terça-feira, 27 de agosto de 2019

AMAZONIA




Que interessante! De repente, todo mundo, desde Chefes de Estado europeus até ambientalistas de poltrona, passando por artistas alheios e pátrios, políticos verdes de todas as cores, gente com cocar na cabeça a pensar que são indígenas desde criancinha, jornalistas e comentaristas de todos os continentes, achou-se no direito de declarar, peito estufado por um repentino amor à Natureza, que entende de Amazônia. Aqui em Portugal, há jornais que abrem manchetes para informar seus espantados leitores que o Presidente Nero Bolsonaro estava destruindo o pulmão do mundo. No principal telejornal do país, um repórter da RTP, transmitindo de Mato Grosso do Sul, carregava na expressão facial para mostrar uma queimada que ocorria atrás de si, declarando soturno: “a Amazônia está a arder”. Só que Mato Grosso do Sul fica a uns 1.000 quilômetros de distância do Amazonas...

Menos, gente, menos.

É preciso entender que Amazônia é um mundo à parte, engloba uma gigantesca área de 7 milhões de quilômetros quadrados (maior que a União Europeia), seis países, vários climas, inúmeros habitats animais e quatro fusos horários. Como última reserva florestal significativa do nosso planeta e repositório de incalculáveis reservas minerais e vegetais, além de abrigar povoações silvícolas em estado primitivo, a região exerce um fascínio que, além de tornar a preocupação com seu futuro um nervo sensitivo no tecido dos debates internacionais, propicia a criação de incontáveis mitos e lendas. Alguns deles:

.a Amazônia é o pulmão do mundo
Não é.  99% da renovação ambiental gerada na floresta é absorvida pela própria biomassa amazônica. Sua contribuição para a atmosfera global é insignificante. O verdadeiro pulmão planetário são os oceanos e as algas que neles existem. Esses mesmos oceanos cruelmente poluídos e estrangulados pelos bilhões de toneladas de plástico atiradas ao mar, principalmente pelos grandes poluidores europeus e pelos Estados Unidos.

.o Brasil não tem política ambiental
Falso. A Agência EMBRAPA (Empresa Brasileira de Proteção Ambiental), em recentíssima apresentação, divulgou os seguintes dados:
A Área de Preservação Ambiental no Brasil é de 257,3 milhões de hectares (equivalente a 15 países da comunidade europeia). Somando 154,4 milhões de hectares de área protegida e outros 117,9 de reservas indígenas, este número corresponde a 30,2% de todo território brasileiro. Só para efeito de comparação com outros países de dimensões continentais, a Austrália preserva 19,2%, a China 17,0%, os Estados Unidos 13,0%, a Rússia 9,7%, o Canadá 9,5% e a Índia 6,0%.

.o agronegócio brasileiro está acabando com a Amazônia
Errado. Novamente, vamos comparar. Mesmo sendo o maior produtor global de grãos, a área de cultivo brasileira usa apenas 8% do país. Nos Estados Unidos, a taxa de ocupação é o dobro. Na Europa, esta taxa de ocupação varia entre 50% e 70%.

Há uma afirmação, entretanto, que está corretíssima. Existe, sim, um imenso e internacional jogo de interesses, acobertado por uma capa espessa de protecionismo, que vem protagonizando uma poderosa e ilegal corrida às riquezas amazônicas. E isto não é de hoje.

Em 2004, estive eu em Manaus, para um encontro com oficiais do Exército, no Centro Integrado de Guerra na Selva. Já nessa altura, os comandantes militares da região externavam sua preocupação com a delimitação de terras indígenas em zonas de fronteira que, por consequência, ficavam desguarnecidas de supervisão policial e militar. Em várias apresentações, os mapas de levantamentos geológicos mostravam que a maioria dos sítios onde o subsolo era mais rico em minerais estratégicos coincidia com aquelas demarcações.

Madeira, plantas medicinais, nióbio, ouro, manganês, bauxita. E água, muita água. Isto e muito mais faz da Amazônia a cereja do bolo da cobiça internacional. Por trás da retórica ambientalista de um sem número de Organizações Não Governamentais (as ONG’s), grassa uma invasão criminosa e silenciosa. O Brasil sofre uma infestação de ONGs. São 270.000 delas. 100.000 só na Amazônia. Qualquer pessoa em seu santo juízo há de admitir que algo não está certo, principalmente quando se verifica que algumas organizações são financiadas por grandes corporações multinacionais e até por Governos, cujos líderes esquecem de olhar para o próprio umbigo e criticam abertamente o Brasil.

