terça-feira, 17 de setembro de 2019

DEMOCRACIA




“Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!”

Este é o texto do twitter que Carlos Bolsonaro, filho do Presidente brasileiro, postou há dias, desencadeando uma tempestade de críticas raivosas na imprensa e comentários ácidos que iam ao extremo de ver nesses dois parágrafos uma indiscutível apologia dos regimes de exceção. Li, reli e li outra vez a mensagem tuitada. E não pude deixar de imaginar quais seriam as reações de ranger de dentes se ele tivesse postado, por exemplo, o seguinte:
“A democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais.”
Ou ainda:
“A democracia é apenas a substituição de alguns corruptos por muitos incompetentes.”

Para aqueles que ainda não as reconheceram, estas frases foram ditas por dois grandes pensadores. A primeira é de Winston Churchill. A segunda, de George Bernard Shaw. São citadas e repetidas vezes sem conta, sempre com reverência à acuidade intelectual de ambos seus criadores.

O problema é que Democracia não é só a visão romântica das praças da Grécia Antiga, o povo reunido em torno de Péricles votando se a Acrópole devia ou não ser construída. Democracia, ou o seu pleno exercício, exige mais do que dá. Demanda muitas coisas. Educação e fervor cívicos. Interesse perene pelas coisas públicas, a “eterna vigilância” definida por Thomas Jefferson, a consciência do poder do voto, a cobrança inesgotável, o acompanhamento incansável. Pelo que me é dado ver e ouvir nestes atribulados dias e por este atribulado planeta, na maioria das sociedades políticas atuais, esses atributos inexistem. Em grande parte do mundo dito democrata, a Democracia é apenas uma fantasia, um simulacro, uma pantomima.

Tomemos Portugal, por exemplo. A grande preocupação dos analistas políticos daqui não é especialmente com o resultado das eleições legislativas do próximo dia 6. É com a abstenção. No pleito de 2015, ela foi de 44%. Ou seja, quase metade do eleitorado português renunciou ao seu direito de escolher seus representantes. No meio do ano, para o Parlamento Europeu, esta renúncia chegou a 70%. Em toda a Europa, há um desencanto com o voto e, por consequência, um alargado distanciamento entre o povo e seus representantes.

No Brasil, com o regime de voto obrigatório, a abstenção é forçosamente pequena, mas a qualidade do voto também é. Por vários anos, grande parte dos brasileiros desincumbiu-se da “chatice” de ir às urnas num dia de praia com enfado e inconsciência. Muitos, minutos depois de apertar os botões das urnas eletrônicas, sequer se lembravam do nome de seu candidato.

Democracia não é só liberdade de votar. Democracia pressupõe, em primeiro lugar, o desejo de votar e a preparação consciente para identificar aquele que esteja mais apto para defender as ideias de quem o escolhe. Representatividade é a palavra-chave da vida democrática. Além da escolha qualificada, a representatividade só se mantem pela proximidade entre eleitor e eleito, pela observação diária, pela cobrança permanente. Votar e virar as costas é delegar um direito que não deve ser alienado.

Dá trabalho? Evidentemente.  Mas, toda vez que uma sociedade escolhe refestelar-se na preguiça institucional, no dar de ombros, a Democracia passa a ser escrita com d minúsculo. Uma coisa menor.

Oswaldo Pereira
Setembro 2019

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

ANTIGAMENTE ERA MELHOR?



Um mundo louco, alguns, ou muitos, dirão. Lutas fratricidas na Síria, talibãs no Afeganistão, Maduro na Venezuela. Trump liderando o país mais poderoso do planeta confiando apenas nos volteios de seus neurônios e nos 140 caracteres de seus twitters, rasgando acordos, jogando quedas de braço com a China, com o Irã, com Kim Jong-un. O velho leão da Ilhas Britânicas tentando, em vão, rugir como no século XIX, enquanto afunda suas patas cansadas no atoleiro do Brexit. Putin sonhando com Ivan, o Terrível, e vendo-se Tzar ao olhar para o espelho dourado do Kremlin. Profundas trincheiras ideológicas na Itália, na Espanha, no Brasil.

