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quarta-feira, 7 de setembro de 2022

INDEPENDÊNCIA: ÀS MARGENS DO RIACHO...

Sete de setembro, quatro da tarde. A comitiva vinha de Santos.

Era mais uma etapa de um périplo que começara a treze de agosto, dia da partida do Príncipe, que deixara a Corte para apaziguar ânimos na Província de São Paulo. Mas, os ânimos não estavam em paz em lugar algum. Havia uma agitação pressaga, um explodir de conflitos que contrapunha um reino europeu a um país em gestação.

Nos mais de seiscentos quilômetros percorridos por D. Pedro e sua comitiva, nos caminhos e nos lugares de pousada ao longo da estrada, o assunto não fora outro. O empuxo das forças antagônicas, exacerbado desde o momento em que o Príncipe Herdeiro resolvera desobedecer às ordens portuguesas e permanecer no Brasil, caminhava para o seu desfecho.

A comitiva não era grande. Uma guarda de quatorze cavalarianos dos dragões, alguns ajudantes e conselheiros, entre eles o Padre Belchior de Oliveira, a quem o Príncipe tinha em alta estima. Haviam decidido fazer um alto às margens de um riacho, antes de seguir para a capital da Província. Os soldados haviam-se dispersado nas margens para aguar suas montarias e comprar mantimentos numa venda ali perto.

Foi aí que os mensageiros Paulo Bregaro e Antônio Cordeiro encontraram a comitiva. Traziam quatro cartas. De Portugal, vinham duas. Uma das Cortes portuguesas e outra do Rei. Do Rio, as que haviam sido escritas por José Bonifácio e D. Leopoldina. Pressentindo o que estava para escutar, D. Pedro pediu ao padre Belchior que as lesse.

O Príncipe era um homem impulsivo, em nada condizente com seu signo, um libriano explosivo e, se hoje fosse, talvez classificado como bipolar. Com 23 anos, embora temperado pelos deveres do ofício, ainda obedecia aos arroubos da idade. Verdade também seja dita que as pressões que o destino lhe havia imposto nos últimos meses eram um desafio até para o mais cauteloso e comedido governante.

Padre Belchior nem precisou terminar a leitura. O Príncipe arrancou-lhe as cartas portuguesas das mãos, amassou-as e atirou-as ao chão. E agora, Padre?, perguntou. Sua irritação era evidente.  Feria-o principalmente o tom de menosprezo que vinha das Cortes de Lisboa. Chamavam-no de rapazinho. Segundo o relato do próprio Belchior, ele teria continuado. Pois vão ver quem é o “rapazinho”. Não quero mais nada do governo português. Proclamo o Brasil separado de Portugal.

Os soldados da guarda perceberam que algo estava acontecendo e se acercaram. Ainda segundo o Padre, D. Pedro montou e, dirigindo-se aos cavalarianos, repetiu em tons mais exaltados o que dissera antes e, num gesto simbólico, arrancou as fitas azuis e brancas, as cores do reino, de seu chapéu. Os soldados fizeram o mesmo. O momento havia chegado.

Quando a comitiva entrou em São Paulo, a notícia chegara antes. Havia um reboliço pelas ruas principais da cidade, sacadas com panos dependurados, à moda das procissões, acenos, gritos e vivas. O destino do Brasil, e de D. Pedro, estava selado. Dizem que, durante a tarde, ele encomendou a um artífice paulista a confecção de um distintivo com bordas douradas e as palavras “Independência ou Morte” para ser aplicado em seu uniforme.

Começava o Primeiro Império. Mas as notícias levaram dias para serem conhecidas. Na Corte do Rio de Janeiro, só após dois dias; nas outras capitais de províncias, muito mais. Lisboa só soube do acontecido duas semanas depois. E, no novo país continente, nem tudo e nem todos reagiram da mesma forma. A emancipação política ainda iria exigir muita determinação para consolidar-se.

Oswaldo Pereira

Setembro 2022

domingo, 28 de agosto de 2022

INDEPENDÊNCIA: O PRÍNCIPE REGENTE



Em abril de 1821, D. João VI partiu. Seu filho D. Pedro ficou como Regente. Talvez ele já percebesse que vários caldeirões cozinhavam interesses opostos e poderosos e que iria caber a ele a missão de prevenir que o caldo entornado pela ebulição do momento lançasse o Brasil num caos imprevisível e e irreparável.

Para já, duas forças antagônicas se preparavam para o confronto. Em Portugal, a Revolução do Porto, o mesmo movimento que definira o retorno do Rei a Lisboa, havia iniciado o processo de implantação de uma monarquia constitucionalista. O mesmo programa tratava da situação econômica do reino, exigindo que as benesses concedidas por D. João à ex-colônia fossem revogadas. Com efeito, a abertura dos portos havia propiciado aos agricultores brasileiros colocarem seus produtos no mercado europeu, via Inglaterra, e permitia a entrada, livres de entraves de importação, de mercadorias cujo consumo já entrara no quotidiano das gentes daqui. A continuação dessa situação, que implicava a perda de uma significativa receita de impostos, era inadmissível para os portugueses da nova Constituinte.

Em termos políticos, a proposta era rendilhar o território brasileiro, criando várias províncias diretamente subordinadas à coroa portuguesa e retirar todo o poder central do Rio de Janeiro. E, é claro, exigir o retorno imediato de D. Pedro a Lisboa.

Aqui, o movimento era inverso. Acostumados ao novo status de sede de um império, os brasileiros não conseguiam aceitar um retrocesso. A revogação das práticas de livre comércio iria reduzir drasticamente o lucro dos fazendeiros; a fragmentação da unidade política do país iria diminuir imensamente a importância da corte carioca, onde todo o jogo do poder era feito. Inicialmente, a independência nem estava em pauta. O que se pretendia era preservar o instituto político do Reino Unido e promover a participação de deputados brasileiros na Assembleia Constituinte portuguesa. O Partido Brasileiro, então criado, chegou a diplomar 70 representantes, dos quais 49 chegaram a ir a Lisboa. Mas, o esforço foi inútil. Nenhuma das suas reivindicações foi aceita.

No centro destas duas irreconciliáveis correntes estava D. Pedro. Se, de um lado, ele reconhecia suas obrigações como herdeiro do trono português, do outro se sentia cada vez mais envolvido pela crescente insatisfação dos líderes brasileiros com a insensibilidade de Portugal às propostas de manutenção do status quo. Afinal, o Príncipe vivia no Rio e seus ouvidos estavam mais perto das vozes que o defendiam.

