Mostrando postagens com marcador Papo de Bar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Papo de Bar. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 11 de março de 2022

PAPO DE BAR: PORRETES



«Têm de acabar com isto! Se o Putin perdeu o juízo, os próprios russos têm de reagir, tirar este louco do poder, antes que o mundo se exploda.»

«Mas, quais russos, Antônia? Qual liderança russa seria capaz de fazer isso? O único com força para uma empreitada dessas seria o Exército, mas este deve estar fechado com o Presidente. Os oligarcas? De jeito nenhum. Devem muito ao Putin, que os ajudou a ganhar suas fortunas zilionárias. O poder centralizador dele é enorme. Meios de comunicação, economia, os políticos... tudo na mão dele.»

«É, mas há rumores de que já existe uma movimentação popular contra o Governo...»

«Onde você viu isto? Na CNN? Pois eu duvido. Aliás, duvido de tudo o que sai na imprensa internacional. Ninguém sabe nada, especialmente numa guerra. A única coisa que eu posso garantir é que o Putin deve saber tudo o que se passa na Rússia. Não se esqueça de que ele foi da KGB...»

«Então ele deve estar sabendo que a economia russa está indo para o espaço. Uma guerra custa fortunas. E as sanções estão derretendo o que sobra. Além disso, todos aqueles que dependem de importações da Rússia estão rapidamente procurando fontes alternativas. Putin está jogando o país num buraco sem fundo.»

«Bem, vamos por partes. Prá começar, as tais fontes alternativas não aparecem de uma hora para outra. São projetos que levam anos para dar resultados visíveis. Ninguém muda uma matriz energética, uma dependência de grãos de repente. E mais, a maioria das tais sanções têm efeito apenas cosmético. Outras podem ter efeito bumerangue, já que a globalização entrelaça os canais de comércio e os sistemas financeiros. E há as ridículas, como retirarem os times russos do joguinho FIFA 2022 e a Coca-Cola e o MacDonald pararem de vender na Rússia. Dizem as más línguas que os russos ficarão mais saudáveis sem o hambúrguer e o refrigerante...»

«Não seja cínico. Tudo isto é uma manifestação de repúdio a um ato bárbaro, que mata civis e provoca uma leva de refugiados nunca vista na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. É uma agressão a um país independente. Tem de ser condenada a atacada por todos os meios.»

«Ué, os Estados Unidos não fizeram a mesma coisa em Cuba e no Iraque e todo mundo bateu palmas? O motivo dado era o mesmo. A existência de armas ameaçadoras. A mesma ameaça que Putin sente com a possibilidade da Ucrânia entrar na OTAN e colocar umas baterias de mísseis na sua fronteira.»

«Nada disto pode justificar uma invasão. Há outros meios, que não envolvem matar velhos e crianças. E eu que pensei que as guerras no século vinte e um fossem apenas econômicas ou cibernéticas...»

«Talvez fossem guerras melhores. Mas parece que conflitos armados estão no nosso DNA. Desde os egípcios que a diplomacia só se resolve na porrada. Não foi Theodore Roosevelt quem disse que diplomacia era falar devagar e carregar um grande porrete? Quem tem a maior força leva vantagem. Desde as cavernas até hoje.»

«O problema é que os porretes de hoje são nucleares. E se a coisa descambar para um vale tudo geral? O Putin não vai querer abaixar a guarda. A esperança é que, com a pressão do Ocidente, ele decida finalmente acabar com esse ataque.»

«Não sei. Esta tal pressão do Ocidente vai fazer a Rússia ir para os braços dos chineses. Aliás, e como sempre, a China vai sair ganhando no final.»

«E o que pode acontecer?»

«Quem sabe? Só espero que o porrete nuclear não exploda antes de pedirmos o próximo chope...»

 Oswaldo Pereira

Março 2022

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

PAPO DE BAR - GOLPE DE MESTRE



Uma segunda-feira mortiça, de ressaca. Como todas...

O país ainda parece estar deglutindo (o que pode significar saboreando para uns e ruminando para outros) a semana anterior. Até mesmo no Zanzibar.