Mundo louco... Sim, e os saudosistas acrescentam, seus olhos molhados pela saudade do passado. Ah! no meu tempo..

Permitam-me contrariá-los, caros amigos. Há 80 anos, num mês de setembro ainda verdejando o verão no Hemisfério Norte, dava-se início a uma hecatombe sem precedentes na história humana. Embates ideológicos, comerciais e sociais, os mesmos problemas que hoje nos afligem, eram estopins de um imenso barril de pólvora, acesos com a invasão alemã à Polônia. Todos jogaram-se de cabeça num redemoinho sem volta, entregando-se a uma destruição insensata de vidas e de sonhos. Países destroçados, cicatrizes de atrocidades inomináveis por toda a parte. 50 milhões de mortos, civis em sua maioria.

Era assim que as divergências, as contendas, as disputas, os desacordos eram resolvidos até a metade do século XX. Com tanques, exércitos, belonaves, aviões e bombas. Muitas bombas. Até os cogumelos atômicos de Hiroshima e Nagasaki.
E, mais do que a hipotética magnanimidade dos donos do poder ou um improvável surto global de bom senso, foi o medo atômico que passou a segurar as tropas em seus quartéis. Foi a conscientização de que numa guerra nuclear todos perderiam, o grande preventivo.

Pelo bem ou pelo mal, com raras exceções regionais, vivemos em paz. As bravatas de Trump e as contra-bravatas de Putin vão para o lugar comum das manchetes mundiais. Os soldados são outros, são os CEO’s das megaempresas, os master analistas dos mercados financeiros, banqueiros mais poderosos do que imperadores romanos. E, há mais. As batalhas comerciais estão saindo de cena. A guerra já está sendo cibernética. A dominação será exercida pela capacidade de controlar a informação e disseminá-la com a velocidade da luz. Corações e mentes, para não falar em mercados e fortunas, serão conquistados ou perdidos na tela de um celular. Pode ser desconfortável pensar nisto. Mas, ainda é melhor do que ver um tanque entrando pela minha rua...

Oswaldo Pereira
Setembro 2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

AMAZONIA




Que interessante! De repente, todo mundo, desde Chefes de Estado europeus até ambientalistas de poltrona, passando por artistas alheios e pátrios, políticos verdes de todas as cores, gente com cocar na cabeça a pensar que são indígenas desde criancinha, jornalistas e comentaristas de todos os continentes, achou-se no direito de declarar, peito estufado por um repentino amor à Natureza, que entende de Amazônia. Aqui em Portugal, há jornais que abrem manchetes para informar seus espantados leitores que o Presidente Nero Bolsonaro estava destruindo o pulmão do mundo. No principal telejornal do país, um repórter da RTP, transmitindo de Mato Grosso do Sul, carregava na expressão facial para mostrar uma queimada que ocorria atrás de si, declarando soturno: “a Amazônia está a arder”. Só que Mato Grosso do Sul fica a uns 1.000 quilômetros de distância do Amazonas...

Menos, gente, menos.

É preciso entender que Amazônia é um mundo à parte, engloba uma gigantesca área de 7 milhões de quilômetros quadrados (maior que a União Europeia), seis países, vários climas, inúmeros habitats animais e quatro fusos horários. Como última reserva florestal significativa do nosso planeta e repositório de incalculáveis reservas minerais e vegetais, além de abrigar povoações silvícolas em estado primitivo, a região exerce um fascínio que, além de tornar a preocupação com seu futuro um nervo sensitivo no tecido dos debates internacionais, propicia a criação de incontáveis mitos e lendas. Alguns deles:

.a Amazônia é o pulmão do mundo
Não é.  99% da renovação ambiental gerada na floresta é absorvida pela própria biomassa amazônica. Sua contribuição para a atmosfera global é insignificante. O verdadeiro pulmão planetário são os oceanos e as algas que neles existem. Esses mesmos oceanos cruelmente poluídos e estrangulados pelos bilhões de toneladas de plástico atiradas ao mar, principalmente pelos grandes poluidores europeus e pelos Estados Unidos.

