terça-feira, 5 de novembro de 2019

NAS RUAS


O mundo parece estar com febre. Dos gilets jaunes franceses, aos ninjas de Hong-Kong. Dos desconfiados eleitores bolivianos aos enraivecidos contribuintes chilenos. 1968 todo de novo.  Do burn baby burn dos guetos negros. Dos les jours em Mai de Paris.

Povo nas ruas. Uma onda cíclica que deságua por entre os canyons de concreto das grandes cidades. Um monstro icônico que rebate balas de borracha e inspira gás lacrimogêneo. Estaremos nós novamente sob o império das vontades das grandes marchas populares, as poderosas manifs de 50 anos atrás? Terá a moda voltado?

E o que ela hoje significa? Há meio século, o planeta experimentava um salto quântico. Moral e costumes davam uma acentuada guinada no conceito dos valores tidos como pedras basilares pela sociedade dita civilizada. Saindo da hecatombe da guerra, o comportamento certinho era o padrão default para um mundo cansado, mas esperançoso de um futuro tranquilo e regido pelos denominadores família, trabalho e, se possível, religião.

A contracultura da beat generation, o desencanto com o Establishment, a liberalização da pílula, a floresta mágica das drogas, a desconstrução da arte e os mantras hare-krishnas sobre a Era de Aquarius viraram, a partir do início da década de 1960, o mundo engomado e esterilizado, saído da Segunda Guerra Mundial e mantido refém do medo da Bomba, de pernas para o ar. Ir para a rua protestar era de riguer ou, melhor dizendo, IN.

Tudo indica que estamos em nova mudança de ciclo. Não sei que Era é esta, mas o milênio que nasceu sob a fumaça da Torres Gêmeas vem agitando suas bandeiras. A ferramenta do século, as Redes Sociais, já está mudando, como há 50 anos as flores nos cabelos, os patamares e as etiquetas de comportamento. Inclusive, e principalmente, na disseminação de percepções políticas antes só atingida por esforços imensos de coordenação. Hoje, bastam alguns cliques.

Assim, o povo está vindo de novo para as praças e avenidas. Menos românticos do que há 5 décadas. Mais conscientes, e, por isso mesmo, mais decididos, incansáveis e combativos. Não querem mais mudar o mundo. Seus objetivos são específicos, dizem respeito às suas necessidades e sonhos de agora, aos direitos que entendem como seus. Novos tempos.

Oswaldo Pereira
Novembro 2019

terça-feira, 22 de outubro de 2019

STF



Barbosa, Augusto e Juvenal, Bauer, Danilo e Bigode, Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico...
Ou ainda
Gilmar, Djalma Santos, Bellini e Nilton Santos, Zito e Orlando, Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagallo.
Mais uma?
Felix, Carlos Alberto, Brito e Piazza, Everaldo e Clodoaldo, Jairzinho, Gerson, Pelé, Tostão e Rivellino.

Brasileiros, desde o tempo em que a seleção era chamada de scratch, lembram destas formações. Perdedores em 1950, mas consagrados na Suécia em 1958 e no México em 1970, a escalação da equipe nacional de futebol era como uma prece, um mantra conhecido por toda a população.  Seus nomes evocavam, e ainda hoje evocam, o que de melhor tínhamos a cultuar. País do futebol. Embora um pouco depreciativo, o apelido reconhecia a nossa habilidade e a maestria no domínio da bola e rendia um certo ufanismo nos corações pátrios. Nomes inesquecíveis...

Hoje, principalmente depois da hecatombe frente à Alemanha na Copa de 2014, poucos são os compatriotas que conseguem recitar por inteiro o time nacional. Os deuses deixaram de andar pela Terra. Outras preocupações vieram diminuir o romantismo do futebol e, embora ainda pujante como esporte, saiu um pouco da cena brasileira. O Brasil vai entrar em campo. Mas, quem é mesmo que vai jogar?...

No entanto, hoje há um outro onze que está na boca do povão. Basta perguntar por aí, e a quase maioria vai entoar tintim-por-tintim seus nomes. Quem não sabe?