«Viu? Ele teve de voltar atrás. Ultimato é coisa séria. Blefaram alto e agora tiveram de mostrar as cartas. Nem conseguiram tirar os ministros do STF e nem vão ter voto auditável. A famigerada paralização dos caminhoneiros deu chabu. E o Zé Trovão foragido. Papelão...»

«Papelão? Acho que você não está analisando direito as coisas, Antonia...»

«Analisar? Não há nada para analisar. Milhões foram às ruas pedindo duas coisas. E nenhuma das duas aconteceu. Meio frustrante, não? Duvido que se consiga repetir uma manifestação igual a esta. Era o vai ou racha. E rachou...»

«E você acha que o verdadeiro objetivo de botar o povão nas ruas era entregar um ultimato?»

«E não era? Vamos dar 72 horas. Senão atenderem, vamos cercar Brasilia e parar o país. Se ainda assim não agirem, vamos invadir... Não era este o refrão? Fora Moraes e Barroso... Cadê? Pelo que me consta, os dois continuam usando suas togas...»

«Pensa um momento, Antonia. Imagina que tudo isso é uma mesa de pôquer. O jogo que o Governo tinha nas mãos não era um ultimato. É claro que se sabia que um pedido destes era impossível de ser cumprido sob pressão. Pelo menos não dentro das regras constitucionais. Ultimatuns só permitem duas atitudes: a aceitação ou a guerra. E esse não era o jogo do Governo. O seu royal straight flush era a imagem do povo nas ruas, na gigantesca demonstração de apoio, no explícito repúdio popular aos desmandos do Supremo e à canalhice dos políticos. Foi isso que Bolsonaro jogou na mesa.»

«Não entendo nada de pôquer. Só sei que ficou tudo como antes. Moraes continua Moraes, Barroso continua Barroso. A famosa carta à nação acabou sendo um mea culpa, nada mais.»

«É aí que você se engana, minha querida. Esta famosa carta é de um primor estratégico que faria Maquiavel levantar os polegares. Ela nasceu de um acordo costurado com todos os atores importantes desta saga. Um acordo que vem atender a tudo que o Governo reivindicava, principalmente o fim do protagonismo do Supremo, o inquérito da fake news nas mãos da Procuradoria, um Congresso que praticamente sepultou a chances de impeachment. O único compromisso do Presidente foi o de segurar os caminhoneiros. De uma tacada, ele afastou todos os fantasmas. Em vez do Golpe! gritado pela esquerda, Bolsonaro fez sim um golpe. De mestre...»

«E você acredita neste suposto acordo? Desde quando a ovelha faz acordo com lobos? E mais. Se o acordo fosse para valer, seria o fim da oposição. O fracasso das passeatas da esquerda ontem está deixando a turma antibolsonarista com os cabelos em pé. Acha que ela vai deixar barato? Esse acordo tem toda chance de não vingar. E aí?»

«Aí Bolsonaro tem tudo para alegar que foram os outros que repudiaram seu aceno de paz. E partir para uma coisa que até um que não entende de pôquer conhece. Virar a mesa...»

Oswaldo Pereira

Setembro 2021

sábado, 19 de junho de 2021

PAPO DE BAR - O PASSAPORTE

 


«Oi Antonia, que bom te ver de novo aqui no ZanziBar...»

«Pois é... Pelo menos aqui o dono é consciente. Mesas distanciadas, máscaras obrigatórias. Tomara que venha logo o famoso passaporte e ele passe a exigi-lo para entrar aqui.»

«Não acredito... Você está falando do passaporte do vacinado?»

«É claro que sim! Por que? Você é contra?»

«Valha-nos Deus... Não me diga que você, tão ciosa das liberdades individuais, tão contra preconceitos e discriminações, seja a favor de uma coisa destas. Qual é? Vamos criar duas classes de cidadãos? Vai vir por aí mais um nós contra eles?»

«Para com isso! Aqui se trata de uma defesa da saúde pública. Pública, ouviu bem? De todos. As vacinas estão aí. Até o fim do ano, só não vacina quem não quer. E quem não quer, põe em risco os outros que preferiram se proteger...»

«Peraí. Me explica este raciocínio. Se esses outros estão vacinados, como podem estar em risco? Além disso, o que você está questionando é o direito de ir e vir. Só circula quem estiver devidamente munido do salvo conduto? Olhe que isto já aconteceu uma vez... Além de ser claramente anticonstitucional.»

