segunda-feira, 30 de novembro de 2015

ÍNDIA - PARTE III





III – RELIGIOSIDADE

Ôôômmmm...

O som é universalmente conhecido. Evoca mantras transcendentais, uma elevação ao estado alfa, a perfeição do nirvana. Seu timbre grave sintetiza num só tom o nome de 33.000 deuses.

A Índia foi o berço de várias religiões e, até hoje, seus cultos, rituais e acólitos povoam uma terra em que tudo é sagrado. Todas as formas de vida recebem a proteção de uma divindade e a reverência de uma população que tem sempre os olhos postos nos ciclos cósmicos da eternidade.

Atualmente, o hinduísmo domina, com 80% de seguidores. Seguem-se o islamismo (13%), o cristianismo (3%), o sikhismo (2%), o budismo e o jainismo, com 1% cada. Um por cento parece pouco, mas, numa população total de 1,3 bilhão, cada uma destas duas últimas contabiliza 13 milhões de fiéis...

Assim, Brahma, Vishnu e Shiva, a trindade máxima do hinduísmo, que representam, respectivamente, a Criação, a Preservação e a Destruição, são onipresentes numa miríade de templos e altares, construídos com requintes ou singeleza, erguidos às margens de rios ou escavados nas rochas, louvados em ritos milenares e celebrados nos textos santificados dos vedas ou na intrincada mitologia do Mahabharata ou do Ramayana.

No plano a seguir, uma constelação de entidades está identificada com cada aspecto da vida e do universo. Conceitos como chakras, tantra, karma e práticas como o yoga, a alimentação vegetariana e os hábitos de purificação de corpo e espírito comandam o dia-a-dia de centenas de milhões de pessoas. A crença no ciclo de reencarnação e na necessidade de evoluir sempre, até atingir-se a liberação final de sua repetição, compõe o núcleo central de uma filosofia de comportamento e convivência.

Os guias que nos acompanharam foram pródigos em explicações sobre o que víamos e ouvíamos nos templos e nas ruas. E não o faziam apenas para atender à nossa ávida curiosidade. Faziam-no quase como um dever religioso...

FINAL – UM ROTEIRO

Se soubesse o que agora sei, teria invertido a ordem do nosso roteiro. Primeiro, iria a Goa, onde a ainda forte influência portuguesa permite apenas um primeiro gostinho dos sabores indianos. É Índia, claro, mas uma Índia light, um prelúdio do impacto que virá a seguir.

Daí, iria a Mumbai, para um tratamento de imersão num torvelinho humano indescritível, um banho caudaloso e quente de cheiros, cores e alaridos, a Índia com I maiúsculo, dos filmes e das crônicas.

UDAIPUR: THE TAJ LAKE HOTEL
Então, seria a vez do mítico Rajastão, a Índia dos palácios, das grandes extensões onde a planura sem fim dos campos contracena o fausto dos marajás com a pobreza extrema do povo, dos lagos de Udaipur, da pureza branca de Ranakpur, do monolítico forte de Mehran Garh em Jodhpur, dos espelhos de Samode, do Palácio dos Ventos dentro da cidade rosa de Jaipur, dos elefantes de Amber.   

PALÁCIO DOS VENTOS EM JAIPUR














O TEMPLO DOURADO DE AMRITSAR














Só depois viria Uttar Pradesh e a cereja do bolo – o Taj Mahal.

Aí sim, estaria preparado para a cidade velha de Delhi, para o pandemônio humano, o caos urbano e o mais lunático trânsito do planeta. E para a paz celestial da Mesquita de Jama Masjid...

E terminaria no Punjab, terra dos sikhs e do Templo Dourado de Amritsar. O adeus seria na fronteira com o Paquistão, em Wagah, envolvido pelo frenesi patriótico que acompanha os malabarismos da ordem unida dos guardas, na cerimônia de descida da bandeira.

Mas, não interessa a ordem. O que aprendi foi inesquecível. Em qualquer sequência, a Índia é um mundo que deve ser visto, ouvido, inalado, saboreado e tocado. Só não há como descrevê-lo.

