domingo, 9 de junho de 2019

DESTINOS CERTOS: ESCÓCIA




O sol pouco aparece. E, quando o faz, nos acena de longe. O vento, este está sempre presente, o bastante para revoltar os cabelos e entortar guarda-chuvas mais baratos. E a chuva. No decorrer de uma típica hora primaveril escocesa, os três se vão revezar sucessivamente. Preparados para tudo, é assim que devemos andar pelas charmosas ruas de Edimburgo. A melhor previsão dos humores do tempo termina sempre com a palavra “mixed”. Ou seja, um pouco de tudo.

Mas, esta é a proposta. A capital e o país ficam melhor assim, emoldurados pelas nuvens eternas, molhados pela garoa fina que produz campos de um verde infinito, afagados pela ventania que serpenteia nas passagens estreitas e pelas praças. Assim é a Escócia, uma terra de tradições arraigadas em seus magníficos vales, de gente empedernida e forte como os rochedos de sua costa nortenha, de rebanhos em pastagens de infinita verdura, de uma história povoada de heróis e lendas.

E a história está em todo lugar por onde se ande.

Ocupada pelos romanos no século I, a região entrou na Idade Média povoada pelos celtas, cuja cultura predominou sobre a influência de algumas tribos menores e as sucessivas invasões viquingues. Mas foi a permanente turbulência de seus conflitos com os anglo-saxões ao sul que desenhou a principal característica de sua crônica medieval. Foram várias batalhas, vários confrontos, que eternizaram os nomes de William Wallace, de Robert the Bruce, de Rob Roy. A sua própria independência viu-se, às vezes, posta em causa pela rivalidade dos clãs. E pela disputa enraivecida entre Elizabeth I e Mary Stuart. Finalmente, no início do século XVIII, a Escócia uniu-se à Inglaterra na criação do Reino Unido. E lá está até hoje.

Edimburgo
CASTELO DE EDIMBURGO

Com cerca de 550 mil habitantes e uma área histórica concentrada, Edimbra, como a chamam os da terra, é uma cidade ideal para se andar a pé.  Da Princess Street, onde está o melhor da zona comercial, até a extensa rua chamada Royal Mile, é um pulo. E dali é só subir em direção ao Castelo. Construído em cima de um vulcão extinto chamado Castle Rock (e aí, galera do Game of Thrones, já viram onde George Martin foi buscar inspiração?), é o ícone turístico da cidade. Vale o passeio, a vista e a história encrustada nas pedras negras dos muros e das ameias. Dentro, estão dois museus militares e um memorial, testemunhas do envolvimento escocês nas batalhas travadas pelo Reino Unido. Só nas duas guerras mundiais, foram mortos mais de 180.000 filhos da terra.

Perto fica a impressionante Catedral de Saint Giles. Um pouco mais para leste, o Palácio de Holyrood, onde Mary Stuart viveu o período mais determinante de sua vida. Lá, ela tentou ser rainha. Não conseguiu. E, como ninguém é de ferro, depois de encharcados de história e salpicados pela chuva, nada melhor do que um acolhedor pub e um copo do supremo tesouro nacional. O whisky.

Esta mistura de cevada, água e fermento, processada por destilação, apareceu na Escócia lá pelo final do século XV. Seu primeiro registro é uma encomenda feita a um frei chamado John Cor para fabricar 500 garrafas de uisge beatha, o nome celta para água da vida. De início, só os mosteiros tinham autorização de produzir a bebida para uso medicinal. Entretanto, como o remédio era bom demais, logo um mercado mais imaginativo foi surgindo e os saxões, que não conseguiam falar corretamente uisge beatha (pronuncia-se uishguebau), o simplificaram para seu atual nome. Hoje, existem mais de 90 grandes destilarias na Escócia.  E um mercado planetário.

