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sábado, 26 de novembro de 2022

A CASA DO DRAGÃO




Como já devo ter escrito algures aqui neste modesto blog, sou fã de carteirinha de George R. R. Martin. Para os menos interessados no tema, Martin é o autor da famosa saga literária A Song of Ice and Fire, obra que deu origem a uma das mais exitosas séries televisivas de todos os tempos – Game of Thrones (A Guerra dos Tronos).

A instigante prosa de Martin, inspirada por uma imaginação e uma criatividade que beiram o extraordinário, fez com que eu, e talvez milhões de outros leitores encantados, atravessassem com permanente interesse os cinco alentados volumes que compõem a coleção. São vários os atributos desse magnífico trabalho de ficção, entre os quais, e não só, o cuidadoso desenho dos personagens, o ritmo rápido e incessante do drama, a pintura dos cenários e o impressionante detalhismo da trama histórica e do mundo imaginário criado pelo escritor.

Para dar uma dimensão do cuidado quase obsessivo de Martin com os pormenores para trazer o mais perto possível da realidade seu ambiente ficcional, ao final de cada um dos livros mais de cinquenta páginas eram dedicadas a elencar todos os componentes dos clãs que povoavam o seu universo, mesmo aqueles que jamais apareceriam em cena; além, é claro, dos elaborados mapas ilustrativos dos continentes imaginados por Martin.

Talvez esta obsessão, somada ao imenso sucesso de Game of Thrones, tenha levado o autor a prosseguir com a trama, desta vez para trás, para os acontecimentos ocorridos centenas de anos antes do aparecimento dos personagens de A Guerra dos Tronos. O resultado foi a obra Fire & Blood (Fogo & Sangue), um “tijolo” de mais de 800 páginas. Como juramentado admirador do “mago” Martin, este modesto escriba aceitou o desafio de lê-lo.

Começando com a tomada de poder pelos Targaryan e a consolidação de sua hegemonia como soberanos dos Sete Reinos, o relato permeia três séculos, até encostar no presente da série anterior. Talvez por isso mesmo, nota-se um certo abatimento do ritmo frenético dos livros iniciais. A prosa é mais narrativa, como convém a um relato eminentemente histórico e quase didático, mas que amortece em certa medida o fulgor candente dos cinco volumes precedentes. Resumindo, é preciso ter a fé inabalável dos iniciados para completar a leitura.

Como não podia deixar de ser, a HBO está levando Fire & Blood para a telinha, e a primeira temporada foi lançada recentemente, em agosto passado. Com o nome de House of The Dragon (A Casa do Dragão), a experiência, como o livro que a inspirou, é uma versão mais abrandada de A Guerra dos Tronos.   A trama centra-se na disputa entre dois filhos do Rei Viserys Targaryan, Rhaenyra e Aegon II, pela posse do Trono de Ferro, ocorrida mais de duzentos anos antes do tempo de Robert Baratheon, Jaime Lannister, Ned Stark e companhia.

Não há a menor dúvida de que se trata de uma produção esmerada, com cenários grandiosos, linda trilha sonora e efeitos especiais empolgantes. Há também interpretações magníficas, especialmente a do ator inglês Paddy Considine no papel de Viserys. O problema é o efeito comparativo, quando se tenta equipara-la a Game of Thrones. A ação é focada apenas em um aspecto do drama, e não multifacetada e enriquecida por diversos acontecimentos paralelos, como na série anterior.

E, para mim, a troca dos intérpretes de alguns dos personagens centrais no meio da temporada, para tentar espelhar o seu envelhecimento, foi desastrosa. Primeiro porque o hiato de tempo não era tão grande que um bom trabalho da equipe de maquilhagem não resolvesse; depois, porque outros atores foram mantidos, com a mesma fisionomia, confundindo o espectador e ferindo a autenticidade visual da produção.

De qualquer maneira, o sucesso foi estrondoso, contabilizando, na semana de lançamento, mais de dez milhões de espectadores. Evidentemente, uma segunda temporada já está em andamento.

Oswaldo Pereira

Novembro 2022

domingo, 7 de novembro de 2021

ROUND 6

 


O roteirista e diretor de cinema coreano Hwang Dong-hyuk teve sua ideia recusada por 10 anos. Produtores e atores simplesmente não se deixavam empolgar por ela e, mesmo obtendo sucesso como realizador do filme policial Silenced em 2011, sua criação ficou engavetada uma década.

Mas, aí chegou a Netflix. Ainda sem acreditar muito no projeto, o canal gigante resolveu apostar numa estranha história que misturava brincadeiras infantis com uma alegoria violenta sobre a condição humana e sua brutal face quando levada a limites extremos.  

O sucesso foi (e está sendo) retumbante. Com um retorno, até agora, na ordem de quase US$900 milhões, a série já é a maior contribuição para os cofres da provedora com sede na Califórnia e que atualmente possui mais de 280 milhões de assinantes.

Como nada é totalmente perfeito, Round 6 (ou melhor, Squid Game) vem recebendo duras críticas de associações parentais, que acusam a série de exercer perigosa influência sobre os jovens, incentivando-os a replicar em seus ambientes escolares as mesmas regras cruéis da ficção trágica.