.o Brasil não tem política ambiental
Falso. A Agência EMBRAPA (Empresa Brasileira de Proteção Ambiental), em recentíssima apresentação, divulgou os seguintes dados:
A Área de Preservação Ambiental no Brasil é de 257,3 milhões de hectares (equivalente a 15 países da comunidade europeia). Somando 154,4 milhões de hectares de área protegida e outros 117,9 de reservas indígenas, este número corresponde a 30,2% de todo território brasileiro. Só para efeito de comparação com outros países de dimensões continentais, a Austrália preserva 19,2%, a China 17,0%, os Estados Unidos 13,0%, a Rússia 9,7%, o Canadá 9,5% e a Índia 6,0%.

.o agronegócio brasileiro está acabando com a Amazônia
Errado. Novamente, vamos comparar. Mesmo sendo o maior produtor global de grãos, a área de cultivo brasileira usa apenas 8% do país. Nos Estados Unidos, a taxa de ocupação é o dobro. Na Europa, esta taxa de ocupação varia entre 50% e 70%.

Há uma afirmação, entretanto, que está corretíssima. Existe, sim, um imenso e internacional jogo de interesses, acobertado por uma capa espessa de protecionismo, que vem protagonizando uma poderosa e ilegal corrida às riquezas amazônicas. E isto não é de hoje.

Em 2004, estive eu em Manaus, para um encontro com oficiais do Exército, no Centro Integrado de Guerra na Selva. Já nessa altura, os comandantes militares da região externavam sua preocupação com a delimitação de terras indígenas em zonas de fronteira que, por consequência, ficavam desguarnecidas de supervisão policial e militar. Em várias apresentações, os mapas de levantamentos geológicos mostravam que a maioria dos sítios onde o subsolo era mais rico em minerais estratégicos coincidia com aquelas demarcações.

Madeira, plantas medicinais, nióbio, ouro, manganês, bauxita. E água, muita água. Isto e muito mais faz da Amazônia a cereja do bolo da cobiça internacional. Por trás da retórica ambientalista de um sem número de Organizações Não Governamentais (as ONG’s), grassa uma invasão criminosa e silenciosa. O Brasil sofre uma infestação de ONGs. São 270.000 delas. 100.000 só na Amazônia. Qualquer pessoa em seu santo juízo há de admitir que algo não está certo, principalmente quando se verifica que algumas organizações são financiadas por grandes corporações multinacionais e até por Governos, cujos líderes esquecem de olhar para o próprio umbigo e criticam abertamente o Brasil.

Temos culpa? É claro que também temos. A velha serpente da corrupção empeçonhou uma boa parte das agências e dos postos de fiscalização, cuja função seria impedir e denunciar este vertiginoso saque.

Por isto tudo, as queimadas na Amazônia disparam esta grotesca histeria de Macron & Cia. Há dois anos, as queimadas foram muito mais extensas. Ninguém no mundo reparou. Como antes referi, em 2004 o alerta já estava ligado. Ninguém no mundo se importou. Invectivar contra Bolsonaro é um expediente fácil. Pega bem junto aos já citados ambientalistas de poltrona. Mas, atenção. Enquanto alguns levantam cartazes e gritam slogans, o Governo brasileiro está enviando 46.000 soldados para conter o fogo da floresta e um bom número de investigadores para abrir a caixa-preta de muitas ONGs.