Highlands
A população da Escócia é de 5,4 milhões de habitantes, fortemente concentrada na parte central do país, no eixo Edimburgo/Glasgow. Isto faz com que nas outras regiões existam grandes espaços verdes. Viaja-se por largo tempo sem se ver uma povoação. Só pastagens. E ovelhas, carneiros e vacas.

Nas Highlands, as Terras Altas, que compõem a parte setentrional do país, não é diferente. Aí também estão os glens, os acentuados vales, desenhados entre picos sempre enevoados, que nos trazem os contos de clãs em eternas disputas territoriais, suas lendas medievais, seus castelos misteriosos, seu vento cortante. Também aí estão os lochs, os lagos de água impenetrável. É quase obrigatório um passeio de barco no Loch Ness e curtir a esperança de ver o mítico monstro emergir da superfície escura.

LOCH NESS

 Scottish Borders
É a região fronteiriça. Com a Inglaterra, claro. E, por isso mesmo, o cenário dos grandes conflitos dos escoceses com seus incômodos vizinhos. Como não há qualquer grande obstáculo natural entre os dois países, os embates eram frequentes, determinados pelo incessante desejo dos saxões em dominar o norte da ilha. No final do século XIII e no início do seguinte, este desejo era personificado pelo rei inglês Eduardo I. Mas, seus sonhos foram contrariados por dois legítimos heróis. William Wallace e Robert the Bruce. Nas batalhas de Sterling Bridge e Banockburn, os escoceses levaram a melhor e reafirmaram sua independência. Os sítios históricos estão abertos à visitação.

Se quisermos visitas mais amenas, há dois edifícios religiosos merecedores de uma vagarosa descoberta. Um, é a Capela de Rosslyn. Fundada em 1446 por Sir William St. Claire e dotada de um minucioso trabalho em pedra em seu interior, cheio de figuras intrigantes e de simbolismo quase esotérico, a capela ficou ainda mais famosa depois que o escritor Dan Brown a incluiu na parte final de seu livro “O Código Da Vinci”.
 
ROSSLYN CHAPEL
Outro, é a Abadia de Melrose, construída no início do século XII pelos monges cistercienses e onde foram enterrados vários reis escoceses. Afirmam que uma caixa contendo o coração de Robert the Bruce está lá. Em algum lugar.

Esta é a Escócia que vi. Um destino certo.

Oswaldo Pereira
Junho 2019

quarta-feira, 22 de maio de 2019

THE END




Já que acabou a mini “quarentena” de três dias após o término do último episódio e que entrados estamos no período aberto a spoilers, chegou a hora das avaliações.

Como todos os meus parcos, mas abnegados, leitores já sabem, eu fui (e sou), desde a primeira hora, um juramentado seguidor da mais badalada série televisiva de todos os tempos. Assisti a todas as temporadas (a maioria delas vi e revi) e li todos os cinco livros da obra que as inspirou, A Song of Ice and Fire (Uma Canção de Gelo e Fogo), magistralmente escrita pelo “bruxo” George R. R. Martin.

Game of Thrones bateu todos os recordes de audiência em todo o planeta e conseguiu envolver milhões de fãs na teia de um fervor quase religioso. Foram muitos os polos de atração. Primeiro, o cenário. As brumas da Idade Média sempre tiveram seu lugar mágico no imaginário das gentes, com seus castelos, reis, rainhas, duendes, cavalos e lanças. GOT acontece numa Idade Média milenar, desenrolada numa tapeçaria de brasões, cavaleiros, feiticeiras e dragões. Depois, o fumegante caldeirão de conflitos humanos, onde uma luta insana pelo Poder desperta toda a gama de sentimentos, do amor ao ódio, da lealdade à traição, da submissão à vingança.  Em terceiro lugar, o roteiro rápido, de diálogos candentes como flechas de fogo, a trama inquieta que aniquilava sem dó nem piedade personagens pelos quais começávamos a torcer. A frase em Alto-Valiriano, Valar Morghulis (todos os homens devem morrer), uma espécie de mantra basilar da série, nunca foi levada tão a sério. A seguir, jogue-se em cima disto tudo fartas doses de sexo, onde abuso, incesto, prostituição e homossexualidade derramavam-se sobre a linha mestra da história como um complemento natural. Afinal, era Idade Média ou não? Finalmente, amarre-se este pacote todo numa embalagem visual jamais vista num trabalho para a telinha.  A Direção de Arte de Game of Thrones ganhou, merecidamente, todos os prêmios à disposição. De cenas de alcova até os campos de batalha, passando por desfiladeiros gelados, mares em procela, desertos de pedra, campinas bucólicas, cidades entre muros e salões reais, imagens, cores e detalhes contribuíram, e muito, para o monumental sucesso da produção.