Oswaldo Pereira
Novembro 2015   
  



segunda-feira, 23 de novembro de 2015

ÍNDIA - PARTE II



CAPÍTULO II – UM TSUNAMI HUMANO

A renitente poluição vespertina dos céus de Delhi faz com que o sol morra vermelho como as turmalinas do Taj Mahal. Alimentada pela exaustão de um milhão e meio de automóveis e mais de dois milhões de motoretas e tuk-tuks, a bruma que paira sobre a imensa capital é apenas uma consequência de um dos mais permeáveis aspectos desse subcontinente. A superpopulação.

São 1,3 bilhão de habitantes. Entre as quinze mais populosas cidades do mundo, a Índia tem mais duas, além de Delhi: Mumbai e Calcutá. Projeções indicam que, em 2050, o país ultrapassará a China. Isto são estatísticas. Uma coisa é lê-las. Outra é senti-las.

Um imenso rio de gente. Um olhar ocidental, acostumado às suas particulares regras de coabitação e convivência, perde seu sentido aqui. O poderoso caudal humano tem suas leis próprias, a movimentação nas ruas permanentemente congestionadas seus ritmos e humores exclusivos. Leva algumas horas para a mente se adaptar. Depois, é só relaxar e apreciar o intrincado mosaico que a confluência de várias raças, ao sabor dos milênios, desenhou na paisagem. Indo-arianos, mongóis, árabes, drávidas e outras correntes menores colorem ruas, calçadas e parques das grandes cidades, as mulheres com seus saris, cholis, churidares e burkas, os homens de dhotis modestos ou ricos sherwanis, imponentes turbantes ou um simples fez. Uma paixão pelas mais garridas cores transforma a multidão num cortejo festivo, infindável, incessante. Tons de pele, cor de olhos, desenhos ritualísticos nas mãos, o universal bindi protegendo o chakra do terceiro olho, as longas barbas dos sikhs, legiões de escolares em férias com seus uniformes ocidentais, os marciais lanceiros guardando o Templo Dourado, pobres e pedintes em seus andrajos, os enxames de vendedores por toda a parte, uma colmeia, um formigueiro. Como descrever este tsunami humano?   

SARIS E CHOLIS
Mas, uma infinidade de gente significa também uma infinidade veículos auto-motores, resultando no mais caótico trânsito que já vi neste planeta. Como sinais, faróis luminosos, passadeiras para pedestres, avisos de limites de velocidade e de vias preferenciais funcionam somente como decoração e guardas rodoviários existam apenas na imaginação, ruas e estradas são um território free-for-all, onde arrepiantes manobras procuram espaços disputados por carros, caminhões, ônibus, vans, tuk-tuks, motoretas, bicicletas e transeuntes. E vacas. Sagrados em todo o território nacional, estes plácidos animais julgam seu inalienável direito andar, parar e até deitar em qualquer via pública, seja um caminho vicinal ou uma pista de alta velocidade (nosso guia informou-nos que o fumo dos carros afugenta as moscas, tornando a proximidade das estradas o endereço preferencial desses mimosos bichinhos...) Adicionalmente, espelhos retrovisores, ao que parece, são solenemente desprezados pelos audazes motoristas indianos, pois mudanças súbitas de mão ou ultrapassagens a qualquer velocidade são feitas sem consulta a esse supérfluo acessório. Todos os veículos longos têm pintada na sua traseira a frase Blow Horn (toque a buzina) ou Horn Please (buzina, por favor). Assim, a buzina é o item mais importante do modus vivendi estradal na Índia. Sua incessante utilização serve para mensagens como “estou aqui atrás”, “sai da frente”,tô com pressa” ou “vou passar de qualquer maneira”. Do Código de Trânsito, que julgo existir, o único parágrafo que parece valer é a obrigatoriedade de, como os ingleses, se dirigir pela esquerda. Mas, nem sempre...

CENA TÍPICA...

OUTRA CENA TÍPICA...
Uma verdade, porém, seja dita. Em quinze dias, e por mais de 800 quilômetros de estradas e ruas percorridos, só vi um acidente, e de pequena monta. Moral da história: os indianos no trânsito, como em todo o resto, têm sua própria filosofia de vida...