Temos culpa? É claro que também temos. A velha serpente da corrupção empeçonhou uma boa parte das agências e dos postos de fiscalização, cuja função seria impedir e denunciar este vertiginoso saque.

Por isto tudo, as queimadas na Amazônia disparam esta grotesca histeria de Macron & Cia. Há dois anos, as queimadas foram muito mais extensas. Ninguém no mundo reparou. Como antes referi, em 2004 o alerta já estava ligado. Ninguém no mundo se importou. Invectivar contra Bolsonaro é um expediente fácil. Pega bem junto aos já citados ambientalistas de poltrona. Mas, atenção. Enquanto alguns levantam cartazes e gritam slogans, o Governo brasileiro está enviando 46.000 soldados para conter o fogo da floresta e um bom número de investigadores para abrir a caixa-preta de muitas ONGs.

Oswaldo Pereira
Agosto 2019

domingo, 11 de agosto de 2019

O FUGITIVO II





Estava ouvindo-o passar pela minha janela. Não era o vento.
Fui espreitar no passado de meus escritos, e descobri que escrevera sobre ele. Lembro-me que chamei a pequena crônica de O FUGITIVO. Ei-la:

“O tempo.  Melhor em maiúsculas: O TEMPO.
Tente tê-lo. 
Colocá-lo em perspectiva, retalhá-lo em momentos, reparti-lo em tranches. Tente guardá-lo em gavetas, arquivá-lo em pastas, virtuais ou não. Tente enfiá-lo em envelopes, colocá-lo debaixo de pisa papéis, prendê-lo em gaiolas, amarrá-lo na memória.
Tente anotá-lo em agendas, colá-lo em álbuns, gravá-lo em CD’s. Tente prendê-lo com as mãos, segurá-lo com a alma, aprisioná-lo com o pensamento.
Tente de tudo para não o deixar fugir. Ele não volta para traz, não faz concessões. Com ele, não há replays, melhores momentos. Os valeapenaverdenovos são apenas fragmentos guardados no cérebro por neurônios que, aos poucos e inexoravelmente, se apagarão.
O Tempo. Uma sucessão de amanhãs que, como rabisco de um relâmpago, cortam o céu do hoje e se tornam num ontem inerte, já gasto e imutável. Na grande maioria das vezes, sem você sequer ver o clarão do raio, ouvir seu estrondo abafado, entender sua mensagem. Um grande estoque de horas que já se foram, sem remissão. Não se regrava o passado.
O Tempo. Um cronômetro que recebemos ao nascer e, por anos a fio, nem sabemos o que fazer com ele. Um trem veloz que tomamos na maternidade em direção ao futuro e em que passamos a maior parte da viagem simplesmente a olhar pela janela, a ver as estações que passam, a cumprimentar e a se despedir de gente que entra e que desce.
O Tempo. O mais imaterial dos bens, o mais perecível, o de obsolescência mais imediata. E, no entanto, o mais precioso. Aquele que não se vende, que não se pode comprar, de que não há barganhas, future tradings, balcão de ofertas.
Com ele não se indulge, não se obtempera, não se tergiversa. Vai seguir seu caminho sem volta, sem ouvir nossas promessas, nossas resoluções de ano novo, nossas súplicas, nossas orações. Vai seguir, senhor de si mesmo, sem olhar sobre os ombros, indiferente ao nosso pecado ou ao nosso valor.
Só há um jeito, uma maneira. Para não deixá-lo escapar.
Ande com ele. Reprima o cansaço, vença a sonolência, livre-se do torpor. Prepare as pernas, ele caminha rápido, é incansável e obstinado. Nem sempre a estrada vai ter pavimento, há rios para cruzar, florestas para vencer. Mas, não perca o ritmo. Não o deixe afastar-se, sumir na bruma, perder contato e fazer aquilo que o Tempo mais gosta.
Fugir.”

Depois de sentir o medo encrespar os pêlos na minha nuca, fui ver a data. Fevereiro de 2012. Sete e meio transitados anos. Um enjoado pânico. Para amansá-lo, resolvi entrar na contabilidade do que deixei feito e do que deixei de fazer. Com alguma benevolência, o saldo saiu-me quase positivo. A minha própria exortação de 2012, afinal, serviu-me. Ande com ele...

