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terça-feira, 2 de agosto de 2022

SONHO

 


Tintas e cores
Flores
Deusas e faunos
Um rio que corre
Manso e sem pressa
É essa,
Sim, a curva é essa
É aqui

Deixem-me estar
Depois de tanto cansaço
Nesse regaço
Aqui cheguei
E sei...

Que o amanhã é agora
O ontem também
Imagine um tempo que não caminha
E você terá
Você será
Habitante desse pedaço
Um dia de mil anos
Sem começo e sem fim
Sem planos

Poentes e auroras num instante,
Horas de um segundo
Relógios sem sentido nem ponteiros
Fúteis calendários
Dromedários de um passado que não existe

Não fique triste, minha amiga
Estamos inteiros
Só eu e você e quem me siga
Nas terras deste novo mundo

Vamos deixar para trás todo o provável
E imutável. Aqui
Não há distâncias
Tudo é perto
Tudo é certo

Não espere mais
Prá que esperar?
É tão fácil aqui chegar
Vem
Eu lhe proponho

Basta um sonho...

Oswaldo Pereira
Agosto 2022

terça-feira, 19 de julho de 2022

SONETANDO...

 


TESOURO

 

As coisas que eu vi, guardo comigo
Aquelas que vivi são meu tesouro
Não tenho precisão de prata e ouro
Só preciso me lembrar de um sonho antigo

Me basta o som do verso em voz singela
A música e a canção do meu passado
As tardes e as manhãs de um céu dourado
Que tantas vezes tive na janela

Tenho o que é preciso prá viver
Lembranças, de infortúnios e de festa,
Guardadas bem no fundo de meu ser

Tenho tudo aquilo que me empresta
A força, a teimosia e o saber
Prá caminhar o tempo que me resta

Oswaldo Pereira
Julho 2022

 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

HAI-KAIS DA PANDEMIA

 


O hai-kai é uma forma poética que só poderia ter nascido onde nasceu. No Japão. Dizer que é uma forma minimalista de poesia é tentar defini-lo por um viés simplista e, mais do que isto, simplório.

O nome é composto de dois vocábulos japoneses:

Hai que significa brincadeira, e Kai, harmonia.

E aí está a essência da coisa. É isto que lhe define a leveza e, ao mesmo tempo, a sutileza da imagem, cuja mensagem tem de estar completamente contida nos três versos do poema.

Criado por Matsuo Banshō ainda no século XVII, o gênero acabou se espalhando, por países e por idiomas, mas sempre mantendo as regras básicas de sua estrutura.  Suas caraterísticas fundamentais são a simplicidade, a concisão e o presente. Tem de soar como um flash compacto de uma atualidade e carregar em si o princípio, o meio e o fim de uma história em miniatura. No Brasil, a hai-kai foi introduzido por Afrânio Peixoto no início do século passado. Guilherme de Almeida, Paulo Leminski e Millôr Fernandes foram grandes criadores de poesia hai-kai.

E eu, que já estava brincando de poetar, resolvi levar a brincadeira mais avante e achei por bem inventar estes hai-kais da Pandemia. 

a vida é bela
mas, dia-a-dia
nem penso nela
 
na rua há perigos
portanto, amigos
fechem os postigos
 
“Use máscara”!
É o recado
Na porta do supermercado
 
Ninguém na rua
Ninguém na noite
- Só a lua
 
Vamos matar o vírus
Nem que seja
A tiros
 
Distanciamento social
É um paradoxo
Gramatical
 
-Que prazer em vê-los!
Que bom tocar
Os cotovelos
 
Como vou saber ao certo
Se você está sorrindo?
Com o rosto coberto...
 
Aprendemos a lição?
Talvez sim
Talvez não
 
Vamos viver sempre assim?
Talvez não
Talvez sim
 
Toda profecia é vã
Porque hoje,
Só amanhã
 
Oswaldo Pereira
Junho 2021

quarta-feira, 2 de junho de 2021

PAUSA

 


No meu laptop, dei um “pause” na realidade. Deletei, por agora, CPI’s, STF’s, TV’s e outras siglas indigestas. Resolvi brincar de poeta. Preciso de paz. Um dia, eu volto...

