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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

CHAMAS


Portugal arde. Califórnia também.

Não sei o que se passa nos Estados Unidos, mas por aqui esta nova tragédia faz despertar uma incontida ânsia de descobrir os culpados. As cenas do pinhal milenar de Leiria queimando como as fornalhas do inferno, os vídeos de carros apanhados numa armadilha de fogo, os relatos ao vivo de perdas irreparáveis tocam fundo. A magia do celular-câmera transforma todos nós em repórteres em primeira mão e a realidade escancara sua boca sem retoques ou photo-shops.  A pancada é direta no estômago. E provoca o regurgitar de dezenas de perguntas. Como pode isto acontecer? Por que isto aconteceu? A quem cabia não deixar isto acontecer? Quem falhou? E, da Natureza até aos serviços de proteção civil, passando pelo Governo, Câmaras Municipais, Bombeiros, Autarquias e Segurança Pública, uma longa lista de culpados se forma nos noticiários, nas opiniões dos experts de plantão e nas onipresentes redes sociais.

Estranhamente, fala-se pouco nos incendiários. E é mesmo de estranhar-se pois, mesmo se reconhecendo a situação propícia criada por um dos verões mais longos, quentes e secos do século, quinhentas ocorrências de focos de incêndio ocorridas num só dia (domingo passado, 15 de outubro), não pode ser obra só da mãe natureza. Ninguém parece atentar muito para a branda legislação que pune com penas reduzidas e apenas monitoramento individual os criminosos que, por descuido ou por vontade, disparam as chamas que matam e destroem incontáveis sonhos e vidas. O atear de um fogo precisa ser encarado como um ato de vilania e periculosidade comparável a um atentado terrorista. Seu dano pode ultrapassar a contabilidade hedionda de bombas, tiros ou atropelamentos praticados pelo terror urbano. Só neste ano, em Portugal, perderam-se milhares de habitações, centenas de propriedades rurais e de negócios. E uma centena de vidas.

Agravamento da legislação penal, reordenação da ocupação florestal, apetrechamento adequado dos meios de combate ao fogo, melhoria dos procedimentos de emergência são providências que o Estado Português vai precisar introduzir com profunda seriedade e eficiência. E rapidez. O verão acabou e as primeiras chuvas outonais vêm amansar a fúria do fogo.

Mas, o verão de 2018 está à espreita, logo ali, daqui a oito meses...

Oswaldo Pereira
Outubro 2017


terça-feira, 18 de abril de 2017

PRIMAVERA NO MINHO


É de repente, numa noite ao final de março. Enquanto todos ainda dormimos, a natureza acorda mais cedo e sai cobrindo de microscópicas folhinhas verdes os ramos das árvores recém-despertas do sono gélido do Inverno. Parece mágica. E é.

Quando saímos para a rua, ainda meio acabrunhados pela lembrança de ontem, quando os galhos lançavam seus dedos secos para um céu de chumbo e a esperança de dias coloridos parecia sepultada num frio teimoso, a sensação é de que alguém resolveu nos regalar um refinado mimo.

Para quem mora neste abençoado retângulo chamado Portugal, este presente chega todos os anos, pontualmente. E muito mais cedo do que nas outras terras deste e de qualquer continente. Tem todo o aspecto de ser uma preferência especial de algum deus, resultado de um pacto secreto e exclusivo com os heróis das descobertas, talvez por sugestão de Camões ou outro vate lusitano. Motivo, claro, de inveja e cobiça.

E se fosse só o verde... O que atiça ainda mais o ciúme das demais gentes, é que, logo em abril, o país inteiro, dos campos do Minho às escarpas do Algarve, das praias da Estremadura às profundezas do Alentejo, se transforma num imenso, ubíquo, magnífico e ilimitado jardim florido, desenrolando-se como um tapete de mil cores aos raios do sol perene. Não há varanda que não se encha de vasos e não derrame sua cascata de flores e perfumes, emprestando ao branco singelo das casas um ar vivo de festa.