Oswaldo Pereira
Agosto 2019


terça-feira, 6 de agosto de 2019

DESTINOS CERTOS: MADRI



No século IX, auge da idade de ouro islâmica, a região fazia parte do Al-Andaluz. Sua planície e o rio que a cruzava pertenciam ao emirado de Córdova, governado por Muhammad (ou Maomé) I. Maomé tinha bom gosto, cultura e dezenas de excelentes arquitetos à sua disposição. Nas margens desse rio, cujo nome era Fonte de Água, ordenou a construção de um palácio para seu deleite e seu harém. Fonte de Água em árabe escreve-se al-Majrit. Quando, 700 anos depois, o rei de León, Afonso VI, a conquistou durante sua avançada para Toledo, a pequena vila que crescera ao redor do palácio já havia transformado o nome al-Majrit. Ela agora se chamava Madrid.

Hoje, ela está no centro geográfico, político, econômico e cultural da Espanha. Em 2010, a prestigiada revista Monocle a qualificou como a décima cidade mais habitável do planeta. Dez milhões de turistas a visitam todos os anos. Para quem está passando uma temporada em Portugal, ela está aqui ao lado. Menos de uma hora de voo, e você está no Aeroporto de Barajas. E a aventura começa.

Minha aventura inicial teve um sabor amargo. Logo na primeira viagem de metrô, um ardiloso (ou ardilosa) punguista surrupiou-me a carteira e lá se foram documentos e cartões bancários. Minha manhã de abertura em tierras madrileñas foi um rosário de ligações às agências bancárias e um périplo apressado entre a delegacia de polícia e o Consulado, para obter uma documentação que me permitisse pegar o avião de volta.

Mas aí, de repente, a tarde abriu-se num delicioso sol de verão e, aos poucos, o amargo do início foi sendo substituído pelo sabor de um delicioso prato de presuntos de diversas categorias no Museo del Jamón. Daí para a frente, Madri venceu.

A primeira palavra que os sentidos escolhem é imperial. A cidade foi feita para ser a capital de um império, cujo limite era a metade de um mundo que os espanhóis dividiam com os portugueses. Sua arquitetura, desenhada ao longo de grandes avenidas, parece falar disto em todas as rebuscadas fachadas barroco-clássicas, em seus parques, nas suas fontes e em suas praças.

Onde, no século XVI, os não-crentes ardiam nos autos-de-fé da Inquisição, você hoje, mesmo crendo apenas nos desígnios do destino, pode caminhar num enorme quadrilátero cercado de prédios palacianos e arcadas elegantes, repletas de lojinhas charmosas e restaurantes ao ar livre. É a Plaza Mayor.

PLAZA MAYOR

 Dê alguns passos preguiçosos e encontre outra imperdível experiência, esta deliciosamente gustativa. O Mercado de San Miguel, reino das tapas e das cavas, lugar de eleição dos naturais e dos turistas no pré-poente dourado de uma sexta-feira. Cheire, olhe, prove, beberique. E saia tão leve que a centena de metros para chegar à Puerta del Sol vão parecer um ligeiro flutuar.
PUERTA DEL SOL

Lá chegando, tire logo um selfie de seu pé em cima do Km 0, e saiba que você está bem no centro de Madri e da Espanha, de onde partem e aonde chegam todos os caminhos. Só então olhe a Praça, que vive em permanente adoração ao Sol que lhe dá nome. Coloridas tribos de artistas de rua, estátuas vivas, dançarinos, acrobatas e músicos de toda sorte cutucam o hippie que você deve ter no fundo da alma. Cantarole mentalmente Let the Sun Shine In e faça uma reverência.

Parar para descansar? Nem em pensamento. Mergulhe no caudaloso rio de gente que flui nas largas avenidas radiais que saem da Praça, como a Calle del Arenal ou a Calle de Alcalà. Deixe-se levar pela correnteza e você aportará na Fonte de Cibeles e no início da Gran Vía. Faça uma prece ao deus dos caminhantes e palmilhe essa broadway latina até chegar à Plaza de España. E então, só então, escolha uma esplanada, dê um merecido repouso às pernas e regale o estômago vazio com os petiscos da terra.