A esfinge já não me pergunta. Meus segredos não lhe dizem respeito.
Sou livre, vivo acima dos anos.
Sou mago, sou louco.
Sou velho.
 
O Universo não existe. É tudo ficção, Carl Sagan que me desculpe.
Einstein quase desvendou a miragem. Mas a chave caiu-lhe da mão e a fechadura afastou-se.
Não percam tempo em explicar-me.
Tenho certeza.
 
Enquanto há suspiros, vivemos.
Depois, não sei para onde irei. Se é que irei...
Ou ficarei simplesmente inerte, parte da Terra.
E do Universo que não existe.  Triste? Não...
 
Só há, de verdade, o Tempo. Indiferente. Soberbo.
Ele diz-me.
Vais perder-me, mortal efêmero
Quando consegues ver-me, já passei.
 
Enganas-te.
Eu não te perdi, meu caro
Eu te bebi aos goles, aos baldes,
Te agarrei pelos cabelos,
Auroras, poemas, amores
Tive a ventura de tê-los
Esqueceste?
Sou velho...
 
Oswaldo Pereira
Junho 2021

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

NATAL 2020


Queridos e pacientes leitores deste blog.

UM ABENÇOADO NATAL

e, este ano, em vez de um conto, vai uma louvação


Quero louvar o Natal. E quero ouvir minha voz ecoar pelos caminhos, por ruas agora desertas, envolvidas no silêncio de uma noite escurecida, de almas sós e incertas.

Quero que anjos sozinhos, cansados de tanto de voar por precoces cemitérios, lembrem-se qu’inda há céu e vida, que o canto inda persiste.

E que, apesar de triste, ele evoca os mistérios d’outra noite abençoada, cingida pela estrela guia, pelo brilho da orvalhada, pelo choro de um menino.

Quero agora ouvir o sino, as vozes unidas em preces, em catedrais, ou até, mesmo em simples cantoria, espalhar-se pelos ventos, coros juntados aos centos, mais de mil, mais de um milhão, neste grito, neste rito, nesta fé

Nesta minha louvação

Oswaldo Pereira

Dezembro 2020

terça-feira, 22 de setembro de 2020

2020 A LA CAMÕES



Abril trouxe mil e uma flores
Matizes de vermelho, azul e rosa
Tingindo, em miríades de cores
Jardins, canteiros e, esplendorosa,
A própria Natureza, e o céu de amores.
Mas, presos num cruel confinamento
Perdemos para sempre esse momento
 
Em maio, o mar em branca espuma
Beijou, amoroso, a enseada
E todas as nereidas, uma a uma,
Dançaram nuas na praia enluarada
E Netuno, surgindo em plena bruma
Semeou de conchas a preamar dourada
Mas tolhidos pela infame pandemia
Nem sentimos o odor da maresia
 
Junho sempre foi o mês da festa
Dos balões e dos rojões, do solstício
Das fogueiras de Beltane, da seresta
Do céu sempre estrelado, do bulício
De crianças, cujo sorriso empresta
Mais beleza ao festival propício
Mas, fechados, tremendo, em nossos lares
Nada vimos dos Santos Populares
 
Oh! Julho, que sempre fostes belo
O auge do calor ou da invernada
(Dependendo, claro está, do paralelo
Em que se pode achar nossa morada)
Ao norte, deste o sol como um martelo
Ao sul, a cor cinzenta da geada
Mas, fosses tu fulgor ou vela
Só te vimos passar pela janela
 
Depois de tudo isto veio agosto
Tentando desmentir a triste fama
De ser o vil arauto do desgosto
Provou ser mais gentil que uma dama
Muniu-se de um sorriso em seu rosto
E fez-nos ver da esperança a chama
Mas, prenhes de notícias deprimentes
Apagamos a chama em nossas mentes
 
Agora vem setembro, e o tempo passa
Seis meses de prisão, rosto coberto
Pela máscara do medo, feia e baça
E do futuro sem saber, ao certo,
Quando enfim termina esta desgraça
E se um dia viverei a céu aberto
Sem medos, cuidados, quarentenas
Um homem sem temores. Livre, apenas.
 