Acabei de assistir aos 9 capítulos que compõem a temporada.  

Há, claro, violência explícita, tiros para todo o lado e muito sangue. Mas, nada muito mais do que eu tenho observado em dezenas de filmes e streamers televisivos policiais, de terror ou até em uma grande quantidade de joguinhos RPG à disposição da garotada.

Talvez o diferencial venha da associação da trama sanguinária a brincadeiras infantis. Mas, batatinha 1-2-3, bolas de gude e cabo de guerra, por exemplo, tiveram seu tempo numa juventude de um século atrás e, hoje, já saíram das práticas recreativas do jardim de infância e do primário. Pode ser que,  na Coreia, elas ainda carreguem seu impacto, como a modalidade que dá nome à série – O Jogo da Lula.

O que define Squid Game, entretanto, é a análise crua que faz do comportamento humano diante de seu mais crucial desafio – a sobrevivência. O teste de moralidade permeia todos os capítulos, exacerbando-se em função de uma equação que envolve algumas centenas de indivíduos falidos, endividados e transformados em párias da sociedade competitiva numa luta por um prêmio milionário, com apenas duas opções: o dinheiro ou a morte.

Outro ponto cardeal do trabalho de Dong-hyuk é o tratamento visual dado à trama. Cores, cenários, mis-en-scènes e planos fazem um contraponto instigante à rotina de massacre e à aridez de sentimentos dos algozes encapuzados. Tudo parece lúdico demais, ao lado de uma frieza assassina.

Mas, parece que foram estes mesmos ingredientes que determinaram o sucesso planetário de Squid Game. E a insana dedicação do seu roteirista-diretor durante as filmagens. Perfeccionista e obstinado, Dong-hyuk acabou sofrendo vários períodos de depressão enquanto a série era gravada, o que lhe acarretou a perda de seis dentes. Isto, e o fato de que ele próprio, dadas as condições contratuais com a Netflix, pouco lucrou, fazem com que a existência de uma segunda temporada esteja em avaliação.

Para nós, ocidentais, várias coisas chamam a atenção. Nomes, usos e costumes pouco têm referência com os nossos. Sae-byeok, por exemplo, nome de uma das personagens, é considerado lindo (!?). Vários jogos, como o ddjaki, que consiste em atirar um envelope sobre outro colocado no chão, com o objetivo de virá-lo, e que poderia trazer reminiscências do patrício bater figurinhas (ó galera menor de 60 anos – pesquisem...), não encontram referências tupiniquins. A própria brincadeira que batiza a série não é conhecida aqui. Dizem que isto fez com que o título no Brasil tenha sido mudado para Round 6, já que a mortal competição tem seis etapas. Mas, só aqui a série tem este nome. No resto do mundo, ela é Squid Game, Jogo da Lula. Será que houve alguma razão política?...

Não sei se a tchurma mais velha vai gostar do tema e da qualidade interpretativa dos coreanos. Há uma coleção de expressões corporais e faciais que vão levantar muitas sobrancelhas. Mas, não é bem por aí. O grande mérito de Round 6 é a mensagem que traz sobre quão frágeis são os nossos cultuados conceitos de solidariedade e amor ao próximo.

Oswaldo Pereira

Novembro 2021

quarta-feira, 22 de julho de 2020

THE CROWN



Muito se tem comentado sobre as vantagens da quarentena no que diz respeito a colocar as atrações televisivas em dia. Com as benesses das TV a cabo e os streamings da Netflix, maratonar tornou-se um verbo bastante em uso quando se trata do imenso cardápio de séries à nossa disposição.

Faço cada vez mais parte desta legião de impenitentes seguidores compulsivos, para os quais emparelhar várias produções vai-se tornando um hábito corriqueiro. No momento, consigo, entre um zapeamento e outro no controle remoto, consumir avidamente conteúdos que vão desde o ambiente dark e decadente da Berlim de 1929 (BabylonBerlin, série do Canal Mais) até o futurismo da segunda temporada de Timeless, um devaneio sobre máquinas do tempo. Pelo meio, assomam os templários da série Knightfall, o fascínio da China de Marco Polo e, para manter o clima dos viajantes intertemporais, a belíssima saga escocesa de Outlander.

Ufa!, dirão. Há mais, insisto eu. Nesta semana, cheguei ao fim da terceira temporada (última disponibilizada até agora) do seriado THE CROWN, um magnífico trabalho do argumentista e dramaturgo britânico Peter Morgan para o canal Netflix. O tema cobre a vida da Rainha Elizabeth II, desde seu casamento em 1947 até (pelo menos no que diz respeito às temporadas já apresentadas) o Jubileu de Prata de seu reinado, em 1977. E com direito a numerosos flashbacks. Como o programado é estender o trabalho por mais três capítulos de dez episódios cada, presume-se que a história da rainha britânica seja trazida aos dias de hoje.

