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sexta-feira, 4 de novembro de 2022

VIOLETA

 


Nascemos com certas cartas, e com elas jogamos nosso jogo; alguns recebem cartas ruins e perdem tudo, mas outros jogam magistralmente com essas mesmas cartas e triunfam. O baralho define quem somos: idade, gênero, raça, família, nacionalidade, etc., e não podemos mudar essas coisas, só podemos usá-las o melhor possível. Nesse jogo há obstáculos e oportunidades, estratégias e ciladas.

Esta é uma das inspiradoras imagens criadas por Isabel Allende em seu mais recente livro Violeta. São muitas, e elas constroem um rico mosaico de sensações, descobertas, desafios e confissões que preenchem os 100 anos de vida de uma mulher. A personagem central é fictícia, mas o cenário de fundo conta a história do Chile no período entre 1920 e 2020.

A vida de Violeta vai de uma pandemia, a gripe espanhola, a outra, o COVID. Nesse intervalo, o país passa por uma larga transformação, atravessando tragédias naturais, movimentações sociais e sobressaltos políticos que interferem e moldam a trajetória de uma pessoa sempre atenta ao que se passa, enquanto constrói sua família, enfrenta seus conflitos e vive suas paixões.

Sempre centrada no cotidiano de Violeta (o livro é escrito na primeira pessoa, como se fosse um legado escrito da personagem principal), a narrativa é intimista e parte de dentro para fora, o que a torna reveladora e cativante. Igualmente instigantes e magistralmente construídos são os outros atores desse belo drama, homens e mulheres que acompanham (e às vezes traçam) o caminho centenário de Violeta.

A autora, filha de um primo de Salvador Allende, presidente do Chile entre 1970 e 1973, é uma das mais reverenciadas escritoras latino-americanas. A Casa dos Espíritos, seu primeiro romance, foi um grande sucesso literário. Seguiram-se mais de 20 livros, muitos dedicados ao período da deposição de Allende e da ditadura militar que depois se instalou. Violeta mantém a qualidade das obras anteriores e, com suas belas imagens e preciosos momentos, é um prazeroso exercício de leitura.

Oswaldo Pereira
Novembro 2022

 

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

NUNCA



O escritor galês Ken Follett, na abertura de seu recente livro Never, diz que, quando fez as pesquisas para seu trabalho anterior, Fall of Giants (Queda de Gigantes) se impressionara ao constatar que a Primeira Grande Guerra foi um acontecimento que ninguém desejava. Nenhum líder europeu tinha intenções de inicia-la. Cada Imperador ou Primeiro-Ministro, um a um, foram tomando decisões – decisões lógicas e moderadas – mas que, cada uma a seu modo, significaram mais um passo em direção ao mais sangrento conflito que o mundo conhecera até então.

Isto acabou por inspirar Follett a escrever Never (Nunca). O título remete ao desejo, expresso quase unanimemente pelos Governos mundiais, de que jamais aquelas condições pudessem acontecer novamente, isto é, que apesar de singularmente desejosos de manter a Paz, interesses e querelas aqui e ali levassem inexoravelmente ao caminho do confronto.

Neste livro, Follett mostra o que pode acontecer se essas condições advierem num ambiente nuclear e até que ponto o medo de uma hecatombe atômica conseguirá impedir os líderes do planeta de apertarem seus botões vermelhos. Partindo de situações sensíveis atualmente localizadas em vários continentes, o que dá ao livro uma certa aura de premonição (escrito antes da invasão da Ucrânia, o livro não contempla mais este inquietante fator), a trama desenrola uma série de implicações, tanto de caráter pessoal dos protagonistas, como de alianças e hegemonias internacionais que, somadas, empurram uma sequência de decisões inevitáveis e provocativas.

Uma disputa no Sahel, um drone americano roubado, uma rebelião na Coreia do Norte, uma Presidente dos Estados Unidos em campanha de reeleição, uma pressão da linha dura chinesa sobre um líder moderado são alguns dos ingredientes que servem de pano de fundo a um micro universo de dúvidas, ambições e frustrações pessoais.  O provérbio chinês dois tigres não podem compartilhar a mesma montanha dá o tom do que está por vir.

Como quase todo livro desse escritor prolífico e detalhista, Never é um “tijolo” de 800 páginas. Acabei de lê-lo e posso dizer que foi uma viagem agradável e instigante. Follett continua sendo o impecável ficcionista histórico que se consagrou com as trilogias de Os Pilares da Terra e de Queda de Gigantes. Vale a pena.

Oswaldo Pereira

Outubro 2022

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2022

O CASTELO DE PAPEL



Mary del Priore é escritora, historiadora e tem comprovado, em um sem número de vezes, seus dotes de comunicadora. Além disso, possui um currículo acadêmico extenso e de grande qualidade.

Por essas e por outras, resolvi ler o seu livro “O Castelo de Papel”, dedicado à metade final do reinado de D. Pedro II e baseado nas correspondências trocadas entre a Princesa Isabel e seu marido Gastão de Orleans, o Conde d’Eu, entre ela e o Imperador e entre o Conde e seu pai, o Duque de Nemours.

O retrato que daí sai é um quadro incisivamente crítico à Monarquia brasileira, e escancara sem muita piedade os erros, as omissões e a insensibilidade política de D. Pedro e de sua filha.

A segunda parte do século XIX foi especialmente desastroso para as casas coroadas em todo o mundo. O fenômeno social da industrialização veio criar, além de uma classe atuante de jovens empresários, um extenso proletariado. E nenhuma, ou quase nenhuma, casa reinante soube lidar com este novo ambiente de forma inteligente, preferindo arraigar-se às suas tradições, seu poder hereditário e apoiar-se numa aristocracia rural em franca decadência política.