Isto eu escrevi há já algum tempo, encantado, como sempre fico, com a chegada aqui da Primavera. Chegada, inclusive, é um termo fraco. É mais um surgimento, uma revelação. Uma epifania. Um milagre.

Este ano, fui de novo comprová-la onde ela mais se abre, onde um arco-íris de flores salpica com mais vivacidade campos e encostas sem fim. O Minho.

Pode ser uma reação atávica. Afinal, meu bisavô veio de lá, de Ponte de Lima, a vila mais antiga de Portugal, cujo foral foi concedido por D. Teresa, mãe de Afonso Henriques. Coitado. Fico imaginando os marços e os abris em que sua sina de emigrante deve ter-lhe castigado o coração na espera inútil de uma primavera que jamais voltaria a ver.

Talvez por isto mesmo, eu lá voltei. Para resgatar aquela imagem, saciar uma saudade ancestral, pisar as mesmas pedras por onde ele deve ter passado, amofinado talvez pela perspectiva de ter de cruzar o oceano e abandonar sua terra. Não o conheci, claro. Nem sei se partiu num abril. 

Mas, foi como voltar a um passado que não vivi e levar um futuro que ele não pôde vislumbrar, ambos banhados por um sol de Primavera.

Oswaldo Pereira
Abril 2017



quinta-feira, 13 de abril de 2017

ALMADA NEGREIROS



Amanhã comemoram-se os 100 anos do “Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do século XX”.  Este manifesto, um repto furioso à Sociedade de então, foi lido por seu autor, um jovem de voz alta e dramática no palco do Teatro São Luiz, em Lisboa. Seu nome era José Sobral de Almada Negreiros, nascido 22 anos antes na ilha de São Tomé.

A maioria das gentes conhece Almada Negreiros apenas por seu icônico retrato de Fernando Pessoa sentado à mesa de um café e desconhecem o artista total que ele foi ao longo de sete pródigas décadas. Desenhista, escritor, poeta, dramaturgo, pintor, conferencista, coreógrafo, além de ator e bailarino bissexto, quase sempre polêmico e contundente em tudo o que fez, Negreiros cobriu um arco de manifestações artísticas de que se encontram pouquíssimos paralelos na produção cultural do século XX.

Surgindo a público pela primeira vez em 1913, como caricaturista satírico na imprensa lisboeta, Almada Negreiros logo foi atraído pelo torvelinho vanguardista, despontando como a expressão mais reconhecida do futurismo em Portugal. Como todos os jovens talentos de sua época, foi mergulhar numa Paris efervescente e alucinada, onde tudo estava para ser experimentado por uma geração absorvida pelo nihilismo deixado pela catástrofe da Primeira Grande Guerra e pela vertigem da life in the fast lane, a vida em alta rotação.

Mas Portugal foi sempre o habitat de Negreiros, para onde ele voltou logo no início de década de 1920. Aí, seu multifacetado gênio explodiu num caleidoscópio de obras fantásticas, desde telas em que sua versatilidade o permitiu brincar com materiais que vão do óleo ao guache, à aquarela e ao grafite, até preciosas composições de painéis de azulejos e vitrais de igrejas. Simultaneamente, livros, ensaios poéticos e peças teatrais transbordavam de sua inesgotável força criativa. Esta força, em constante verter durante quase 70 anos, deixou para Portugal um imenso, vigoroso e extraordinário testemunho do fenômeno que foi Almada Negreiros.

Admirem.























Oswaldo Pereira
Abril 2017


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

OUTRO PORTUGUÊS


Uma semana após António Guterres ter assumido a Secretaria-geral da ONU, outro português vem ocupar as manchetes da imprensa internacional.  Desta vez, uma despedida.

Mário Soares, morto no passado dia 7 aos 92 anos, dominou o cenário político de seu país durante mais de vinte anos, desde que regressou do exílio dois dias depois da Revolução dos Cravos, na mesma revoada de outros expatriados pelo Estado Novo, romanticamente apelidada de “Comboio da Liberdade”, até o término de seu segundo mandato como Presidente da República, em 1996.