Oswaldo Pereira
Agosto 2019

domingo, 11 de agosto de 2019

O FUGITIVO II





Estava ouvindo-o passar pela minha janela. Não era o vento.
Fui espreitar no passado de meus escritos, e descobri que escrevera sobre ele. Lembro-me que chamei a pequena crônica de O FUGITIVO. Ei-la:

“O tempo.  Melhor em maiúsculas: O TEMPO.
Tente tê-lo. 
Colocá-lo em perspectiva, retalhá-lo em momentos, reparti-lo em tranches. Tente guardá-lo em gavetas, arquivá-lo em pastas, virtuais ou não. Tente enfiá-lo em envelopes, colocá-lo debaixo de pisa papéis, prendê-lo em gaiolas, amarrá-lo na memória.
Tente anotá-lo em agendas, colá-lo em álbuns, gravá-lo em CD’s. Tente prendê-lo com as mãos, segurá-lo com a alma, aprisioná-lo com o pensamento.
Tente de tudo para não o deixar fugir. Ele não volta para traz, não faz concessões. Com ele, não há replays, melhores momentos. Os valeapenaverdenovos são apenas fragmentos guardados no cérebro por neurônios que, aos poucos e inexoravelmente, se apagarão.
O Tempo. Uma sucessão de amanhãs que, como rabisco de um relâmpago, cortam o céu do hoje e se tornam num ontem inerte, já gasto e imutável. Na grande maioria das vezes, sem você sequer ver o clarão do raio, ouvir seu estrondo abafado, entender sua mensagem. Um grande estoque de horas que já se foram, sem remissão. Não se regrava o passado.
O Tempo. Um cronômetro que recebemos ao nascer e, por anos a fio, nem sabemos o que fazer com ele. Um trem veloz que tomamos na maternidade em direção ao futuro e em que passamos a maior parte da viagem simplesmente a olhar pela janela, a ver as estações que passam, a cumprimentar e a se despedir de gente que entra e que desce.
O Tempo. O mais imaterial dos bens, o mais perecível, o de obsolescência mais imediata. E, no entanto, o mais precioso. Aquele que não se vende, que não se pode comprar, de que não há barganhas, future tradings, balcão de ofertas.
Com ele não se indulge, não se obtempera, não se tergiversa. Vai seguir seu caminho sem volta, sem ouvir nossas promessas, nossas resoluções de ano novo, nossas súplicas, nossas orações. Vai seguir, senhor de si mesmo, sem olhar sobre os ombros, indiferente ao nosso pecado ou ao nosso valor.
Só há um jeito, uma maneira. Para não deixá-lo escapar.
Ande com ele. Reprima o cansaço, vença a sonolência, livre-se do torpor. Prepare as pernas, ele caminha rápido, é incansável e obstinado. Nem sempre a estrada vai ter pavimento, há rios para cruzar, florestas para vencer. Mas, não perca o ritmo. Não o deixe afastar-se, sumir na bruma, perder contato e fazer aquilo que o Tempo mais gosta.
Fugir.”

Depois de sentir o medo encrespar os pêlos na minha nuca, fui ver a data. Fevereiro de 2012. Sete e meio transitados anos. Um enjoado pânico. Para amansá-lo, resolvi entrar na contabilidade do que deixei feito e do que deixei de fazer. Com alguma benevolência, o saldo saiu-me quase positivo. A minha própria exortação de 2012, afinal, serviu-me. Ande com ele...

Oswaldo Pereira
Agosto 2019


terça-feira, 6 de agosto de 2019

DESTINOS CERTOS: MADRI



No século IX, auge da idade de ouro islâmica, a região fazia parte do Al-Andaluz. Sua planície e o rio que a cruzava pertenciam ao emirado de Córdova, governado por Muhammad (ou Maomé) I. Maomé tinha bom gosto, cultura e dezenas de excelentes arquitetos à sua disposição. Nas margens desse rio, cujo nome era Fonte de Água, ordenou a construção de um palácio para seu deleite e seu harém. Fonte de Água em árabe escreve-se al-Majrit. Quando, 700 anos depois, o rei de León, Afonso VI, a conquistou durante sua avançada para Toledo, a pequena vila que crescera ao redor do palácio já havia transformado o nome al-Majrit. Ela agora se chamava Madrid.