No Brasil, esses novos ventos ganharam ainda mais alento, dada a circunstância de que a agricultura brasileira dependia fortemente do trabalho escravo.  Quando as novas ideias aqui chegaram, já agitações políticas e populares colocavam dois poderosos grupos em contínua oposição – os escravagistas e os abolicionistas. Dentro deste caldeirão, acabou por fermentar com rapidez o ideal republicano.

E é neste contexto temporal que Mary del Priore insere sua narrativa. Do que se depreende das cartas, tanto o Imperador, descrito por seu genro como um homem “cinzento”, como a princesa, não souberam, ou não quiseram, ler o futuro. Isabel é desenhada como uma mulher beata, domiciliar, mãe de família e totalmente desprovida de interesse pelos negócios de Estado. Seus períodos de Regência, quando das muitas viagens de seu pai à Europa, teriam sido para ela um grande desconforto. O marido, quando procurava participar da cena nacional, era rispidamente impedido pelo sogro, além de que hostilizado pelos opositores que nele vislumbravam intenções de tomar o trono.

Mesmo a assinatura da Lei Áurea pela princesa é creditada mais à insuportável pressão exercida pela intelectualidade e pela imprensa do que a uma sincera iniciativa de Isabel. Com o declínio físico do Imperador e o entendimento de várias camadas da sociedade brasileira de que sua filha seria incapaz de dirigir o país, a probabilidade de um Terceiro Império esvaneceu-se.

O meu problema é que o panorama pintado por del Priore colide com muita coisa que havia eu aprendido sobre o nosso segundo Imperador. Desde os bancos escolares que ouço dizer ter sido ele um monarca esclarecido, preocupado com o Brasil e com seu povo, homem de ciência e um governante capaz. É claro que não posso negar a veracidade dos testemunhos epistolares utilizados pela autora de “O Castelo de Papel” e nem desprezar seu magnífico trabalho de pesquisa.

Mas, será que isto não é só um lado da verdade?

 Oswaldo Pereira

Fevereiro 2022

domingo, 16 de janeiro de 2022

A ORGANIZAÇÃO

 


Acabei de ler. E, apesar de ser um calhamaço de mais de 600 páginas, vale o esforço. O livro de Malu Gaspar é uma janela cuidadosamente escancarada sobre o panorama de corrupção que dominou a cena empresarial-política do Brasil neste início do século XXI.

A autora é jornalista. Formada pela USP, trabalhou nas redações da VEJA, da EXAME e da Piauí e, antes de “A Organização”, escreveu um livro sobre outro império corporativo que desmoronou, enredado nos mesmos liames de propinas e desonestidades – o de Elke Batista.

Desta vez, o foco foi a Odebrecht, o gigantesco conglomerado baiano que, em poucas décadas, de uma simples construtora regional, ascendeu ao status de um dos maiores e mais influentes grupos econômicos do país. O retrato pintado por Malu Gaspar desse gigante e de sua trajetória nos traz imagens e enredos que, em si, não seriam grande novidade. Afinal, o casamento espúrio do big business com o Estado é um espetáculo comum, permanente e até antigo. Atravessa os milênios, vem desde o Egito e permeia cores e regimes políticos, sejam eles de direita ou de esquerda, do primeiro mundo ou do último. Monarquias, ditaduras, democracias, todas elas têm ou tiveram o que esconder e, de quando em vez, veem seus caminhos tortuosos expostos por repórteres curiosos ou por juízes destemidos.

O diferencial aqui é o tamanho da coisa. As páginas de “A Organização” são pródigas em descrever, tijolo por tijolo, a construção do maior esquema venal a que este país já teve o desprazer de assistir. Até nos Estados Unidos, onde parte da fortuna arregimentada com expedientes escusos chegou a circular, a dimensão do butim levantou sobrancelhas das autoridades que participaram da investigação. Foi grande. Muito, muito grande.

Outro aspecto é a disseminação lateral do “propinoduto”.  A enxurrada de jabaculês invadiu todo o espectro político nacional nos vários patamares da administração pública e ultrapassou as linhas partidárias, chegando aonde quer que existisse alguém interessado em trocar favores por dinheiro. E isto, pelo que nos conta a jornalista, era em todo lugar.

Verbas para campanha eleitorais e caixa 2 são as expressões que você irá encontrar sempre. A contrapartida, ou seja, os superfaturamentos, as licitações forjadas, obras que nunca terminaram e os balanços fajutos está evidenciada a cada capítulo, a maioria recolhida pela autora dos depoimentos à Lava-Jato.

Paralelamente, Malu Gaspar nos revela os meandros da história interna da Odebrecht, uma organização fortemente alicerçada na sua dinastia familiar. As diferenças de personalidade entre Norberto, o fundador, seu filho Emílio e seu neto Marcelo fazem lembrar aquele ditado nordestino: Pai taberneiro, filho cavaleiro, neto bandoleiro. Três homens visceralmente diferentes, até na forma com que trataram, ao longo da vida da empresa, a convivência com um regime público imoral e corrupto.

No fim, fica a triste constatação de que os maiores empreiteiros brasileiros, cuja própria existência dependia das grandes contratações governamentais, não poderiam ter agido diferentemente, diante da improbidade e da ganância obscena e venal do homem público nacional. Pode parecer cínico, mas é assim que a bola rolava (ou rola?)

E é mais constrangedor verificar que, embora as penas tenham sido relativamente pouco pesadas, alguns empresários amargaram seu tempo no cárcere. Já do lado dos políticos, a meu ver os grandes culpados, ninguém está hoje atrás das grades...