GRAN VÍA
No dia seguinte, se bem lhe aprouver, alimente o espírito. Juntinhos, ao redor do Paseo del Prado, estão três dos mais importantes museus de arte da cidade. O Thyssen, o Reina Sofia e o maior e mais famoso deles todos. O Museo del Prado.

Como qualquer dos mais comuns mortais, você já deve ter visto fotografias e reproduções do Las Niñas de Velásquez, dos autorretratos de Rembrandt, das Majas de Goya, d’O Jardim das Delícias de Bosch, do Autorretrato de Dürer, d’O Batismo de Cristo de El Grieco. Pois todas elas, junto com centenas de outras, estão a um palmo do seu nariz no Prado. São horas de puro êxtase.

'LAS NIÑAS" DE VELÁSQUEZ











Se a viagem for curta como a minha, arranje ainda um tempo para ir à Catedral de la Almudena, a imensa igreja sede de Madri. E, impreterivelmente, ao Palácio Real. Construído no mesmo sítio onde Maomé I erguera o seu no século IX e dera origem à cidade, o edifício reafirma o caráter monumental da capital espanhola. Tudo é grande, majestoso, imperial.

PALÁCIO REAL DE MADRI
Por fim, coma uns churros con chocolate no San Ginés e ande. Ande sempre. Há vielas, esquinas, feiras populares, como a de El Rastro, cantinhos, portas, janelas, cheiros sons e cores esperando por você. E depois, volte para casa com a sensação que ainda há muito, muito para ver neste destino certo que é Madri.

Oswaldo Pereira
Agosto 2019

quinta-feira, 25 de julho de 2019

LUA 50 ANOS



Numa entrevista concedida à revista LIFE, logo após o fim da missão Apolo XI, Neil Armstrong, quando indagado pelo repórter a que atribuía ele a férrea determinação que o guiara em sua vitoriosa carreira como piloto e astronauta, respondeu que sempre acreditara na ideia de que todo ser humano tinha um número finito de batidas do coração. E terminou dizendo que seu lema era never waste any heartbeat. Nunca desperdice qualquer delas.

Esta versão do motto latino carpe diem guiou a vida de Armstrong desde sua infância numa cidadezinha de Ohio até sua morte em 2012, aos 82 anos e culminou na madrugada do dia 21 de julho de 1969, no momento em que, tirando o pé do degrau mais baixo da escada externa do módulo lunar Eagle, tornou-se o primeiro ser humano a pisar na Lua.

E eu, com os olhos grudados numa TV em preto e branco, assistindo à cena, via também desenrolar na memória o fascínio que o sonho da conquista do espaço havia exercido sobre a minha infância e juventude. Faço parte da geração criada na magia das histórias em quadrinhos, dos mundos desvendados por Flash Gordon, por Brick Bradford. O Superhomem e o Capitão Marvel atravessavam as galáxias como quem ia ali na esquina e o que mostravam era um universo intrigante e pleno de aventuras.

O cinema, ainda engatinhando seus efeitos especiais, deslumbrava-nos com seu Techicolor exagerado e seus canhestros monstros vindos do espaço profundo. Ao ver as imagens entrecortadas dos primeiros deslocamentos de Armstrong num chão cinzento, lembrava de mim em 1950, aos 10 anos, caminhando com meu pai após ter assistido ao filme Destination Moon (Destino à Lua) e ouvir seu vaticínio de que isto só seria possível no ano 2000.

Mal sabia ele que, apenas 19 anos depois, estaríamos presenciando a promessa virar realidade. Temos a Guerra Fria para agradecer. A ferrenha disputa por prestígio internacional entre russos e americanos fez com que ambos os lados destinassem imensos recursos humanos e materiais na corrida para a Lua e abreviassem o futuro.

E assim, naquela madrugada quente (entenda-se, eu estava em Portugal) de 21 de julho, senti pela primeira vez que eu fazia parte da raça humana, quando o locutor informou que, naquele momento, um bilhão de pessoas, à época um terço da população terrestre, assistiam ao mesmo momento pela televisão. Éramos uma só tribo. De 50 anos para cá, nunca mais senti algo parecido.

Então, que os teóricos da conspiração me perdoem. Não há a mínima hipótese de que aquilo tenha sido fake. Nem havia tecnologia para engendrar uma armação deste quilate. Havia, sim, a competência extraordinária e a coragem insana da gente que dedicou corpo e alma à maior empreitada da Humanidade até hoje.