CAPA DA REVISTA "TIME" 1929
E que história! Elizabeth II, hoje a mais longeva monarca em exercício e a mulher que por mais tempo ocupou um cargo público desde sempre, vem mantendo a coroa em sua cabeça desde o pós-guerra e durante um período de cruciais mudanças dificilmente equiparado no passado. Atravessando crises políticas dramáticas em seu país, a dissolução do Império, investidas republicanas, mudanças comportamentais profundas em todo o planeta e, last but not least, conflitos familiares incomodativos, a Rainha soube suportar e contornar perigos e ameaças e consolidar a instituição monárquica. Atualmente, sua popularidade garante a existência da Coroa.  

PRINCESA ELIZABETH 1945
E é isto que THE CROWN nos faz reviver, com detalhes e precisão histórica admiráveis. Além da preciosidade da ambientação e do impecável roteiro, a escolha do elenco foi primorosa. Como a história se desenvolve num largo espectro de tempo, entre a segunda e a terceira temporada houve uma substituição dos atores, para espelhar o inevitável envelhecimento dos personagens. Esta mudança, que poderia acarretar algum estranhamento, confirmou ainda mais o acerto na escalação de atrizes e atores.

Claire Foy, a Elizabeth dos anos 1940 a 1960, foi revezada por Olivia Collman. Duas formidáveis atrizes, mas que diferem muito fisicamente. Além disso, tampouco se parecem com a Rainha. Mas, o imenso talento das duas opera o milagre da transfiguração e o espectador maravilhado continua enxergando a inconfundível figura de Elizabeth II em ambas. A mesma sensação perdura quando apreciamos o trabalho dos atores que personificam o Duque de Edimburgo (Matt Smith/Tobias Menzies), a Princesa Margareth (Vanessa Kirby/Helena Bonham Carter) e tantos outros. Para não falar na impressionante caracterização de John Lithgow como Winston Churchill.


THE CROWN já abocanhou três Globos de Ouro, dois deles atribuídos às duas atrizes principais. Estamos esperando por mais. Muito mais, pois Elizabeth II, a soberana que já sobreviveu a 14 Primeiros Ministros, ainda reina.


Oswaldo Pereira
Julho 2020

quarta-feira, 22 de maio de 2019

THE END




Já que acabou a mini “quarentena” de três dias após o término do último episódio e que entrados estamos no período aberto a spoilers, chegou a hora das avaliações.

Como todos os meus parcos, mas abnegados, leitores já sabem, eu fui (e sou), desde a primeira hora, um juramentado seguidor da mais badalada série televisiva de todos os tempos. Assisti a todas as temporadas (a maioria delas vi e revi) e li todos os cinco livros da obra que as inspirou, A Song of Ice and Fire (Uma Canção de Gelo e Fogo), magistralmente escrita pelo “bruxo” George R. R. Martin.

Game of Thrones bateu todos os recordes de audiência em todo o planeta e conseguiu envolver milhões de fãs na teia de um fervor quase religioso. Foram muitos os polos de atração. Primeiro, o cenário. As brumas da Idade Média sempre tiveram seu lugar mágico no imaginário das gentes, com seus castelos, reis, rainhas, duendes, cavalos e lanças. GOT acontece numa Idade Média milenar, desenrolada numa tapeçaria de brasões, cavaleiros, feiticeiras e dragões. Depois, o fumegante caldeirão de conflitos humanos, onde uma luta insana pelo Poder desperta toda a gama de sentimentos, do amor ao ódio, da lealdade à traição, da submissão à vingança.  Em terceiro lugar, o roteiro rápido, de diálogos candentes como flechas de fogo, a trama inquieta que aniquilava sem dó nem piedade personagens pelos quais começávamos a torcer. A frase em Alto-Valiriano, Valar Morghulis (todos os homens devem morrer), uma espécie de mantra basilar da série, nunca foi levada tão a sério. A seguir, jogue-se em cima disto tudo fartas doses de sexo, onde abuso, incesto, prostituição e homossexualidade derramavam-se sobre a linha mestra da história como um complemento natural. Afinal, era Idade Média ou não? Finalmente, amarre-se este pacote todo numa embalagem visual jamais vista num trabalho para a telinha.  A Direção de Arte de Game of Thrones ganhou, merecidamente, todos os prêmios à disposição. De cenas de alcova até os campos de batalha, passando por desfiladeiros gelados, mares em procela, desertos de pedra, campinas bucólicas, cidades entre muros e salões reais, imagens, cores e detalhes contribuíram, e muito, para o monumental sucesso da produção.

E então, após 8 temporadas e nove anos, eis-nos frente à frente com o episódio final. Os cellos da abertura pareceram até mais pesados e mais solenes que o normal. Seria a derradeira vez que ouviríamos a vinheta musical no início de um capítulo inédito.

Mas, antes de aí chegarmos, a oitava temporada já havia causado torcidas de nariz. A rigor, desde quando os produtores David Benioff e D. B. Weiss haviam ultrapassado o último livro escrito por Martin na sexta temporada (Martin parou no quinto livro. Segundo ele próprio, por preguiça...), que algumas tribos de seguidores já haviam reclamado. Agora, entretanto, as vozes aumentaram. Acho natural. Ao longo de todos esses anos, cada um de nós foi criando sua versão própria para o desfecho. E, à medida que o roteiro daí se desviava, uma certa decepção cutucava a audiência.