E então, após 8 temporadas e nove anos, eis-nos frente à frente com o episódio final. Os cellos da abertura pareceram até mais pesados e mais solenes que o normal. Seria a derradeira vez que ouviríamos a vinheta musical no início de um capítulo inédito.

Mas, antes de aí chegarmos, a oitava temporada já havia causado torcidas de nariz. A rigor, desde quando os produtores David Benioff e D. B. Weiss haviam ultrapassado o último livro escrito por Martin na sexta temporada (Martin parou no quinto livro. Segundo ele próprio, por preguiça...), que algumas tribos de seguidores já haviam reclamado. Agora, entretanto, as vozes aumentaram. Acho natural. Ao longo de todos esses anos, cada um de nós foi criando sua versão própria para o desfecho. E, à medida que o roteiro daí se desviava, uma certa decepção cutucava a audiência.

Assim, mesmo tendo sentido um leve tremor na minha fé de admirador em algumas cenas do quinto episódio (achei a luta entre Jaime Lannister e Euron Greyjoy muito faroeste demais e a reação final de Cersei meio incompatível com o caráter delineado ao longo da trama), cheguei ao capítulo sexto com minha devoção intacta.

E não me arrependi.

Cheio de simbolismos (inclusive com a engraçada apresentação de Samwell Tarly a Tyrion Lannister de um livro intitulado A Song of Ice and Fire...) e citações históricas (a cena de Daenerys Targaryen proclamando que iria conquistar o mundo, de cima de um palanque e com os Imaculados formados embaixo, enquanto uma chuva de cinzas cai, lembrando Hitler e os fornos crematórios), o encerramento deu-se num tom intimista e solene. Se pensarmos bem, cada um teve o destino que procurava ou merecia, inclusive a Mãe dos Dragões. A cena final, com Arya Stark, talvez a personagem mais forte da saga, partindo para o desconhecido e para o futuro é bastante emblemática. E abre a porta para um universo de spinoffs.

Que, espero, não aconteçam. Acho que George Martin pensa igual...

Oswaldo Pereira
Maio 2019

segunda-feira, 13 de maio de 2019

CENÁRIO DE GUERRA



Atravessa-se o Atlântico e é como se um protetor de ouvidos amortecesse os sons. O eco das vozes enraivecidas perde-se na distância, ainda que o Face insista em avivá-las. Mas, apesar da lonjura arredondar as imagens, é na relativa quietude política de Portugal que se evidencia a excessiva polarização da vida partidária brasileira.

Não que aqui seja uma mansidão republicana. Este é um ano de eleições legislativas, aquelas que decidem a formação do Parlamento e, por consequência, quem vai ocupar o cargo de Primeiro Ministro. Há várias décadas, Portugal vem sendo governado por um pêndulo que oscila entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD). Em que pese alguma divergência, principalmente na escolha das alternativas fiscais e orçamentárias, há uma grande convergência na adoção da social democracia, regime, aliás, de eleição de quase todos os países do bloco europeu. Os partidos à esquerda e à direita desse espectro servem apenas como contraponto e têm um breve protagonismo quando compõem alianças com os partidos maiores.