E mesmo depois disto, apesar de ter sua importância atenuada por alguns revezes eleitorais e se declarar afastado da política ativa em 2006. Seu nome era grande demais para ser descartado. Assim, sua presença continuou a ser sentida ainda no avançar de sua idade e na corrosão natural que os mitos sofrem com o passar dos anos.

E, ironicamente, é a morte que salva a memória dos homens históricos. À medida que suas ações, suas escolhas e seu legado vão resvalando do noticiário cotidiano para os arquivos do passado, sua imagem tende a crescer, a evocar uma reverência silenciosa, que talvez em vida não lhe tenha sido oferecida.

É como se ascendessem a outro patamar, o pedestal da posteridade perdoando seus pecados.

Mário Soares não é, e nem nunca foi, uma unanimidade. Mas, é um pedaço da História de Portugal, um importante pedaço de transição dos anos Salazar para uma democracia plena. Soares foi um dos artífices dessa transição. Por isto, não pode nem deve ser esquecido.


Oswaldo Pereira

Janeiro 2017

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

ALJUBARROTA



Que os portugueses respeitam o seu passado e procuram preservá-lo com cuidado e carinho, já todo mundo sabe. Neste modesto blog eu já me referi diversas vezes a isto.

No último domingo, eu tive mais uma agradável prova deste invejável sentido de preservação da História.

Muitas pessoas já visitaram o Mosteiro da Batalha. Situado relativamente perto do Santuário de Fátima, outra conta preciosa do rosário de lugares de importância cultural, de que Portugal é pródigo, o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, nome de batismo da magnífica construção em estilo manuelino, foi mandado erigir por D. João I em agradecimento aos céus pelo sucesso de suas tropas na batalha de Aljubarrota.

O que pouca gente já foi visitar é o local onde os combates realmente ocorreram. Fica a uns três quilômetros do Mosteiro e hoje abriga um Centro de Interpretação, magnífico trabalho de reconstituição de um evento determinante da civilização ocidental. A visita, que pode ser feita em não mais que duas horas, inclui a apresentação de um detalhado vídeo sobre os acontecimentos que desaguaram no confronto e, mercê de um excelente trabalho de computação gráfica, a recriação de todo combate.

Aljubarrota foi uma esquina do destino. E também foi, mais que tudo, a extraordinária vitória de uma estratégia inteligente sobre a força bruta. Possuído pela atávica ambição dos espanhóis de dominar toda a península, D. Juan I de Castela, que um ano antes quase conquistara Lisboa, ataca novamente em 1385.  Na tentativa anterior, quando conseguira sitiar a capital por quatro meses, fora derrotado por um surto incontrolável da Peste Negra e, deixando as fogueiras crematórias para trás, retirara-se.

Seu exército agora é maior e mais poderoso. A ordem é deslocar-se rapidamente e atingir de novo a capital. Do lado português, o Mestre de Avis, aclamado como D. João I meses antes, após uma conturbada disputa pelo trono, sabe que a cidade não conseguirá sobreviver a outro cerco. Tem de confrontar o inimigo antes que ele chegue ao litoral. Mas, onde? E como? As forças são cruelmente desproporcionais. D. Juan traz 40.000 homens, os melhores de seu reino, soldados profissionais e cavaleiros bem treinados. O máximo com que Portugal pode contar é com 10 mil, dos quais cerca de 4.000 camponeses, que nunca viram uma luta e portam apenas foices, pás e enxadas como armas.