Assim, mesmo tendo sentido um leve tremor na minha fé de admirador em algumas cenas do quinto episódio (achei a luta entre Jaime Lannister e Euron Greyjoy muito faroeste demais e a reação final de Cersei meio incompatível com o caráter delineado ao longo da trama), cheguei ao capítulo sexto com minha devoção intacta.

E não me arrependi.

Cheio de simbolismos (inclusive com a engraçada apresentação de Samwell Tarly a Tyrion Lannister de um livro intitulado A Song of Ice and Fire...) e citações históricas (a cena de Daenerys Targaryen proclamando que iria conquistar o mundo, de cima de um palanque e com os Imaculados formados embaixo, enquanto uma chuva de cinzas cai, lembrando Hitler e os fornos crematórios), o encerramento deu-se num tom intimista e solene. Se pensarmos bem, cada um teve o destino que procurava ou merecia, inclusive a Mãe dos Dragões. A cena final, com Arya Stark, talvez a personagem mais forte da saga, partindo para o desconhecido e para o futuro é bastante emblemática. E abre a porta para um universo de spinoffs.

Que, espero, não aconteçam. Acho que George Martin pensa igual...

Oswaldo Pereira
Maio 2019

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

VALAR UMBIS...


Segundo anunciam, agora só daqui a 18 meses. Ou mais. A próxima e última temporada da mais festejada série de televisão de todos os tempos só acontecerá em 2019. Spoilers, teorias, apostas, adivinhações e uma grande ansiedade irão assombrar os seus fiéis seguidores por um ano e meio à frente, sem tréguas. E eu sou um deles...

Mas, por enquanto, ainda se ouvem os ecos do Sétimo Capítulo, cujo episódio de encerramento foi levado a quase duzentos países no passado domingo. Já é o segundo que vai ao ar sem ter a linha mestra do livro que inspirou a série por trás. George R. R. Martin, o gênio que criou o universo medieval-mítico em sua alentada obra A Song of Ice and Fire, parou de escrever no quinto volume, já aproveitado na produção para a telinha. Deu um tempo e os roteiristas de Game of Thrones tiveram de garimpar o que estava na cabeça de Martin e enxertar suas próprias visões de futuro do conturbado e fabuloso mundo de dois grandes continentes. Com Essos mantido nas brumas e em hold, a trama praticamente zerou seu zoom em Westeros e nos conflitos de seus sete reinos.

Seria exagerado, e injusto, dizer que houve uma perda. A Sétima Temporada esbanjou fantásticos efeitos especiais, afunilou a trama, centrou seu foco nos personagens principais, desbastou narrativas supérfluas e definiu lealdades. Fiel ao seu moto valiriano Valar Morghulis (todos os homens devem morrer), obliterou três grandes famílias (os Tyrell, os Martell e os Frey), justiçou Lord Baelish e queimou pai e filho Tarly. Mas, num perceptível abrandamento, absolveu da morte certa por afogamento tanto Jaime Lannister como Jon Snow. Shame!, dirão alguns. Também não sei se o plano (furado) de tentar convencer Cersei a se unir a Daenerys por conta do white walker aprisionado a duras penas seria digno de Tyrion Lannister em épocas anteriores.

Mas, não me julguem mal. Por tudo e por todos, Game of Thrones continua sendo um merecidíssimo sucesso. E continuará nos subjugando à sua irresistível sedução durante os longos meses que faltam para o seu aguardadíssimo final.

Por isso mesmo, escrevi o título deste texto em Alto Valiriano.

Valar Ūmbis. Todos os homens devem esperar...

Oswaldo Pereira

Agosto 2017

quarta-feira, 31 de maio de 2017

ISABEL



Em 2012, a produtora espanhola Diagonal TV lançou a primeira temporada da série Isabel. Havia esperado um ano para fazê-lo, pois enfrentara problemas financeiros enquanto aguardava que a TVE (a estatal televisiva do país) decidisse distribuí-la. Nesse meio tempo, aproveitou para retificar a sua linha conceitual, transformando o que seria apenas um romance de época numa epopeia medieval de alta qualidade. A compensação veio com o seu enorme sucesso, que propiciou a montagem de mais duas temporadas.

O êxito é mais do que merecido. Tive a oportunidade de assistir aos primeiros 13 capítulos recentemente e encantei-me, principalmente, com dois dos atributos mais reconhecidos da série. Sua refinada ambientação e sua impecável acuidade histórica. Javier Olivares, um madrileno formado em História e com um master em Estética, e que foi o responsável pela mudança de rumo do trabalho enquanto se aguardava seu lançamento pela TVE, informaria depois que pelo menos 12 diálogos por capítulo eram baseados em relatos e crônicas da época.

A ação começa em 1461, ano que marca o início das lutas internas ligadas à sucessão do Rei Henrique IV de Castela. Na disputa estão dois de seus irmãos, Alfonso e Isabel, e sua filha Juana. Espanha é um conceito que ainda não existe e a região divide-se em reinos que vivem numa dança frenética de confrontos, alianças e traições. Para complicar, ao sul ainda estão os mouros do reino de Granada, uma espinha na garganta da Cristandade e, ao norte, uma França interessadíssima em tirar partido da situação. Num dos momentos mais influentes de sua existência, a Igreja Católica detém um poderoso comando sobre uma Europa assombrada pela Peste e pela Inquisição.