É claro que há discursos inflamados, acusações de má administração de parte a parte, embates no Congresso, tricas e futricas na imprensa. Mas a margem de antagonismo é estreita. No fundo, os princípios básicos da organização do Estado e o arcabouço do funcionamento da máquina governamental não estão em causa. O ajuste é fino, o balançar do pêndulo de somente alguns graus.

Comparado a isto, o Brasil é hoje um cenário da Grande Guerra. O campo das opiniões é um teatro de trincheiras opostas, que se encaram no dia a dia das redes sociais. Há tiroteio entre partidos, morteiros cruzando o ar no Judiciário, sabotagens e artilharia pesada em vários escalões, terrenos minados por toda a parte.

Só que, contrariamente à Primeira Guerra Mundial, terminada em novembro de 1918 com a vitória da França e seus aliados, a nossa, do jeito que está, não terá vencedores. Mas, certamente, terá um perdedor. O Brasil.

Oswaldo Pereira
Maio 2019

quinta-feira, 2 de maio de 2019

TORCIDA CONTRA



O brasileiro continua me surpreendendo. Dois recentes episódios de nossa cena pública deixaram-me aturdido e extremamente confuso na hora de explicar o país àqueles que não são de cá.

No primeiro, o Presidente Bolsonaro pediu à Petrobrás que adiasse o reajuste de 5,7% do óleo diesel, com receio de que o aumento provocasse nova insatisfação nos caminhoneiros. É bom lembrar que, no ano passado, uma greve prolongada do setor causou imensos problemas ao país, como desabastecimentos e perdas na produção e na exportação, inclusive sendo responsável pela redução do PIB. Imediatamente, imprensa e oposição levantaram-se contra Bolsonaro, acusando-o de “intervencionismo” e, como numa reação esperada do mercado, as ações da empresa caíssem, de ter causado um “prejuízo” de R$32 bilhões à Petrobrás. Até Miriam Leitão, uma reputada colunista de Economia, abriu suas baterias. O que muito me espanta, porque é inadmissível que uma jornalista desse calibre confunda movimentações do mercado de ações com perda efetiva. Dias depois, as ações haviam retornado aos patamares normais. O interessante é que nunca vi Miriam Leitão vociferar contra o saque perpetrado pelo PT, que desviou (isto sim, um real prejuízo) bilhões de dólares dos cofres da empresa.

No segundo, Bolsonaro, num encontro com representantes do agronegócio, sugeriu (até em tom de brincadeira, como ele próprio definiu no momento) que o Banco do Brasil diminuísse os juros dos empréstimos bancários aos agricultores. Nova reação enfezada da imprensa e da oposição.

Mas, a redução dos preços do combustível e no valor dos juros não foi sempre uma reivindicação do povo? Por que, diabos, estão contra?

Em outra polêmica, vários setores insurgiram-se contra a declaração de Bolsonaro, em que ele determinou a flexibilização da posse de armas para os proprietários agrícolas, num país em que o MST (Movimento dos Sem Terra) tem protagonizado invasões de terras produtivas e ocupadas por seus donos. Esqueceram-se de ler o Código Civil. Lá está consagrada a autotutela territorial, isto é, a prerrogativa legal que todo proprietário tem de defender seu próprio imóvel contra esbulhos, ameaças e ataques, inclusive pela força (lá escrito, é só conferir).

É pena constatar que há milhões de brasileiros que torcem contra, que querem ver o circo pegar fogo, que professam o “quanto pior, melhor”.

Isto não pode dar certo. E fica difícil de explicar.

Oswaldo Pereira
Maio 2019

domingo, 28 de abril de 2019

DÚVIDAS EXISTENCIAIS




Depois de uma certa idade, a vida parece escorrer. Passados os tsunamis da adolescência, as marés vivas da juventude e as procelas e bonanças da maturidade, a última idade chega com seu marulhar constante, em que apenas percalços de saúde podem estremecer o regular fio d’água do dia-a-dia.