Oswaldo Pereira
Setembro 2020

sábado, 9 de maio de 2020

AURORA


Como perguntava o sábio filósofo Millôr Fernandes: poesia numa hora destas!? Mas, a quarentena faz coisas. Além de participar do inspirado grupo "Poetas da Quarentena", criado pelo meu caríssimo amigo Homero Ventura em seu blogue, ainda me escapou esta:

Um dia será, a aurora
Não sei quando, mas será
Irão embora o medo
E seus irmãos
A angústia
A insegurança
O grito que se lança no vazio
Aqui, no frio desta noite
Ainda espero da esperança
Ainda quero ver num dia
Bem cedo
O sol nascer, entre as cortinas
Por trás das colinas
Que tenho na minha janela
Será uma linda manhã,
Suave, macia
Bela

A porta está aberta
O horizonte nos chama
O ar, a brisa e o céu
Estão ali
Saiamos do nosso quarto, nossa cama
Vamos ao encontro do Universo
Saiamos daqui
Quero banhar-me ao sol
Em sua luz imerso
Olhar os matizes das flores
Cheirar o perfume das cores
Embriagado, endoidecido, feliz

Não se desesperem
Está por um triz
A aurora está chegando

Mas
Por favor, me digam
Que eu não estou sonhando...

Oswaldo Pereira
Maio 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

DUELO NUM OÁSIS



Há dias, um dileto amigo meu propôs-me um duelo. Seu nome é Homero Ventura, que permite ser chamado pelos mais íntimos pelo simpático codinome de Homerix. Mais novo do que eu uns bons 15 anos, um pirralho portanto, Homerix e eu conseguimos comungar algumas grandes paixões. Beatles e Bond, por exemplo. Poderia ser outra, o futebol, mas ele é um santista roxo, e eu um rubro-negro de pai e mãe. Mas há uma outra devoção que nos une. Somos ambos apaixonados pela escrita. Homerix mantém, há quase 10 anos, se não me engano, um saboroso blog e, sem dúvida, foi o grande inspirador para que eu me aventurasse a lançar o meu PALAVRA ESCRITA.

O desafio, jogado na arena do whatsapp, foi em forma de versos. Um duelo num oásis desse deserto de ideias em que se transformaram as redes sociais, palco de confrontos cabeludos e vociferações insensatas. Nossa disputa é pelo estilo, pelo verbo bem colocado, pela rima mais preciosa.

Essa esgrima acabou ficando tão rica que achei por bem reproduzi-la aqui.

O ponto de partida foi o seguinte enigma proposto por Homerix:
A varanda cá de casa é leste-oeste.
A solar incidência é belo saldo.
Em busca de ação que bem se preste,
Ler é atividade a que respaldo.
Se me permite, proponho breve teste.
E venho aqui desafiar-te, ó Oswaldo:
Dado o estilo que emprego neste artigo,
Que livro estou a ler, ínclito amigo?
  
Ao que eu respondi, errando:
De Português é com certeza
E poeta de rima esmerada
Seria Pessoa em sua varanda acesa
Pelo sol de uma manhã iluminada?

Homero voltou à carga, dando-me uma segunda chance:
Com certeza, é uma trova portuguesa,
E, claro, estou tentando imitar
Um gênio que descreve com destreza
As viagens de um aventureiro ao mar
A buscar consagração e riqueza
E tudo o que a Terra tem a dar.
Entretanto, a dúvida consome:
Inda não deste ao escritor o nome!

Com esta dica, acertei no alvo:
Ora, claro o verso em ditirambo
A cadência do vate consagrado
Deixou-me até um pouco bambo
E perdido por tão lindo arrazoado
Sem dúvida, desta saga de leões
O arauto só podia ser Camões

A partir daí, o pinga-fogo prosseguiu.

Homero
Agora que me falta um rega-bofes,
Decidi entrar fundo no universo,
Que não permite nossa mente mofe
E afasta o raciocinar disperso.
Mais de mil, ai, são tantas estrofes
E oito vezes, o número de versos.
E em motes decassílabos, eu tento
Descrever-lhe o estilo a contento.