Gilmar, Fux e Marco Aurélio, Fachin, Alexandre e Celso, Weber, Lewandovsky, Toffoli, Barroso e Carmen Lúcia.

Para os meus abnegados leitores que não moram no Brasil, eu explico. Este plantel é a constituição atual do Supremo Tribunal Federal, o órgão máximo da justiça brasileira. Vocês, então, poderão pensar que nós evoluímos e que trocar o culto a futebolistas por interesse em juízes togados seria a indicação de uma inesperada seriedade e um louvável fervor cívico.

Nem tanto.

O presente protagonismo do STF vem de outra origem. Embora designado institucionalmente para ser a instância final do processo legal, guardião e intérprete por excelência da Constituição, o Supremo tem sido palco de jogos de interesses que extrapolam sua função e conspurcam seu lugar.

Aproveitando o caráter leniente da legislação penal brasileira, os magistrados da suprema corte têm dado, com raras e honrosas exceções, um show de bola no que tange à suavização de penas e protelação de condenações de políticos envolvidos em tenebrosos casos de malversação de recursos públicos.

Num país em que mais de trinta mil pessoas têm direito a foro privilegiado, isto é, tratamento diferenciado perante a lei e, na prática, um bilhete premiado de impunidade, uma corte branda e conivente é tudo o que não se precisa.

Agrava a situação o fato de que a Constituição atual, promulgada em 1988, três anos após o término do regime militar, foi elaborada com sentimento de culpa. Procurando expurgar o arcabouço legal de possíveis exageros de autoritarismo, os constituintes empurraram o pêndulo para o extremo oposto, criando um diploma que, além de absurdamente extenso (508 artigos!), é um buquê de salvaguardas que qualquer ardiloso advogado pode lançar mão para adiar a condenação de seu cliente.

Haja vista que o país, nos últimos 12 anos, sofreu o maior assalto aos cofres públicos de sua história, um episódio de corrupção inédito no mundo que enredou os seus líderes políticos num obsceno esquema de enriquecimento ilícito pessoal e partidário, era de se esperar que o Supremo Tribunal Federal apoiasse e ratificasse a extraordinária ação de um punhado de juízes e procuradores na luta contra o crime – a Operação Lava-Jato.

Infelizmente, não é o que se vê. Remando ao contrário do sentimento de justiça e de cobrança da maioria da população brasileira, o STF afasta-se da realidade, encastela-se em sua visão torta do Direito e vem-se firmando como o Inimigo Público número 1 das esperanças nacionais.

As seleções de futebol do passado são lembradas com respeito. O atual time de magistrados inspira apenas repulsa, revolta e desprezo.

Oswaldo Pereira
Outubro 2019

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

SAUDADES DE PORTUGAL




Foi hora de deixar Portugal. Sempre dói, um pouco. Sempre há poentes dourados na véspera, estrelas vadias na noite, manhãs clareadas no dia, músicas inesquecíveis no momento da partida.

Desta vez, além de não ser diferente, alguém colocou na TV a canção “Chuva”, gravada ao vivo num show da Mariza. Aí, lembrei-me que, golpeado então pela sua beleza e entontecido de saudade, escrevi há anos um texto chamado “Esquina de Lisboa”, que jaz soterrado nos arquivos deste blog.

Resolvi republicá-lo. E inserir o link para a mágica apresentação da Mariza. Achei que o meu pobre escrito ficaria melhor ao som dela. E vocês poderiam talvez compreender mais este meu surto de nostalgia. E me perdoar por ele.



Esta esquina de Lisboa
Viu passar Fernando Pessoa

Estava a frase num azulejo, com letra miúda inclinada em azul sobre um fundo branco, a uns trinta centímetros do chão, embutida na parede pintada de amarelo. Andando ligeiro, prestando atenção no movimento, atento ao tráfego, interessado numa vitrina, mesmo o mais observador transeunte não a veria. Era uma informação pequena, quase obscura, feita para não ser vista, uma mensagem atirada ao nada. À noite, então, pior era, engolida pela iluminação precária daquela curva da cidade, desfigurada nas sombras.