(continua)

Oswaldo Pereira
Novembro 2015


quinta-feira, 19 de novembro de 2015

INDIA - PARTE I




John Godfrey Saxe foi um poeta satírico americano do século XIX, cujo mais conhecido poema foi “The Blind Men and the Elephant” (Os Cegos e o Elefante), uma parábola sobre a condição humana que nos faz, às vezes, julgar o todo a partir do conhecimento apenas da parte. Como cada cego (são seis) toca no animal em partes diferentes de seu corpo, chegam a conclusões individuais desencontradas sobre o que ali está. Esta é a descrição mais próxima da sensação que me ficou desta viagem. Palavras não bastam. Nem fotos, nem pinturas. Nem canções e nem poemas. Nem uma vida inteira. Explicar a Índia como um todo é humanamente impossível.
Foram quinze dias viajando, desde os confins do Punjab às praias de Goa, dos palácios de Uttar Pradesh aos contrafortes das montanhas do Aravalli, da vertigem de Delhi ao esplendor do Rajastão, da quietude de Ranakpur ao torvelinho de Mumbai. Quinze dias nos quais me deparei com algumas peças de um imenso quebra-cabeças, um caleidoscópio gigante de pedras preciosas girando numa cornucópia de lendas, rituais e de uma história que se perde na bruma dos tempos.
E esta tosca tentativa de descrever o indescritível vai ter de ser por capítulos. A Índia é grande demais para um blog...

CAPÍTULO I – EXPERIÊNCIA SENSORIAL
Neste nosso século, e no anterior, tem-se corrido atrás do petróleo. No próximo, a briga provavelmente será pela água. Mas no século XV, o motivo de cobiça eram as Especiarias. Enquanto a República de Veneza as comprava dos turcos a preços absurdos, e as revendiam ainda mais caras aos europeus, Portugal e Espanha, as grandes potências marítimas de então, empreenderam uma frenética disputa para ver quem primeiro descobria uma rota alternativa para o país de onde elas se originavam – a Índia. Utilizadas como conservantes, essências perfumadas, incensos e até afrodisíacos, estes produtos de origem vegetal (flores, frutos, caules, raízes, cascas ou sementes), de aroma e sabor acentuados, fizeram a diferença no cardápio insípido da Idade Média e mudaram os hábitos alimentares da Renascença. E continuam espicaçando o primeiro sentido a ser provocado quando se aporta em solo indiano. O paladar.

DUM ALOO: BATATA RECHEADA COM MOLHO CURRY




O "SALVADOR" CHAPATI









Em todos os locais onde se serve comida, os cardápios dividem a escolha em duas grandes categorias. Vegetariano ou não. Num país em que a maioria das religiões praticadas proíbe a ingestão de alimento de origem animal, é compreensível. O que leva algum tempo para perceber é que, em qualquer escolha que se faça, a boca do visitante sempre experimentará, em maior ou menor grau, a pungente delícia das especiarias. Masalas e currys são os onipresentes molhos e cada região (e cada cozinheiro, na verdade), tem sua fórmula secreta para misturar cardamomo, canela, piri-piri, cominho, cravo, açafrão e noz-moscada, e outros ingredientes de uma infindável lista. Eles irão acompanhar batatas, peixes, galinhas, carneiros, que podem estar cercados de arroz basmati ou lentilhas, vegetais cozidos ou saladas. Relaxe e não se preocupe com a ardência. Ao final, sempre aparecerão cestas com chapati, um pão fino sem fermento. Generosamente barrados de manteiga, irão mitigar rapidamente o ardor.

Por esta altura, o olfato já entendeu que estamos num mundo à parte e que, em qualquer rua de Delhi, uma cidade de 18 milhões de habitantes, você estará sempre no meio de uma multidão, de um engarrafamento e de uma profusão de lojas, tendas, quiosques, tascas, bancadas que vendem de tudo e espalham sem pudor uma monstruosa quantidade de lixo. Odores, perfumes, almíscares. Fumaça, gente, animais, comida, incenso. Tudo junto. Tudo muito.

RUA DE DELHI

Ouvir a Índia é outra experiência sensorial única. Seja na cacofonia de Delhi ou de Mumbai, mega cidades onde a buzina dos carros é uma sinfonia permanente, seja no som das flautas e tambores dos encantadores de serpentes no átrio de algum palácio, nos celestiais mantras dos jainistas em Ranakpur, na gritaria patriótica durante as cerimônias militares na fronteira com o Paquistão, no tinir dos címbalos dentro do templo de Laxmi Narayan na celebração do Aasti, no barulho ensurdecedor da lavagem dos pratos e talheres de um refeitório onde são servidas 50.000 refeições gratuitas por dia, em Amritsar. Ouvir a Índia é também escutar sem entender uma palavra do hindi e suas variações e perceber alguma coisa do acentuado inglês falado em toda a parte. Afinal, são 22 línguas oficiais, 164 idiomas menores e 1.576 dialetos.