A quem está habituado ao tenebroso espetáculo político que preenche os nossos dias, tudo soa familiar. Para abocanhar o trono, vale tudo, literalmente. Nobres, cortesãos, cardeais, papas, príncipes e reis vendem-se e compram-se. Todos têm um preço. E todos têm um objetivo. O Poder.

Para não adiantar nenhum spoiler, a não ser o histórico, a primeira temporada termina com Isabel, já casada com Fernando II de Aragão, herdando o trono de Castela. Não sei o que a série vai apresentar a partir daí mas, se seguir os livros, deverá mostrar um dos mais fantásticos períodos do país ibérico. O casal, entronizado nos registros como Los Reyes Católicos, uniu os espanhóis, expulsou os árabes da península, patrocinou o sonho de Colombo e dividiu o mundo conhecido com os portugueses. Um mundo que, exatamente neste instante, deixava a Idade Média e entrava na Idade Moderna.

Resumindo, uma ótima série sobre um momento único.

Oswaldo Pereira

Maio 2017

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

WESTWORLD



O filme “Westworld” foi realizado em 1973. Custou 1,2 milhão de dólares e já rendeu acima de 11 milhões, ao longo de mais de quatro décadas. Com um roteiro escrito por Michael Crichton (já então um escritor de sucesso, cujo best seller “O Enigma de Andrômeda” fora lançado dois anos antes) e dirigido pelo próprio autor, virou cult.  Na época de seu lançamento, a ideia de um parque de diversões, em que androides construídos como perfeitas réplicas dos humanos seriam anfitriões prontos a satisfazer qualquer desejo, foi uma bela “sacada”. O mundo despertava para a cibernética user friendly, isto é, a desmistificação do uso do computador, antes privilégio de analistas e programadores, e sua transformação em ferramenta do dia-a-dia. Influenciado, segundo ele próprio, pelas possibilidades que se abriam e por uma visita à Disneyworld, em que se deslumbrou com os animatronics do “Piratas do Caribe”, Crichton criou a sua ficção.

O filme acabou sendo pioneiro na utilização, ainda que em forma primitiva, da computação gráfica e foi a primeira vez que se usou a expressão virus para descrever a “doença” que atacava os computadores internos dos robôs.  Some-se a isto a icônica interpretação de Yul Brynner como Gunslinger (o Pistoleiro), e a película encontrou seu lugar na História.


Quarenta e três anos depois, a HBO resolveu beber na mesma fonte e recriar Westworld, agora como uma requintada série de TV. Segundo o famoso canal, a produção está destinada a ocupar o lugar do seu mais bem-sucedido seriado, o extraordinário Game of Thrones, que se encaminha para as últimas temporadas. Como já foram ao ar oito dos dez episódios da primeira parte de Westworld, dá para ensaiar uma crítica inicial.

Em primeiro lugar, fica um pouco difícil compará-la com o filme de 1973.  Embora a trama central repouse na concepção imaginada por Crichton, a dimensão das duas realizações estabelece dois patamares distintos. O filme teve a duração de 88 minutos. A série terá dez capítulos de uma hora por temporada, o que facilmente poderá significar mais de sessenta horas de exibição. No cinema, Delos (o nome do Parque) oferecia três mundos aos seus clientes. Roma, Idade Média e o Velho Oeste. Na TV, só existe o ambiente western, embora nada impeça que outras variações, ou narrativas, para usar o jargão do atual roteiro, venham a ser criadas. Há também uma versão (não confirmada) de ligação entre os dois parques, segundo a qual o presente Westworld seria uma reconstrução do antigo Delos, destruído, como o filme mostra, por uma rebelião dos androides.  Nessa mesma vertente hipotética, o personagem vivido agora por Ed Harris (o Homem de Preto) seria nada mais nada menos que o antigo Gunslinger de Yul Brynner.

Mas, se formos comparar Westworld com Game of Thrones, aí a coisa complica. Apesar de ambas contarem com duplas de talentosos roteiristas (Lisa Joy e Jonathan Nolan pela primeira. Davis Benioff e D. B. Weiss pela segunda), a fonte literária na qual uma e de outra buscaram seus argumentos difere diametralmente. Guerra dos Tronos tem como âncora conceitual a alentada obra A Song of Ice and Fire, cinco volumosos tomos escritos por um verdadeiro gênio, o americano George R. R. Martin. A única referência de Westworld é o roteiro criado por Michael Crichton há quarenta e três anos. O que implica na ausência de uma linha mestra de longa duração na administração criativa do tema.

A série é boa, não me levem a mal. É esmerada e elegante, move-se num ritmo condizente com a trama intrincada, tem uma trilha sonora instigante. A fotografia é primorosa. E conta com um elenco de primeiríssima qualidade. Além de Ed Harris, lá estão Evan Rachel Wood, Thandie Newton, até o nosso Rodrigo Santoro. Pairando acima de todos, o mago Anthony Hopkins.

Mas, daí a ser a sucessora do mundo mágico de Westeros, da saga insuperável dos Starks, Lannisters, Targaryans, Baratheons e outros, não sei não...