Mas ela estava ali, e ali provavelmente deveria ter estado há muito, amornada pelo sol ou borrifada da chuva, por quanto tempo não sei, nem tenho como saber. Só sei que, um dia, a vi. Um dia em que procurava achar a Baixa em meio aos meus desatinos, em que andava a procura de um norte na escuridão de meus desencantos, um sentido qualquer, uma explicação para o inexplicável, um bálsamo para as minhas aflições. A vida me largara, ou eu me largara dela, tanto faz, aí a ordem dos fatores não altera o produto, mas o rumo desaparecera, o que restava eram labirintos, sinais trocados, ruas sem saída.


Esta esquina de Lisboa
Viu passar Fernando Pessoa

Por que só viu o poeta? E qual poeta teria visto? Quem seria o poeta naquele dia, ou naqueles dias em que passara e a esquina o vira? Bernardo Soares em seu desassossego? Ricardo Reis antes de ir para o Brasil? O filósofo Alberto Caeiro ou o torturado Álvaro de Campos? 

E por que só vira o poeta? E os outros, os “nós” anônimos, os comuns, os iguais, os despercebidos, os desimportantes, os esquecidos, os zés e as marias ninguém, os “eu” sem ribalta, as gentes do dia a dia, os náufragos da noite, todos com suas estórias para contar.

Talvez, só porque o poeta a dele contara. Talvez só porque ele escancarara suas entranhas, dera ao repasto do mundo e do futuro sua alma como alimento. E então, por isso, a esquina o registrara e orgulhosa do fato de tê-lo visto, de ter ouvido o ruído do taco de seu sapato ressoando na pedra da calçada, ali tão perto, quis apregoar a ventura de ter sentido a genialidade agitar o mesmo vento que a acariciava.

Esta esquina de Lisboa
Viu passar Fernando Pessoa


E agora me vê aqui. O vento não me acaricia; é nortada fria e molhada que me ensopa até os ossos, mas são o medo e a solidão que me gelam por dentro. A Baixa está vazia e lúgubre, lavada de chuva e caída no silêncio. Longe estão os verões dos turistas coloridos, das tardes de sol, dos pregões sonoros. Mais longe ainda está o meu verão, o verão meu que imaginava eterno, dos radiosos dias de amanhãs sem presságios, da felicidade ao alcance de um aceno. Onde foi a sensação de vida por viver, de tempo que obedecia ao ritmo do meu coração, parando quando eu queria, correndo quando eu mandava?

Ah, poeta! Você que aqui passou, que tanto sabia de angústias e de medos, que tantas vezes e de tantas maneiras os cantou, por que não me ajuda a destilar minha alma, a aliviar meus humores e minha bílis? Como gostaria de trocar esta febre insidiosa pelas dores do parto de uma poesia, de um embrião de palavras escritas que depois desabrochassem num soneto de amor, nuns versos perfeitos de rimas ricas.

Esta esquina de Lisboa
Viu passar Fernando Pessoa


Adeus, esquina. Vou-me embora. Não tive resposta do poeta. Ele terá as suas razões. Afinal, poesia não é arte que se aprenda por osmose. Não adianta cá ficar, esperando por uma centelha, um toque, um sussurro. A inspiração não vem assim, de presente, de graça, flutuando no ar como um balão de festas. Ela é dádiva rara, de um deus sovina e aleatório que, sabe-se lá por que critérios, escolhe alguém ao acaso e o regala com o dom de domar vocábulos, encilhar frases, cavalgar estrofes. De mim, nada sairá. Nem uma trova, nem mesmo um verso de cordel ou ainda um simples hai-kai.

Adeus, esquina. O poeta de novo aqui não passará. Só sua fama anda por aí, mas está dispersa pelo mundo, glorificada na memória das gerações de agora e do porvir. É imensa, galáctica, universal. Duvido que de ti tome conhecimento, assim como todos os que por ti passam, imersos em suas vidas, guiados pelos semáforos, atiçados pelas vitrinas, são imunes à tua rima pobre.