Hoje, ela está no centro geográfico, político, econômico e cultural da Espanha. Em 2010, a prestigiada revista Monocle a qualificou como a décima cidade mais habitável do planeta. Dez milhões de turistas a visitam todos os anos. Para quem está passando uma temporada em Portugal, ela está aqui ao lado. Menos de uma hora de voo, e você está no Aeroporto de Barajas. E a aventura começa.

Minha aventura inicial teve um sabor amargo. Logo na primeira viagem de metrô, um ardiloso (ou ardilosa) punguista surrupiou-me a carteira e lá se foram documentos e cartões bancários. Minha manhã de abertura em tierras madrileñas foi um rosário de ligações às agências bancárias e um périplo apressado entre a delegacia de polícia e o Consulado, para obter uma documentação que me permitisse pegar o avião de volta.

Mas aí, de repente, a tarde abriu-se num delicioso sol de verão e, aos poucos, o amargo do início foi sendo substituído pelo sabor de um delicioso prato de presuntos de diversas categorias no Museo del Jamón. Daí para a frente, Madri venceu.

A primeira palavra que os sentidos escolhem é imperial. A cidade foi feita para ser a capital de um império, cujo limite era a metade de um mundo que os espanhóis dividiam com os portugueses. Sua arquitetura, desenhada ao longo de grandes avenidas, parece falar disto em todas as rebuscadas fachadas barroco-clássicas, em seus parques, nas suas fontes e em suas praças.

Onde, no século XVI, os não-crentes ardiam nos autos-de-fé da Inquisição, você hoje, mesmo crendo apenas nos desígnios do destino, pode caminhar num enorme quadrilátero cercado de prédios palacianos e arcadas elegantes, repletas de lojinhas charmosas e restaurantes ao ar livre. É a Plaza Mayor.

PLAZA MAYOR

 Dê alguns passos preguiçosos e encontre outra imperdível experiência, esta deliciosamente gustativa. O Mercado de San Miguel, reino das tapas e das cavas, lugar de eleição dos naturais e dos turistas no pré-poente dourado de uma sexta-feira. Cheire, olhe, prove, beberique. E saia tão leve que a centena de metros para chegar à Puerta del Sol vão parecer um ligeiro flutuar.
PUERTA DEL SOL

Lá chegando, tire logo um selfie de seu pé em cima do Km 0, e saiba que você está bem no centro de Madri e da Espanha, de onde partem e aonde chegam todos os caminhos. Só então olhe a Praça, que vive em permanente adoração ao Sol que lhe dá nome. Coloridas tribos de artistas de rua, estátuas vivas, dançarinos, acrobatas e músicos de toda sorte cutucam o hippie que você deve ter no fundo da alma. Cantarole mentalmente Let the Sun Shine In e faça uma reverência.

Parar para descansar? Nem em pensamento. Mergulhe no caudaloso rio de gente que flui nas largas avenidas radiais que saem da Praça, como a Calle del Arenal ou a Calle de Alcalà. Deixe-se levar pela correnteza e você aportará na Fonte de Cibeles e no início da Gran Vía. Faça uma prece ao deus dos caminhantes e palmilhe essa broadway latina até chegar à Plaza de España. E então, só então, escolha uma esplanada, dê um merecido repouso às pernas e regale o estômago vazio com os petiscos da terra.

GRAN VÍA
No dia seguinte, se bem lhe aprouver, alimente o espírito. Juntinhos, ao redor do Paseo del Prado, estão três dos mais importantes museus de arte da cidade. O Thyssen, o Reina Sofia e o maior e mais famoso deles todos. O Museo del Prado.

Como qualquer dos mais comuns mortais, você já deve ter visto fotografias e reproduções do Las Niñas de Velásquez, dos autorretratos de Rembrandt, das Majas de Goya, d’O Jardim das Delícias de Bosch, do Autorretrato de Dürer, d’O Batismo de Cristo de El Grieco. Pois todas elas, junto com centenas de outras, estão a um palmo do seu nariz no Prado. São horas de puro êxtase.