Oswaldo Pereira
Julho 2019

sábado, 13 de julho de 2019

DESTINOS CERTOS: SOTAVENTO ALGARVIO



Há algum tempo, num dos muitos momentos em que me senti embalado pelas terras de Portugal, escrevi isto:

“Nove da manhã. O sol explode na porta da pequena pousada e surpreende quem sai da semipenumbra do saguão de entrada.  Além dele, o mar, lá embaixo, verde-azul profundo, abraçado por uma delicada enseada de areias prateadas pelo dia algarvio e levemente ondulado pelo sopro de uma brisa tão benfazeja como o silêncio que abençoa tudo em volta. É manhã de verão nesta vilazinha praieira do sul português e é como se o mundo e o tempo parassem para render seu tributo a este momento de paz maior que os sentidos. É hora de usá-los com sapiência e saborear os cheiros de suave maresia, cheirar as cores que branqueiam as casas e enverdecem a verdura dos campos, degustar com os olhos bem abertos a sensação de primeiro dia do universo e ouvir a quietude reinante.
A escada de pedra vai serpenteando preguiçosa em direção à água, contornando com carinho a aldeia de arquitetura simples e repousada em suas origens árabes. Afinal, o norte africano está logo ali, do lado de lá deste azul real que se estende à frente. Terras mouras, de onde eles vieram para dominar, por séculos, esta península e deixarem, antes de partir, seu indelével traço genético que ainda azeitona a pele dos que aqui vivem, além de sua arte e do vasto repertório de palavras que enriquecem o nosso vocabulário. Como Al-Gharb, estreita faixa de terra entre o mar e a montanha, que ficou para nomear esta província, a mais meridional do Portugal Continental.
É uma terra de histórias, do projeto das descobertas concebido em Sagres, de saudades de um Dom Sebastião que partiu atrás de uma miragem para seu destino em Alcácer-Quivir, dos pedaços de nevoeiro que nunca mais o trouxeram de volta.
E é aqui, nesta costa de casario alvo, manhãs claras, poentes mágicos, degraus rústicos e silêncio dourado, perfumada pelo cheiro salgado do Atlântico, onde mais se sente o esplendor, a eternidade e o feitiço do verão português.” 

Estava eu, então, enfeitiçado pelo dourado verão português, espreguiçado numa manhã de brisa leve, sol quente e mar manso, em mais uma das incontáveis praias do litoral algarvio.

E é para este Algarve que voltei há dias. Fui para a metade leste deste retângulo que vai da ponta de Sagres até o rio Guadiana, que o separa de Espanha, sempre banhado por um Atlântico de águas mornas. É terra de areais infinitos, de braços de mar gerando ilhas brancas e lagoas cristalinas, de mesas fartas de ostras, polvos e vinhos brancos espertos. E de História.

CASTELO DE CASTRO MARIM
Como Castro Marim, vila que foi fenícia, cartaginesa, grega, romana e visigótica. Dominada pelos mouros no século VIII, foi reconquistada pelos portugueses em 1242. E foi para lá que os perseguidos templários vieram de França e foram recebidos por um generoso de D. Dinis, que os acolheu na Ordem dos Cavaleiros de Cristo.


Como Cacela Velha, vila mourisca debruçada sobre a miragem da Ria Formosa. Foi uma das pérolas muçulmanas da época do califado, lar de poetas e cronistas. Hoje, apesar de cristã desde o século XII, ainda canta versos árabes em suas ruas estreitas.

CACELA VELHA

E há Tavira, onde numa praia chamada da Terra Estreita a vista se perde na contemplação da longa língua de areia entre o oceano e as rias. Há também Vila Real de Santo Antônio, desenhada pelo Marques do Pombal, no limite mais oriental da província, como que a mostrar aos espanhóis do outro lado do Guadiana o engenho e a arte dos portugueses.
OLHÃO
Há mais, muito mais. Há Olhão das grandes marés, há Quarteira de dunas infinitas. Muitas cores e muito mar, neste Sotavento Algarvio. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Julho 2019

sexta-feira, 21 de junho de 2019

O TIRO QUE SAIU PELA CULATRA


Sempre que possível, prefiro ver os fatos em primeira mão. Sabê-los por segundas vias nos impõe o risco de encontrá-los eivados de interpretações e adições daqueles que os repassam. É o velho quem conta um conto aumenta um ponto.

