uma esquina do destino. E também foi, mais que tudo, a extraordinária vitória de uma estratégia inteligente sobre a força bruta. Possuído pela atávica ambição dos espanhóis de dominar toda a península, D. Juan I de Castela, que um ano antes quase conquistara Lisboa, ataca novamente em 1385.  Na tentativa anterior, quando conseguira sitiar a capital por quatro meses, fora derrotado por um surto incontrolável da Peste Negra e, deixando as fogueiras crematórias para trás, retirara-se.

Seu exército agora é maior e mais poderoso. A ordem é deslocar-se rapidamente e atingir de novo a capital. Do lado português, o Mestre de Avis, aclamado como D. João I meses antes, após uma conturbada disputa pelo trono, sabe que a cidade não conseguirá sobreviver a outro cerco. Tem de confrontar o inimigo antes que ele chegue ao litoral. Mas, onde? E como? As forças são cruelmente desproporcionais. D. Juan traz 40.000 homens, os melhores de seu reino, soldados profissionais e cavaleiros bem treinados. O máximo com que Portugal pode contar é com 10 mil, dos quais cerca de 4.000 camponeses, que nunca viram uma luta e portam apenas foices, pás e enxadas como armas.

Aí entra em cena o talento. Chamado pelo rei português a comandar suas inferiorizadas tropas, D. Nuno Álvares Pereira sabe que tem pelo menos uma vantagem. Escolher onde. Quem visita o local descobre logo a esperteza de D. Nuno. Aljubarrota é uma colina estreita, com acentuados desfiladeiros dos lados. É ali que ele desafia o inimigo, forçando-o a atacar. Para dar-lhe combate, as linhas da vanguarda castelhana têm de afunilar-se. E perdem a vantagem dos números. Caindo em pequenas covas dissimuladas, cavadas na véspera pelos portugueses, os cavalos espanhóis derrubam seus cavaleiros, agora à mercê dos arqueiros e besteiros de D. João. A batalha, que começara sob um sol inclemente de agosto, termina antes da noite. O que resta das forças castelhanas é dizimado pela população das redondezas.

Este é o drama que, com riqueza de detalhes e profusão de pormenores, o guia que nos leva a andar pelo terreno da batalha, nos conta. Em diversos pontos, cenas do acontecido, colocadas em lunetas cuidadosamente localizadas, nos dão uma viva perspectiva do confronto. Uma bela e inesquecível aula de história sobre um dia decisivo. Tivesse D. Juan de Castela vencido, o capítulo seguinte da Humanidade, as Descobertas, teria sido uma aventura exclusiva da Espanha.

E nós brasileiros estaríamos hoje a hablar español...

Oswaldo Pereira
Novembro 2016










terça-feira, 11 de outubro de 2016

RUSSIA III



O RIO E A FÉ
O Canal abre-se para encontrar o Volga. Moscou ficou para trás, com seus milhões de habitantes, seus surpreendentes parques verdes e floridos, as estátuas vivas, os quiosques e os antiquários da rua Arbat, os muros do Kremlin, a arquitetura psicodélica da São Basílio. Uma cidade nascida para comandar um império e um regime, derrotar inimigos, impor sua vontade. Austeros edifícios em sua glória art-deco convivem com amenas praças cheias de flores, bancos e namorados. Avenidas monumentais servem de vitrine a uma frota automóvel das melhores marcas. Outras ladeiam-se de prédios cinzentos da era Kruschev. Luxo, jardins, presente e passado. E as doces lembranças de um passeio pelos jardins Alexandrevsky, do lago dos cisnes refletindo o convento de Novodévichi numa noite calma, do domo dourado do Templo de Cristo Salvador. Moscou é tudo isto. E muito mais.