Oswaldo Pereira
Janeiro 2022

terça-feira, 30 de novembro de 2021

PASSEIO NO PASSADO

 




O passado, para quem tem mais de 80 anos, é enorme. À medida que o futuro mingua, os anos se acumulam para trás, com todas as lembranças que, com sorte, conseguimos reter. E nos praz acariciar, no tempo que parece infindável neste dia-a-dia que escorre lânguido (já diziam que, na velhice, os dias passam devagar e os anos voando...), algumas memórias, estórias e momentos vividos.

Às vezes, alguns acontecimentos servem para reaviva-los, retira-los dos baús em que dormem nos sótãos de nossos neurônios, e espana-los. Quando isto acontece, o brilho original de alguma imagem ou de alguma sensação, há muito coberta pela poeira do abandono, renasce colorido e vibrante, quase novinho em folha.

Foi o que ocorreu há dias comigo. Como muitos de vocês já sabem, sou um inveterado leitor. Tenho sempre um livro a ler e, nos raros períodos de entressafra literária, sinto as melancolias da privação, como qualquer viciado afastado de seu vício. Pedindo perdão pela “americanada”, considero-me um juramentado bookaddict.

Assim, nunca passo por uma livraria impunemente. Um poderoso magneto me empurra para dentro, e ali sou capaz de passar largos momentos, a olhar as capas, a manusear as páginas, a sorver com volúpia as promessas dos textos e de suas revelações. E foi numa dessas que me deparei com um livro de Arsène Lupin.

Para os menores de 70 anos, talvez a única referência trazida pelo nome seja a série Lupin, lançada pela Netflix no ano passado. Mas, para os maiores...

Arsène Lupin foi uma criação do escritor francês Maurice Leblanc. Sua primeira aventura (A Detenção de Arsène Lupin) foi publicada na forma conto pela revista Je Sais Tout (o correspondente almanaque brasileiro Eu Sei Tudo foi um ícone de sua época), em julho de 1905. Daí até sua morte em 1941, Leblanc escreveria 18 romances, 39 novelas e 5 peças de teatro sobre o seu personagem.

A coleção dos livros de Maurice Leblanc foi devorada pelos adolescentes do meu tempo. Lupin era o arquétipo do gentleman cabrioleur, o ladrão cavalheiro, e sua insuperável capacidade para disfarces, sua superior inteligência e sagacidade e sua aptidão para resolver enigmas, praticar roubos espetaculares e fazer os delegados da Sûreté, a polícia francesa, de idiotas nos traziam em aguçado deleite.

Em tempo: dizem que Leblanc criou Lupin para espicaçar os ingleses, dentro da velha rivalidade gálico-saxã, que tinham como herói Sherlock Holmes. Um de seus livros, inclusive, trata de um confronto direto entre o ladrão francês e o detetive britânico. O título, dada reação irada de Sir Arthur Conan Doyle ao ver o nome de sua criação usado pelo rival, foi mudado por Leblanc para “Arsène Lupin contra Herlock Sholmes”...

O livro com que me deparei, e que me abriu um portal para o passado, foi La Barre-y-Va, um dos últimos escritos por Maurice Leblanc. Lê-lo foi como voltar a passear pelos caminhos em que trilhei, deslumbrado e aventureiro, os meus anos da adolescência.

Oswaldo Pereira

Novembro 2021

quarta-feira, 10 de novembro de 2021

NOVO LIVRO



Neste livro, há contos de vários tamanhos. Uns são íntimos, outros expansivos. Há aqueles para serem lidos em voz baixa, à luz de um abajur mortiço num dia cinzento. Há os que exigem uma janela aberta para um poente sinfônico como cenário de fundo. Alguns falam do passado; alguns imaginam um futuro.

Cotidiano, esperança, descoberta, história, amor e saudade são temas que os povoam. Há até os que viraram peças de teatro. Um exemplo de imaginação à solta, que certamente irá divertir e provocar o leitor.

Este é o texto que ocupa a contracapa do meu novo livro “O POVOADOR E OUTROS CONTOS”, lançado agora pela Editora Autografia.

O livro é uma coletânea de vários contos que fui escrevendo ao longo do tempo e que chegaram a ser esparsamente divulgados por e-mail, numa prisca era anterior ao advento do Facebook e do WhatsApp.

Apreciaria imensamente que o conhecessem e o divulgassem. Meus personagens torcem por isso. Afinal, eles só viverão se forem lidos e corporificados na mente do leitor. E, se eles assim viverem, gratificado ficarei eu por tê-los criado.

Como dica final de marketing, o Natal se aproxima e, para muitos, um livro é uma companhia querida e um presente gentil.

Estes são os links para compra. É só clicar em cima.

Editora Autografia

Em breve, o livro estará também na FNAC.

 

Oswaldo Pereira

Novembro 2021

quarta-feira, 23 de junho de 2021

LA GITANE (RELANÇAMENTO)

 


Meu livro "La Gitane - Um Quadro de Van Gogh" está sendo relançado. Para aqueles interessados em  fazer o dia deste modesto escritor mais feliz, anuncio que há vários sites em que a compra pode ser feita, além deste link abaixo, que é o da própria editora.

https://www.autografia.com.br/produto/la-gitane-um-quadro-de-van-gogh/

No Brasil, basta acessar um dos links abaixo:

AMERICANAS

LINK1

LIVRARIA DA TRAVESSA

LINK2

AMAZON.BR

LINK3

Em Portugal, na FNAC (link abaixo)

LINK4


Enquanto houver livros, há esperança...