O tempo era outro fator. A ideia de fragmentação do território brasileiro encontrava eco em várias regiões, como na Bahia e, principalmente, em Pernambuco, que olhavam com inveja e desconfiança a preponderância política da corte fluminense. O exemplo da divisão da América Espanhola em várias nações era próximo e a ameaça à integridade do Brasil era real e iminente.

No meio desse torvelinho, duas figuras começaram a protagonizar seu decisivo papel como influenciadores de D. Pedro, além da lembrança das palavras de seu pai, que o aconselhara a se antecipar, e liderar, qualquer movimentação imparável em direção à emancipação brasileira. Uma era José Bonifácio de Andrada e Silva. Nesse início do século XIX, Bonifácio personificava como ninguém no país a imagem do sábio conselheiro, homem de ciência e que acumulara uma indisputada fama de experiente administrador durante os 30 anos que vivera na Europa.

A outra era D. Leopoldina. Princesa austríaca, cunhada de Napoleão Bonaparte e mulher de D. Pedro desde 1817, Leopoldina tivera uma esmeradíssima e eclética educação, coisa que os Habsburgo tinham como regra desde que seu avô, Leopoldo II, instituíra  a praxe de tornar os seus descendentes aptos a governar, inspirados pelo desejo de fazer o povo feliz. Além disso, Leopoldina, desde o momento em que pôs os pés no Brasil, decidiu adotar a nova pátria como sua e o povo como seu. Quando Portugal deu início às providências para sufocar os anseios brasileiros e determinar o retorno do casal a Lisboa, a lealdade da Princesa já havia escolhido seu caminho.

O grande ponto de inflexão ocorreu em janeiro de 1822. O nível de pressão chegara a um limite intolerável; as paredes de um torno pareciam fechar-se sobre D. Pedro. Quando, em nove daquele mês, por influência quase que direta de Leopoldina, ele decidiu ficar no Brasil, as pontes estavam queimadas. Não haveria mais retorno.

Daí para a frente, até agosto, a ideia da independência dominou todos os meios políticos brasileiros. Mas, ainda havia dissenções. E foi para apaziguá-las que, no dia 13, D. Pedro viajou em comitiva para São Paulo, não sem antes, numa evidente prova de confiança na sabedoria de sua mulher, nomear, por decreto, Leopoldina como Regente. Em 2 de setembro, a Princesa reuniu o Conselho de Estado. Na reunião, decidiu-se que era impossível aguardar pelo retorno do Príncipe para o grande e definitivo passo. Aprovou-se, assim, enviar duas missivas a D. Pedro. Uma, escrita por José Bonifácio; outra por D. Leopoldina. Ambas diziam que a hora havia chegado. Ao final da sua carta, a Princesa escreveu: O pomo está maduro; colhe-o já, antes que apodreça.

O correio com as duas cartas encontrou D. Pedro e sua comitiva, no dia 7, numa parada para descanso às margens do riacho Ipiranga, a poucas horas da capital da província.

Oswaldo Pereira
Agosto 2022


segunda-feira, 15 de agosto de 2022

INDEPENDÊNCIA: A PARTIDA DO REI

 


Meus poucos, mas abnegados e pacientes, leitores brindaram-me com um surpreendente e expressivo interesse em minha recente postagem sobre o bicentenário da nossa independência. Correndo o risco de parecer repetitivo, animei-me a aproveitar mais o tema e tentar entender o que foram estes últimos 200 anos de um país que, segundo Tom Jobim, não é para principiantes.  

Primeiramente, faz-se importante perceber o que era o mundo ocidental (já que o Oriente muito pouco tem a ver com o que se passava do lado de cá) em 1822. A Europa estava saindo do furacão napoleônico; Waterloo pusera um ponto final numa era de profundas perturbações há apenas sete anos. Ainda havia muita ferida para lamber, muita reencenação no teatro do velho mundo, muita fronteira para ser redefinida, muitas casas reais fragilizadas procurando manter-se acima da linha do desgaste. Para usar uma surrada frase, o continente europeu nunca mais seria o mesmo.

Portugal, evidentemente, não poderia ter ficado imune.  A própria rivalidade entre franceses e ingleses havia jogado o império português em rota de colisão com Bonaparte. O destino apontava como inevitável a mesma sina de outras vítimas do expansionismo da França napoleônica: a entrega da coroa a algum irmão ou marechal de Napoleão. Mas, aí aconteceu o inédito. D. João VI foi para o Brasil.

Até então, nenhum rei colonizador havia posto seus pés em suas colônias. A chegada da corte portuguesa e sua permanência no Brasil, mesmo após a derrota final de Napoleão, foram fatores mais que decisivos para a história comum luso-brasileira. Com o fogo da emancipação se alastrando pela América Latina, em grande parte alimentado pela independência dos Estados Unidos menos de cinquenta anos antes, era inevitável que a mesma chama se acendesse por aqui.

Em 1820, Portugal estava em ebulição. A ausência prolongada de seu rei criara um redemoinho de interesses e uma quase revolução havia defenestrado o Marechal Beresford, o regente nomeado por D. João para chefiar seu governo. Paralelamente, o absolutismo agonizava em toda a Europa; para as casas coroadas, tinha início o processo de corrosão que, eventualmente, iria destruí-las no início do século XX. Enfim, D. João VI tinha de voltar.

Essa percepção acabou por criar aqui várias correntes antagônicas, que iam desde aqueles que defendiam a permanência da corte no Rio de Janeiro aos que queriam vê-la partir. Todas, entretanto, tinham origem na profunda insegurança com relação ao futuro do país. E todas comungavam do mesmo pensamento: não seria mais admissível o Brasil voltar à condição de colônia.

Tente imaginar o espírito do rei português ao se preparar para partir. Ia ao encontro de pressões terríveis, de uma corte hostil e ressentida do longo abandono, de ventos estranhos que sopravam no continente. E deixava para trás uma nação em gestação. Sagaz como era (já escrevi vários textos sobre a fascinante personalidade de D. João VI), ele já intuíra – o processo de independência era imparável. E essa sagacidade ficou evidente no que fez, antes de embarcar. Contrariando toda e qualquer regra da cartilha do absolutismo colonizador europeu, ele instruiu seu filho, o Príncipe Pedro, a, na hora certa, cooptar o movimento e liderar o processo, antes que algum aventureiro (em suas supostas palavras) o fizesse.