Aí entra em cena o talento. Chamado pelo rei português a comandar suas inferiorizadas tropas, D. Nuno Álvares Pereira sabe que tem pelo menos uma vantagem. Escolher onde. Quem visita o local descobre logo a esperteza de D. Nuno. Aljubarrota é uma colina estreita, com acentuados desfiladeiros dos lados. É ali que ele desafia o inimigo, forçando-o a atacar. Para dar-lhe combate, as linhas da vanguarda castelhana têm de afunilar-se. E perdem a vantagem dos números. Caindo em pequenas covas dissimuladas, cavadas na véspera pelos portugueses, os cavalos espanhóis derrubam seus cavaleiros, agora à mercê dos arqueiros e besteiros de D. João. A batalha, que começara sob um sol inclemente de agosto, termina antes da noite. O que resta das forças castelhanas é dizimado pela população das redondezas.

Este é o drama que, com riqueza de detalhes e profusão de pormenores, o guia que nos leva a andar pelo terreno da batalha, nos conta. Em diversos pontos, cenas do acontecido, colocadas em lunetas cuidadosamente localizadas, nos dão uma viva perspectiva do confronto. Uma bela e inesquecível aula de história sobre um dia decisivo. Tivesse D. Juan de Castela vencido, o capítulo seguinte da Humanidade, as Descobertas, teria sido uma aventura exclusiva da Espanha.

E nós brasileiros estaríamos hoje a hablar español...

Oswaldo Pereira
Novembro 2016










quinta-feira, 27 de outubro de 2016

SÃO MARTINHO?



Era suposto ser uma noite de Outono.  Um ventinho já resvalando para uma nortada prematura, sugerindo um casaquinho de lã, alguns pingos de chuva fria, lágrimas de água deslizando no vidro das janelas hermeticamente fechadas, talvez até o aconchego de um aquecedor elétrico ressuscitado após os meses do verão.

Assim costuma ser. Este são os sinais que aparecem por aqui, nestes arredores de Lisboa onde vivo, toda vez que o ano se aproxima do final de outubro. Dois meses para o Natal. É a hora da Natureza começar a cantar suas canções nevoentas, a trazer o cinzento para sua paleta de cores, a pedir passos apressados em calçadas molhadas.

Qual o que. Nove horas da noite e vinte e oito graus (centígrados, naturalmente) no meu termômetro digital da varanda. Para o fim de semana, previsão de trinta. Como assim?!

Os portugueses mais velhos (engraçado eu escrever isto, os mais velhos, aos meus 76 anos...) avançam logo a versão de sua sabedoria: É o verão de São Martinho!

Martinho de Tours, soldado de cavalaria no exército romano, nascido na Panônia no século IV, jamais adivinharia que seu nome seria um dia associado a fenômenos meteorológicos. Mas Martinho foi um homem excepcional. Convertido ao Catolicismo, abandonou a vida militar, tornou-se um dos maiores evangelizadores da Igreja, catequizando a Gália Romana, e fundou uma comunidade de monges.

Porém, foi um acontecimento trivial ocorrido enquanto ainda era um legionário, transformado em lenda na transmissão oral dos cancioneiros da época, que catapultou seu nome para o panteão da sabedoria popular. Dizem que, atravessando os Alpes, vindo da Itália para assumir um posto militar da França, deparou-se com um mendigo que desfalecia de fome e tiritava de frio. Não tendo comida para oferecer, despiu-se de sua capa escarlate e, dividindo-a em dois com a espada, deu metade dela ao infeliz.  A seguir, o mau tempo abrandou e um sol fulgurante e tépido aqueceu a todos.

Martinho morreu aos 81 anos em 397. Foi sepultado em Tours, diocese de que era bispo, a 11 de novembro. O dia ganhou seu nome. E a crença de que, com a sua proximidade, opera-se a mágica de um outono que se veste de verão.

Um meteorologista de plantão irá certamente tirá-lo do devaneio da lenda e explicar que, no começo de novembro, o Anticiclone dos Açores ainda trabalha como se verão fosse e, somado ao ar quente que continua revolvendo as areias do Norte da África, traz para o Portugal Continental este calorzinho gostoso enquanto o resto da Europa já se contorce em ventos gélidos.