«Não me venha com estas alusões baratas. Estamos numa pandemia, sacou? É uma situação excepcional. Campanhas de vacinação têm sido usadas sempre que há um perigo sanitário grave. Gripe, sarampo, febre amarela. Tente viajar para a Índia. Sem estar com o certificado de vacinação contra a febre amarela, não consegue. É um meio de proteção.»

«Eu não quero viajar para a Índia. Quero andar livremente pela minha cidade, entrar no ZanziBar, no metrô, no restaurante. Sem lenço nem documento, como dizia o Caetano. Sem ser obrigado a tomar vacinas...»

«Mas por que este negacionismo? Você já não tomou vacina contra tétano, difteria, hepatite, sarampo, tuberculose, paralisia infantil? Então...»

«Aí está. O termo da moda. Negacionismo... Tomei todas essas que você indicou. Mas, eram vacinas feitas como manda o figurino, testadas durante anos antes de serem aplicadas. Nós somos as cobaias dessas vacinas contra a COVID. Ninguém sabe o que pode acontecer. Aliás, quando o assunto é coronavírus, ninguém tem certeza de nada. Não existe Ciência, com C maiúsculo, formada sobre a COVID. É tudo achismo. Não nasci para rato de laboratório...»

«Achismo ou não achismo, é a proteção que temos. Podem não ter preenchido todos os protocolos, mas é o que temos. Há uma guerra, não há tempo para frescuras. Vai ver se numa tenda de hospital na frente de batalha, o médico vai exigir ambientes esterilizados para extrair uma bala. Agora, me diga com sinceridade. Digamos que você está entre entrar no ZanziBar, em que o dono exige que só frequentem clientes vacinados, e um outro bar que não está nem aí para isso. Por uma questão de proteção pessoal, qual dos dois você escolheria?»

«O que tiver o melhor chope. Preste atenção, Antonia. O que eu quero é exatamente isto. A liberdade de escolha. Siga o meu raciocínio. O Brasil tem 220 milhões de habitantes. Após 18 meses de pandemia, tivemos 15 milhões de casos de contaminação e 500 mil mortes. Portanto, as minhas chances são de 6% de ser infectado e de 0,2% de bater as botas. Prefiro este risco ao risco de vacinas experimentais.»

«Estatísticas são bonitas quando acontecem com os outros. Quando acontece com você ou com quem você ama, o percentual é 100%. Eu, por mim, vou logo vacinar e tirar o passaporte. E só vou querer do meu lado quem fizer isto...»

«Quer dizer, se eu não estiver devidamente documentado, nós só vamos conversar...»

«Pelo WhatsApp...»

 

  Oswaldo Pereira

Junho 2021

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

PAPO DE BAR - VACINAS


 «Antonia?! Ué, aqui no ZanziBar? E a quarentena?»

«Bem, achei que com cuidados, máscara, distanciamento das mesas, álcool gel na entrada, mesas higienizadas, dava para arriscar. Afinal, ninguém é de ferro.»

«Beleza! Assim a vida vai voltando ao normal. O homem não foi feito para viver entocado. Parodiando Fernando Pessoa, conviver é preciso. Está na hora de abrir as janelas, retomar o mundo em nossas mãos. Gozar novamente a vida.»

«Menos, Cézar, menos. Não está na hora de, mesmo inspirado por Pessoa, sair por aí à grande e à francesa, como se diz na terra dele. O bichinho continua fazendo estragos. Viu o que aconteceu na Espanha, na Inglaterra? Deram mole, e a infecção está voltando. Não tem lido as notícias?»

«Leio e não leio. Muita paranoia. OMS, imprensa, doutores de cenho carregado apregoando o apocalipse. Agora, com o inverno às portas do hemisfério norte, a profecia sinistra da segunda onda. Prefiro ligar a TV a cabo e assistir a um bom filme...»

«Típico de você. Cinismo e ceticismo podem ser chiques numa mesa de bar. Para mim, o perigo está aí. Ainda não soou o all clear. Só mesmo com a vacina.»

«E você vai tomar?»

«Se puder, vou ser uma das primeiras. Quero ficar logo protegida.»