Assim, em abril de 1821, enquanto as âncoras do navio com seu nome eram recolhidas e a viagem de regresso de D. João VI tinha início, começava o capítulo final da participação do Brasil no Reino Unido de Portugal e Algarves. D. Pedro, por decreto do pai, ficava para trás como regente e com sua missão. Daí, até setembro do ano seguinte, a escalada da emancipação brasileira seguiria seu destino.

Oswaldo Pereira
Agosto 2022

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

A CIÊNCIA DO CAFÉ

 


Campo Maior é uma vila raiana (ou seja, situada na zona de fronteira entre Portugal e Espanha, conhecida como La Raya) e fica no Baixo Alentejo. Sua população não chega a 8 mil habitantes, mas, a cada quatro anos, uma grande e peculiar festa atrai dezenas de milhares de turistas às suas ruas e praças. É a Festa das Flores. Nesses dias, todos os logradouros públicos da pequena localidade são enfeitados por miríades de flores de papel, de todas as cores, todos os matizes e todos os tamanhos. É um empreendimento que consome milhares de horas de trabalho, do qual participa a quase totalidade da população campo-maiorense. Um soberbo e delicado espetáculo que já foi tema de uma postagem minha (quem quiser, pode acessá-la neste LINK      ). Mas, não é só isto que Campo Maior tem a oferecer a seus visitantes. A cidade foi o lugar escolhido para a instalação do Centro de Ciência do Café.

Com o esmero que os portugueses sempre empregam quando se trata de preservar sua história, o Centro é um primor de organização informativa, contendo uma imensa coleção de objetos ligados ao cultivo, ao desenvolvimento e à transformação do fruto vermelho na infusão mais bebida em todo o mundo. E, é claro, possui uma completa e esmerada exposição sobre as origens, a difusão e a história do café, desde as pastagens de cabras da Etiópia, no século VI, até os dias atuais, em que mais de 10 milhões de toneladas de grãos são consumidas anualmente (só na Finlândia, o maior consumidor per capita do planeta, cada habitante bebe, na média, 12 quilos de café por ano).

E é especialmente fascinante saber como o hábito de sorver o delicioso líquido negro se espalhou pelos continentes ao longo do tempo, saindo da sua Etiópia original, passando pela Arábia e pela Turquia, até, no século XVI, conquistar a Europa. Como não podia deixar de ser, a exposição dedica especial atenção à entrada de Portugal neste caminho.

No início do século XVIII, a produção de café e sua distribuição no mercado europeu eram praticamente um monopólio, detido pela Holanda e pela França. Os dois países controlavam estritamente o plantio das mudas, principalmente as localizadas nas suas colônias na América do Sul, as Guianas. Ocorre que, em 1727, o rei D. João V ordenou ao Governador do Estado do Grão-Pará que enviasse um emissário à Guiana Francesa, com o objetivo de exigir a cessação de violações dos limites fronteiriços estabelecidos pelo Tratado de Utrecht (o rio Oiapoque). Mas, não só. Numa recomendação sigilosa, o Governador entregou a Francisco de Melo Palheta, o Sargento-Mor indicado para a missão, o seguinte bilhete:

E se acaso entrar em quintal ou jardim ou Rossa ahonde houver cafee com pretexto de provar alguma fructa, verá se pode esconder algum par de graons com todo o disfarce e com toda a cautella, e recommendará ao dito Cabo que volte com toda a brevidade e que não thome couza nenhuma fiada aos francezes nem trate com elles negocio.”

O SARGENTO-MOR FRANCISCO PALHETA

Palheta, entretanto, não encontrou nenhum local disponível para surrupiar os tais grãos, dado o estrito controle que Claude Guillouet d’Orvilliers, o Governador da Guiana Francesa, exercia sobre o produto. Nesse momento, entra uma história de sedução. Dizem que o nosso Sargento-Mor caiu nas graças (e nos braços) de Madame d’Orvilliers que, romanticamente e às escondidas do marido, colocou bagas de café num buquê de flores oferecido por ela a Palheta na hora de seu retorno ao Pará.

A partir daí, todo mundo conhece a história. O Brasil se tornaria o maior produtor mundial de café e, em boa parte de sua trajetória econômica, dependeu quase exclusivamente de suas exportações para arrecadar divisas estrangeiras.

Quem diria... Tudo isto decorrente de um romance de alcova.

Oswaldo Pereira
Maio 2022

quarta-feira, 5 de maio de 2021

A MORTE DE NAPOLEÃO

 


Às cinco e meia da manhã do dia 21 de junho de 1815, Napoleão chegou a Paris. As notícias o haviam precedido. Três dias antes, o exército francês perdera a última batalha sob o seu comando e Waterloo escrevera o capítulo final de uma era.

(Quem desejar ler sobre Waterloo, é só acessar estes dois links. LINK1 LINK2)

Se quisesse, talvez o Imperador ainda conseguisse arregimentar as tropas do Marechal Grouchy, que estiveram ausentes do confronto, e alguns regimentos sobreviventes. Eram homens leais e, certamente, ainda obedeceriam à sua liderança. Mas, para que?

Em Paris, esperava-o um ambiente hostil. As Casas do Parlamento, sob influência direta de Joseph Fouché, o Duque de Otranto e Ministro da Polícia, já se haviam preparado para rechaçar qualquer iniciativa de resistência por parte de Bonaparte. O Imperador hesitou. Talvez estivesse cansado, exaurido depois de tantas lutas, ou, quem sabe, chegara à conclusão de que nada valeria mais a pena.

Foi conduzido, escoltado, para o Palácio de Malmaison, enquanto tinha início uma frenética atividade diplomática para decidir seu destino. Os prussianos queriam sua extradição para poder executá-lo. Os ingleses, entretanto, temiam um mártir.  E foi através desta janela de negociação que as autoridades francesas procuraram resolver a incômoda situação da permanência de Napoleão em França. Seu nome ainda tinha o poder de levantar as gentes; muitos no país ainda nutriam uma total veneração por ele. Temiam um levante.

Assim, em 15 de julho, exatamente um mês após Waterloo, o Imperador foi levado para o porto de Rochefort e embarcou no Bellerophon com destino à Inglaterra. Segundo relatos, havia lágrimas nos olhos dos marinheiros franceses e gritos de Vive l’Empereur ainda ecoavam pelo cais.