Você pode escolher em quem acreditar, mas, este ano, o fenômeno veio mais cedo. E mais forte. Aí, a turma do Apocalipse desautoriza São Martinho e os homens do tempo e invoca o mantra do aquecimento global.

Quero lá saber. Vou mais é aproveitando estas manhãs claras, esta brisa morna, estes poentes deslumbrantes, dádivas únicas desta terra benfazeja.

Oswaldo Pereira
Outubro 2016



quinta-feira, 1 de outubro de 2015

DIAS NO PARAISO





Nesta praia algarvia, os últimos versos deste verão ainda estão sendo escritos. Enquanto olho para o sul, o norte europeu já tira os agasalhos e os dias começam a diminuir. Lá o sol faz menos sombras, o vento que desce das montanhas parece sussurrar a frase-tema dos contos de George Martin. Winter is coming.

Não aqui.

Aqui o dia se alarga num azul sem nuvens e a vista se perde num horizonte aberto em cuja linha um barco se equilibra, elegante, preciso, certo de seu rumo. As ondas espraiam-se com preguiça, sem pressas nem compromissos, deslizando pela areia macia. Águas cujo arrepio dura apenas o segundo que o corpo leva para se acostumar ao abraço leve do mar.

Aqui o tempo parou. A tarde parece eterna. Entre os dedos das rochas claras, a pequena e delicada enseada é um pedaço do paraíso, um poema de sal e sol, um dueto composto pelo marulhar da maré mansa e pela cantata aguda das gaivotas.

Não, meus amigos. Eu não estou sonhando. Este meu arrebatamento meio piegas não foi fruto da imaginação nem de alguns copos de vinho a mais... Assim é o Algarve, a mais meridional região do Portugal Continental.

Uma dádiva, uma inspiração até para pseudopoetas menores como eu, uma criação topo de gama da Natureza, uma pincelada magistral de algum deus apaixonado.

Se você gosta da paz de olhos semicerrados a esperar por um poente vagaroso, do sopro de uma viração macia que amortece os ecos do cotidiano, da quenturinha que vem de um céu infinito, não há melhor escolha do que estes dias dourados de final de setembro nas praias mágicas do Algarve.


Oswaldo Pereira

Setembro 2015.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

AS FLORES DE CAMPO MAIOR




Papel, arame e cola. Mais a vontade do povo de Campo Maior. E assim, todo o centro histórico desta charmosa cidade do Alentejo cobre-se com um sonho colorido de flores artificiais, tão belas quanto as que a Natureza cria, regadas pelo orgulho de sua população.

Não é todo ano que isto acontece. O imenso esforço de logística, organização e trabalho, todo ele voluntário, determina que as Festas do Povo, nome mais do que adequado para esta magnífica celebração, só ocorram quando toda a comunidade o quer. Como na canção de Zeca Afonso, “o povo é quem mais ordena” na festa de Campo Maior. Nos últimos vinte e cinco anos, só sete edições tiveram lugar: 1989, 1995, 1998, 2000, 2004, 2011 e agora. 

Dizem que a primeira foi em 1909. Um casal campomaiorino encantou-se com a Festas dos Tabuleiros de Tomar, onde as ruas se engalanavam para a passagem dos cortejos, e trouxe a ideia para a sua aldeia. Naquele ano, só uma rua, a Rua Nova, foi enfeitada. Na festa de 2011, a compacta cobertura de flores espalhou-se por 104 logradouros e atraiu um milhão de visitantes. Pelo que pude ver quando lá estive na semana passada, estes números devem ter sido largamente superados em 2015.

Uma justa imodéstia resplandecia no rosto de uma vendedora de flores artificiais (existem centenas) com quem conversei. “Cada rua escolhe seu tema e fabrica a sua decoração. Como as escolas de samba no Brasil...”, disse-me ela, a saborear os elogios que todos faziam. Também segundo ela, a preparação levara longos cinco meses, em que a proteção contra a chuva e os ventos transformaram-se em tarefa constante. Mas, é claro, tudo valeu a pena.