Por isso mesmo, resolvi assistir ao vivo a atuação do Ministro da Justiça Sérgio Moro na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal. Apresentando-se de espontânea vontade, Moro suportou as quase 10 horas da sabatina a que 43 senadores (mais da metade do Senado) o submeteram sobre o assunto que ocupou todas as atenções políticas na última semana: a invasão dos celulares dos procuradores da Operação Lava-Jato, através do aplicativo Telegram, pelo site de hackers profissionais chamado The Intercept. Este site tem como administrador o americano Glen Greewald, que foi parceiro de Edward Snowden no Wikileaks.

Esta violação teria revelado conversas entre Moro, então juiz encarregado da Lava-Jato, e alguns procuradores, nas quais ele fornecia sugestões de ação e instruções investigativas nos processos da Operação, principalmente nos relacionados com a acusação a Lula da Silva.

Imediatamente, os partidários do ex-Presidente irromperam num frenesi de declarações, qualificando as conversas como um conluio criminoso entre juiz e agentes do processo e, indo mais além, exigindo a demissão de Sérgio Moro, a anulação de todas as fases processuais e, sonho de consumo da Esquerda brasileira, a libertação de Lula.

Numa atitude não muito comum, Sérgio Moro ofereceu-se a ir ao Senado explicar-se. E de sua prestação, nesta cansativa maratona de perguntas e respostas, pude constatar várias coisas bastante esclarecedoras.

A primeira foi a distinta superioridade intelectual, protocolar, republicana e objetiva de Moro sobre a grande maioria dos membros do colegiado que o arguia. Alguns senadores foram grosseiramente agressivos, outros até caricatos na sua falta de qualquer vislumbre de argumentação racional.

Depois, a sua firmeza e serenidade na recolocação do assunto nos seus devidos termos. A saber:

- as supostas gravações das aludidas conversas foram obtidas por hackeamento de telefones particulares de juízes e procuradores, o que, em qualquer país do mundo, é crime. Só esta circunstância já seria suficiente para as invalidar, porque obtidas ilegalmente, como prova;

- mesmo se admitidas, teriam elas de passar por um crivo de verificação que confirmasse sua autenticidade. Até onde se sabe, não há qualquer arquivo em audio, e sim transcritos das conversas, o que suscita a dúvida se o que lá está escrito corresponde à verdade.

Apesar disto, Moro, repetidamente, declarou que, mesmo que essas gravações fossem autênticas, não há nada em seu teor que configure qualquer ilicitude, pois o direito processual brasileiro permite que, durante a fase de instrução, juiz, procuradores e advogados de defesa troquem informações e sugestões sobre o processo.

No seu açodamento, no bojo de uma tempestade fabricada em copo d’água, a Esquerda pretendeu derrubar Moro com um tiro de festim. Que saiu pela culatra. O Ministro da Justiça, nesta reunião no Senado, saiu maior do que entrou. E vozes começaram a ser ouvidas de uma possível candidatura Moro para 2022...

Um último adendo.

Não tenho nada contra ideologias. Como formado em Direito e do signo de Libra, sou um ferrenho defensor da liberdade de opinião e de escolha. Aceito, e até tenho vários grandes amigos que assim o fazem, quem professa e crê no ideário social-comunista, embora pessoalmente tenha eu uma convicção diferente. Mas, não posso deixar de me colocar contra a postura que alguma Esquerda brasileira, principalmente na imprensa e da intelectualidade, vem adotando na veiculação de sua ira e sua histeria no exterior. Como estou em Portugal, tenho presenciado episódios em que informações mal-intencionadas e fantasiosas são deliberadamente divulgadas, mostrando uma imagem distorcida, tendenciosa e até grosseiramente falsa do nosso país. Exemplos?

No conceituado jornal O Expresso da semana passada, o não menos conceituado colunista e escritor Miguel Sousa Tavares vociferou contra Sérgio Moro por conta das denúncias acima comentadas, publicando que Moro “jaz soterrado sob um mar de lama que nenhum Lava-Jato poderá limpar.”  Fico imaginando em que fonte Sousa Tavares terá ido beber para escrever uma insanidade destas.