Oswaldo Pereira
Novembro 2016





quarta-feira, 29 de junho de 2016

SOBREVIVENTES




Quando uma série como Game of Thrones chega a uma sexta temporada, há que se valorizar os sobreviventes. Deve ser a produção que mais generosamente dizimou seus personagens, desde a surpreendente decapitação de um de seus primeiros heróis, o patriarca de uma das Casas mais simpáticas da trama, Eddard Stark. Nem o fato de que Ned era personificado pelo veterano e conhecido ator Sean Bean o livrou do cutelo logo no início do jogo.

Daí para a frente, nem ibope, nem torcida das legiões de seguidores, nem a fama de seus intérpretes era garantia de permanência no mundo fantástico criado por George R. R. Martin. O script era implacável, seguindo à risca a trama escrita, magnificamente, diga-se de passagem, por Martin nos cinco alentados volumes de A Song of Ice and Fire.

Assim, de permeio a cenas que entrarão para a história da televisão moderna, reis, príncipes, damas, sacerdotes, magos, vilões, mocinhos e bandidos sem distinção, foram sendo abatidos sem remorso e, à aguardada exceção do bastardo Jon Snow, sem volta. De costume, o último capítulo de cada temporada era particularmente cruel no índice de artistas que se despediam do elenco.

Para os que, como eu, tinham lido a obra de Martin, as mortes não constituíam surpresa, prenunciadas que eram na narrativa original. Acontece que esta sexta temporada foi além dos livros (Martin parou no quinto volume) e nos deixou sem referência. Dizem que os produtores da série estão seguindo as orientações do escritor, cujo lento ritmo criativo tem causado sérias palpitações a seus editores.

De qualquer maneira, a temporada que terminou no último domingo não deixou nada a dever às anteriores, no quesito desencarne. Com um precioso upgrade. Enquanto que, no passado, a maioria das eliminações era feita no varejo, desta vez a coisa foi no atacado. Além da colina de mortos na “Batalha dos Bastardos”, Cersei Lannister, de uma só penada, detonou todos os seus inimigos mais próximos na espetacular explosão do Grande Septo de Baelor. Magistral!

Desta forma, temos de reverenciar os que conseguiram chegar vivos ao 60º capítulo da sensacional novela. Longa vida a Sansa, Arya, Daenerys, Tyrion e, claro, Jon Snow! E, por que não, a Cersei e Jaime.

Vocês são, sem dúvida, os SOBREVIVENTES.



Em tempo.

Dois Brexits numa só semana. A saída dos ingleses de dois Euros (o Mercado e o Campeonato) em rápida sucessão desafiou todas as previsões. Nem o mago Merlin teria previsto esta dupla hecatombe. Ser eliminado pela Islândia é um feito apenas comparável à primeira derrota do “English Team”, há 60 anos, nos sagrados gramados de Wembley, por 6x3 frente à Hungria.

Naquele dia, pelo menos, havia a atenuante de que a seleção húngara contava com gênios da estirpe de Hideguti, Czibor e Puskas. Iria assombrar o mundo do futebol nos anos seguintes.

Mas a Islândia, vamos combinar... é um time aguerrido, mas ingênuo como uma virgem nórdica. A derrota deveu-se muito mais à péssima atuação inglesa do que ao esforço dos vikings. Nunca vi a Inglaterra jogar tão mal...


Oswaldo Pereira
Junho 2016




quarta-feira, 22 de abril de 2015

VALAR MORGHULIS





Se você pronunciar estas duas palavras e o rosto do seu interlocutor se transformar num ponto de interrogação, você saberá com certeza que ele nunca ouviu falar da série. Se você as disser a uma outra pessoa e ela arregalar os olhos e balançar a cabeça afirmativamente, concluirá que ela já deve ter assistido a alguns capítulos na TV. Mas, se seu parceiro de conversa semicerrar os olhos em profunda deferência e responder, com um enigmático sorriso nos lábios, “valar dohaeris”, você terá identificado imediatamente um membro da planetária legião de seguidores fervorosos do maior fenômeno televisivo de todos os tempos – Game of Thrones, a milionária produção da Home Box Office (HBO). São milhões.

As duas pequenas frases que, no idioma fictício conhecido como Alto Valiriano querem dizer, respectivamente, todos os homens devem morrer e todos os homens devem servir, exprimem a gênese filosófica da história, na qual nenhum personagem, por mais carismático que seja, está a salvo de morrer a qualquer momento. Não há ibope que os proteja...  

Alto Valiriano é apenas uma das línguas criadas exclusivamente para a série por linguistas e filólogos. Outra, da qual já existe até um dicionário e uma gramática, é o Dothraki, falado por uma tribo de cavaleiros selvagens que habita as terras do leste, no mundo ficcional imaginado por George R. R. Martin em sua alentada obra A Song of Ice and Fire (Uma Canção de Gelo e Fogo) e levada para a telinha pelos roteiristas-produtores David Benioff e Daniel Brett Weiss. Já comentei sobre a série em meu post “A Ação do Tempo”, escrito em agosto de 2014 e cujo link para quem quiser lê-lo está abaixo.