O sonho de Campo Maior, atualmente, é utilizar os recursos arrecadados durante a festa (a entrada custa €4) para elevá-la à categoria de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Tomara que consigam.

Mas, palavras não chegam. O melhor é ver as fotos. E, se puderem os que desta vez lá não foram, não perder a próxima. Que será em...  Bem, só os campomaiorinos o sabem...

























































Oswaldo Pereira
Agosto 2015

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

PASSADO VIVO






Andar por Portugal é sempre um passado-presente. Do futuro, estão eles cuidando, os jovens e o destino. O presente está nas estradas novas, no vestir fashion da nova geração, nos últimos modelos de Audis e BMWs, nos onipresentes i-pads. 

O passado está na História, com agá maiúsculo, escrupulosamente guardada em castelos, mosteiros, cidades muradas, moinhos medievais, pontes romanas, árvores milenares.

Por exemplo. 

UMA OLIVEIRA DE 2.300 ANOS
Na porta da sede da indústria vinícola Bacalhôa, numa localidade que atende pelo charmoso nome de Vila Nogueira de Azeitão, está viva e imponente uma oliveira. Idade? 2.300 anos. Quer dizer, trezentos anos antes do início da era cristã, desta árvore brotaram azeitonas que provavelmente foram colhidas por algum faminto guerreiro celta, séculos antes de os romanos por lá chegarem. A dois quilômetros, está o palácio que, em finais do século XV, foi construído, a partir de um pavilhão de caça real, por Dona Brites. E quem era Dona Brites? Nada mais, nada menos que a mãe de D. Manuel I, o Venturoso, aquele que enviou as naus de Cabral para o Novo Mundo. Em 1528, foi regalado como régio presente a D. Brás de Albuquerque, filho do Vice-Rei da Índia. O presenteado era um autêntico playboy quinhentista, herdeiro de uma incalculável fortuna. Sua grande contribuição foi o belo recanto que mandou construir à frente de um espelho d’água e que, na crônica da corte, era apelidado de “casa do prazer”. Imaginem o porquê...
 
PALÁCIO DA BACALHÔA

PALÁCIO DA BACALHÔA
























CONVENTO DO ESPINHEIRO
A primeira aparição da Virgem Maria em Portugal não foi em Fátima. Foi em 1400, num espinheiro próximo da cidade de Évora. Em 1412, um oratório foi levantado no local tornando-se, a partir daí, um centro de peregrinação tão importante que, quarenta anos depois, o Rei Afonso V mandou erigir uma igreja e um convento, administrados pelos monges da Ordem de São Jeronimo. Mas, nem mesmo estas paredes tão impregnadas de santidade foram capazes de impedir um notório caso de sexo pré-marital. Em novembro de 1490, um outro Afonso, filho de D. João II e herdeiro do trono português, não resistiu aos encantos da princesa espanhola Isabel, sua prometida e, antes das bodas reais, “visitou” sua alcova no convento. Conta a lenda que os céus, indignados com a profanação, atingiram com um raio uma parte da Igreja, causando severos danos. O hotel de 5 estrelas em que hoje se transformou o magnífico conjunto tem o condão de transportar o hóspede para a Idade Média e para o encanto de suas lendas, ao mesmo tempo em que o permite fruir dos confortos do século XXI e de um delicioso breakfast.

HOTEL CONVENTO DE SÃO PAULO

E é continuar a andar em terras alentejanas mais um pouquinho em direção ao norte e chegamos à Serra d’Ossa, onde outro bocado do passado nos espera. É o Convento de São Paulo, construído em 1182 pelos monges da Ordem de São Paulo Eremita como um lugar de oração e recolhimento. Reis e rainhas passaram por ali, em busca talvez de inspiração divina ou de uma simples graça, que tornasse seu fardo de governante mais suave ou mais justo. Hoje passam os afortunados que escolhem o convento como pousada de descanso e contemplação, em meio ao silêncio das horas canônicas e a um dos mais notáveis acervos de azulejaria no mundo. São 54.000 azulejos, que adornam as paredes dos corredores, das escadarias e das capelas, livros abertos de cenas religiosas e mitológicas.