Outro dia, um sobrinho meu veio informar-me ter ouvido de alguém que, no Brasil, a Polícia Federal estava proibindo a emissão de passaportes para impedir a fuga de brasileiros para o exterior. Coisa de loucos...

Acho que a Esquerda brasileira precisa se reinventar. Se continuar neste processo de exercer oposição apenas como vingança e como defesa cega de um governo enleado em propinodutos, vai afastar-se cada vez mais da realidade, correndo o risco de se ver identificada com o crime e a corrupção.

Oswaldo Pereira
Junho 2019

terça-feira, 18 de junho de 2019

MEDO




“Real power is – I don’t even want to use the word – fear” (O verdadeiro poder é – eu até não quero usar a palavra – medo).

Esta frase foi dita por Donald Trump a Bob Woodward numa entrevista em março de 2016. E é a abertura do último livro deste, Fear, lançado no ano passado. Acabei de lê-lo, e posso confessar que fiquei com medo. Não no sentido que Trump quis dar, mas pelo que o relato de Woodward inspira, ou transpira, sobre a personalidade errática, imatura e instável do Presidente dos Estados Unidos.

Woodward é um dos mais premiados e respeitados jornalistas americanos. Sua fama começou há 48 anos quando, ainda um jovem repórter do prestigiado Washington Post, publicou, juntamente com seu colega Carl Bernstein, as reportagens que iriam desaguar no histórico escândalo do Watergate e na eventual renúncia de Richard Nixon. Seu livro sobre o acontecimento, All The President’s Men (Todos Os Homens do Presidente), transformou-se num dos maiores sucessos editoriais do mundo inteiro e acabou sendo levado para as telas. De lá para cá, Bob Woodward já publicou 19 livros sobre a cena política americana e extensas avaliações das administrações de Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Credenciais não lhe faltam.

O Donald Trump que emerge das suas páginas é um indivíduo quase paranoicamente egocêntrico, avesso a conselhos e opiniões alheias, desrespeitoso com assessores e perigosamente impulsivo nas decisões que toma. Como a maioria dessas decisões carregam em si o peso de mexer com a ordem mundial, avalie-se o risco. Contra a recomendação da quase totalidade de seus secretários e conselheiros civis e militares, gente da melhor competência que foi cruelmente destratada por ele, Trump tem rasgado acordos, insultado aliados, quebrado protocolos da liturgia do cargo, abusando do impromptu em seus contatos com a grande imprensa (a quem acusa de persegui-lo) e nas explosões às vezes infantis que despeja nos seus twitters.

No primeiro capítulo de Fear, Woodward relata a fixação de Trump na extinção do KORUS, o acordo entre os Estados Unidos e a Coreia do Sul, firmado há mais de 50 anos. O dinheiro gasto na manutenção de 28.000 soldados americanos na península e um generoso favorecimento comercial aos coreanos eram as razões do Presidente. Muito embora sua assessoria em mercado internacional e os chefes militares tivessem contra argumentado que o preço era pequeno dado o acesso que, pelo acordo, os americanos tinham à inteligência sul-coreana e à possibilidade de detectar o lançamento de mísseis da Coreia do Norte em apenas 3 segundos (versus 15 minutos na base de Portland, no Alasca), Trump bateu o pé. Mandou preparar a carta de revogação do KORUS. Que só não foi assinada porque seu secretário particular retirou-a da pilha de papéis da escrivaninha do Salão Oval, valendo-se de outra característica da personalidade do Presidente. Trump tende a esquecer rapidamente das suas instruções, não tem agenda e nem sentido de follow-up. O KORUS continua em força até hoje.

O livro termina em meados de 2018. Desde então, temos presenciado a guerra comercial com a China, a briga com a NATO, as idas e vindas dos encontros com Kim Jong-un, as ameaças ao México, a denúncia do acordo nuclear com o Irã, a marcha do inquérito sobre a influência dos hackers russos no processo eleitoral. Rajadas de vento que perturbam as águas da estabilidade global.

No ano que vem, novas eleições presidenciais. Paralelamente a tudo o que Woodward nos mostrou, os Estados Unidos estão crescendo a níveis mais altos do que nos anos anteriores e o desemprego caiu significativamente. Será o suficiente para que o eleitor americano queira repetir a dose?

Oswaldo Pereira
Junho 2019