Assim é, e assim deve ser. Faz parte do roteiro que nos foi imposto por um deus severo, que escamoteou o grande desejo da criatura por ele mesmo criada. A perpetuidade. Definidos como finitos, vivemos nossos ciclos. Na melhor das hipóteses, conseguimos viver todos eles. Nascimento, crescimento, apogeu, declínio e morte.

Não sei como será nos outros planetas, mas posso adivinhar que esta lei vale para todos os seres existentes no universo. Tudo o que há, mais cedo ou mais tarde, deixará de haver. Por expansão ou por regressão, seremos apenas capítulos de uma gigantesca história, cujo propósito escapa ao nosso entendimento.

É claro que há, dentre nós, os que não se deixam inquietar com isto. Abençoados por uma fé religiosa, creem nas decifrações desse propósito e entendem que este universo, todo ele, nada mais é que a preparação para uma eternidade em outro plano, aí sim o destino final do ser inteligente. Daí pode inferir-se que só os seres capazes ter esperança, ou seja, somente os homo sapiens, ou que nome tenham pelas galáxias afora, poderão lá chegar.

O problema é quando você é dotado de discernimento bastante para esperar, e não crê nas explicações da fé. Assim, a certeza da finitude parece uma grande injustiça. Por que me deram as asas do sonho, se me proíbem de voar? Por que me foi dada a visão da eternidade, se jamais lá chegarei?

E aí, as coisas complicam ainda mais. Injustiça é um ato. E um ato exige um agente. Quem? Todas as religiões têm o mesmo nome para ele. Então, ou você admite Deus, ou terá de se conformar com a suprema aleatoriedade de tudo.

Dá para dormir com um barulho destes?

Oswaldo Pereira
Abril 2019



terça-feira, 23 de abril de 2019

INÚTIL POESIA




Dei um tempo. Queria escrever sobre coisas mais alegres, um nascer de sol em Copacabana, a brisa morna que às vezes sopra sem compromisso numa curva da Lagoa, um poente de mil cores atrás do Dois Irmãos. Coisas de você, meu Rio dos poetas.

Mas, o inferno astral que rondou antes e depois de seu aniversário em março afugentou o riso, sepultou em lama, fogo e escombros o cantar das florestas e pintou de fuligem e fumaça o doce horizonte de seu mar.

Tragédias. E as mais cruéis, as anunciadas. As filhas da ganância, do descaso, da imprevidência criminosa, da corrupção brutal. Como se colocam dez meninos sonhadores numa ratoeira com um ar condicionado sem disjuntor? Como se deixam construir cidades equilibradas no vácuo de precipícios e de corredeiras, que a lama varre como se fossem cartas de um baralho? Como se permite o nascimento, o crescimento e o apogeu de um poder paralelo que domina a vida e a morte de comunidades inteiras?

Querem saber mesmo como? É só olhar para nós. É só olhar para dentro da nossa consciência quando escolhemos os que nos (des)governam. É só observar quão rapidamente nossa memória dilui a imagem das tenebrosas consequências desse desgoverno. É só verificar como somos lenientes e apaziguadores, bons de reclamar, maus de reagir, que talvez nem tenhamos piscado quando fomos informados que nossos desonestos prefeitos nos roubam há 40 anos.

Ou acordamos de nossa mansa letargia, ou os prédios levantados por milícias assassinas continuarão a cair, jovens novamente serão sacrificados pela falta de um disjuntor, a lama das futuras tempestades descerá pelas tortuosas encostas onde não deveria haver moradores. Ninho do Urubu, Rocinha, Muzema. Nomes deste Verão.

Como falar de poentes?...

Oswaldo Pereira
Abril 2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ECOS DE MARÇO


De repente, março de 1964 volta a ser assunto. Contra a recomendação do Governo para que os quartéis voltassem a homenagear o dia 31, vozes se levantaram. Vi muita gente falando, e gente que nem nascido era então. Resolvi, assim, desencavar um texto que publiquei aqui em 2014, quando o 31 de março comemorava 50 anos. É o meu testemunho.