Mas o melhor de tudo é ver. Olhar, perscrutar, espreitar, mirar, enxergar, espiar, vislumbrar e, principalmente, contemplar. Seriam precisos rios de escrita e uma capacidade descritiva sobre humana para por no papel a imagem de um mundo que atravessa todo um subcontinente milenar, que aprofunda suas raízes em Mohenjodaro, no alvorecer da civilização, e expõe as cores de uma história vibrante através dos séculos, das raças e das crenças, até os dias de hoje, em que todos estes capítulos se sobrepõem e se somam, num grande e fantástico painel multifacetado.

(continua)

Oswaldo Pereira
Novembro 2015

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

JIHAD




O primeiro texto seria sobre a Índia, esse fabuloso semi-continente que tive a ventura, e a aventura, de atravessar durante os últimos quinze dias. Mas quis o destino que a nossa volta de Mumbai para a Europa, inicialmente reservada num voo da Lufthansa com destino a Frankfurt, fosse, por causa da greve dos alemães, reprogramada para Paris pela Air France. Nosso avião decolou às duas e vinte da madrugada de sábado, dia 14. Na França, eram nove e quarenta da noite do dia 13. Hora em que o inferno abria suas portas na capital francesa.

A vagem aérea foi extremamente tranquila. Em algum escaninho do cérebro, a única preocupação era o pouco tempo da escala, menos de duas horas entre a chegada e a partida do voo para Lisboa, na imensidão do Charles de Gaulle. Nada, entretanto, que viajantes experimentados em conexões apertadas não fossem capazes de administrar.

A primeira sensação de que algo não estava bem foi logo à entrada do terminal 2. A esta altura, enormes filas formavam-se onde não era suposto sequer existirem. Controles minuciosos de bagagem e de documentação engasgavam a movimentação usualmente frenética do grande aeroporto, como que petrificando-a no silêncio de longos compassos de espera. Nesse momento, a França fechava seu espaço aéreo e suspendia o Acordo Schengen, praticamente erguendo um muro em suas fronteiras. Foi por milagre que conseguimos, quase sem fôlego, pegar o avião para Portugal. E, então, entender a dimensão da tragédia que ferira a cidade que, há menos de um mês, nos aconchegara num belo fim de semana outonal.

Já muito escrevi neste blog sobre violência religiosa, sobre o mistério paradoxal que não consegue explicar como as diversas crenças, cuja filosofia central assenta-se na prática do bem e da compaixão, foram, durante a longa história da humanidade, as maiores responsáveis pela intolerância, pelos conflitos e pelas guerras. E, em pleno século XXI, a leitura radical dos códigos sagrados de um desses credos está transformado-se numa evocação sangrenta. A virulência do braço armado do ISIS, absolvido pelo silêncio praticado pelos dirigentes do mundo árabe, não deixa dúvidas. O Islã levanta-se.

E já foram coincidências demais para desqualificar esta afirmação como um surto paranoico da teoria da conspiração. É muito estranho que, de repente, uma disputa intestina na Síria se transforme em palco central de uma queda de braço que traz reminiscências da Guerra Fria. Que a política de preços da Arábia Saudita leve à penúria os grandes exportadores ocidentais de petróleo. Que a decantada Primavera Árabe tenha-se transformado num deserto árido de disputas tribais. Que uma onda de refugiados nunca vista desde a Segunda Guerra Mundial tenha despejado em solo europeu mais de um milhão de muçulmanos da África Setentrional e do Oriente Médio. Podem ser movimentos autônomos, sem conexão entre eles? Podem. Pode ser tudo parte de uma grande estratégia? Também pode.

O que vi no Aeroporto Charles de Gaulle foi uma França assustada. E foram necessários apenas seis jovens kamikazes, a maioria deles islamitas com cidadania francesa, para fazer Paris dobrar os joelhos e levar o pânico de Londres a Roma. O Daesh anuncia que, infiltrados nas hordas de migrantes recolhidas nos últimos meses, 4.000 “soldados” do ISIS penetraram no continente europeu. É de tirar o sono.