Só eu, esquina. Só eu te vi e ouvi teu grito para o nada. Esquece o poeta. Registra esta noite, o meu desalento, a nossa solidão. E escreve:

Esta esquina de Lisboa
Viu passar... uma pessoa

Oswaldo Pereira
Outubro 2019



quarta-feira, 9 de outubro de 2019

ABSTENÇÕES



Portugal foi às urnas. Ou melhor, METADE de Portugal foi às urnas. A abstenção no pleito do passado dia 6, cujo objetivo era a escolha dos membros do Parlamento da Nação, chegou aos 45%. Nesta eleição de 2019, 300.000 portugueses a mais do que na última votação legislativa, cuja abstenção já fora alta, abriram mão do seu direito cívico de votar. O que isto quer dizer?

Quer dizer que há um desencanto. Que mais significativo fica quando verificamos que o fenômeno acontece na maioria das democracias europeias. O percentual médio de abstenção no Mercado Comum tem sido de 47%. Ou seja, um abandono maciço à opção usar uma das prerrogativas mais fundamentais das sociedades livres. A de escolher seus representantes, aqueles que farão as leis que regerão a vida e o destino de um povo durante seus mandatos.  Quando se pensa no sacrifício, na luta e no caminho árduo que muitos destes países tiveram de percorrer para conseguir chegar ao paraíso de uma liberdade plena, maior ainda fica esta perplexidade. O que está havendo?

Há várias opiniões e várias análises. Há os que prenunciam um declínio na vocação democrática de muitos países, indo até a especularem que a própria eficácia do princípio do decantado governo do povo, pelo povo e para o povo está com os dias contados. Muitos vaticinam que há países maduros para o apetite de algum populista ardiloso, cujo discurso mais radical possa arrebatar corações e mentes.

Outros veem defeitos não na filosofia democrática, e sim no mau uso do sistema, na falta de proximidade entre eleitor e eleito, que leva o cidadão a questionar e a desconfiar do verdadeiro valor de seu voto. No momento em que a sensação de representatividade amortece, o ideal da participação popular e de sua influência no comando político também desvanece, desaguando numa apatia profunda com relação ao dever de votar.

É este o grande desafio atual das sociedades democráticas. Resgatar o interesse do eleitor. Modificar, talvez, o processo eleitoral, estreitando a distância entre representantes e representados, convencer o cidadão de que seu destino pode estar em suas mãos, e fazê-lo aceitar que Democracia é um exercício constante, permanente, que não acaba no momento em que a cédula cai na urna ou um botão é premido num terminal. Que só vive em sua plenitude se o povo nela acreditar de verdade.