Penhoradamente,

Oswaldo



terça-feira, 16 de março de 2021

AGUALUSA

 


Uma das consequências imediatas da decisão do Ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, que anulou todos os processos contra o ex-Presidente Lula no âmbito da Lava-Jato, foi o acirramento da polarização que já crepitava em fogo não muito brando na sociedade brasileira.

Se o objetivo era botar mais lenha na fogueira, Fachin acertou em cheio. Corremos o risco de, daqui até outubro de 2022, convivermos com um país rachado, dividido e briguento. Como se a pandemia já não fosse suficiente. Portanto, apertem mais os seus cintos...

O jeito, pelo menos o meu, é tentar achar paz e tranquilidade dentro de mim mesmo, aproveitando os minguados nichos de tempo entre discursos e estatísticas, vociferações e controvérsias, lives e outras toneladas de notícias que tentam nos soterrar, para gozar da companhia de algum bálsamo de espírito. O meu preferido são os livros. Sempre foram meus amigos. Mesmo os mais chatos, os de mal com a vida e com o leitor, os irremediavelmente sonhadores têm seu lugar na minha estante. São como aquelas amizades forjadas na infância e na adolescência, das quais o nosso coração está sempre disposto a aceitar, e perdoar, as falhas e os defeitos.

Assim como revisitei Fernando Sabino há dias, desta vez meu encontro foi com “Os Vivos e os Outros”, do escritor angolano José Eduardo Agualusa (aliás, na minha ingênua concepção, alguém com este poético sobrenome só podia ser escritor...)

Não sei quantos os que lerão este texto já conhecem a literatura de Agualusa. Se você for daqueles que ainda não teve este prazer, e aprecia as delícias de uma rica descoberta intelectual, pelas mãos de uma prosa ágil e cativante, acione suas plataformas de busca na net e encomende esse livro.

Agualusa nasceu no Huambo, em 1960, e, ao lado do moçambicano Mia Couto, forma o pelotão de frente da extraordinária geração de autores surgida neste século na África de língua portuguesa.

“Os Vivos e os Outros” tem como trama central um festival de escritores africanos na ilha de Moçambique. Uma feroz e demorada tempestade acaba isolando-os do continente e do mundo. Confinados na ilha, passam a conviver uns com os outros e com seus personagens, embolando realidade e ficção em vários planos intertemporais, magistralmente criados por Agualusa.

É claro que não vou adiantar mais. Apenas revelo que o livro está semeado de diálogos simplesmente primorosos. São verdadeiros diamantes travestidos de palavras caídas do céu. Algumas dessas joias.

Se não for a tempo inteiro, ninguém chega a poeta – contesta Luzia, adiantando-se a Ofélia – Poeta não é ofício, é condição.

Somo escritores. Nosso trabalho consiste em absorver a luz, como as plantas. Em transformar a luz em matéria viva. Consegues escrever sem primeiro te encantares?

Não devemos ter medo dos lugares-comuns – diz Uli – Todo homem é um lugar-comum. Além disso, qualquer lugar-comum pode ser o mais raro dos lugares. Basta saber olhar.

Somos nós que construímos os mundos – grita Moira – Somos nós! Os mundos germinam dentro de nossas cabeças e crescem até não caberem mais, então soltam-se e ganham raízes. A realidade é isso, é o que acontece à ficção quando acreditamos nela!

Por estas e por muitas outras, “Os Vivos e o Outros” pode ser o companheiro ideal para atravessar uma tarde na penumbra de um abajur suave, um concerto ao fundo e com os ruídos do mundo do lado de lá desta nossa ilha...

Oswaldo Pereira

Março 2021

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

O GRANDE MENTECAPTO



Sempre amei livros. Estou falando de LIVRO, isto é, aquele artefato de papel, tinta de impressão e cola. Aquele conjunto de folhas amarradas numa lombada, com capa e contracapa, que você percorre com os olhos à medida que seus dedos viram as páginas com reverência e expectativa. Sou daqueles que não se renderam ao kindle e outros que tais. Telas de computadores ou de celulares também não me seduzem quando se trata de imergir numa narrativa demorada e cheia de palavras que se tornam imagens em minha visão interior.

Eu gosto mesmo é do calhamaço tradicional.

Já os devorava por hábito. Agora, com o arrefecimento social por obra da pandemia, minha fome de leitura aguçou-se. E fui desencavando antigos títulos, por que eu passara sem me ater ou acenando com distraído um dia eu venho vê-lo.

Foi o que aconteceu com O Grande Mentecapto, considerado uma das melhores obras do escritor Fernando Sabino.  Já lera outras dele. O Encontro Marcado, nos tempos do ginásio, as crônicas O Homem Nu e de Deixa o Alfredo Falar, já mais para cá no tempo, sempre com seu fino humor cutucando minha alma de mineiro. Acabei conhecendo-o nos meus tempos de crooner, nas terças-feiras de jazz do saudoso 43, na rua do Ouvidor. Sabino era um competente baterista.

É obvio que não preciso falar mais sobre o escritor. Famoso e consagrado, tem sua vida e história gravadas no panteão da memória literária nacional.  E nem deveria dizer muito sobre o livro. O Grande Mentecapto recebeu todas a críticas favoráveis disponíveis e entronizou-se entre os mais conhecidos, icônicos e premiados romances brasileiros. Virou até filme.

Mas, ao lê-lo, não pude deixar de vislumbrar uma certa similitude entre Geraldo Viramundo, um apoucado de inteligência que vaga por toda a extensão das Minas Gerais e acaba por, sem querer ou sequer perceber, estar no centro de vários acontecimentos importantes da então província e, até, influenciá-los, e Forrest Gump.