Oswaldo Pereira

Novembro 2015

terça-feira, 27 de outubro de 2015

DUELO NA TARDE



Tudo aconteceu em trinta segundos. Em meio minuto, 35 tiros foram disparados. Quando a fumaça das armas se dissipou, três feridos sangravam e outros três homens estavam mortos, emborcados na poeira amarela do chão de Tombstone. Vinte e seis de outubro de 1881, três horas da tarde. Numa época de tiroteios, acabara de chegar ao fim o mais famoso confronto do Velho Oeste americano, que só passaria a ser chamado de Gunfight at the OK Corral cinquenta anos depois, com a publicação do livro “Wyatt Earp: Frontier Marshall” de Stuart Lake.

A rigor, o celebrado duelo entre os irmãos Earp e os fora-da-lei ocorreu num exíguo beco da rua Freemont, em frente a um estúdio fotográfico, a uns vinte metros da traseira do curral O.K. No momento em que os disparos tiveram início, a distância entre os adversários era inferior a três metros. E foi apenas mais um capítulo da história de rivalidade entre a família de delegados e o bando de cowboys liderados por Johnny Ringo (que não estava na cidade no fatídico dia). A disputa começara meses antes, entre ameaças dos bandidos e ações duras dos xerifes, e continuaria depois, com mais mortes e prisões.


TOMBSTONE EM 1881
Tombstone (o nome já diz tudo: pedra tumular) foi mais uma cidade-cogumelo das centenas que surgiram nos territórios do sudoeste americano, nos anos seguintes à Guerra Civil. Nascidas literalmente do nada a partir da descoberta do veio de algum mineral precioso, atraíam o que havia de pior da sociedade, gente que estava disposta a arriscar tudo por tudo, no sonho de enriquecer rapidamente. Aventureiros, ladrões, contrabandistas vinham de todo o lado, trazendo atrás de si um séquito de jogadores, prostitutas e aproveitadores como efeito colateral. A lei, entretanto, só chegava depois, e os policiais tinham de ser rápidos no gatilho para poder enfrentar as gangues de pistoleiros a serviço dos recém-empossados reis do crime.

No caso de Tombstone, foi a prata. Surgida num pequeno planalto no Condado de Pina, Território do Arizona, em 1879 e ocupada por 100 habitantes, dois anos depois  a vila já abrigava 7.000 pessoas, alguns bons restaurantes, um boliche, 4 igrejas, 1 escola, 2 bancos, 3 jornais, um teatro e uma sorveteria. E 110 saloons, 14 casas de jogo e muitos bordéis. Um caldo de interesses humanos diversos. E foi para dentro deste panelão fervente que Virgil Earp viu-se lançado quando recebeu a nomeação de Town Marshall (Delegado Municipal), em 1880. Como a família era muito unida, seus irmãos Morgan, Warren e Wyatt, suas esposas e filhos, decidiram ir junto. Na esteira, outro personagem famoso, o dentista John Henry “Doc” Holliday, amigo pessoal de Wyatt, também aderiu.

A fervura do panelão era atiçada pela rivalidade entre fazendeiros e negociantes, de um lado, e ladrões e contrabandistas de gado, conhecidos como Cowboys (o termo na época era pejorativo e equivalente a bandido. Os vaqueiros do bem eram chamados de cattle ranchers ou cattle herders) do outro. A proximidade da fronteira com o México (48 km) complicava mais as coisas para uma ação efetiva da lei. Mas os irmãos Earp não estavam para brincadeiras. Logo à chegada, Virgil promulgou uma postura municipal proibindo o porte de armas dentro do perímetro urbano.

E isto foi o estopim para o histórico duelo. 

Na manhã do dia 26 de outubro, alguns entreveros já haviam ocorrido entre os futuros adversários, com promessas de retaliação de parte a parte. No começo da tarde, as coisas se agravaram. Perto das três, alguns moradores vieram avisar Virgil que os irmãos Clanton (Ike e Billy), os McLaury (Tom e Frank) e Billy Clayborne, todos cowboys do grupo de Ringo, estavam concentrados perto da pousada onde Doc Holliday alugara um quarto e que, possivelmente, estavam armados. O dentista, alertado por Virgil, concluiu que os bandidos estavam ali para matá-lo. O xerife Earp resolveu então chamar os irmãos Wyatt e Morgan, que já haviam sido nomeados deputies (delegados auxilares), deu uma estrela também a Holliday e, juntos, rumaram para a rua Freemont, com o objetivo de recolher as armas dos infratores e autuá-los.