ALGUNS DOS PERSONAGENS
O "MUNDO" CRIADO POR GEORGE R. R. MARTIN




















No passado dia 12, Game of Thrones estreou sua quinta temporada, num lançamento simultâneo para 193 países (o Mundo tem atualmente 204 nações reconhecidas). Serão mais dez episódios, baseados nos volumes quarto e quinto do livro de Martin. O autor trabalha atualmente no sexto. A saga escrita terá, no total, sete. Assim, ainda há muito para acontecer e muitas temporadas pela frente, garantidas por um sucesso que não para de crescer e que abastece uma indústria de vídeo games, animações, roupas, objetos e centenas de fã-clubes. E até o turismo. As regiões que estão servindo de locação para as filmagens, como Dubrovnik, na Croácia, a ilha de Malta e Sevilha, têm experimentado um significativo aumento de visitantes, desejosos de palmilhar os mesmos caminhos de seus personagens favoritos e imaginar que estão em Westeros ou em alguma das Cidades Livres. Enquanto isso, os retardatários que só agora descobriram a magia da história fazem maratonas para ver as temporadas já exibidas.

Já deu para perceber que sou um entusiasmado seguidor. Além de acompanhar com religiosa fidelidade a produção da TV, estou lendo A Song of Ice and Fire. E posso informar que, apesar da adaptação televisiva ser extraordinária, o livro ainda é melhor. O “bruxo” Martin é realmente um gênio.

O LIVRO

Então, para todos aqueles fluentes em Dothraki: Hajas! Dothras check (literalmente, no idioma dos cavaleiros guerreiros, Seja forte! Cavalgue bem, e que corresponde ao nosso coloquial até logo e um bom dia...)


Oswaldo Pereira
Abril 2015




sexta-feira, 20 de março de 2015

DOWNTON ABBEY







O nome dele é Julian Alexander Kitchener-Fellowes, nasceu no Cairo em 1949, ostenta o título de Barão Fellowes de West Stafford e pertence à Câmara dos Lordes do Reino Unido desde 2011. Com estas credenciais, ninguém melhor para escrever uma das séries mais famosas da atualidade, a superpremiada Downton Abbey, cuja quinta temporada acabou de ser exibida aqui no Brasil. A sexta, e já anunciada como a última, está sendo gravada atualmente na Grã-Bretanha.

A própria vida de Fellowes tem várias pitadas de um bom folhetim. Nascido no Egito, estudou na Inglaterra e foi para Los Angeles em 1981, atrás de uma carreira de ator. Conseguiu alguns papeis secundários (para os aficionados de Bond, apareceu na figura do Ministro da Defesa em Tomorrow Never Dies) e chegou a ser cogitado para substituir Hervé Villechaise como o icônico mordomo do seriado Ilha da Fantasia. Não deu certo. Enveredou, então, pelo caminho que o tornaria mundialmente conhecido. Na função de autor e roteirista, colecionou sucessos como Vanity Fair e Young Victoria, até chegar ao Oscar em 2001 com Gosford Park. É o destino. Se tivesse cravado o papel de Tattoo, talvez Downton Abbey nunca tivesse existido...

Como os seguidores já sabem, a série conta a trajetória de uma aristocrática família inglesa, os Condes de Grantham, no período que vai da tragédia do Titanic, em abril de 1912 (na qual morre um dos herdeiros ao título), até 1925, em plena agitação social na Inglaterra, com a eleição de um Primeiro Ministro trabalhista. Os efeitos dos acontecimentos desenrolados nesses anos no dia-a-dia dos Crawley (nome de família dos condes) e de seus contemporâneos, e seu esforço desesperado para manter o status quo do mundo privilegiado em que vivem, é a trama central, com todos os desdobramentos que uma Guerra Mundial, a pandemia da gripe espanhola, a quebra da hierarquia no vendaval dos roaring twenties (os estrondosos anos vinte) e as agruras econômicas do pós-guerra podem causar.

E aí surge um dos motivos das críticas ao seriado.  É que, aparentemente presos dentro de sua redoma e absorvidos em sua empertigada rotina diária, os habitantes da fantástica mansão conseguem preservar seus rituais e seu estilo de vida quase intocados, ensejando um contínuo repetir de situações, como se o roteiro rodasse “no vazio”, o que também suscita ácidos comentários de alguns especialistas. Superficial, melodramática e irrealista, e até anticatólica e anti-irlandêsa, foram alguns dos elogios já feitos à série pela imprensa inglesa.

Mas, talvez por isso mesmo Downton Abbey seja o sucesso planetário que é.  As soberbas atuações de seu elenco e uma extraordinária ambientação de época, desde o requinte das roupas e os pormenores da decoração, ao cuidado com a reconstrução de um período histórico nos mínimos detalhes superam amplamente os aspectos porventura negativos. E é, quem sabe, exatamente este viés de superficialidade, de festas, jantares e caçadas, que confere o charme à série. A possibilidade de o espectador conviver com o escapismo de um oásis sublime num cipoal de outras produções que só falam de violência.