'LAS NIÑAS" DE VELÁSQUEZ











Se a viagem for curta como a minha, arranje ainda um tempo para ir à Catedral de la Almudena, a imensa igreja sede de Madri. E, impreterivelmente, ao Palácio Real. Construído no mesmo sítio onde Maomé I erguera o seu no século IX e dera origem à cidade, o edifício reafirma o caráter monumental da capital espanhola. Tudo é grande, majestoso, imperial.

PALÁCIO REAL DE MADRI
Por fim, coma uns churros con chocolate no San Ginés e ande. Ande sempre. Há vielas, esquinas, feiras populares, como a de El Rastro, cantinhos, portas, janelas, cheiros sons e cores esperando por você. E depois, volte para casa com a sensação que ainda há muito, muito para ver neste destino certo que é Madri.

Oswaldo Pereira
Agosto 2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

LUA 50 ANOS



Numa entrevista concedida à revista LIFE, logo após o fim da missão Apolo XI, Neil Armstrong, quando indagado pelo repórter a que atribuía ele a férrea determinação que o guiara em sua vitoriosa carreira como piloto e astronauta, respondeu que sempre acreditara na ideia de que todo ser humano tinha um número finito de batidas do coração. E terminou dizendo que seu lema era never waste any heartbeat. Nunca desperdice qualquer delas.

Esta versão do motto latino carpe diem guiou a vida de Armstrong desde sua infância numa cidadezinha de Ohio até sua morte em 2012, aos 82 anos e culminou na madrugada do dia 21 de julho de 1969, no momento em que, tirando o pé do degrau mais baixo da escada externa do módulo lunar Eagle, tornou-se o primeiro ser humano a pisar na Lua.

E eu, com os olhos grudados numa TV em preto e branco, assistindo à cena, via também desenrolar na memória o fascínio que o sonho da conquista do espaço havia exercido sobre a minha infância e juventude. Faço parte da geração criada na magia das histórias em quadrinhos, dos mundos desvendados por Flash Gordon, por Brick Bradford. O Superhomem e o Capitão Marvel atravessavam as galáxias como quem ia ali na esquina e o que mostravam era um universo intrigante e pleno de aventuras.

O cinema, ainda engatinhando seus efeitos especiais, deslumbrava-nos com seu Techicolor exagerado e seus canhestros monstros vindos do espaço profundo. Ao ver as imagens entrecortadas dos primeiros deslocamentos de Armstrong num chão cinzento, lembrava de mim em 1950, aos 10 anos, caminhando com meu pai após ter assistido ao filme Destination Moon (Destino à Lua) e ouvir seu vaticínio de que isto só seria possível no ano 2000.

Mal sabia ele que, apenas 19 anos depois, estaríamos presenciando a promessa virar realidade. Temos a Guerra Fria para agradecer. A ferrenha disputa por prestígio internacional entre russos e americanos fez com que ambos os lados destinassem imensos recursos humanos e materiais na corrida para a Lua e abreviassem o futuro.

E assim, naquela madrugada quente (entenda-se, eu estava em Portugal) de 21 de julho, senti pela primeira vez que eu fazia parte da raça humana, quando o locutor informou que, naquele momento, um bilhão de pessoas, à época um terço da população terrestre, assistiam ao mesmo momento pela televisão. Éramos uma só tribo. De 50 anos para cá, nunca mais senti algo parecido.

Então, que os teóricos da conspiração me perdoem. Não há a mínima hipótese de que aquilo tenha sido fake. Nem havia tecnologia para engendrar uma armação deste quilate. Havia, sim, a competência extraordinária e a coragem insana da gente que dedicou corpo e alma à maior empreitada da Humanidade até hoje.