«Você agora me deixou confuso. Tem um medo que se pela do vírus, mas se dispõe a tomar a vacina logo de caras?»

«É claro que sim!»

«E, se me permite perguntar, qual delas? A chinesa, a inglesa, a americana, a alemã, a canadense...»

«Qualquer uma. A primeira que ficar disponível. Por que? Você vai esperar para escolher?»

«Escolher? Deus me livre. Não vou tomar nenhuma delas.»

«Por que você tem de ser o mesmo inconsequente de sempre? Vacinas têm sido a grande defesa contra doenças, epidemias e...»

«Desculpe, querida, mas já vi que você se deixou levar pelo noticiário. Me deixa explicar o seguinte. Vacinas não são remedinhos para curar dor de cabeça ou prisão de ventre. São coisa muito séria e necessitam anos de pesquisa e testes para comprovar sua eficácia e, principalmente, a ausência de efeitos colaterais gravíssimos. É preciso entender que a vacina, na realidade, consiste em inocular em você o próprio vírus que pretende combater, acompanhado de agentes que provoquem em seu corpo a reação dos anticorpos que irão eliminá-lo e que passarão a fazer parte do seu sistema imunológico. Para que isso aconteça com segurança, são precisos anos de pesquisa para chegar às combinações ideais das dosagens. E, a partir daí, visto que cada ser humano é diferente do próximo, anos e anos de testes até chegar a um produto que possa ser usado por toda a gente sem problemas. Normalmente, uma vacina, como a antipólio, a BCG, contra a tuberculose e as demais, contra endemias como sarampo e varíola, por exemplo, levaram no mínimo mais de oito anos para serem aprovadas.»

«OK. Muito bem. Mas o COVID está aí matando centenas de milhares. Não temos como esperar. Quer você acredite ou não, há quase uma certeza de que vai haver mesmo uma segunda onda. Ou até uma terceira. E porque não imaginar que os laboratórios, desta vez, conseguirão encurtar com segurança os prazos?»

«Ora, Antonia, os laboratórios estão de olho nos zilhões de dólares que irão faturar. Serão bilhões de doses, enfiadas boca abaixo, ou braço adentro, da população mundial. Eu fora.»

«E se for obrigatória? E se você só puder circular, viajar, afinal, conviver, se tiver o papelzinho, atestando que você se vacinou, no bolso?»

«Me rebelo. Grito e esperneio. Me nego.»

«Tipo Revolta da Vacina? Foi em 1908. Isto é que é um retrocesso...»

«Andar com um salvo conduto no bolso me lembra da Alemanha Nazista. Outro retrocesso...»

«Então, se correr o bicho pega.»

«E, se ficar, o bicho come. Por falar nisso, o que vamos pedir para comer?»

 

Oswaldo Pereira

Setembro 2020

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

PAPO DE BAR - MÍDIA




«Que absurdo! Coitados dos candidatos do ENEM. Um estresse desnecessário. A primeira prova do Governo Bolsonaro e esta confusão...»
«Menos, Antonia, menos. Afinal, foi apenas um engano na correspondência dos gabaritos em algumas provas. Nada de grave.»
«Nada de grave?! E a ansiedade, o medo, a inquietação dos pobres estudantes? Isto não é coisa que se faça!»
«Sim, mas o erro já foi identificado e corrigido.»
«É, pode ser, mas este episódio é mais um ponto negativo na atuação desse Ministro que, francamente...»
«Ponto negativo? Pelo amor de Deus, Antonia. Você já viu quantas provas foram prejudicadas?»
«Claro, são milhares...»
«São 0,15% do total. Me diga o seguinte. Vamos dizer que você compra 5.000 pregos e 7 vêm com defeito. Você vai fazer um escândalo por causa disto?»
«Para com esta analogia cínica, Cezar. Estudantes não são pregos e...»
«A analogia está perfeita. Quatro milhões de provas e cinco mil dão zebra. Isto não é um desastre e nem comprova a ineficiência do processo, por mais que a nossa imprensa queira fazer parecer.»
«A imprensa tem o direito e até o dever de denunciar os erros e as incompetências dos órgãos públicos. Não me diga que agora você é a favor da censura nos noticiários?»
«Me respeite, Antonia. Essa surrada retórica de que a imprensa pode fazer de tudo, acobertada por um suposto direito divino de dizer o que pensa, não cola. O dever da imprensa é fazer um jornalismo sério, e não publicar reportagens fora do contexto. Tratar este episódio do ENEM como uma tragédia nacional, como fez a Globo, dedicando mais de 30% de seu Jornal Nacional a apontar os gravíssimos erros do Ministério da Educação, é mau jornalismo.»
«Mas não se esqueça que é esta mesma imprensa que chama a atenção para coisas que merecem a atenção da sociedade, como essa delirante mise-en-scène do Secretário da Cultura. My God! Parafrasear Goebbles numa hora desta? O cara fez até um penteadinho para ficar mais parecido...»
«Já foi demitido.»
«É. Mas houve uma certa hesitação do Governo. Só quando as reclamações apareceram de todo o lado é que não houve mais jeito. Graças à pressão da imprensa, viu?»
«Talvez. E é compreensível. Afinal, era uma bobeada do Governo. E a mídia brasileira adora isso. Até você tem de admitir que ela se posicionou contra o Bolsonaro desde o início.»
«E daí? Este é o papel dela. E a imprensa tem de ser livre para...»
«Não vamos começar de novo...»