WYATT EARP E "DOC" HOLLIDAY

Como qualquer fato histórico que se preze, há várias versões do tiroteio. Há até quem diga que os cowboys renderam-se assim que os Earp apareceram e que foi assassinato a sangue frio. A verdade “mais provável”, entretanto, é a que consta dos autos do julgamento do caso e que foi corroborada por vários estudiosos do assunto. Ike Clanton e Billy Clayborne estavam realmente desarmados e fugiram ilesos do confronto. Os outros abriram fogo ao mesmo tempo que os irmãos Earp e Doc Holliday. Doc acertou Tom McLaury no peito, feriu Billy Clanton e acabou sendo salvo quando uma bala disparada por Billy acertou no seu coldre e atingiu-o apenas superficialmente. Virgil foi logo ferido no tornozelo, mas continuou atirando. Morgan recebeu uma bala no ombro e ficou momentaneamente fora de combate. Wyatt cool as a cucumber (frio como um penino, nos dizeres de um cronista da época) continuou de pé disparando seu Smith & Wesson .44 até liquidar Clanton e Frank McLaury. Trinta segundos.

DIAGRAMA DO TIROTEIO, BASEADO NOS AUTOS

A PRIMEIRA NOTÍCIA
Desde o seu primeiro relato nos jornais do Arizona, o Tiroteio no Curral OK já foi tema de centenas de artigos, estudos e livros. Em 1955, a rede ABC americana produziu a série televisiva “The Life and Legend of Wyatt Earp”, com Hugh O’Brien no papel-título. Só no cinema, já foram cinco versões. Há dias, eu e o Wilson Salazar, um grande amigo, também aficionado dos filmes de bang-bang, as estivemos recordando. São elas.


TOMBSTONE – THE TOWN TOO TOUGH TO DIE (1942)
MY DARLING CLEMENTINE (1946)
GUNFIGHT AT THE OK CORRAL (1957)
TOMBSTONE (1993)
WATT EARP (1994)

Nomes consagrados da telona se revesaram nos papeis de Wyatt (Richard Dix, Henry Fonda, Burt Lancaster, Kurt Russell, Kevin Costner) e de Holliday (Kent Taylor, Victor Mature, Kirk Douglas, Val Kilmer, Dennis Quaid). Com imagens e maneirismos diferentes, todos eles contribuíram para manter viva a eterna fama de duas das figuras maiores de uma época lendária.  






















Oswaldo Pereira
Outubro 2015

PS.: O blog e este blogueiro vão dar férias a vocês, queridos leitores! Durante os próximos 20 dias, vocês poderão gozar a merecida paz de não serem importunados por este escriba...


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

CIDADES QUE DÃO MÚSICA IV





PARIS


“Paris sera toujours Paris
La plus belle ville du monde”
Paris Sera Toujours Paris. Casimir Oberfeld, 1939.

“Paris será sempre Paris, a cidade mais linda do mundo”.

LA SAINTE CHAPELLE
Por volta de 250 a.C., uma tribo celta considerou o lugar adequado para armar as suas tendas. Uma ilha convenientemente situada no meio do rio, o que encurtava sua travessia para ambas as margens. Água com fartura, mobilidade assegurada pela veloz correnteza, terra fértil. Assim, no que hoje se conhece como L’Île de la Cité, os parisinos resolveram ficar. Não sabiam, mas estavam escrevendo o primeiro capítulo da crônica de uma das mais fantásticas cidades do mundo. Os volumes seguintes seriam compostos por romanos, gauleses, francos, alemanes, vikings. Pelas guerras, pelas pestes, pelas ocupações, pelas guilhotinas, pelas revoluções. Mas também pela fé, pela arquitetura, pelas artes, pelo triunfo, pela cultura, pelo Iluminismo, pela cuisine, pelas luzes. E pela música.

PARIS NO SÉCULO XIII














“Y’a la Seine, a n’importe quelle heure
Elle a ses visiteurs qui la regarde dans les yeux
Ce sont ses amoureux, à la Seine”
A Paris. Francis Lemarque, 1949.

“E há o Sena, não importa a hora ele tem seus visitantes que o olham nos olhos. São seus apaixonados, do Sena”.