Seu desejo era ser deportado para a América, e lá viver com uma identidade falsa. Mas isto, é claro, lhe foi negado. Muito menos viver em solo britânico. Os ingleses não queriam que o episódio de Elba se repetisse. Assim, no dia 7 de agosto, puseram-no no navio Northumberland com destino a um dos mais remotos lugares do planeta.

NAPOLEÃO COM DESTINO A SANTA HELENA

A ilha de Santa Helena é um minúsculo território de 172 quilômetros quadrados, pouco mais de um décimo da cidade do Rio de Janeiro, perdido no meio do Oceano Atlântico. O lugar mais perto, a costa de Angola, fica a 1.200 milhas de distância, longe o bastante para afogar para sempre a mitomania que cercava Napoleão.


Os ingleses permitiram que alguns ferrenhos admiradores, como o Marechal Bertrand, o ajudante de ordens Charles de Montholon, e seu camareiro Emmanuel Las Cases o acompanhassem no exílio. William Balcombe, empregado da Companhia da Índias Orientais, amigo de longa data e morador em Santa Helena, cedeu sua casa para a comitiva.

Em 1816, entretanto, essas pequenas regalias foram cortadas. A Inglaterra enviou, para o posto de governador da ilha, Sir Hudson Lowe. E Lowe detestava Napoleão. Os seguidores foram deportados e o prisioneiro transferido para uma casa fria, inóspita e cheia de ratos, chamada Longwood House.

Sozinho, aí Napoleão viveria até o fim. Sua rotina de isolamento quase total era a antítese de sua vida em seus tempos de glória. Acordava às 10 e meia da manhã e pouco saia de casa, escrevendo ou lendo em total recolhimento. Jantava às 7 da noite. Quando Las Cases ainda estava na ilha, era seu companheiro num jogo de cartas após o jantar. Depois, nem isso. À meia noite, ia para a cama.

Embora o clima de Santa Helena fosse saudável, a solidão e o abandono foram minando um estado de saúde que já se deteriorava muito antes de Waterloo. Napoleão já enfrentava, há tempos, problemas de próstata, hemorroidas e um quadro complicado de úlceras estomacais. A perda de um poder quase absoluto, a ausência das emoções vividas intensamente nos campos de batalha e no fausto de sua corte, agravadas pelo esquecimento e a traição amorosa de sua mulher Marie-Louise, nada fizeram para melhorar esse quadro.

A partir do fim de 1817, os sintomas começaram a piorar. Dois médicos que o visitaram chegaram a solicitar um abrandamento das condições rudes em que ele vivia. Mas Lowe, rígido e imbuído de suas funções de carcereiro de um dos maiores adversários da Coroa inglesa na História, manteve-se inabalável.

No início de 1821, a queda física acelerou-se. Em março, já não saia mais do leito. Em abril, ditou seu testamento. E, às 5:49 da tarde do dia cinco de maio, após falar algumas palavras desconexas (Mon Dieu... La France... Mon fils... l’Armée), morreu.

CAMA DE NAPOLEÃO EM SANTA HELENA


Até hoje se especula sobre a causa de sua morte. O mais provável terá sido um câncer de estômago. Falou-se também em envenenamento por arsênico, mas nada ficou definitivamente provado.

Os ingleses enterraram-no na ilha, numa tumba retangular cuja única inscrição eram as palavras Ça Gît (Aqui Jaz). Dezenove anos depois, os franceses resgatariam o corpo, que hoje repousa nos Invalides.

Seu legado está na História. O maior terá sido a construção da França moderna. A administração pública, o Código Napoleônico, o Banco de França e o sistema financeiro, as academias militares, a universidade centralizada. Por outro lado, suas batalhas deixaram 500.000 mortos e feridos entre os franceses e mais outros tantos desaparecidos ou aprisionados.

Passados duzentos anos, Napoleão paira acima das paixões. Um homem que mudou o mundo e o seu tempo.

Oswaldo Pereira

Maio 2021

 

sexta-feira, 2 de abril de 2021

ABRIL DE 1821

 


Em abril de 1821, uma enorme agitação permeava o ambiente político português. A permanência do Rei D. João VI no Brasil já não era mais uma realidade aceitável. Napoleão fora derrotado, definhava na ilha de Santa Helena e, no ano anterior, um movimento palaciano em Portugal havia deposto o Marechal Beresford, o regente nomeado por D. João. Uma junta provisória assumira o poder e passara a exigir o retorno imediato do Rei a Lisboa.

Quando o brigue Providência aportou no Rio de Janeiro em maio daquele ano, trazendo as notícias da rebelião e das exigências das cortes lisboetas, várias correntes começaram a se formar, tendo como pano de fundo o enfraquecimento do poder real e a expectativa sobre o futuro imediato do Brasil.

Havia três grupos de opinião. Os portugueses liberais, que pediam a partida de D. João, os lusitanos absolutistas, cuja escolha era o envio de um representante a Lisboa, no caso, o Príncipe D. Pedro e os brasileiros, que pleiteavam a permanência de toda a família real no Rio.

Com o passar dos meses, enquanto, caracteristicamente, D. João VI tentava contemporizar e adiar sua partida, vários movimentos começaram a eclodir pelo país afora. A percepção de que, com a eventual partida da Corte portuguesa, o Brasil experimentasse a perda da importância que adquirira em 1808, ao ser elevado praticamente à posição de sede do império luso, motivava os levantes.

Em março de 1821, o Rei via os acontecimentos pressioná-lo como as paredes de um torno. Aqui, o movimento pela independência, tornado maduro pela insegurança com que os brasileiros enxergavam os acontecimentos em Lisboa, aumentava. Lá, uma feroz campanha contra o absolutismo monárquico e os ventos libertários que sopravam com força no continente europeu ameaçavam sua coroa. D. João amava o Brasil. E foi com imenso pesar que, em abril, se viu obrigado a partir.

Num dos primeiros textos que escrevi neste blog, eu fiz uma elegia a D. João VI. Para mim, foi um dos mais esclarecidos soberanos de seu tempo. E esse discernimento fez com que ele, antes de partir, e ao se convencer de que a independência brasileira era uma questão de pouco tempo, instruiu seu filho Pedro a cooptar o movimento e a, eventualmente, provoca-lo.