São dois personagens magistralmente usados por seus criadores para contar, com humor e perspicácia, a história de seu tempo.

Não acredito em plágio, mas, se houvesse, a primazia da ideia caberia ao contista pátrio. Forrest Gump é de 1994. O Grande Mentecapto foi escrito em 1979.

Evoé, Fernando Sabino.

Oswaldo Pereira

Fevereiro 2021

sábado, 24 de outubro de 2020

PERIGOSO TERRENO DA GALHOFA


APPARICIO TORELLY - O BARÃO DE ITARARÉ


Seu nome era Apparício Fernando Brinkerhoff Torelly. Usou muito o pseudônimo Apporelly, mas era mesmo conhecido como o Barão de Itararé. E foi um dos maiores, senão o maior, jornalista satírico da imprensa brasileira.

Os dotes irreverentes de Apparício evidenciaram-se ainda na adolescência, quando, aluno de um colégio católico no Rio Grande do Sul, sua terra natal, criou um jornaleco chamado “Capim Seco”, em que satirizava a disciplina de seus mestres jesuítas.

Em 1925, largou os estudos de Medicina para dedicar-se inteiramente ao Jornalismo. Nesse mesmo ano, foi contratado por um jornal recém-criado por Irineu Marinho. O Globo. Num apêndice semanal chamado A Manhã, Torelly destilava sua superior verve humorística contra os políticos de então.

O sucesso foi tanto que, em meados da década de 1930, Apporelly despediu-se dos Marinho e criou seu próprio jornal. Tirando apenas o til da publicação que comandava no Globo, lançou aquele que seria, por excelência, o mais lido semanário político de sua época. A Manha.

Como não podia deixar de ser, seus editoriais, recheados de humor cáustico e gozações impiedosas a respeito de autoridades e governantes granjearam-lhe inúmeras e incômodas inimizades e reações violentas. Como opositor de Getúlio Vargas em pleno Estado Novo, foi preso várias vezes e teve sua redação empastelada outras tantas.

Certa vez, por ter escrito um artigo burlesco sobre a Revolta da Chibata, provocou a ira da Marinha e foi espancado por oficiais daquela força. Fiel ao seu estilo, mandou colocar na porta dos escritórios da Manha a seguinte tabuleta: Entre Sem Bater.

Este era, sem dúvida, o grande talento do Barão de Itararé. Brincar com as palavras, construir frases cuja lógica surpreendente mesclava humor com perspicácia. Centenas delas ficaram famosas e são até hoje citadas em homenagem ao grande frasista que era.

Exemplos?

“Os vivos serão governados, cada vez mais, pelos mais vivos”

“De onde menos se espera, é que não vem nada mesmo...”

“Pobre quando come frango, um dos dois está doente...”

“Não é triste mudar de ideias. Triste é não ter ideias para mudar”.

“Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta.”

“Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados...”

E por aí vai. Uma das mais famosas expressões de Torelly era a que utilizava para qualificar episódios especialmente escandalosos da vida nacional. Estamos deslizando para o perigoso terreno da galhofa.

E eu fico pensando. Que descrição mais perfeita dos acontecimentos recentes de nosso presente. Um dos mais procurados e perigosos traficantes de droga do planeta saindo pela porta da frente do presídio, beneficiado por um habeas corpus inacreditável de um Juiz do Supremo (Supremo!!!) Tribunal Federal. Um Senador (Senador!!!) da República sendo apanhando com dinheiro ilegal enfiado nos fundilhos.

É, caríssimo Barão. Perigoso terreno da galhofa.  No seu tempo ele já existia. Hoje, o que temos é um caminho escorregadio que, da galhofa, talvez nos faça resvalar para terrenos mais pantanosos, de onde dificilmente se volta...

Oswaldo Pereira

Outubro 2020

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

MYTHOS




Acabei de ler “Mythos”. Sei que maioria de vocês vai desenhar uma interrogação no rosto. Acabou de ler o que?

Bem, vamos começar pelo autor. Stephen Fry. Talvez o nome já acenda alguma centelha de reconhecimento. Se ainda não, aqui vai um pequeno resumo de suas capacidades artísticas.
Mais conhecido universalmente pelo programa humorístico   A Bit of Fry and Laurie que co-escreveu e co-atuou com Hugh Laurie (recentemente um sucesso na série televisiva Dr. House) e que se tornou o epítome do mais fino humor inglês, Fry, além de roteirista e comediante, é também ator, apresentador, cineasta e, desde algum tempo, prestigiado escritor. Foi o protagonista do filme Wilde, sobre a vida do atribulado e genial dramaturgo britânico Oscar Wilde e, como homossexual assumido, tem liderado vários movimentos de orgulho gay. A crítica inglesa o tem reverenciado como um moderno Homem da Renascença.

O subtítulo do livro Mythos já adianta o que se espera encontrar em suas quatrocentas páginas. As Melhores Histórias de Heróis, Deuses e Titãs. O assunto é Mitologia Grega.

Como muitos meninos brasileiros da minha geração, a crônica da Grécia Mitológica foi em nós poderosamente inseminada pelos livros infantis de Monteiro Lobato. Como já contei algures neste blog, minha primeira (e inesquecível) experiência literária foi a leitura devoradora de Os Doze Trabalhos de Hércules. Minha paixão pelos livros nasceu aí e, à medida que eu avançava pelos outros títulos da obra de Lobato, mais irrequieta ficava minha imaginação de criança com os prodígios de deuses e heróis gregos.