Oswaldo Pereira
Janeiro 2020

terça-feira, 24 de setembro de 2019

PAPO DE BAR: CARNE DE VACA



«Estou cada vez mais encantada com Portugal...»
«Não me diga que você vai ajudar a engrossar o êxodo de brasileiros para lá...»
«Ué...talvez. Mas, não é sobre isto que eu queria falar. É sobre a notícia que li ontem. O Reitor da Universidade de Coimbra proibiu a venda de carne vaca nas cantinas. Não é fantástico?...»
«Fantástico?! Bem, não vi nada de fantástico. Vai ver é porque servir bolinhos de tofu e saladinhas deve sair mais barato aos cofres da Universidade do que bifes...»
«Deixe de ser o cínico de sempre, Cezar. Não tem nada a ver com custos. É uma maneira de reduzir o consumo carne bovina e ajudar o planeta. O metano liberado pelo gado vacum é um dos grandes poluidores da atmosfera. O próprio governo português já tem planos de reduzir o rebanho do país em 30% até 2050. De novo, não é fantástico?»
«Já vi tudo, Antônia. Você continua a entrar nessa onda do apocalipse climático. Não vê que isto é uma grande bobagem? Mesmo que Portugal mandasse matar todo o seu rebanho, isto seria cagagésimo da população mundial de bois e vacas. E os rebanhos da Argentina, dos Estados Unidos? Não me consta que os argentinos estejam se preparando para abolir a parillada, ou os americanos o seu querido barbecue dominical. Para não falar na Índia, onde o animal é sagrado. Centenas de milhões deles vagam livres e intocados pelo continente indiano, a depositar suas fezes onde bem entendem. Que me perdoe o douto Reitor de Coimbra, mas isto é inócuo.»
«Não é. E é isto que você não entende. Não interessa a quantidade. É um exemplo. Uma mensagem. Qualquer ajuda serve. Cada um tem de dar o seu contributo, mesmo pequeno, para salvar a Terra.»
«Às expensas do pobre estudante que vai ficar sem o seu prego na frigideira...»
«Ora, se ele não pode passar sem isto, que vá ao restaurante mais próximo.»
«Não é bem por aí, Antônia. As cantinas universitárias não são uma rede de lanchonetes em que o gerente pode decidir o menu. Foram destinadas a prover refeição subsidiada aos alunos. A maioria depende disto para manter seu parco orçamento e tem direito a um cardápio que procure atender a todas as preferências.»
«Mesmo que isto ponha em risco a humanidade?»
«Risco?! Pelo amor dos meus gatinhos, que risco, Antônia? O grande poluidor não são nem o gado e nem o metano. É o CO2. Noventa porcento da poluição atmosférica vêm da queima de combustíveis fósseis. O problema não é a vaca. É o carro. São as grandes centrais elétricas movidas a petróleo. E isto dentro o conceito discutível de que a ação do homem é que está mudando o clima...»
«Como é que é? Eu não acredito que você ainda tenha dúvidas sobre este assunto. Hoje mesmo na ONU todos os dirigentes mundiais estão concentrados em encontrar soluções que diminuam a agressão humana ao meio ambiente. E com os ouvidos abertos à pregação justamente enfurecida daquela menina norueguesa...»
«Sueca. Greta Thunberg é sueca. E, do meu ponto de vista, acho seu discurso meio exagerado. É emoção demais, apelos demais, até tranças demais... Sei não...»
«Meu Deus. Você está parecendo o Trump...»
«Não estou querendo insinuar coisa alguma, mas a mãe dela é ativista da extrema esquerda. Quem será que escreve os seus discursos?»
«E qual é o problema? O que ela diz, com ou sem interesses por trás, é verdadeiro. Algo tem de ser feito. E já.»
«Concordo. Que tal voltar a incluir um lombinho de vitela ao molho barbecue nos cardápios de Coimbra?...»