A saída do novo país do Reino Unido Brasil, Portugal e Algarves foi o primeiro Braxit da História.  E com, pelo menos, o encorajamento ou a complacência de D. João.

Exatos duzentos anos depois, será que somos dignos desse amor e dessa clarividência?

 Oswaldo Pereira

Abril 2021

quinta-feira, 25 de julho de 2019

LUA 50 ANOS



Numa entrevista concedida à revista LIFE, logo após o fim da missão Apolo XI, Neil Armstrong, quando indagado pelo repórter a que atribuía ele a férrea determinação que o guiara em sua vitoriosa carreira como piloto e astronauta, respondeu que sempre acreditara na ideia de que todo ser humano tinha um número finito de batidas do coração. E terminou dizendo que seu lema era never waste any heartbeat. Nunca desperdice qualquer delas.

Esta versão do motto latino carpe diem guiou a vida de Armstrong desde sua infância numa cidadezinha de Ohio até sua morte em 2012, aos 82 anos e culminou na madrugada do dia 21 de julho de 1969, no momento em que, tirando o pé do degrau mais baixo da escada externa do módulo lunar Eagle, tornou-se o primeiro ser humano a pisar na Lua.

E eu, com os olhos grudados numa TV em preto e branco, assistindo à cena, via também desenrolar na memória o fascínio que o sonho da conquista do espaço havia exercido sobre a minha infância e juventude. Faço parte da geração criada na magia das histórias em quadrinhos, dos mundos desvendados por Flash Gordon, por Brick Bradford. O Superhomem e o Capitão Marvel atravessavam as galáxias como quem ia ali na esquina e o que mostravam era um universo intrigante e pleno de aventuras.

O cinema, ainda engatinhando seus efeitos especiais, deslumbrava-nos com seu Techicolor exagerado e seus canhestros monstros vindos do espaço profundo. Ao ver as imagens entrecortadas dos primeiros deslocamentos de Armstrong num chão cinzento, lembrava de mim em 1950, aos 10 anos, caminhando com meu pai após ter assistido ao filme Destination Moon (Destino à Lua) e ouvir seu vaticínio de que isto só seria possível no ano 2000.

Mal sabia ele que, apenas 19 anos depois, estaríamos presenciando a promessa virar realidade. Temos a Guerra Fria para agradecer. A ferrenha disputa por prestígio internacional entre russos e americanos fez com que ambos os lados destinassem imensos recursos humanos e materiais na corrida para a Lua e abreviassem o futuro.

E assim, naquela madrugada quente (entenda-se, eu estava em Portugal) de 21 de julho, senti pela primeira vez que eu fazia parte da raça humana, quando o locutor informou que, naquele momento, um bilhão de pessoas, à época um terço da população terrestre, assistiam ao mesmo momento pela televisão. Éramos uma só tribo. De 50 anos para cá, nunca mais senti algo parecido.

Então, que os teóricos da conspiração me perdoem. Não há a mínima hipótese de que aquilo tenha sido fake. Nem havia tecnologia para engendrar uma armação deste quilate. Havia, sim, a competência extraordinária e a coragem insana da gente que dedicou corpo e alma à maior empreitada da Humanidade até hoje.

Oswaldo Pereira
Julho 2019

domingo, 6 de janeiro de 2019

JANUS





Fiquei aguardando a poeira de 2018 baixar. Mesmo assim, reconheço que ainda é próximo demais para avaliar um ano, mormente um ano tão complexo como o que terminou há dias. Como as grandes vidas, só o distanciamento do tempo dá a correta medida de sua análise, de sua compreensão e de seu julgamento. Mas, não custa arriscar...

Há dias, li algo sobre o deus Janus, a divindade romana que acabou por batizar o nosso mês de janeiro. Janus tinha duas faces, que olhavam para direções diametralmente opostas. Para o passado e para o futuro. Assim, ninguém melhor para caracterizar o momento em que deixamos para trás um caminho percorrido e encaramos a estrada à frente.

Pois eu acho que 2018 teve um pouco de Janus.

Donald Trump chega à metade de seu mandato. Nos primeiros dois anos, teve um Congresso republicano apoiando-o. Não tem mais. A maioria democrata vai dar um novo ritmo ao seu Governo, cortando suas asas de pavão. Ou se enquadra, ou viverá um pesadelo que durará vinte e quatro meses.

Francisco chegou ao limite de sua irritação com a pedofilia de batinas e partiu para o confronto com o clero que a protegia. Vai bater de frente com anjos negros e demônios de púrpura, mas a história recente da Igreja Católica vai virar uma página.

As duas Coreias, de costas uma para a outra desde 1950, resolveram virar-se e dar as mãos. É claro que falta muito para uma convivência franca, mas é um começo. China, Rússia e Estados Unidos dão tratos à bola para tentar entender o novo mapa da península.

A Comunidade Europeia esgotou sua paciência com o Reino Unido. Não tem mais vem cá meu bem. É o Brexit de acordo com as leis que o regem. E os ingleses perderam o sangue frio e a fleugma que tanto os caracterizavam. E vão perder muito mais.

E aqui em Pindorama, precisa dizer alguma coisa? O improvável virou mito, a mídia das campanhas migrou para o WhatsApp, o brasileiro resolveu regurgitar todos os sapos que engolira em 16 anos. Deu no que deu. E vai dar mais. Imensamente mais.

Então, ao contrário de alguns anos, como 1968, sobre os quais corre a lenda de que ainda não terminaram, 2018 acabou. MESMO.

Salve 2019.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2019

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

BIOGRAFIAS





Semana passada, morreu um dos mais conhecidos diretores de cinema europeus, o italiano Bernardo Bertolucci. Da mesma privilegiada safra que revolucionou a arte de fazer filmes, Bertolucci pode ser equiparado sem reservas a Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Franco Zefirelli e Sergio Leone. Entre as décadas de 1950 e 1980, só para ficar na Itália, eles fizeram o diabo, reescrevendo o manual de como contar estórias através da telona, mudando o ritmo, espantando conceitos, revirando de pernas para o ar as regras da métrica adotada, desde os anos 30, por Hollywood.

Foram várias as homenagens, como não podia deixar de ser, a um mago da sua estirpe. Cenas de suas premiações anteriores, extratos de suas filmagens, mensagens de atores, críticos e colegas diretores inundaram os noticiários, mundo afora.