Assim, a leitura do livro de Fry caiu em solo fértil, já germinado pelos meus sonhos infantis. Até, e principalmente, porque o escritor inglês reconta os mitos e as fábulas gregos usando a mesma técnica empregada por Monteiro Lobato, ou seja, aproximando as figuras mitológicas do nosso presente, tornando-as vizinhas e cotidianas.   

Da mesma forma que Zeus, Palas-Atena, Hércules e demais portentos conversavam com a turma do Picapau Amarelo numa linguagem quase íntima, os personagens de Mythos, todos legítimos imortais e olímpicos, tratam-se coloquialmente como num papo de bar. E este é o grande charme do livro de Fry. Traduzir-nos e simplificar-nos a intrincada e fascinante saga de um mundo criado pela incessante imaginação de poetas, profetas e menestréis da Grécia que viveram há mais de 2800 anos.

Os primeiros registros escritos dos mitos gregos são em parte do bardo jônico Homero (uma figura ainda envolta em especulações sobre sua real existência), e suas epopeias Ilíada e Odisseia, e em parte de Hesíodo, este sim um vivente com registro comprovado. Suas obras contam de um período muito anterior ao seu tempo, voltando até o princípio do universo, o big-bang do Caos primordial. A partir deles, um sem número de cronistas foram desenhando um conjunto de explicações divinas para toda e qualquer manifestação da natureza e do comportamento humano.

Por isso mesmo, ou em decorrência dessa filosofia, as divindades gregas não só se imiscuíam no dia-a-dia dos simples mortais, amando-os ou odiando-os, premiando-os ou punindo-os, como eles próprios, deuses e titãs, padeciam das mesmas características e idiossincrasias dos homens comuns. Diferentemente dos intocáveis, distantes e inumanamente perfeitos deuses de outras mitologias ou religiões, Zeus e sua turma eram quase imperfeitamente humanos.

Neste entendimento, de um brutal fenômeno sísmico até o nascimento de uma flor, passando por constelações no céu, a repetição dos dias, das noites e das estações, pestes e doenças, contornos de rios e matizes de flores, cantos de aves, formas de animais, abundâncias e penúrias e até desvios de personalidades, tudo era obra dos imortais, que agora, além dos doze Olímpicos, existiam sob a forma de deuses menores, semideuses, ninfas e sátiros, centauros e náiades. Centenas de seres prontos a transformar nossa vida com seus caprichos, vontades e desejos.

A força do apogeu da civilização grega fez com que sua mitologia nos fascinasse até hoje. Os nomes de seus personagens servem atualmente para batizar constelações e planetas, elementos químicos e cepas de plantas, raças de animais e denominações de acidentes geográficos e, graças a Freud, de um sem número de distúrbios psíquicos*.

*Prá variar, palavra cuja raiz é Psiché, amante de Eros...

Parece que tudo, afinal, foi mesmo criado por eles. Os Deuses.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2020

terça-feira, 18 de junho de 2019

MEDO




“Real power is – I don’t even want to use the word – fear” (O verdadeiro poder é – eu até não quero usar a palavra – medo).

Esta frase foi dita por Donald Trump a Bob Woodward numa entrevista em março de 2016. E é a abertura do último livro deste, Fear, lançado no ano passado. Acabei de lê-lo, e posso confessar que fiquei com medo. Não no sentido que Trump quis dar, mas pelo que o relato de Woodward inspira, ou transpira, sobre a personalidade errática, imatura e instável do Presidente dos Estados Unidos.

Woodward é um dos mais premiados e respeitados jornalistas americanos. Sua fama começou há 48 anos quando, ainda um jovem repórter do prestigiado Washington Post, publicou, juntamente com seu colega Carl Bernstein, as reportagens que iriam desaguar no histórico escândalo do Watergate e na eventual renúncia de Richard Nixon. Seu livro sobre o acontecimento, All The President’s Men (Todos Os Homens do Presidente), transformou-se num dos maiores sucessos editoriais do mundo inteiro e acabou sendo levado para as telas. De lá para cá, Bob Woodward já publicou 19 livros sobre a cena política americana e extensas avaliações das administrações de Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Credenciais não lhe faltam.

O Donald Trump que emerge das suas páginas é um indivíduo quase paranoicamente egocêntrico, avesso a conselhos e opiniões alheias, desrespeitoso com assessores e perigosamente impulsivo nas decisões que toma. Como a maioria dessas decisões carregam em si o peso de mexer com a ordem mundial, avalie-se o risco. Contra a recomendação da quase totalidade de seus secretários e conselheiros civis e militares, gente da melhor competência que foi cruelmente destratada por ele, Trump tem rasgado acordos, insultado aliados, quebrado protocolos da liturgia do cargo, abusando do impromptu em seus contatos com a grande imprensa (a quem acusa de persegui-lo) e nas explosões às vezes infantis que despeja nos seus twitters.

No primeiro capítulo de Fear, Woodward relata a fixação de Trump na extinção do KORUS, o acordo entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, firmado há mais de 50 anos. O dinheiro gasto na manutenção de 28.000 soldados americanos na península e um generoso favorecimento comercial aos coreanos eram as razões do Presidente. Muito embora sua assessoria em mercado internacional e os chefes militares tivessem contra argumentado que o preço era pequeno dado o acesso que, pelo acordo, os americanos tinham à inteligência sul-coreana e à possibilidade de detectar o lançamento de mísseis da Coreia do Norte em apenas 3 segundos (versus 15 minutos na base de Portland, no Alasca), Trump bateu o pé. Mandou preparar a carta de revogação do KORUS. Que só não foi assinada porque seu secretário particular retirou-a da pilha de papéis da escrivaninha do Salão Oval, valendo-se de outra característica da personalidade do Presidente. Trump tende a esquecer rapidamente das suas instruções, não tem agenda e nem sentido de follow-up. O KORUS continua em força até hoje.