Agora é uma Rússia mais profunda que surge nas margens. O Andrei Rublev desliza na superfície serena do rio, em seu destino ao Golfo da Finlândia. Só em tempos recentes isto tornou-se possível, depois da construção das comportas. São mais de 20, permitindo a ligação dos rios Volga, Scheskana, Kovzha, Svir e Neva e dos lagos Rybinsk, Onega e Ladoga, compensando diferenças de nível de mais de cem metros. Ao longo de um trajeto que leva uma semana, nomes estranhamente poéticos como Uglich, Yaroslav, Goritsy, Vytegra e Mandrogui vão nos acolhendo em sua simplicidade interiorana, seu silêncio reverente, seus memoriais de guerras cruéis, suas igrejas deslumbrantes. Ícones às centenas. Cânticos magníficos.

YAROSLAV












E este é um milagre à parte. Mesmo depois de setenta anos do predomínio político de uma doutrina que professava o materialismo como base e detinha um poder absoluto sobre a vida e as vontades, o Catolicismo Ortodoxo sobreviveu. Os templos são incontáveis, cada um com a riqueza de suas imagens, de seus altares, com a profunda devoção de seus rituais, com o fervor de seu povo.  Quase inacreditável.

IGREJA ORTODOXA RUSSA

A CEREJA DO BOLO
São Petersburgo. O nome de batismo, abençoado por Pedro, o Grande, voltou. Petrograd e Leningrad foram apenas tentativas, coisas de um passado turbulento e de conflitos devastadores. Agora, reina a paz. Quase nada do pesadelo dos bombardeios, do terrível cerco que durou três anos, da fome e do desespero permanece. Apenas fotos. A cidade reconstruiu-se, recuperou-se, renasceu.

Невский Проспект. Então, já conseguiram ler? Nevskii Prospekt. Avenida Nevsky. É a artéria principal, centro de comércio e referência imprescindível para quem quer andar por São Petersburgo. O nome vem do rio que divide a cidade, o Neva, cujas pontes levaram alguns a chamá-la de a Veneza do Norte. Tolice. Veneza é Veneza. Peter (como a chamam na intimidade) é Peter.  

São 600 quilômetros quadrados, 42 ilhas, 70 canais e 300 pontes. Geografia. Cultura? 200 palácios e monumentos, 50 museus, 20 teatros e, pasmem, 4.500 livrarias. Evidentemente, não dá para saborear tudo num exíguo período de quatro dias. Mas, se você quer um roteiro essencial, aí vai.

Museu do Hermitage. O óbvio. Não o visitar seria como ir a Roma sem ver o Papa, o Coliseu e a Fontana di Trevi. Reserve no mínimo uma tarde longa, uma câmera digital e bons sapatos. Procure não ir em julho ou agosto, senão tudo o que verá serão chineses. Aos milhares.

SALÃO DE ENTRADA DO HERMITAGE
Catedral de São Isaac. O esplendor. É o maior domo dourado do mundo e uma extraordinária coleção de mosaicos. Há vários altares, capelas e abóbadas sublimes. Se tiver a sorte de presenciar um serviço religioso, deixe-se ficar e enleve-se com o som dos cânticos.

Espetáculos de ballet, ou de danças e canções russas. A música. A cidade fervilha de espetáculos. Não é difícil reservar um bilhete. A maioria das companhias tem excelente dançarinos e cantores, guarda-roupas impecável e boas orquestras. Não é nenhum Bolshoi mas, na falta de...

Templo da Ressureição de Cristo. A semelhança. À primeira vista, parece a São Basílio. Mas, foi construída 300 anos depois e seu arquiteto não deve ter comido o mesmo cogumelo lisérgico do criador da catedral moscovita. Assim, a igreja de São Petersburgo consegue ser um pouco mais sóbria. Mas seu interior é um lindo concerto de abóbadas, colunas e dosséis.