Oswaldo Pereira
Setembro 2019

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

PAPO DE BAR: ÀS ARMAS...




«Prá que que eu fui voltar...»

«Antonia! Mal chegou e já está reclamando?»

«Pois é, não estava mais aguentando o Trump. E depois da derrota do PT, resolvi voltar para o Rio. Mas, mal chego...»

«Qual é o problema? Você não sente a renovação no ar? Menos ministérios, pessoas técnicas em suas áreas substituindo as indicações políticas, enxugamento da máquina, reformas sendo propostas... Não é um começo saudável?»

«É... pode ser... mas esta da liberação das armas me derrubou. Que insensatez é essa?»

«Insensatez?! Prá começo de conversa, o que houve foi uma flexibilização maior de um direito que sempre existiu. A posse de armas nunca foi proibida, desde que atendidos os regulamentos de registro e propriedade. Pensando bem, a nova legislação até aperfeiçoa o que antes havia. Agora, o cidadão tem de ter seus antecedentes examinados, precisa fazer um curso de uso da arma, tem de ser morador em áreas estatisticamente perigosas. É um avanço.»

«O inferno está cheio de boas intenções, Cezar. Você acha mesmo que este protocolo todo vai ser observado tintim-por-tintim? Como diz o Batman, santa ingenuidade...»

«Ora, por que não acreditar? E não me diga que você concorda com a situação que temos, os bandidos com um bruto arsenal e a sociedade desarmada?»

«Claro que não concordo, mas o que se está fazendo é uma inversão de valores. É como aquela história de dois garotos preparando-se para uma briga. Um deles tem um porrete nas mãos. O que você faz? Tira o porrete da mão dele, ou dá um porrete também para o outro? O que podia ser uma briguinha de socos e pontapés transforma-se numa coisa muito mais violenta e perigosa... O que o Governo tem de fazer é acabar com a bandidagem e garantir a segurança do cidadão comum.»

«Não me venha com fábulas. A bandidagem, como você chama, não acaba assim, de uma hora para outra. É evidente que o Governo também vai ocupar-se disto, mas leva tempo. Tem de se tentar tudo para assegurar a defesa do povo. Dar-lhe um meio de se defender pode inibir as ações de violência da criminalidade.»

«É, mas em compensação, a violência doméstica pode aumentar. Com o feminicídio nos níveis em que já está, o que impede um marido bêbado de usar seu revólver contra a mulher ou, numa discussão acalorada de uma reunião de condomínio, um cabeça quente ir até seu apartamento e voltar com um pau de fogo na mão? O povo, que você quer ver defendido, não é composto de santos justiceiros e bem-intencionados. É gente, às vezes com os nervos à flor da pele. E, please, não me venha com a alegoria do liquidificador do Lorenzoni...»

«Bem, o que ele quis dizer é que a culpa da violência não é só da arma. Quando o indivíduo é mau, ele irá praticar um ato violento com ou sem arma. Por outro lado, o cidadão de bem, armado, terá a chance de se defender e proteger sua residência.»