AZULEJARIA DO CONVENTO DE SÃO PAULO














É o passado trazido para o presente, para ser reverenciado, celebrado e conservado para o futuro.


Oswaldo Pereira

Outubro 2014

domingo, 21 de setembro de 2014

SETEMBRO





Setembro, aqui no hemisfério norte, marca o fim do verão. Isto todo mundo sabe. Mas, é o que todo mundo sente que me fascina.

É como se o mês fosse todo um poente, as notas finais de uma canção alegre, o fim da brincadeira. Os ecos das férias vão-se perdendo no azul de um mar já não tão manso, esfarelando-se no que antes era brisa e agora é vento. As praias se desbotam do colorido de chapéus de sol, salgados de maresia, que agora se recolhem ao escuro de algum armário, à espera do próximo verão.

O dia fica menor. Por uma ordem celestial qualquer, as cores da natureza mudam, trocam de sexo, perdem a alma viril do calor e vestem os tons sutis e femininos de céus rosa e carmim, de estrelas que nascem mais cedo, das bagas de uva que se entregam à colheita, gordas de sumo, de melões tardios mais doces que o mel, dos campos que renascem da secura estival.

Vindimas e vento, fim das miragens das praias douradas, renascimento. Isto é Setembro, da Finlândia até Portugal. Um mês em que as gentes reformulam seu guarda-roupa, sua agenda, seu ritmo. Quem vive nos trópicos, como nós cariocas, sem estações marcadas e num eterno verão, não chega a passar por isto com tanta nitidez.

É um intrigante espetáculo de comunicação e simbiose entre homens e natureza, o vestir simultâneo de cores mais sóbrias, o amaciamento dos sons e das cores, o aguçamento dos sentidos, antes encandeados pela luz do Verão. Fascinante.


Oswaldo Pereira
Setembro 2014


sábado, 25 de janeiro de 2014

ALCOCHETE







Reza a História que a Peste Negra mudou o destino de Alcochete. 

Provavelmente originária da Ásia Central, a terrível epidemia chegou à Europa, em meados do século XIV, pelos caminhos da Rota da Seda. Seu veículo transmissor foram as pulgas que infestavam os pelos dos ratos pretos, hospedeiros que proliferaram com fantástica velocidade num ambiente onde havia restos de alimentos, muita gente e nenhuma higiene. Atingindo o Continente Europeu pela Crimeia, foi dizimando indiscriminadamente, e com extrema rapidez e letalidade, os habitantes das cidades medievais em todos os países. Só entre 1348 e 1350, matou mais de 75 milhões de pessoas – um em cada três europeus. E continuou matando durante um século. Foi a primeira e única vez na História que a população mundial decresceu. Foram necessários 150 anos para que ela voltasse ao nível pré-epidemia.

IGREJA MATRIZ DE ALCOCHETE

Ninguém estava a salvo. Nem pobres, nem ricos, nem senhores, nem camponeses. E nem Reis. Mas estes, pelo menos, tinham mobilidade assegurada, e fugiam de suas capitais para refúgios em aglomerados menores, de bom clima e bons ares. Assim, D. João I, Rei de Portugal, resolveu transferir-se para uma pacata vila do outro lado do Tejo, onde o rio alargava a distância entre suas margens, criando um quase-mar plácido e ensolarado, e que parecia longe o bastante para protegê-lo das pulgas assassinas.

Esse lugar já era habitado desde o neolítico. Os romanos também haviam estado por ali, fabricando ânforas para transporte de alimentos. Depois, vieram os mouros. Sua atividade concentrou-se na agricultura, principalmente nos citrinos e, para irrigá-la numa terra de pouca chuva, criaram um sofisticado sistema de canais. Também construíram um forno, substantivo português cuja tradução para o árabe é al caxet. O nome ficou, mas os filhos de Alá foram varridos na reconquista cristã.