Em todas as suas alusões biográficas a Bertolucci, entretanto, a mídia internacional considerou como momento indispensável, como instante fulcral de uma carreira que teve exemplos de extrema maestria em 1900, O Céu Que Nos Protege, Beleza Roubada, La Luna e o premiadíssimo O Último Imperador, a tristemente famosa “cena da manteiga” de O Último Tango em Paris, em que Marlon Brando e Maria Schneider encenam um episódio de sexo anal. Presente em quase todas as citações à obra do grande cineasta, deixa a sensação de que, às vezes, a imagem para a posteridade de uma pessoa pública é construída a partir de um momento menor, um descuido inconsequente que se sobrepõe ao verdadeiro valor de uma obra extensa e meritória.

Se assim podem ser as biografias, eternizando talvez apenas dez por cento de uma vida de grandes conquistas, deixando para a poeira do esquecimento os outros noventa, fico pensando nos cuidados que alguém, colocado num pedestal que lhe assegura um lugar nos livros da História, deve ter para que o futuro o registre favoravelmente. E, aí, pensei em Michel Temer.

Como Presidente do Brasil, Temer certamente será uma rubrica nos alfarrábios pátrios. Daqui a centenas de anos, seu nome estará na lista de governantes brasileiros, como hoje encontramos os nomes de Deodoro da Fonseca, Floriano Peixoto, Prudente de Morais, Hermes da Fonseca, homens que fincaram sua marca no solo político nacional. Todos têm seus verbetes nos compêndios bibliográficos. Qual será o verbete de Michel Temer? Será que ele se preocupa com isto?

Bem, pelos seus últimos atos, no ocaso de um governo inodoro, insípido e inoperante, parece que não. Ao aprovar um aumento inoportuno para os juízes do Supremo Tribunal Federal, cujo efeito em cascata onerará o orçamento da União em R$6 bilhões nos próximos anos, ceifando ainda mais o combalido estado de nossas infraestruturas na Saúde, na Educação e na Segurança, ele põe um ponto final vergonhoso em sua medíocre crônica pessoal.

E ao adicionar o post scriptum de um indulto de Natal que, praticamente, livra das garras da justiça algumas levas de corruptos, ele demonstra seu desapego quanto à imagem que deixará para o porvir. Em vez de rematar sua vida pública com honra, ele prefere o toma lá dá cá que o poderá proteger de ações penais que lhe deverão ser imputadas.

Um nojo.

Oswaldo Pereira
Dezembro 2018

terça-feira, 3 de abril de 2018

QUATRO DE ABRIL



Amanhã será 4 de abril. Para a maioria dos brasileiros que, de alguma forma e feitio, se interessam pelo futuro deste país, a data traz uma aura de expectativa. Amanhã, a Justiça desta terra se achará defronte a uma encruzilhada conceitual que poderá definir se estamos mesmo num Estado de Direito Legal ou Casuístico. Afinal, foram os próprios membros do Supremo Tribunal Federal que se auto conduziram para esta camisa de onze varas. Permeáveis a pressões, inconstantes em seus julgamentos e com os ouvidos abertos às ambições políticas, vários de seus ministros acabaram por permitir o julgamento esdrúxulo de um habeas corpus a um condenado em segunda instância. Rasgaram o Processo Penal e sua própria decisão de dois anos atrás.’

Será um problema da data?

No dia 4 de abril de 1968, três importantes curvas do destino deixaram marcas no chão deste planeta.

Simultaneamente lançado pela MGM no Warner Cinerama Theater, em Hollywood, e no Loew’s Capitol em Nova Iorque, estreava 2001: Uma Odisseia no Espaço. Fruto da reunião de dois imensos talentos, o escritor de ficção científica Arthur C. Clarke e o realizador de cinema Stanley Kubrick, o filme iria mexer com a cabeça de uma geração e inspirar uma descendência de produções que seguem a mesma trilha até hoje. Clarke tinha apenas uma ideia na cabeça e uma dúvida quando procurou Kubrick. Obcecado com a questão de por que uma determinada tribo de macacos pré-históricos havia dado o salto quântico e disparado na rota da evolução, o escritor ficou maravilhado com a solução do monólito negro proposta pelo cineasta. Bingo!

No mesmo dia 4, às seis da tarde, Martin Luther King estava na varanda do Lorraine Motel, em Memphis, quando foi morto pela bala de um fuzil Remington modelo 760.  As ondas de choque de seu assassinato reverberaram por uma nação dividida pelos conflitos raciais e pela guerra no Viet Nam. Mas, ele deixara uma mensagem e um recado. As batalhas pelos Direitos Civis foram muitas, houve avanços e retrocessos, mas hoje ninguém pode negar que a morte de King pôs os Estados Unidos no caminho de uma igualdade de direitos cujas leis, embora ainda desrespeitadas por muitos, são um marco contra o preconceito.

O terceiro acontecimento faz parte da minha crônica pessoal. No dia 4 de abril de 1968, estava eu à espera de dois amigos para almoçarmos juntos. Morando em Portugal, na época, viera ao Rio em férias, depois de mais de dois anos, e o local mais adequado para o encontro, já que ambos trabalhavam no Centro, foi a esquina da Avenida Rio Branco com Presidente Vargas. Para os mais esquecidos, é a praça onde se situa a majestosa Igreja da Candelária.

Em Portugal, vivia-se ainda sob o regime de Salazar. Aqui, era o Governo do Costa e Silva. Eu apenas trocara ditaduras, mas, que diabos, eu estava em férias e procurava ser apolítico.

A primeira sensação de que algo estava errado foi um aumento rápido e prodigioso de pessoas naquele local. E, não estavam de passagem. Vinham, e ficavam, como à espera de algo. Quando dei por mim, estava cercado por uma multidão incalculável, impedido de sair dali. Algumas faixas já apareciam. E, então, eu entendi. Era o dia da Missa de Sétimo Dia de Edson Luis Souto, um estudante morto dias antes e transformado, pela oposição ao Governo, num símbolo de resistência. Eu estava preso numa página da História.

A polícia veio, a cavalo. As cenas da dispersão na base de sabre e gás lacrimogênio correram o mundo e, até hoje, fazem parte dos documentários da época.