“Não sei quantos visitantes deste modesto blog têm idade suficiente ou, se a têm, moravam no Brasil, para lembrarem-se dos acontecimentos ocorridos no país em março de 1964. Afinal, já lá vai meio século.

Na época, eu estava na flor dos meus 23 anos, formara-me em Direito quatro meses antes e, em fevereiro, fora admitido na General Electric S.A. Era, assim, um cidadão em plena posse de sua capacidade de ver, escutar e procurar entender o que se passava. Desta forma, não me estou referindo aos acontecimentos por ter lido sobre eles ou ouvir dizer. Eu tenho a prerrogativa de falar na primeira pessoa do singular. Eu estava lá.

era um Brasil procurando seu rumo político, ainda em meio choque após a surpreendente renúncia de Jânio Quadros, tentando digerir o que se seguira, a tentativa de impedir a posse do Vice-Presidente João Goulart, o tour de force de um Parlamentarismo esdrúxulo e de vida breve, a volta do Presidencialismo, vai-e-vens que abriam vácuos na cena institucional. Economicamente, se de um lado o país começava a colher alguns frutos do processo de industrialização disparado por Juscelino Kubitschek, por outro se via a braços com uma insuportável pressão inflacionária gerada pelos custos estratosféricos da construção de Brasília, suportados pelo desmantelamento dos fundos previdenciários e pela emissão desenfreada de moeda. Exportávamos commodities e importávamos petróleo. Socialmente, todo o mecanismo de distribuição de renda ainda era pífio e a pirâmide de riqueza perversamente elitizada e corporativista. Para azedar ainda mais o caldo, o Governo do recém-criado Estado da Guanabara (correspondente à região metropolitana da ex-Capital, o Rio de Janeiro) era ocupado por um dos maiores e mais temidos tribunos políticos da época, o carismático, e aspirante a Presidente, Carlos Lacerda. Sua queda de braço com o Poder Central era o prato do dia.

também era um mundo extremamente polarizado pela Guerra Fria. Estados Unidos e União Soviética, que por sua vez mantinha uma relação de amor e ódio com a China de Mao, trocavam insultos para a plateia, flexionavam os músculos de seus arsenais, apostavam corrida para a Lua e inspiravam uma legião de escritores de spy novels. Mas, havia um balanço nervoso. Ninguém estava mesmo a fim de apertar o botão vermelho e destruir o planeta. O que cada lado almejava era manter os seus quintais. A América, o Continente Americano e a parceria com a Europa Ocidental; os Russos, a Europa de Leste e, com os chineses, todo o Extremo Oriente. África e Oriente Próximo eram free for all e área de conflitos tribais e religiosos. Só que, em 1959, alguém baralhara as cartas da maneira errada. Fidel Castro. A existência de uma Cuba vermelha debaixo da barriga dos yankees era motivo de êxtase para o mundo comunista. Para Tio Sam, uma verdadeira pain in the ass. Três anos depois, Kennedy e Khruschev haviam ficado cara a cara por causa da ilha caribenha. A coisa foi arreglada no último minuto com trocados (a volta dos cargueiros soviéticos, a demolição de uma base de mísseis inoperantes na Turquia), mas o recado estava dado – os Estados Unidos não iriam admitir outra brincadeira no seu quintal.