Peterhof. O deslumbramento. Só a visão dos jardins, simétricos ao infinito, já dá uma ideia da grandeza do palácio. Dentro, a visão se afoga numa overdose do Barroco. É o estilo levado ao pleonasmo dos azuis e dourados, volteios intrincados, paredes, tetos e espelhos ampliando a sensação de uma sinfonia em moto contínuo que ecoa em dezenas e dezenas de salas e salões. Pedro I, quando idealizou o palácio no século XVIII, o chamou de Monplaisir (meu prazer). É, portanto, uma vocação de deslumbrar, que você confirma quando desce a escadaria da Grande Cascata e tenta contar as 64 fontes que jorram sua água cristalina para um céu de verão tardio.

Tsarkoe Selo (Aldeia Real). A majestade. O palácio preferido de Catarina II supera qualquer expectativa. Descrevê-lo? Bem, se eu tivesse mais umas cem páginas... Arriscando tudo numa frase, é um turbilhão calmo de exageros bem temperados de bom gosto e riqueza, um bem-aventurado equilíbrio de elegância e ousadia, inesperado e clássico, suntuosidade e leveza.

TSARKOE SELO
Ao fim, fica o espanto de saber que ambos os palácios, tanto Peterhof quanto Tsarkoe Selo, foram praticamente destruídos na Segunda Grande Guerra. Bombardeados, saqueados e dinamitados, tiveram 90% de seu estado original obliterados. O que hoje se vê, é um esforço de reconstrução sem paralelo. Um ponto para os governos russos, soviéticos e posteriores, que empreenderam a missão de devolver aos olhos do mundo estas fantásticas maravilhas.

Museu Fabergé. A delicadeza. O joalheiro Carl Fabergé é mais conhecido pelos seus ovos (sem risinhos, por favor...) Preferido por dez entre dez membros da realeza russa, o tzar Nicolau II em particular, Fabergé fabricou 50 desses mimos e os presenteou ao trono. Aqui, no museu que leva seu nome, há sete. Oito estão na Armaria, em Moscou. Os demais, nas mãos de privilegiadas coleções particulares. Mas, a obra deste extraordinário designer e fabricante de joias é extensa e belíssima. Vale a pena ir conferir.



No mais, ande pela cidade. Pela beira do rio, pelas praças. Compre alguma coisa nas diversas lojinhas, ande de barco pelos canais, caminhe pela Nevsky ao cair da tarde, faça um picnic na Praça das Artes.  Se for mais longe, vá de metrô. Só mais um conselho. Não pegue um taxi na rua. As experiências nunca são boas. Peça a um restaurante ou a um hotel para chamá-los.

Esta foi a Rússia que vi. Mil e oitocentos quilômetros de viagem. Um pequenino pedaço desse país gigantesco.


Oswaldo Pereira
Outubro 2016


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

RUSSIA II


APRENDENDO A LER
РЕСТОРАН. ВИНО. ВОДКА.
РАДИО. СТОП.
ВОЛГА. МОСКВА. РОССИЯ.

E agora?
Inventadas por Cirilo e Metódio, dois irmãos nascidos em Tessalônica no século IX, estas letrinhas são o primeiro impacto visual para quem sai do Aeroporto Internacional de Domodedovo, em Moscou. Teólogos e missionários, estes dois monges iriam usar o alfabeto criado por eles na conversão dos povos eslavos que habitavam o imenso território russo. Inicialmente confusos e desorientados, nos perguntamos: por que diabos fizeram isto?

Está tudo escrito em cirílico. Placas de trânsito, neons coloridos, nomes de ruas, outdoors, reclames nas janelas dos ônibus, menus... O jeito é tentar pelo menos decifrar a correspondência destes caracteres de desenho elegante com nossas letras latinas. E, acreditem, é um estimulante exercício. Até porque, assim que a névoa da ignorância vai-se dissipando e, lentamente, as palavras se encaixam nos nossos neurônios, vamos descobrindo, deliciados, que cerca de trinta por cento do que lemos repousam suas raízes em solo comum. Querem ver?  

