«Têm de acabar com isto! Se o Putin perdeu o juízo, os próprios russos têm de reagir, tirar este louco do poder, antes que o mundo se exploda.»
«Mas, quais russos, Antônia? Qual liderança russa seria capaz de fazer isso? O único com força para uma empreitada dessas seria o Exército, mas este deve estar fechado com o Presidente. Os oligarcas? De jeito nenhum. Devem muito ao Putin, que os ajudou a ganhar suas fortunas zilionárias. O poder centralizador dele é enorme. Meios de comunicação, economia, os políticos... Tá tudo na mão dele.»
«É, mas há rumores de que já existe uma movimentação
popular contra o Governo...»
«Onde você viu isto? Na CNN? Pois eu duvido.
Aliás, duvido de tudo o que sai na imprensa internacional. Ninguém sabe nada,
especialmente numa guerra. A única coisa que eu posso garantir é que o Putin
deve saber tudo o que se passa na Rússia. Não se esqueça de que ele foi da
KGB...»
«Então ele deve estar sabendo que a economia
russa está indo para o espaço. Uma guerra custa fortunas. E as sanções estão
derretendo o que sobra. Além disso, todos aqueles que dependem de importações
da Rússia estão rapidamente procurando fontes alternativas. Putin está jogando o
país num buraco sem fundo.»
«Bem, vamos por partes. Prá começar, as
tais fontes alternativas não aparecem de uma hora para outra. São projetos que
levam anos para dar resultados visíveis. Ninguém muda uma matriz energética,
uma dependência de grãos de repente. E mais, a maioria das tais sanções têm
efeito apenas cosmético. Outras podem ter efeito bumerangue, já que a
globalização entrelaça os canais de comércio e os sistemas financeiros. E há as
ridículas, como retirarem os times russos do joguinho FIFA 2022 e a Coca-Cola e
o MacDonald pararem de vender na Rússia. Dizem as más línguas que os russos
ficarão mais saudáveis sem o hambúrguer e o refrigerante...»
«Não seja cínico. Tudo isto é uma manifestação
de repúdio a um ato bárbaro, que mata civis e provoca uma leva de refugiados
nunca vista na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. É uma agressão a um país
independente. Tem de ser condenada a atacada por todos os meios.»
«Ué, os
Estados Unidos não fizeram a mesma coisa em Cuba e no Iraque e todo mundo bateu
palmas? O motivo dado era o mesmo. A existência de armas ameaçadoras. A mesma
ameaça que Putin sente com a possibilidade da Ucrânia entrar na OTAN e colocar
umas baterias de mísseis na sua fronteira.»
«Nada disto pode justificar uma invasão. Há
outros meios, que não envolvem matar velhos e crianças. E eu que pensei que as
guerras no século vinte e um fossem apenas econômicas ou cibernéticas...»
«Talvez fossem guerras melhores. Mas
parece que conflitos armados estão no nosso DNA. Desde os egípcios que a diplomacia
só se resolve na porrada. Não foi Theodore Roosevelt quem disse que diplomacia
era falar devagar e carregar um grande porrete? Quem tem a maior força leva
vantagem. Desde as cavernas até hoje.»
«O problema é que os porretes de hoje são
nucleares. E se a coisa descambar para um vale tudo geral? O Putin não vai
querer abaixar a guarda. A esperança é que, com a pressão do Ocidente, ele decida
finalmente acabar com esse ataque.»
«Não sei. Esta tal pressão do Ocidente
vai fazer a Rússia ir para os braços dos chineses. Aliás, e como sempre, a
China vai sair ganhando no final.»
«E o que pode acontecer?»
«Quem sabe? Só espero que o porrete nuclear não
exploda antes de pedirmos o próximo chope...»
Oswaldo
Pereira