«Agora, você me confundiu. Você acha mesmo que o seu cidadão de bem, mesmo com suas eventuais aulas de tiro, vai ter alguma chance contra um bandido que entra na sua casa? O ladrão convive diariamente com a sua arma. É sua ferramenta de trabalho. E você, no recesso de seu lar, não anda todo o tempo com a sua na cintura, feito um cowboy. O bandido já entra com a dele na mão. E se você tiver crianças em casa e, de acordo com a nova legislação, for obrigado a guardar a sua em um cofre? Imagine a cena. Ó seu ladrão, espere um pouquinho enquanto eu acerto a combinação do segredo e...»

«Você, então, é adepta do nunca reagir, política adotada nestes últimos anos... E que nos trouxe à situação de hoje, uma sociedade com medo, à mercê de qualquer borra-botas, às vezes até desarmado, que infunde um terror tão grande que as pessoas entregam tudo sem discutir...»

«Não sei, não sei... Tem de haver uma solução. Só acho que esta não vai funcionar.»

«Vamos ver. As estatísticas vão nos dizer...»

«Desde que nós dois não façamos parte delas...»

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019

sexta-feira, 19 de maio de 2017

PAPO DE BAR - WHATSAPP


Há vários regimes políticos. Se você pensar bem, o ideal seria se o todo o povo de uma nação, reunido numa grande praça pública, pudesse escolher o destino de seu país, o bem-estar de sua gente, as práticas mais adequadas às suas esperanças e suas necessidades.

É claro que isto não é prático nem viável. Numa agremiação humana de qualquer tamanho, a única solução possível é a entrega do comando a uma elite governativa que, de preferência, transforme em leis e ordenações aquelas práticas e vele pelo seu cumprimento. Tem sido assim, desde os egípcios até hoje, em todas as sociedades.

A divergência é COMO escolher esses líderes. As formas têm sido várias. O poder de decidir os destinos de um povo é, desde as cavernas, um atrativo poderoso para o ser humano. Detê-lo significa conduzir, mandar, ordenar, estar acima do comum dos mortais. E, desde os faraós até a Revolução Francesa, a disputa pelo comando envolveu todos os métodos de luta, traição e esperteza que a mente humana é capaz de engendrar.

A partir do final de século XVIII, uma ideia que vicejara por breves instantes nas polis gregas começou a atrair os novos citoyens emergidos após 1792. Lembrava a miragem da grande praça, da congregação de cidadãos escolhendo livremente seu destino. O Governo definido por Lincoln. Do povo, para o povo, pelo povo. Democracia.

É esse o regime político que temos. Sonho de consumo da maioria das sociedades organizadas de hoje e adotada no Brasil entre hiatos e turbulências desde a proclamação da República, a democracia brasileira voltou com grande estardalhaço e esperança ao fim do regime militar. Vocês notaram que escrevi democracia com D minúsculo.

É porque o que nós temos hoje aqui é uma forma imperfeita. Democracia não é um presente, uma concessão, uma festa. Democracia pede mais do que dá. Demanda profunda conscientização política e dedicada educação cívica. Requer a disciplina constante na vigília dos atos públicos, o trabalho minucioso de decidir com critério quem vai receber nosso voto. E, principalmente, exige que exerçamos a eterna vigilância

Há décadas não fazemos nada disto. Votamos rápido para ir à praia. Esquecemos rápido em quem votamos. Alguns votam por interesses pessoais, para ganhar uma dentadura, para fazer favor a um amigo, para de repente ganhar uma vantagem. Deixamos correr solto. Elegemos e reelegemos com abandono figuras sombrias ou “salvadores da pátria” cínicos e desonestos. Votamos “por protesto” em macacos e palhaços.  

O que temos hoje, assim, não é apenas um grupo de políticos corruptos no poder. É muito pior. É todo um SISTEMA político corrompido, no qual ninguém ingressa sem pagar o pedágio de corromper sua alma. Cientes de sua impunidade, oferecida de bandeja pelo desinteresse da nação, criaram um planeta próprio, erigido em gabinetes municipais, antessalas estaduais e palácios federais. Inexpugnáveis.

Enquanto não nos dermos conta da nossa própria culpa e ficarmos transferindo o débito a eles, como se nos tivessem sido impostos por marcianos, ao Governo ou até a Pedro Álvares Cabral não chegaremos a lugar nenhum. Nunca.