E, então, chega 1964. Afilhado político do socialismo de Getúlio Vargas, Goulart não lhe herdara nem a persona política nem a sagacidade de estadista. A rigor, Jango estava enredado num Congresso conservador e não conseguia despertar o fervor popular que seu padrinho manejara com maestria. A única saída para ganhar peso eleitoral era aproximar-se das lideranças comunistas das ligas camponesas, do sindicalismo e dos escalões mais baixos das Forças Armadas, todos inspirados pela retórica de Fidel e Che Guevara, cuja missão auto imposta era disseminar a revolução soviética por toda a América abaixo do Rio Grande (Rio Grande ao sul do Texas, bem entendido...). Goulart acabou sendo cooptado por elas e tornando-se refém da intensa pressão que exerciam para que ele acelerasse o processo de reforma que guindaria o país para a esquerda. Já se sentia algo no ar, pronunciamentos de parte a parte, de ministros do Governo, de parlamentares dos diversos partidos, dos altos escalões militares, num fogo cruzado inquietante, quando a Presidência da República anunciou a realização do Comício do dia 13 de março.

O que entrou para a História como o Comício da Central, por ter sido realizado em frente à estação ferroviária da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, reuniu quase 200 mil pessoas, com transmissão via rádio e TV. No palanque, ou próximo a ele, aglomerava-se a nata da militância de esquerda do trabalhismo, dos movimentos rurais, dos clubes de cabos e sargentos, das centrais sindicais, da inteligentzia social-comunista do país. Mas não foi isso que marcou o dia ou que detonou o que viria a seguir. Foi o discurso de Jango.

Numa oração de meia-hora, que logo de início atacava o status quo da organização político-social vigente, ele anunciou que havia promulgado uma série de atos do Executivo cujo objetivo imediato era implantar as bases de uma ampla reforma agrária, com a desapropriação de terras e sua distribuição para camponeses e pequenos agricultores. Ao mesmo tempo, havia encampado todas as refinarias particulares e preparava-se para promover uma reforma política que, além de dar o direito de voto ao analfabeto, proporcionaria a “renovação” do Congresso Nacional, privilegiando a inclusão de operários, camponeses e sargentos.  Quase a cada frase, a multidão irrompia em aplausos e gritos de ordem.

Os dias seguintes foram frenéticos. Reagindo ao soco no estômago e à iminência de uma verdadeira revolução promovida pelo próprio Governo, a oposição parlamentar, as grandes organizações patronais, a mídia conservadora e as Forças Armadas reagiram e começaram a preparar a deposição do Presidente. Precisavam apenas de dois avais. Um, o da Sociedade, que respondeu organizando mega manifestações de rua em repúdio às propostas de Jango, que ganharam o significativo título de “Marchas da Família com Deus e pela Liberdade”.  Foram várias, em várias cidades. Em São Paulo, mais de 500 mil; no Rio, quase um milhão. Outro, o dos irmãos do Norte. Para os Estados Unidos, um Brasil comunista seria uma catástrofe, outro revés inadmissível em seu quintal.

Dezoito dias após o Comício da Central, com o beneplácito dos Governos de Minas, São Paulo e Guanabara, o Exército avançou. Sem o disparo de um só tiro, dominaram Brasília e todos os centros nevrálgicos importantes. Oferecendo nenhuma resistência, João Goulart e seus seguidores mais próximos deixaram o país. Iria começar mais um capítulo de nossa saga pátria, que duraria 21 anos. Mas, isto já é outra história...”

Falar de fatos históricos com 50 ou mais anos de idade, sem entender e compreender o ambiente em que eles aconteceram, é falar fora de contexto. As opções que estavam na mesa à época eram diretamente antagônicas e auto excludentes. Sem ter medo de palavras, a escolha era entre um regime de exceção de direita e outro de esquerda. Dizer que os antagonistas do movimento de março lutavam pela democracia é uma falácia. Hoje, até os mais destacados líderes contrarrevolucionários reconhecem que seu objetivo político era a implantação de uma ditadura do proletariado.

Teria sido melhor? Depois de ver os resultados da governação comunista, desde seu surgimento há 100 anos, na União Soviética, na China Vermelha, na Albânia, no Cambodja, na Romênia, em Cuba e na Coreia do Norte, eu sinceramente duvido.

Oswaldo Pereira
Abril 2019