Oswaldo Pereira
Outubro 2019

terça-feira, 24 de setembro de 2019

PAPO DE BAR: CARNE DE VACA



«Estou cada vez mais encantada com Portugal...»
«Não me diga que você vai ajudar a engrossar o êxodo de brasileiros para lá...»
«Ué...talvez. Mas, não é sobre isto que eu queria falar. É sobre a notícia que li ontem. O Reitor da Universidade de Coimbra proibiu a venda de carne vaca nas cantinas. Não é fantástico?...»
«Fantástico?! Bem, não vi nada de fantástico. Vai ver é porque servir bolinhos de tofu e saladinhas deve sair mais barato aos cofres da Universidade do que bifes...»
«Deixe de ser o cínico de sempre, Cezar. Não tem nada a ver com custos. É uma maneira de reduzir o consumo carne bovina e ajudar o planeta. O metano liberado pelo gado vacum é um dos grandes poluidores da atmosfera. O próprio governo português já tem planos de reduzir o rebanho do país em 30% até 2050. De novo, não é fantástico?»
«Já vi tudo, Antônia. Você continua a entrar nessa onda do apocalipse climático. Não vê que isto é uma grande bobagem? Mesmo que Portugal mandasse matar todo o seu rebanho, isto seria cagagésimo da população mundial de bois e vacas. E os rebanhos da Argentina, dos Estados Unidos? Não me consta que os argentinos estejam se preparando para abolir a parillada, ou os americanos o seu querido barbecue dominical. Para não falar na Índia, onde o animal é sagrado. Centenas de milhões deles vagam livres e intocados pelo continente indiano, a depositar suas fezes onde bem entendem. Que me perdoe o douto Reitor de Coimbra, mas isto é inócuo.»
«Não é. E é isto que você não entende. Não interessa a quantidade. É um exemplo. Uma mensagem. Qualquer ajuda serve. Cada um tem de dar o seu contributo, mesmo pequeno, para salvar a Terra.»
«Às expensas do pobre estudante que vai ficar sem o seu prego na frigideira...»
«Ora, se ele não pode passar sem isto, que vá ao restaurante mais próximo.»
«Não é bem por aí, Antônia. As cantinas universitárias não são uma rede de lanchonetes em que o gerente pode decidir o menu. Foram destinadas a prover refeição subsidiada aos alunos. A maioria depende disto para manter seu parco orçamento e tem direito a um cardápio que procure atender a todas as preferências.»
«Mesmo que isto ponha em risco a humanidade?»
«Risco?! Pelo amor dos meus gatinhos, que risco, Antônia? O grande poluidor não são nem o gado e nem o metano. É o CO2. Noventa porcento da poluição atmosférica vêm da queima de combustíveis fósseis. O problema não é a vaca. É o carro. São as grandes centrais elétricas movidas a petróleo. E isto dentro o conceito discutível de que a ação do homem é que está mudando o clima...»
«Como é que é? Eu não acredito que você ainda tenha dúvidas sobre este assunto. Hoje mesmo na ONU todos os dirigentes mundiais estão concentrados em encontrar soluções que diminuam a agressão humana ao meio ambiente. E com os ouvidos abertos à pregação justamente enfurecida daquela menina norueguesa...»
«Sueca. Greta Thunberg é sueca. E, do meu ponto de vista, acho seu discurso meio exagerado. É emoção demais, apelos demais, até tranças demais... Sei não...»
«Meu Deus. Você está parecendo o Trump...»
«Não estou querendo insinuar coisa alguma, mas a mãe dela é ativista da extrema esquerda. Quem será que escreve os seus discursos?»
«E qual é o problema? O que ela diz, com ou sem interesses por trás, é verdadeiro. Algo tem de ser feito. E já.»
«Concordo. Que tal voltar a incluir um lombinho de vitela ao molho barbecue nos cardápios de Coimbra?...»

Oswaldo Pereira
Setembro 2019

terça-feira, 17 de setembro de 2019

DEMOCRACIA




“Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!”

Este é o texto do twitter que Carlos Bolsonaro, filho do Presidente brasileiro, postou há dias, desencadeando uma tempestade de críticas raivosas na imprensa e comentários ácidos que iam ao extremo de ver nesses dois parágrafos uma indiscutível apologia dos regimes de exceção. Li, reli e li outra vez a mensagem tuitada. E não pude deixar de imaginar quais seriam as reações de ranger de dentes se ele tivesse postado, por exemplo, o seguinte:
“A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais.”
Ou ainda:
“A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.”

Para aqueles que ainda não as reconheceram, estas frases foram ditas por dois grandes pensadores. A primeira é de Winston Churchill. A segunda, de George Bernard Shaw. São citadas e repetidas vezes sem conta, sempre com reverência à acuidade intelectual de ambos seus criadores.

O problema é que Democracia não é só a visão romântica das praças da Grécia Antiga, o povo reunido em torno de Péricles votando se a Acrópole devia ou não ser construída. Democracia, ou o seu pleno exercício, exige mais do que dá. Demanda muitas coisas. Educação e fervor cívicos. Interesse perene pelas coisas públicas, a “eterna vigilância” definida por Thomas Jefferson, a consciência do poder do voto, a cobrança inesgotável, o acompanhamento incansável. Pelo que me é dado ver e ouvir nestes atribulados dias e por este atribulado planeta, na maioria das sociedades políticas atuais, esses atributos inexistem. Em grande parte do mundo dito democrata, a Democracia é apenas uma fantasia, um simulacro, uma pantomima.

Tomemos Portugal, por exemplo. A grande preocupação dos analistas políticos daqui não é especialmente com o resultado das eleições legislativas do próximo dia 6. É com a abstenção. No pleito de 2015, ela foi de 44%. Ou seja, quase metade do eleitorado português renunciou ao seu direito de escolher seus representantes. No meio do ano, para o Parlamento Europeu, esta renúncia chegou a 70%. Em toda a Europa, há um desencanto com o voto e, por consequência, um alargado distanciamento entre o povo e seus representantes.