Se você aprender que o Р tem som de R, o С de S, e o Н de N, você vai saber onde matar sua fome ao ler a primeira palavra deste post. РЕСТОРАН = RESTORAN. Mais? Com В igual ao nosso V e este invertido И com o som de I, leia segunda. Vino. Que tal, já vai também matar sua sede. Algo mais forte? Com os conhecimentos adquiridos acima e descobrindo que Д é apenas um D com perninhas, a antes impenetrável ВОДКА vai aquecer-nos internamente.

Mais um pouquinho e já poderá ler o resto. Uma tabelinha. П=P. Л=L. Г=G. Я=Iá. Pronto. De repente, é como se saíssemos das trevas do analfabetismo para a luz da sabedoria. É claro que meramente transpondo as palavras para o nosso alfabeto não nos vai fazer entender tudo. O russo é um idioma complexo, com extenso vocabulário e várias declinações. Mas, ajuda. E muito.

UMA NOITE NO METRÔ

MAPA DO METRÔ DE MOSCOU

A maioria das grandes capitais europeias já possuía seus sistemas de transporte subterrâneo quando, em 1935, Moscou resolveu construir o seu. Era um projeto de afirmação nacional, desenhado para ser o maior, mais extenso e mais luxuoso do mundo. Stalin não fazia por menos.
ESTAÇÃO KOMSOMOLSKAYA
 Hoje é apenas o quinto do mundo em tamanho. Mas suas proporções são gigantescas. Treze linhas, 203 estações, 340 quilômetros de extensão e 9 milhões de passageiros por dia. E ninguém o supera em profundidade (quase 100 metros abaixo da superfície em alguns trechos) e em beleza. Algumas estações são verdadeiras catedrais, decoradas com esculturas, pinturas, arcos de clássica imponência, pisos e paredes de mármores multicoloridos, lustres cintilantes, mosaicos intrincados. 

ESTAÇÃO KIEVSKAYA
Fomos vê-lo à noite, fora das horas de pico. МАЯКОВСКАЯ. O nome em cima do portão de acesso não nos mete mais medo. É a entrada de uma das mais lindas estações de Moscou, Mayakovskaya. Fica debaixo da praça de mesmo nome e pertence à Linha Verde, talvez a mais movimentada do sistema. Partindo dela, vamos saltando em várias outras, baldeando entre as linhas, tirando fotos e mais fotos, caminhando pelas amplas plataformas, subindo e descendo escadas rolantes, nas profundezas da terra.

ESTAÇÃO MAYAKOVSKAYA

A profundidade mostrou-se providencial durante os bombardeios da Segunda Grande Guerra, oferecendo um abrigo seguro para a população. Entre 1941 e 1945, a ida para as estações durante os ataques aéreos tornou-se rotina. No período, 300 crianças nasceram entre as imponentes colunas do metrô moscovita.

UMA PRAÇA BONITA
A palavra красная (krasnaya), em russo, tem dois significados. Quer dizer vermelha. Mas também quer dizer bonita. Nada mais apropriado do que assim batizar a imensa praça que se espraia ao longo da fachada leste do Kremlin, entre a Catedral do Manto da Virgem (mais conhecida como Catedral de São Basílio, o Beato) e o edifício encarnado do Museu Histórico. Quem, como eu, que passou a vida assistindo a velhos documentários dos grandiosos desfiles militares soviéticos, com seus tanques, canhões, soldados em cadência marcial na sua ordem unida impecável, à sombra dos senhores do poder, encarapitados solenemente nos palanques sobre o portão principal do Kremlin, não pode ficar imune. Você está ali!

PRAÇA VERMELHA
LOJAS DO COMÉRCIO SUPERIOR
Mas, do outro lado da praça, o passado é engolido pelo presente. Num gracioso prédio de 5 andares, em rico estilo art-nouveau, estão as galerias das Lojas do Comércio Superior com tudo o que há de mais sofisticado em termos griffes ocidentais, ícones do capitalismo internacional. 



O que pensaria o avô Lênin?...
(continua)


Oswaldo Pereira
Outubro 2016