O livro termina em meados de 2018. Desde então, temos presenciado a guerra comercial com a China, a briga com a NATO, as idas e vindas dos encontros com Kim Jong-un, as ameaças ao México, a denúncia do acordo nuclear com o Irã, a marcha do inquérito sobre a influência dos hackers russos no processo eleitoral. Rajadas de vento que perturbam as águas da estabilidade global.

No ano que vem, novas eleições presidenciais. Paralelamente a tudo o que Woodward nos mostrou, os Estados Unidos estão crescendo a níveis mais altos do que nos anos anteriores e o desemprego caiu significativamente. Será o suficiente para que o eleitor americano queira repetir a dose?

Oswaldo Pereira
Junho 2019

terça-feira, 27 de novembro de 2018

LER SARAMAGO





Memorial do Convento estava na minha lista de resoluções há muito. Um livro indispensável no currículo de leituras, quase uma obrigação para quem quer intitular-se uma pessoa lida. Resolvi, então, preencher essa imperdoável lacuna.

Mas, para ler Saramago é preciso uma preparação séria, um tomar de fôlego antes de mergulhar nas suas páginas e nadar debaixo da superfície de seus intermináveis parágrafos, de seus diálogos emendados, banhar-se na cachoeira de palavras buscadas nos confins de um complicado dicionário. É preciso fé e vontade. E é preciso, sobretudo, perseverança.

Como já lera O Evangelho Segundo Jesus Cristo e A Jangada de Pedra, julgava-me apto a enfrentar o desafio, até porque ambos me haviam revelado o intrigante estilo do velho mestre, o inesperado intercalar de páginas áridas com oásis literários de extrema beleza, a deliciosa surpresa de encontrar de repente, no virar de uma folha, aninhada no seio de longas frases descoloridas, uma cintilante imagem, burilada com o toque inconfundível do gênio.

Além disso, estivera dias antes no Palácio de Mafra, a icônica obra setecentista de D. João V, cuja construção, que levou vinte anos, é o tema central do Memorial. Estava, assim, motivado para embarcar em mais um Saramago. Um livro de 400 páginas sobre a construção de um convento no início do século XVIII? Bem, seria o que Deus quisesse...

É um acostumar que leva umas vinte páginas. Como um afinar de instrumentos antes de uma grande sinfonia. As primeiras trocas de tintas numa paleta de Van Gogh. As marteladas iniciais de Michelangelo no mármore frio. E, não mais que de repente, a magia começa a trabalhar. Baltazar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas deixam de ser argila e ganham a vida que nos fará enveredar pelas montanhas do oeste português, palmilhar as ruas de uma Lisboa cortesã e miserável, subir aos céus na Passarola do padre Bartolomeu de Gusmão (sim, aquele nosso padre voador) e sentir a monumental obra arquitetônica crescendo mercê do trabalho e do sacrifício de um caudal de gente arrebanhada aos milhares pela necessidade ou pelo sonho. Todo o seu drama está lá, cru e poético, lírico e brutal.

É Saramago em todo o seu esplendor de ser Saramago. Sua cadência, sua linguagem, seu gênio. Para descrevê-lo só me ocorre um adjetivo. Incomparável.

Oswaldo Pereira
Novembro 2018

sábado, 12 de maio de 2018

LA GITANE




SAIU O MEU TERCEIRO LIVRO!

COMO ESTÁ ESCRITO NA CONTRACAPA:

“LA GITANE, À PRIMEIRA VISTA, É A HISTÓRIA DE UM QUADRO E DAS MUITAS VOLTAS QUE ELE DÁ, DESDE SUA CRIAÇÃO, NA DÉCADA DE 1880, ATÉ SEU DESTINO, EM PLENO SÉCULO XXI. E DAS VIDAS E DESTINOS QUE TOCA EM SUA VIAGEM PELO MUNDO. MAS NÃO É SÓ. É TAMBÉM UM LIVRO QUE DESENHA PERSONAGENS INTRIGANTES NUMA BUSCA IMPLACÁVEL, CUJO PANO DE FUNDO SÃO AMBIENTES EXÓTICOS, ACONTECIMENTOS REAIS E PAISAGENS DESLUMBRANTES”

ESTÁ SENDO LANÇADO PELA EDITORA AUTOGRAFIA E SERÁ VENDIDO VIA INTERNET. É SÓ ACESSAR O SITE DA EDITORA, ENTRAR NA LOJA, DIGITAR O NOME DO LIVRO E EFETUAR A COMPRA.

ESTE ESCRITOR TARDIO FICARÁ ETERNAMENTE GRATO...

domingo, 4 de março de 2018

DECEPÇÃO


Sou, confessadamente, um frequente leitor de jornais. Em papel, às antigas. Não podia deixar de ser, haja vista minha avançada contagem de anos vividos. Faz parte dos atributos da dita terceira idade (ô lugarzinho comum desgastado...), imersa nas tradições do passado milênio, das visões de pequenos jornaleiros apregoando as “últimas” das edições vespertinas, dos diários sendo colocados na soleira das portas junto às garrafinhas de leite.

Para mim, criança nesse passado distante, o jornal era a porta aberta para o mundo fantástico das histórias em quadrinhos, um reino onde Mandrakes, Fantasmas e Brucutus enfrentavam os perigos e salvavam as mocinhas. Depois, passou a ser o arauto dos filmes em cartaz, o analista dos jogos de futebol que só ouvíamos pelo rádio, o revelador das radiofotos de algum cantor de sucesso. Até que, no desabrochar da maioridade, transformou-se no livro de História contemporânea no qual os acontecimentos que moviam o mundo vinham instantâneos para dentro das nossas casas.