No Brasil, com o regime de voto obrigatório, a abstenção é forçosamente pequena, mas a qualidade do voto também é. Por vários anos, grande parte dos brasileiros desincumbiu-se da “chatice” de ir às urnas num dia de praia com enfado e inconsciência. Muitos, minutos depois de apertar os botões das urnas eletrônicas, sequer se lembravam do nome de seu candidato.

Democracia não é só liberdade de votar. Democracia pressupõe, em primeiro lugar, o desejo de votar e a preparação consciente para identificar aquele que esteja mais apto para defender as ideias de quem o escolhe. Representatividade é a palavra-chave da vida democrática. Além da escolha qualificada, a representatividade só se mantem pela proximidade entre eleitor e eleito, pela observação diária, pela cobrança permanente. Votar e virar as costas é delegar um direito que não deve ser alienado.

Dá trabalho? Evidentemente.  Mas, toda vez que uma sociedade escolhe refestelar-se na preguiça institucional, no dar de ombros, a Democracia passa a ser escrita com d minúsculo. Uma coisa menor.

Oswaldo Pereira
Setembro 2019

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

ANTIGAMENTE ERA MELHOR?



Um mundo louco, alguns, ou muitos, dirão. Lutas fratricidas na Síria, talibãs no Afeganistão, Maduro na Venezuela. Trump liderando o país mais poderoso do planeta confiando apenas nos volteios de seus neurônios e nos 140 caracteres de seus twitters, rasgando acordos, jogando quedas de braço com a China, com o Irã, com Kim Jong-un. O velho leão da Ilhas Britânicas tentando, em vão, rugir como no século XIX, enquanto afunda suas patas cansadas no atoleiro do Brexit. Putin sonhando com Ivan, o Terrível, e vendo-se Tzar ao olhar para o espelho dourado do Kremlin. Profundas trincheiras ideológicas na Itália, na Espanha, no Brasil.

Mundo louco... Sim, e os saudosistas acrescentam, seus olhos molhados pela saudade do passado. Ah! no meu tempo..

Permitam-me contrariá-los, caros amigos. Há 80 anos, num mês de setembro ainda verdejando o verão no Hemisfério Norte, dava-se início a uma hecatombe sem precedentes na história humana. Embates ideológicos, comerciais e sociais, os mesmos problemas que hoje nos afligem, eram estopins de um imenso barril de pólvora, acesos com a invasão alemã à Polônia. Todos jogaram-se de cabeça num redemoinho sem volta, entregando-se a uma destruição insensata de vidas e de sonhos. Países destroçados, cicatrizes de atrocidades inomináveis por toda a parte. 50 milhões de mortos, civis em sua maioria.

Era assim que as divergências, as contendas, as disputas, os desacordos eram resolvidos até a metade do século XX. Com tanques, exércitos, belonaves, aviões e bombas. Muitas bombas. Até os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki.
E, mais do que a hipotética magnanimidade dos donos do poder ou um improvável surto global de bom senso, foi o medo atômico que passou a segurar as tropas em seus quartéis. Foi a conscientização de que numa guerra nuclear todos perderiam, o grande preventivo.

Pelo bem ou pelo mal, com raras exceções regionais, vivemos em paz. As bravatas de Trump e as contra-bravatas de Putin vão para o lugar comum das manchetes mundiais. Os soldados são outros, são os CEO’s das megaempresas, os master analistas dos mercados financeiros, banqueiros mais poderosos do que imperadores romanos. E, há mais. As batalhas comerciais estão saindo de cena. A guerra já está sendo cibernética. A dominação será exercida pela capacidade de controlar a informação e disseminá-la com a velocidade da luz. Corações e mentes, para não falar em mercados e fortunas, serão conquistados ou perdidos na tela de um celular. Pode ser desconfortável pensar nisto. Mas, ainda é melhor do que ver um tanque entrando pela minha rua...

Oswaldo Pereira
Setembro 2019