Amor e Paris sempre andaram juntos. Românticos, eles vão de mãos dadas pelas margens do rio, pelas ruas de Montmartre, olham-se apaixonadamente através das velas num charmoso bistrô de Saint-Germain, beijam-se em doce abandono num banco do Jardim das Tuileries. Ardentes, acendem o pecado na efervescência de Pigalle, debaixo das árvores do Bois de Boulogne, no bas-fond dos cabarés, nos palcos do can-can. Eternos, eles atravessam o tempo nas alcovas da Idade Média, nos salões da Renascença, na corte dos luízes, nos palácios do Império, nas casas senhoriais da República, nos teatros da Belle Époque, nos porões da Résistance. Qualquer estação do ano. Com qualquer humor do tempo. Amor e Paris continuam andando juntos.


“Et le monde tremble quand Paris est en danger
Et le monde chante quand Paris s’est liberé”
Paris est en Colère. Maurice Vidalin/Maurice Jarre, 1966.

“E o mundo treme quando Paris está em perigo. E o mundo canta quando Paris se liberta”.

PARIS SOB OCUPAÇÃO ALEMÃ
Foram muitas as invasões. Desde quando o general romano Titus Labenius derrotou os gauleses, Paris se viu subjugada pelo inimigo várias vezes. Ou em perigo mortal, como na Primeira Grande Guerra, em que as tropas francesas foram para o front nos táxis da cidade. O revés mais duro, entretanto, aconteceu em maio de 1940, quando os vitoriosos soldados da Wehrmacht alemã marcharam em triunfo pelos Champs Elysés. Paris viveria quatro longos anos sob a ocupação nazista, engolindo seu orgulho, tentando conviver com uma sufocante opressão, chorando em silêncio. Mas, ao mesmo tempo, cozinhando sua libertação nos subterrâneos, nas caves, na coragem visceral dos maquis, dos partisans, de uma juventude que, em agosto de 1944, faria a cidade reencontrar-se com a liberdade.

“Sweet mirrored illusions, in an old mirrored bed
In a hotel in Paris, wishing time wasn’t dead”
Paris at 21. Peter Allen, 1979.

“Doces ilusões no espelho, numa cama espelhada, num hotel em Paris, desejando que o tempo não estivesse morto”.

JOSEPHINE BAKER. PARIS ANOS 1920
Desde o dia em que o Rei Luís IX trouxe as relíquias da paixão de Cristo para a Sainte Chapelle, no século XIII, Paris sempre foi o epicentro europeu dos movimentos culturais de vanguarda. Foi assim na religiosidade do gótico, no esplendor de Versailles, no grito da Marseillaise, no clímax de Napoleão, nos ateliers do fin-du-siècle. E, principalmente, no período compreendido entre as duas guerras mundiais do século passado. Como um ímã irresistível, a cidade atraiu o melhor da força criativa da pintura, da música, da literatura, do pensamento e Picasso, Chagal, Modigliani, Dali, Chevalier, Hemingway, Fitzgerald, Miller, Porter, entre uma legião de outros membros da Lost Generation (A Geração Perdida), vieram explodir seu talento inovador nos cafés de Montmartre e de Saint-Germain-des-Prés. Mudaram o mundo. Para melhor.

“Sous le ciel de Paris s’envole une chanson
Elle est née d’aujourd’hui dans le coeur d’un garçon”
Sous le Ciel de Paris. Hubert Giraud/Jean Dréjac, 1951.

“Sob o céu de Paris, uma canção flutua, ela nasceu hoje no coração de um menino”.


A Torre Eiffel que se ilumina às sete da noite. Um bateau mouche que singra solene as ondas do Sena. As folhas de outono pintando de amarelo-torrado a relva ainda verde do Jardin de Luxembourg. A Sacré Coeur recebendo os últimos raios de sol no alto de sua colina. Paris é isto. E mais. São os ventos da sua história, os ecos de sua desdita e de sua glória, a imagem inimitável de uma cidade que vive, e viverá sempre, no coração e no imaginário de todos nós.



Oswaldo Pereira
Outubro 2015

PS.: Esta é a quarta crônica da série “Cidades que Dão Música”. As outras três foram San Francisco, Lisboa e Rio. Se quiser relê-las, é só clicar nos links abaixo.

http://obpereira.blogspot.pt/2012/05/cidades-que-dao-musica-1.html


http://obpereira.blogspot.pt/2013/10/cidades-que-dao-musica-2.html

http://obpereira.blogspot.pt/2014/11/cidades-que-dao-musica-iii.html