ESTÁTUA AO SALINEIRO - CENTRO VELHO
Alcochete encontrou, então, sua primeira vocação sustentada, a extração de sal marinho. Sal sempre foi sinônimo de pureza e, talvez por isso, tenha atraído D. João I. Pureza e ar limpo pareciam bons antídotos contra a Peste.

Por via das dúvidas, seus descendentes resolveram ficar mais umas quantas gerações no lugar, enquanto o perigo não se extinguia de todo. Graças a essa decisão, a vila prosperou, tornando-se um pólo salineiro e um movimentado entreposto, de onde partiam e aonde chegavam embarcações que atendiam a um próspero comércio de mercadorias. Tornou-se também berço de infantes reais da Dinastia de Avis. Em 1459, ali nasceu o mais famoso deles, pelo menos para nós brasileiros, o futuro Rei D. Manuel I, dito o Venturoso, cujas naus foram descobrir a Ilha de Vera Cruz.

POR-DO-SOL NO TEJO
Mas, nada dura para sempre. Os reis se foram quando a Morte Negra foi finalmente erradicada e, lentamente, a terra definhou. No século XIX, motivos de divergência política com Lisboa causaram-lhe a perda da autonomia municipal para a Aldeia Gallega, hoje Montijo, ganha ainda ao tempo da residência real. No século seguinte, sua postura historicamente antagônica ao Poder Central transformou-se em renitente resistência ao Estado Novo de Salazar, com suas previsíveis consequências. Paralelamente, o sal-gema já substituía com vantagens econômicas o sal marinho, a construção da então Ponte Salazar (hoje Ponte 25 de Abril) diminuía o fluxo do transporte marítimo entre a margens do rio e a poluição destroçava uma piscicultura quase artesanal. Nem vocação turística lhe sobrara, ofuscada pelas praias da Costa da Caparica.

Voltamos ao “nada dura para sempre”. Na década de 1990, outro evento veio salvar Alcochete. Graças a Deus, não era outra Peste. Era outra Ponte.

Construída entre 1994 e 1998, a Ponte Vasco da Gama viria desaguar na margem sul do Tejo a meros 4 quilômetros da cidade. De repente, Alcochete ficara vizinha de porta de Lisboa, a apenas 18 quilômetros do Parque das Nações e da Estação do Oriente, terminal de ligação de transportes terrestres urbi et orbi. Ou seja, um imã para quem trabalhasse na capital, em saturação imobiliária, e desejasse morar numa atraente suburbia.

Não deu outra. Em meses, a indústria da construção civil pôs-se a atender à demanda. Felizmente para todos, o bom senso prevaleceu e não houve o mesmo crescimento desordenado que transformara Almada e Barreiro em cidades-dormitório, com seus imensos blocos escuros de apartamentos tristes. Preservou-se o delicado e charmoso centro histórico, amenizou-se a fachada dos novos prédios, arborizaram e floriram as rotundas. Na entrada da cidade, instalou-se um dos mais famosos outlets da Europa, o imenso mall do Free Port, para o qual já há linhas de ônibus que trazem o turista sedento de boas barganhas diretamente do Aeroporto da Portela.


Os que têm mais tempo vêm saborear as iguarias que povoam os cardápios de uma variada oferta de ótimos restaurantes, atualmente elevando Alcochete à categoria de point gastronômico por excelência.



Acham que estou exagerando? Então venham conferir. De preferência no Verão, quando a Praia dos Moinhos se colore durante o Festival Internacional de Papagaios, as ondas brincam com os praticantes do kitesurf, a forte tradição taurina se reafirma nas touradas e largadas da Festa do Barrete Verde e o ar fino se mistura à perfumada fumaça que sobe dos assadores de sardinha espalhados pelas ruas do velho centro.

FESTA DO BARRETE VERDE
FESTIVAL DE PAPAGAIOS



FREE PORT OUTLET




Os Reis de Avis tinham razão.


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014