Oswaldo Pereira
Julho 2019

sábado, 13 de julho de 2019

DESTINOS CERTOS: SOTAVENTO ALGARVIO



Há algum tempo, num dos muitos momentos em que me senti embalado pelas terras de Portugal, escrevi isto:

“Nove da manhã. O sol explode na porta da pequena pousada e surpreende quem sai da semipenumbra do saguão de entrada.  Além dele, o mar, lá embaixo, verde-azul profundo, abraçado por uma delicada enseada de areias prateadas pelo dia algarvio e levemente ondulado pelo sopro de uma brisa tão benfazeja como o silêncio que abençoa tudo em volta. É manhã de verão nesta vilazinha praieira do sul português e é como se o mundo e o tempo parassem para render seu tributo a este momento de paz maior que os sentidos. É hora de usá-los com sapiência e saborear os cheiros de suave maresia, cheirar as cores que branqueiam as casas e enverdecem a verdura dos campos, degustar com os olhos bem abertos a sensação de primeiro dia do universo e ouvir a quietude reinante.
A escada de pedra vai serpenteando preguiçosa em direção à água, contornando com carinho a aldeia de arquitetura simples e repousada em suas origens árabes. Afinal, o norte africano está logo ali, do lado de lá deste azul real que se estende à frente. Terras mouras, de onde eles vieram para dominar, por séculos, esta península e deixarem, antes de partir, seu indelével traço genético que ainda azeitona a pele dos que aqui vivem, além de sua arte e do vasto repertório de palavras que enriquecem o nosso vocabulário. Como Al-Gharb, estreita faixa de terra entre o mar e a montanha, que ficou para nomear esta província, a mais meridional do Portugal Continental.
É uma terra de histórias, do projeto das descobertas concebido em Sagres, de saudades de um Dom Sebastião que partiu atrás de uma miragem para seu destino em Alcácer-Quivir, dos pedaços de nevoeiro que nunca mais o trouxeram de volta.
E é aqui, nesta costa de casario alvo, manhãs claras, poentes mágicos, degraus rústicos e silêncio dourado, perfumada pelo cheiro salgado do Atlântico, onde mais se sente o esplendor, a eternidade e o feitiço do verão português.” 

Estava eu, então, enfeitiçado pelo dourado verão português, espreguiçado numa manhã de brisa leve, sol quente e mar manso, em mais uma das incontáveis praias do litoral algarvio.

E é para este Algarve que voltei há dias. Fui para a metade leste deste retângulo que vai da ponta de Sagres até o rio Guadiana, que o separa de Espanha, sempre banhado por um Atlântico de águas mornas. É terra de areais infinitos, de braços de mar gerando ilhas brancas e lagoas cristalinas, de mesas fartas de ostras, polvos e vinhos brancos espertos. E de História.

CASTELO DE CASTRO MARIM
Como Castro Marim, vila que foi fenícia, cartaginesa, grega, romana e visigótica. Dominada pelos mouros no século VIII, foi reconquistada pelos portugueses em 1242. E foi para lá que os perseguidos templários vieram de França e foram recebidos por um generoso de D. Dinis, que os acolheu na Ordem dos Cavaleiros de Cristo.


Como Cacela Velha, vila mourisca debruçada sobre a miragem da Ria Formosa. Foi uma das pérolas muçulmanas da época do califado, lar de poetas e cronistas. Hoje, apesar de cristã desde o século XII, ainda canta versos árabes em suas ruas estreitas.

CACELA VELHA

E há Tavira, onde numa praia chamada da Terra Estreita a vista se perde na contemplação da longa língua de areia entre o oceano e as rias. Há também Vila Real de Santo Antônio, desenhada pelo Marques do Pombal, no limite mais oriental da província, como que a mostrar aos espanhóis do outro lado do Guadiana o engenho e a arte dos portugueses.
OLHÃO
Há mais, muito mais. Há Olhão das grandes marés, há Quarteira de dunas infinitas. Muitas cores e muito mar, neste Sotavento Algarvio. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Julho 2019