Isto tudo faz exatos 50 anos no dia de amanhã. 1968, um ano que para alguns não acabou, iria cumprir sua sina de divisor de águas, nos Dias de Maio na França, na Ofensiva do Tet no Viet Nam, no assassinato de Robert Kennedy, no massacre de My Lai, no nascimento da Tropicália, no lançamento do Álbum Branco dos Beatles, na assinatura do AI-5.

E 2018, como será?

Oswaldo Pereira
Abril 2018

quinta-feira, 15 de março de 2018

STEPHEN HAWKING




SEJA CURIOSO!

Esta é uma de suas muitas frases. Uma exortação para que as pessoas se interessem por tudo que as cerca, o solo em que pisam, o ar que respiram. O Universo onde moram. Pela vida, enfim. Afinal, a vida foi um bem que o destino quase lhe escamoteou muito cedo. A doença que o afligiu costuma matar em pouco tempo. Mas, com ele foi diferente. Com ele, a curiosidade inata posta a serviço de uma férrea vontade de viver fê-lo desabrochar para a ciência. Uma flor imperfeita, talvez. Mas, mesmo assim, ou talvez por isto mesmo, magnífica.

Nascido no mesmo dia da morte de Galileu e morto no mesmo dia do nascimento de Einstein, ele iguala as efemérides em importância e conhecimento. Nasceu em Oxford e morreu em Cambridge, além de ter ocupado a mesma cátedra de Isaac Newton. Assim, à curiosidade e à tenaz capacidade de sobrevivência, temos de somar Predestinação. Stephen Hawking tinha de ser o que foi. Um dos maiores cientistas da História Moderna.

Sua notoriedade teve início com a publicação do livro “Uma Breve História do Tempo”. Afinal, teses e teorias científicas haviam sempre ficado além da compreensão do homem comum. Suas conclusões pertenciam ao reino dos salões acadêmicos, de senhores encasacados e iniciados sisudos, de grossos volumes de árido linguajar. Hawking quebrou esta chave. Seu livro aproximou o rarefeito do cotidiano, traduziu o patuá intrincado das publicações entendidas apenas pelos membros da Academia para uma linguagem de café da manhã.

Ao mesmo tempo, Stephen Hawking aprofundou suas pesquisas em física quântica, cosmologia teórica e, principalmente, sobre os buracos negros. Sua incansável atividade intelectual despertou uma continuada admiração nas comunidades científica e leiga. Tudo isto confinado numa cadeira de rodas e progressivamente perdendo sua batalha contra a esclerose lateral amiotrófica que o apanhara aos 21 anos. No final, só os movimentos de seus olhos eram capazes de assegurar sua comunicação com o mundo.

Mesmo assim, Hawking não era uma unanimidade. Muitos cientistas o acusaram de ter-se transformado mais num espetáculo midiático do que num sábio. Outros refutaram muitas de suas terias sobre o Universo e sua negação da existência do Bóson de Higgs (alguém sabe que diabos é isso?...)

Hawking, entretanto, já está no panteão dos deuses da ciência. Seus livros, suas aparições na mídia e sua inconfundível figura emblemática o perpetuarão no mesmo céu onde vivem Galileu, Einstein, Newton e outros pais da ciência.

Oswaldo Pereira
Março 2018


domingo, 14 de janeiro de 2018

A REVOLUÇÃO RUSSA - FINAL



Rússia. 23 fevereiro de 1917, pelo calendário juliano. Pelo calendário gregoriano, em uso no resto do mundo ocidental, é o dia 8 de março. Dia Internacional da Mulher. No dia anterior, a Putilov, o maior complexo industrial de Petrograd, entrara em greve.

Logo cedo, as mulheres começam a aparecer nas portas das outras fábricas arrebanhando seus maridos. A paralisação do trabalho vai aumentando. Antes do meio-dia, mais de 50.000 operários marcham pela cidade. Seus gritos e seus anseios estão amadurecidos por anos de condições miseráveis de vida, da indiferença de quem detém o poder, da falta de futuro.

Longe dali, no comando do exército imperial, o Czar Nicolau II recebe as notícias da agitação na capital. Numa típica reação, manda uma mensagem para que a guarnição de Petrograd sufoque a manifestação. Confrontados com a possibilidade de ter de atacar uma multidão de trabalhadores, na qual há milhares de mulheres, os soldados se recusam e se amotinam. Nos dias seguintes, todos os setores da sociedade russa voltam-se contra o Czar. Nicolau tenta ainda voltar a Petrograd, mas seu trem é detido em Pskov, a quase 200 quilômetros de seu destino. Lá, forçado pelo chefe do Estado Maior das Forças Armadas e por dois deputados da Duma, ele abdica. No dia seguinte, tratado pelos guardas apenas como Nicolau Romanov, ele e sua família são levados prisioneiros para Tsarskoye Selo. A Duma, o parlamento criado em 1903, assume o poder e transforma-se no Governo Provisório.

Passada a euforia inicial, a situação vai delineando seus verdadeiros contornos. Na realidade, existem dois governos. A Duma, liderada por uma maioria composta de membros da nobreza e representantes capitalistas, e os Soviets. Lenin está de volta à Rússia e comanda, com seus bolsheviques, a imensa teia destes pequenos conselhos, espalhados por todo o país. Com o apoio incondicional da classe trabalhadora e dos camponeses, e com a crescente simpatia da classe média, essa formidável máquina política exerce sua oposição ao Governo Provisório fomentando greves, motins e protestos. É uma época de caos total.

A queda de braço continua por várias semanas. Mas aí, o Governo comete um erro fatal. Debaixo da liderança dos conservadores, resolve continuar a guerra contra a Alemanha. O desejo de um armistício que pusesse fim ao cruel tormento que os anos de combate haviam trazido para o povo russo era quase uma unanimidade num país sofrido e praticamente derrotado. A insensibilidade dos deputados é a chave de que Lenin precisa para galvanizar a população e colocar sua máquina em movimento.  Por essa altura, os seus soviets já contam em seus quadros com inúmeros integrantes de um exército demolido pelas derrotas cada vez mais frequentes. Logo, os conselhos viram milícias. E as milícias transformam-se na Guarda Vermelha.

Nas primeiras horas do dia 25 de outubro (7 de novembro no calendário gregoriano), a Guarda toma o controle das estações de telégrafo, das ferrovias e de vários pontos chave de Petrograd. As unidades militares da capital ou aderem imediatamente ao movimento ou recolhem-se em seus quartéis, sem oferecer resistência. O Chefe do Governo Provisório, Alexander Kerensky, ainda tenta obter o suporte de tropas estacionadas fora do perímetro urbano, escapando do cerco ao Palácio de Inverno ao volante de um Renault emprestado pela embaixada americana.