Eu
Que contento meu amigo Homero
Sabê-lo tão preciosa pena
Não se perde em reles lero-lero
Nem se afasta de uma rima plena
É perfeita sua métrica e espero
Poder eu emular-lhe o tema
E fazer poesia a sério
E que à alma traga refrigério

Homero
Quando de tarde sentar-me ao notebook
Elaborarei a tréplica devida
Sem qualquer vício ou truque
Gran Camões dar-me-á a guarida
Seguirei a batalha em bom muque
Enquanto continuar-lhe a vida
Desta forma bem nos alegramos
Cultivando do cérebro os ramos!

Eu
Estarei esperando o nobre repto
Que virá, como sói, de estilo certo
Pois sei que, caro amigo, és adepto
De ter o bom idioma sempre perto
Deslize pelas teclas do teu lapto(p)
A tua inspiração de peito aberto
E assim prosseguiremos esta lide
Até que nos esqueça o COVID

Homero
Adorei-lhe o anglicismo, fero Oswaldo,
Inda mais com o recurso parentado
Evitando o consoante saldo
Do incômodo ‘p’ lá instalado.
Este nosso duelo vai dar caldo
Pois que temos o gosto do babado
Até quando nessa laia então iremos?
Até quando nos caírem os remos?

Eu
Nem quis esperar pela manhã
E ter a noite por boa conselheira
Apressei-me em atender meu justo afã
E oferecer esta resposta alvissareira
A poesia veneramos como irmã
Os versos nos escapam da algibeira
Portanto tenho fé que remaremos
Muito além do que singrou Gaspar de Lemos

Homero
Em prol do conhecimento geral
Quis saber mais desse Gaspar
Que chegou ao Brasil com Cabral
Comandando a nau alimentar
E, retornou com carta a Portugal
Aquela de Caminha a revelar
Aos olhos do Rei Venturoso
A visão do país assombroso

Mas não satisfeito ele ficou
De já fazer da história
E no ano seguinte retornou
Exercendo sanha exploratória
E ao longo da costa encontrou
Baías que nos ficam na memória
A com nome de Todos os Santos
E a Guanabara de tantos encantos

Eu
Gaspar foi um grande aventureiro
De D. Manuel fez-se amigo e paladino
Vasco da Gama conheceu-o por primeiro
Lá nas Índias onde um trágico destino
O havia abandonado sem dinheiro
E trouxe-o para a Corte. Fez-se fino.
Elegante, sagaz e ambicioso
Conquistou D. Manuel, O Venturoso

O Rei, entusiasmado e mui atento
Deu-lhe o comando de uma naveta crucial
Responsável pelo provisionamento
Das caravelas da esquadra de Cabral
E então, à procura de bom vento
Afastaram-se da rota original
E Gaspar, deserdado no Oriente
Veio parar em um outro continente

A coisa tem prosseguido a passos rápidos. Depois de mais alguns decassílabos, resolvemos agora partir para o soneto. Homero criou até um grupo no whatsapp, e mais amigos seus estão aderindo. Um verdadeiro oásis, neste inclemente deserto da quarentena.

Oswaldo Pereira
Maio 2020


domingo, 26 de março de 2017

ORAÇÃO DA MANHÃ



ORAÇÃO DA MANHÃ
(POR UM MUNDO QUE PERDE SEU RUMO)

Desce à Terra. Por favor.
Traz perfume. Traz sinfonia.
Traz amor.

Traz anjos consigo.
Com cestos de flores, samburás de cores
Singelas, amarelas
Azuis, se possível.

Faça-as distribuir
Pelos campos de batalha
Pelos vales de dor
Pelo mar que seca, o ar que sufoca
Apazígua Meca
Amansa o Levante
Inspire o Ocidente
Até onde a vista puder alcançar

Como bom ilusionista
Tira a Esperança da cartola
Nos dá um pão sem veneno
Um horizonte pleno
Corrige os erros
Da Humanidade enlouquecida
Apascenta sua ânsia desvairada
Sua ganância
Joga pétalas de rosa
Nas cinzas do presente

E arranja para nós
Um Futuro
Decente

Oswaldo Pereira
Março 2017

segunda-feira, 7 de março de 2016

ELAS


Um dia, verão. Noutro, outono.
Nem tanto. Às vezes, demais.
À noite, riem. Por nada.
Tem dias que choram
Por tudo.
Vibram como um som energizado
Sonham sonhos de encanto
E, no entanto
Só elas têm o instinto
De prever, apurado,
O que há de ser
O que há de errado
O que vai valer
O por que, o quando e o talvez