Nestes últimos cinco anos, Downton Abbey criou modismos e influenciou pessoas. Foi responsável pelo aumento na procura de mordomos, principalmente de mordomos ingleses, na China, Rússia e países do Oriente Médio. Fez aumentar a venda de colarinhos engomados, saias midi, vestidos bordados com pérolas e roupas de caça. Aspectos da ficção, como a impossibilidade legal de Mary Crawley se tornar herdeira, por ser mulher, inspiraram uma real proposta de legislação para modificar a lei de sucessão no Reino Unido (não passou).

Vários atores consagrados compareceram, como Shirley MacLaine e Paul Giamatti, além da presença permanente de Elizabeth McGovern, no papel da esposa do conde e da insuperável Maggie Smith como a condessa viúva Violet Crawley, personagem nuclear do enredo. Outros cresceram com a história, como Joanne Froggatt (a atormentada Anna Bates), Rob James-Collier (o mau-caráter Thomas Barrow), Michelle Dockery (a frívola Mary Crawley) e Jim Carter (o mordomo-mestre de insuspeitado bom coração Charles Carson).

Água com açúcar? Pode ser. Mas, nos dias de hoje, talvez seja disto mesmo que a gente precisa...


Oswaldo Pereira
Março 2015

  




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

BELÍSSIMO ENSAIO








Um elegante ensaio sobre a violência. Violência física, moral, em várias gradações. Violência da mentira, da traição, da incompreensão. Violência da corrupção, do poder, da ganância. Violência do desamor, do abandono, da ira nua, do preconceito.

Um rico ensaio sobre o amor. Amor de mãe, de pai sem o ser, de pai verdadeiro, de pai renascido. Amor desespero, cego, amor perdido, final, terminal. Amor sonhado, de sinal trocado. Amor roubado, culpado, fingido, virtual.

Um precioso ensaio sobre sexo. Sexo como profissão, como jogo, como arma. Sexo redenção, sexo liberdade, sexo com gosto. Sexo oposto, liberal e proibido, sexo que leva à morte.

Em minha opinião, a minissérie “Felizes para Sempre?”, levada ao ar pela Rede Globo nas últimas duas semanas, foi isso tudo. E mais.

Foi uma lufada de ar novo naquele formato televisivo, especialmente por sua magistral linguagem cinematográfica. Produzida pela O² Filmes, uma produtora independente brasileira, responsável por outras obras-primas como Cidade de Deus e Blindness (Ensaio sobre a Cegueira), e dirigida por um dos seus sócios, o premiado Fernando Meirelles que, além dos dois filmes citados acima, também foi o realizador de 360 e The Constant Gardener (O Jardineiro Fiel), a série realmente tinha de bombar.

Começando pelo roteiro. O enredo é uma releitura que o próprio autor, Euclydes Marinho, fez de outra obra sua, Quem Ama Não Mata, de 1982. O tema, à época, estava na moda, dada a frequência com que delitos passionais alimentavam a crônica policial. Ainda matava-se em nome da honra, por ciúmes e por despeito. O assassinato da socialite Ângela Diniz pelo seu namorado, Raul “Doca” Street, na Praia dos Ossos, em Búzios, gerara uma onda de discussões apaixonadas sobre os agravantes e os atenuantes dos crimes por amor.

Quem Ama Não Mata fez um grande sucesso e Marinho resolveu homenagear os atores da primeira versão de Felizes Para Sempre? dando seus prenomes aos atuais personagens, como Marilia Pêra, Claudio Marzo, Denise Dumont, Hugo Carvana, Tania Scher, Dionísio Azevedo, Daniel Dantas e assim por diante.

E aí podemos falar do presente elenco. Não sei quem foi o responsável pelo casting, mas quero acreditar que o faro de Fernando Meirelles teve influência. Especialmente na escolha de Maria Fernanda Cândido e de Enrique Diaz para o casal de mais destaque na trama. Ele, perfeito no crápula sem escrúpulos cujo retrato se vê, nos dias de hoje, repetido nos escândalos reais que submergem o país (não por acaso, a ação se passa em Brasília...). Ela, um contraponto suave no charco de ganância e intriga engendrado pelo marido, prenhe de amor para dar, à espera de uma redenção. Jogando no time com maestria, há nomes de respeito da dramaturgia da Globo e do cinema nacional, como Adriana Esteves, João Miguel, Cássia Kis Magro e Perfeito Fortuna.


MARIA FERNANDA CÂNDIDO COMO MARÍLIA


ENRIQUE DIAZ COMO CLÁUDIO
















Mas foi na escalação da atriz para representar a personagem central da história que a inspiração não poderia ter sido mais efetiva. Paolla Oliveira conseguiu compor Denise, ou Dany Bond, a garota de programa que se torna o fio condutor de toda a trama (desencapado, diga-se de passagem...), com uma eletricidade pouco comum de se ver todos os dias na telinha. Falar somente da cena em que ela aparece de costas, vestida apenas com uma mínima lingerie preta, como referência da sua atuação, como parece ser a preferência dos colunistas em geral, é uma injustiça com a dramaticidade demonstrada pela atriz em todo o trabalho.

PAOLLA OLIVEIRA COMO DANNY BOND

Um belo ensaio, um real presente de início de ano para nós, espectadores ávidos de boas produções.

Quem não viu, procure ver. Vale a pena.


Oswaldo Pereira
Fevereiro 2015