Oswaldo Pereira
Maio 2017

sábado, 5 de novembro de 2016

DEMOCRACIA





«Antônia?! Ué, de novo aqui no ZanziBar? Veio de vez ou de férias?»







«Nem uma coisa nem outra, amigo. Vim votar...»








«Como é que é?! Tás brincando. Você se abalou dos States e veio para o Rio votar?! Em quem, posso saber?»

«Em ninguém, votei nulo nos dois turnos.»

«Agora eu me perdi de vez. Você voou dos Estados Unidos até aqui para votar e anulou o voto?  Peraí, é alguma pegadinha, não é?»

«Que pegadinha coisa nenhuma. Vim exercer meu direito como cidadã brasileira e carioca. Votar. Exprimir democraticamente minha vontade. Participar do processo. Usar as prerrogativas constitucionais que meu país me confere para demonstrar meu repúdio aos candidatos e... Por que você está abanando a cabeça, falei alguma besteira por acaso?»

«Antônia, my darling, estes meses lá no nosso grande irmão do Norte devem ter mexido com a tua linda cabeça. É compreensível. Estar vivendo na maior democracia do mundo, ainda mais agora, em plena campanha para a Presidência, assistindo ao grande espetáculo midiático, às convenções partidárias, aos gloriosos debates, ao...»

«Deixe de ser o cínico de sempre. Qual é o teu problema, cara? És contra a Democracia? Vai ver, preferes algo mais bolivariano, ou até gostas do Fidel...»

«Menos, Antonia, menos... Você sabe que não é nada disto. É que você, como muita gente que conheço, confunde Democracia, com D maiúsculo, com isso que temos aqui.»

«E tem diferença? Democracia é um conceito único, significa a mesma coisa, aqui, nos States ou na Conchinchina. É o governo do povo, pelo povo e para o povo.»

«O God! Lá vem você com o discurso do Lincoln. Por que não citar também Sócrates e Platão? Você está se esquecendo de um pequeno detalhe. Democracia pressupõe que o povo tenha consciência de sua responsabilidade na hora de eleger os seus representantes, aqueles que irão governar em seu nome. Que se predisponha a exercer uma permanente vigília sobre a atuação de seus eleitos. Que saiba profundamente quem eles são, e não se basear só nas baboseiras que dizem na hora da campanha eleitoral. Que estabeleça uma relação de causa e efeito entre a qualidade de seu voto e o tipo de legislação que irá governar seu dia-a-dia. Saber que seu futuro, imediato ou a longo prazo, vai depender da sua escolha.»

«É não é isto que temos hoje? O povo indo livremente votar, o espetáculo de um dos maiores colégios eleitorais do planeta exercendo o seu direito?»

«A imagem é linda, mas não é bem assim. Prá já, o voto aqui é obrigatório e...»

«Então, e não é o certo? Obrigar as pessoas a fazer a escolha, a entrar no jogo democrático, força-las a decidir, a participar da vida nacional...»

«É claro que não! A maioria vai votar como se fosse desincumbir-se de uma obrigação chata. Vota rápido e sem pensar, para ir logo à praia. Dez minutos depois, sequer se lembra em quem votou. Se o voto fosse voluntário, só os que estivessem preparados, e interessados, iriam participar do processo de escolha. A qualidade do voto seria muito maior.»

«Discordo. Inteiramente. A obrigatoriedade do voto faz com que as pessoas acabem aprendendo a mecânica, e a importância, do voto universal. O único caminho para a boa democracia é a má democracia. É um processo, um aprendizado. Não foi Churchill que disse a Democracia é a pior forma de Governo, excetuando-se as demais?»

«Churchill, Lincoln... Você está hoje cheia de citações. Vou lhe dar uma. A Democracia muitas vezes significa o poder nas mãos de uma maioria incompetente. George Bernard Shaw. Sabe o que ele queria dizer? Que sem educação, a Democracia pode ser um desastre.»

«Meu Deus. Só falta você citar o Pelé. O brasileiro não sabe votar. Me poupe.»

«Bem..., não adianta ficar aqui discutindo. Vai voltar para Nova Iorque?»

«Só se o Trump perder. Se ele ganhar, espero que me citem dizendo. O americano não sabe votar....»


Oswaldo Pereira
Novembro 2016