São perfeitas,
São feitas de mel, de mar
De amor, de marés
E nós, homens irremediáveis
Ficaremos aos seus pés,
Por toda uma vida
Contemplando a magia
Da sua dança
Imaginando-nos senhores
Crendo-nos reis, dominadores
Sem passar de aprendizes

Sejam felizes, neste dia
Todos os dias
Todas as horas
Eternamente
Sejam senhoras do seu destino
E, hoje, ganhem o Mundo
De presente...

Oswaldo Pereira
Março 2016




segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O APRENDIZ





O sol se põe, por trás de Lisboa. Oeste, cidade e mar.
Lá vai ele, o sol.
Lá vêm eles, os sonhos.
É março e sou aprendiz, amanhã parto
Sem saber prá onde vou
Sei pouco da sorte, do fado
Sei pouco do mundo onde vivo
Meu pai foi lavrador,
Minha mãe foi amor
A terra que os cobre não é minha
É feudo
De um senhor a quem não quis servir

Vim de repente
Levaram-me ao cais
“Preciso de gente!”, alguém gritou do tombadilho
És forte, és rapaz
O Oriente nos espera”
Agora aqui estou, a olhar para este mar
Profundo
O poente a pintar de carmim
O céu do meu destino

Vou numa nau
De Cabral,
Ninguém espera por mim
Vou numa nau
De Portugal
Na direção de uma estrela
Do outro lado do mundo

E o aprendiz chegou, há mais de 500 anos. Não eram as Índias e nem o Levante. E nem foi por acaso. O destino das naus era certo. O Rei já sabia. Só não imaginava a imensidão daquela terra de frutos, rios, e floresta. Só não podia adivinhar suas praias sem fim, suas águas mornas, a mansidão de sua gente.

O aprendiz deve ter querido ficar. Não o deixaram. Mas certamente levou consigo o som dos pássaros de mil cores, o verde das palmeiras reclinadas sobre um infinito de areias brancas, o balanço da rede ao sabor da brisa travessa com cheiro de maresia doce. Anos depois, ao retornar do Oriente, encantava, à noite nas tavernas, as gentes de sua aldeia com as lembranças que trouxera do paraíso. Depois que todos se reuniam à sua volta, ele começava: “Não há nenhuma terra igual...”



Escrevi isto embevecido por um fim de tarde na foz do Tejo e, ao mesmo tempo, pensando no que fizemos com aquela “terra sem igual”...

Oswaldo Pereira

Agosto 2015

segunda-feira, 13 de abril de 2015

MINHA TERRA








Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá...

Ah! Sabiá
Se você soubesse

Talvez até nem cantasse
Guardasse o canto, soltasse o pranto
Ou um grito
Sobre esta terra arrasada
Sobre este planalto maldito
Sobre as cúpulas brancas de um palácio
Que brotou do nada
Que brotou da mão calejada
De um povo
Em cujas veias uma teimosa esperança
Bombeia um coração que sonha,
Mas já cansa

Um palácio que o futuro
Parecia trazer de mão beijada
A Alvorada
A miragem de um porvir
Tão belo,
Verdeamarelo
Nascido para ser uma Catedral
Um lugar santo

Hoje o porvir agoniza, num canto
Ferido, torcido, estuprado
Pisado por pés enlameados de um barro sujo
Estrangulado por mãos que fedem a dinheiro podre
Irremediavelmente traído por hienas
Por propinas,
Pelo toma lá dá cá dos conchavos

Ah! Sabiá, não cantes
Antes, chora um lamento
Um réquiem de tristes rimas
Pelas sinas e desditas
Deste doce Pindorama
Que teve nas mãos o amanhã
A chama, a luz
Infinitas, ao alcance de acenos

Mas que o deixou escapar
Na sanha dos vendilhões que trocaram o seu futuro
Por moedas, vantagens, pensões
Iates no cais,
Paraísos fiscais
Privilégios obscenos

Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam... 

Deixa prá lá...




Oswaldo Pereira
Abril 2015