Em vão. Nada mais consegue impedir a maré vermelha. No começo da noite, os revolucionários entram no Palácio e Lenin, pelo telégrafo, envia a toda a nação um manifesto “Aos Cidadãos da Rússia”. O poder é dele.

Mas, os anos que se seguem não trazem tranquilidade. A radicalização dos meios empregados pelos bolsheviques ainda desagrada várias fatias da sociedade e contraria muitos interesses. O confronto é inevitável e, entre 1918 e 1922, a Rússia amarga uma brutal guerra civil entre os Vermelhos de Lenin e os Brancos, um amálgama heterogêneo de cossacos, oficiais do antigo exército imperial e um espectro de posições políticas que vai desde a extrema direita até socialistas mais moderados. Chega até a haver uma discreta ajuda militar por parte de países como a França, os Estados Unidos e o Japão, mas os Vermelhos acabam por vencer. É finalmente fundado o Partido Comunista e nasce a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

Será um experimento sócio-político-econômico que durará 70 anos e será exportado para o mundo, criando uma zona de influência e doutrinação em todos os continentes. Na terra onde se originou, passará por gigantescos pogroms, pelo flagelo da invasão nazista, pela Guerra Fria. Três gerações depois de Lenin, o experimento dará sinais de exaustão. O comunismo puro não se sustentará como solução definitiva para o bem-estar do povo e derivará para as várias versões de socialismo hoje adotadas mundo afora. A pergunta que fica é a seguinte. Será que valeu a pena?

Oswaldo Pereira
Janeiro 2018



quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

A REVOLUÇÃO RUSSA - PARTE III




Duma é uma palavra na língua russa que serve para designar uma assembleia com funções legislativas ou de aconselhamento. Desde o século XVIII, muitos destes órgãos foram criados a nível municipal em várias cidades do império e serviam, principalmente, para emitir editais que, na maioria das vezes, regulavam a vida comunitária dos feudos onde a nobreza exercia seu poder. Eram, no fundo, uma maneira pela qual os senhores feudais permitiam à pequena burguesia extravasar seus desejos e suas ideias. Desde que, evidentemente, não desafiassem os desígnios já traçados por eles.

Em 1906, acuado pelo imenso clamor deflagrado com a derrota do exército na Manchúria, pelo massacre da Praça Dvortsovaya e pelo motim do couraçado Potemkin, o Czar resolveu descer alguns degraus de seu absolutismo e aceitou a criação da primeira Duma Estatal. Na cabeça de Nicolau II, esse parlamento deveria comportar-se como as assembleias municipais que vira funcionar, isto é, um mero embuste, um jogo de cena, enquanto o poder real permanecia firmemente empunhado pelo trono.

Mas, no início do século XX, forças e vozes importantes já haviam ultrapassado as barreiras do medo e da repressão e tinham conseguido penetrar nos corredores dessa nova assembleia. Embora dominada pela aristocracia, a Duma passou a ouvir reivindicações cada vez mais profundas por melhorias das condições de trabalho, da vida no campo e nas casernas.

Embora tudo isso esbarrasse na insensibilidade férrea de Nicolau II, talvez esse sistema pudesse ter perdurado indefinidamente. Só que, em 28 de junho de 1914, dois tiros de um revólver FN modelo 1910, disparados a queima roupa por um bósnio chamado Gavrilo Princip, iriam mudar o mundo. E a Rússia.

O assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e de sua mulher, em Sarajevo, pôs em marcha uma engrenagem de interesses e conflitos que havia sido fabricada desde a ascensão dos impérios ocidentais europeus, florescida após a derrota de Napoleão. As casas reais da Alemanha, Inglaterra, Áustria, Turquia, Itália e a República Francesa mantinham um equilíbrio frágil de entendimento, possível apenas enquanto seus quintais coloniais estivessem assegurados. Os Bálcans, embora dentro da esfera do império austro-húngaro, eram um estopim de controvérsias que atraiam a atenção de alemães, russos, turcos e britânicos. Os tiros de Princip acenderam a mecha.

A Grande Guerra apanhou o império russo no seu mais delicado momento. O gigantesco esforço para municiar um exército ineficiente num conflito de proporções nunca antes vistas acabou por destruir a frágil equação econômica russa e lançou o país no abismo do desabastecimento e da fome. No front, reveses e mais reveses agravavam a calamitosa situação das forças russas e, em 1915, Nicolau II tomou uma decisão que iria tornar-se catastrófica. Resolveu, ele próprio, assumir a chefia dos exércitos imperiais. Esta resolução determinou seu afastamento da capital, Petrograd, o novo nome de São Petersburgo. A responsabilidade do Governo ficou nas mãos de sua mulher, a Czarina Alexandra.

Alexandra, além de não contar com a boa vontade do povo, era alemã de nascimento, o que suscitava desconfianças de que sua lealdade pendia para o inimigo. Outro fator perturbador era a estranha fascinação da czarina por Rasputin. Libertino, carismático e autoproclamado mago, Rasputin, com as promessas de curar a hemofilia do herdeiro do trono, o Príncipe Alexei, acabou por dominar Alexandra, tornando-se seu consultor e imiscuindo-se nas questões de Estado. Sob sua influência, a corrupção espalhou-se pelos corredores palacianos e a última tábua de salvação da Coroa, a nobreza, voltou-se contra os Romanov. O mago seria assassinado em dezembro de 1916 pelo príncipe Iussupov.

Durante todo o período anterior à Grande Guerra, embora a Duma continuasse a ser dominada pelos conservadores e por parte da aristocracia, o pêndulo político na Rússia deslizava rapidamente para a esquerda. Lenin finalmente conseguira dominar o Partido Social-Democrata. Além disto, edificara uma teia de conselhos operários (os soviets), cujo objetivo era regular as atividades industriais em todo o território russo, sob o lema de pão para os trabalhadores, terra para os camponeses e pela assinatura de um armistício com os alemães. Seu poder aumentava a cada dia.

Em fevereiro de 1917, cercado por todos os lados, rejeitado pelo povo, comandando os restos de um exército em decomposição e abandonado pela elite aristocrática, Nicolau II abdicou.

(continua)

Oswaldo Pereira

Dezembro 2017