Era inevitável que este amor permanecesse até hoje. Estando aqui ou em Portugal, sinto um requintado prazer enquanto abro as páginas dos meus jornais de eleição. Assim, foi com compreensível alegria que soube do renascimento do “Jornal do Brasil”.

O JB teve minha imediata preferência quando retornei ao Brasil em 1971. Seu jornalismo era ágil, inteligente. Seu desenho gráfico era agradável e inovador, gênios da palavra dedilhavam as máquinas de escrever da redação e magos da criatividade davam um fulgor especial ao já lendário Caderno B, um permanente festival de homenagem à cultura. Em rio de piranhas, jacaré nada de costas e, empastelado várias vezes desde sua criação, na Primeira República, até o Estado Novo, o jornal, para manter sua sobrevivência durante os governos militares, submetia-se à censura. Mas, sabia driblá-la com fino humor e requintado bom gosto. Foi com um confiante sorriso nos lábios, então, que saí da banca sobraçando a primeira edição deste seu renascimento.

Para sofrer uma decepção!

O novo JB é um espectro. Seu desenho ficou datado, não há mais gênios nos laptops da redação, sente-se um incômodo diletantismo permeando suas colunas e artigos. Mais deplorável ainda é o ranço de sua linha editorial. Na edição que comprei, questionava-se a reserva comedida do interventor do Rio (“O Interventor Esconde o Jogo” era a manchete rala da primeira página), quando, desde Sun Tzu e Maquiavel, se sabe que o segredo das informações é primordial na arte da guerra. Em outra parte, investia contra o então Ministro da Defesa, Raul Jungman, por ter declarado que alguns daqueles que reclamavam contra o domínio do tráfico de drogas eram os mesmos que o financiavam ao comprá-las. Um frontal ataque ao Rio, vociferavam, não percebendo a obviedade da declaração de Jungman.

É claramente perceptível, também, o forte alinhamento do JB com a esquerda histórica. Não tenho nada contra. Sempre defendi que cada jornal tem o direito de adotar a cor política que seus acionistas preferirem. Mas também acho que a polarização direita-esquerda perdeu seu sentido no Brasil de hoje. O país está dividido em duas camadas. Os que roubam e os que pagam. As legendas partidárias não querem dizer mais nada. No Congresso, o que há são bancadas. A da Bala. Da Bíblia. Do Boi. Et caterva. Centrar o foco do jornal num discurso superado e inócuo é uma perda de tempo.

Espero sinceramente que o Jornal do Brasil conserte o rumo. Será uma pena, se não fizer.

Oswaldo Pereira
Março 2018



quinta-feira, 9 de novembro de 2017

ORIGEM


Como leitor inveterado que sou, acabo voltando a ler autores que às vezes repudio ou em quem, pelo menos, não encontro grandes pendores literários. Talvez seja o fato de que, embora pobres de estilo, são eles capazes de criar boas estórias. Mesmo sem saber contá-las bem, a trama que engendram chega, por si só, a justificar a compra de seus novos lançamentos.

É o caso de Dan Brown. Seu livro “Inferno”, publicado em 2013, foi mal recebido pela crítica. Era a repetição ad nauseam de uma fórmula gasta, a mesma que havia sido original apenas no seu primeiro, e excelente, livro, “O Código Da Vinci”. Eu mesmo, neste modesto blog, desanquei “Inferno”. Se quiserem, e tiverem tempo disponível e vontade idem, podem reler minha avaliação no link abaixo.

No entanto, e apesar de tudo, acabei lendo sua mais nova produção, o muito anunciado “Origem” (Origin, no título em inglês).

Bem... Lá estão os mesmos ingredientes, outra vez. O indefectível Robert Langdon, o herói criado por Brown, uma espécie de McGyver intelectual, repete sua velha rotina de se envolver em confusões gigantescas e acabar sempre sem a mocinha (desculpem o spoiler...). O nexus da trama é, mais uma vez, a Religião e o embate milenar entre espiritualidade e materialismo agora concentra-se na procura da resposta às duas mais antigas perguntas da Humanidade. De onde viemos? e Para onde vamos?

Novamente, há um superdotado cientista, uma corrida policial, vilões declarados e insuspeitos e uma cidade-cenário. Desta vez, é Barcelona. (O livro passa longe das atuais tribulações catalãs. Deve ter sido escrito muito antes.)

Além disso, a narrativa gasta páginas demais no conflito Darwin vs. Antigo Testamento, enchendo o enredo de uma extensa ramificação de citações e pistas literárias, e suas interpretações. Tudo bem que brincar com símbolos é a marca registrada de Dan Brown e de seu personagem, Langdon, um professor de Simbologia em Harvard. Mas, algo mais rapid fire poderia enxugar um pouco o calhamaço de Origem.

Se você acha que poderá descontar isto tudo, talvez descubra, como eu, algumas boas passagens, principalmente naquilo em que Brown é um craque. Criar bons momentos de suspense e descrever com maestria as imagens de fundo. Em Origem, a superposição de dois roteiros, um centrado na revelação que um renomado cientista com ares de superstar prepara-se para apresentar ao planeta, outro numa sombria sucessão ao trono espanhol, mantém o leitor acordado. Ao fundo, ícones da cidade como a Casa Millà e a Sagrada Família merecem do autor a homenagem de uma descrição impecável.

Mais apelos turísticos para a grande cidade catalã. Só que Barcelona anda às turras com os turistas. E com a Espanha...

Oswaldo Pereira

Novembro 2017