segunda-feira, 5 de novembro de 2018

ANOTAÇÕES DO JAPÃO




A Idade Média, no Japão, terminou em meados do século XIX. Antes disso, o país vivera 200 anos sob o mando dos shoguns, fechado para o mundo, preservando sua cultura e o código de honra dos samurais. Mais para trás, os primeiros ocidentais a aparecer haviam sido os portugueses, à espera de incluir aquelas ilhas de pescadores em sua rota de comércio. Ao tentarem implantar a cruz do cristianismo num povo profundamente enraizado nos princípios de suas crenças ancestrais, os portugueses cometeram um erro. Foram rechaçados. A experiência gerou o isolacionismo. Só em 1866, quando o Imperador Meiji iniciou sua reforma, abolindo o shogunato e o regime feudal, o Japão abriu-se para o mundo. E isto explica muita coisa.

A primeira grande percepção de quem chega é cultural. É um Oriente quase paradoxal, em que hábitos ocidentais estão apenas na superfície, nos ternos escuros dos executivos, nos vestidos de grife das mulheres, na profusão intoxicante de celulares e grande magazines de eletrônica, nos imensos edifícios empresariais feericamente iluminados, nos trens a 300 quilômetros por hora.

Debaixo desta pátina de modernidade está um Japão austero, hierárquico, ritualístico e religioso. É o Japão de uma paisagem repetida de casas cinzentas, de templos e santuários em permanentes celebrações silenciosas, de relacionamentos secos e sem efusão, de uma dedicação quase visceral à limpeza, à ordem e ao respeito. A família está na base de uma sociedade altamente competitiva, onde a formação e a disponibilidade para trabalhar acima e além do razoável são indispensáveis. O bushido, o código de honra dos samurais, ainda está muito presente na alma japonesa. A autodisciplina e a exigência pessoal de cumprir à risca os propósitos de sucesso na escola, no trabalho e na vida familiar geram uma pressão às vezes insuportável. São 30.000 suicídios por ano.

TÓQUIO (GINZA) À NOITE

Para quem vem passear, entretanto, é uma viagem, no sentido mais delicioso da palavra. Uma experiência que toca com nitidez e força os sentidos. Os intrigantes sabores dos sashimis, do sakê e dos doces de chá verde, o som reverencial de um gongo num templo budista, a energia de uma manhã  fria e sem nuvens no sopé do Monte Fuji, a deslumbrante profusão outonal de incríveis matizes nas folhas dos plátanos nos Alpes Japoneses, a poderosa mensagem de Paz nos jardins de Hiroshima, a majestade  do grande Tori vermelho flutuando na preamar da ilha de Myiagima, o Grande Buda de Nara, as geikos do bairro Gion em Quioto, o formigueiro humano no cruzamento de Shibuyia e as luzes de Ginza em Tóquio ficarão para sempre na minha memória.
ILHA DE MYIAGIMA

MONTE FUJI, COMO EU O VI...

Um enigma e um sonho. Assim é o Japão.

Oswaldo Pereira
Novembro 2018

sábado, 20 de outubro de 2018

DESTINOS CERTOS: OS PASSADIÇOS DO PAIVA




Como todo país inteligente, Portugal tem investido pesado em turismo. Aproveitando o declínio e a insegurança de outros destinos turísticos, como Tunísia, Egito e Turquia, por exemplo, antes sonho de consumo dos europeus nórdicos, e marqueteando com extrema habilidade seu clima temperado, a sua prodigiosa História e a excelência de sua infraestrutura hoteleira, Portugal está na moda. Em 2018, a expectativa é de mais de 24 milhões de visitantes.

E basta andar por aqui para constatar esta verdade. Do Terreiro do Paço às praias do Algarve, dos vales do Minho às planuras do Alentejo, turistas de todas as categorias se regalam com intermináveis dias de sol, pratos regionais de revirar os olhos, vinhos soberbos na melhor relação custo/benefício deste lado do Mundo e paisagens ainda pristinas se alongando por entre pedaços de um rico e majestoso passado.

Mercê de um excelente sistema de autoestradas, que fazem ainda menores as distâncias já reduzidas de um país geograficamente pequeno, a descoberta das inúmeras sutilezas de seu território resulta numa tarefa fácil, tranquila e extremamente prazerosa. Ciente disto, o Governo português vem, desde a virada deste século, disponibilizando recursos às administrações municipais, além de crédito e vantagens fiscais a empreendedores privados, para recuperação e manutenção de sítios naturais e históricos de interesse e potencial turísticos. E, acredite, são muitos. Com quase 900 anos de existência, fora seu período pré-independência, que remonta ao tempo dos fenícios, e abençoado com dezenas de regiões de climas diversos, Portugal é sempre uma novidade.

Um exemplo.

A mais ou menos 30 quilômetros da cidade do Porto, existe uma belíssima região em cujo território corre um sinuoso rio, esgueirando-se por entre encostas escarpadas, formando em seu caminho ora furiosas corredeiras, ora remansos de profunda calma. Conhecida como a Garganta do Paiva, é o cenário onde o rio do mesmo nome oferece paisagens deslumbrantes, até há pouco conhecida apenas por tenazes montanhistas e empedernidos aficionados do rafting.
Em junho de 2015, ciente das possibilidades turísticas do lugar, o Governo português fez construir um passadiço, ou seja, um extenso caminho em madeira ao longo da margem esquerda do Paiva.  Margeando o fluxo d’água por mais de 8 quilômetros, iniciando com uma subida de 400 metros e mais de mil degraus, esse passadiço propicia um passeio inesquecível, no qual, a cada curva, o visitante se depara com uma natureza ainda em estado puro, em que cabras montesas equilibram-se nas pedras, árvores fornecem sombras acolhedoras, a vista se perde nos encantos do vale acentuado e um silêncio reverencial parece tudo rodear.

Em junho de 2016, entretanto, um incêndio, insuflado em grande parte pelo denso eucaliptal que cobria as encostas, destruiu 1.200 metros do percurso. Felizmente, em rápida ação, as autoridades portuguesas repararam o dano, reconstruído a parte afetada e cuidando para que árvores autóctones substituíssem os eucaliptos.

E os Passadiços lá estão, novamente em todo o seu esplendor, como pude constatar há dias, numa abençoada manhã de verão tardio.

Oswaldo Pereira
Outubro 2018





terça-feira, 9 de outubro de 2018

ELEIÇÕES 2018




Descontando os 20,3% de abstenção, quase 120 milhões de brasileiros foram votar. Um colégio eleitoral respeitável que, pelo menos, indica um apego salutar ao que chamamos de Democracia. Ainda que o sistema triture este apego em suas lâminas corrompidas, ainda que uma boa maioria dos eleitos lambuzem esses votos na lama do pântano da Administração Pública, ainda assim, o povo verte sua dose de esperança cada vez que o Brasil o chama às urnas.

Nos quase 200 anos de independência que compõem a nossa História, vimos, com lapsos de tempo, cumprindo este compromisso com certa assiduidade, de maneira às vezes defeituosa, às vezes tutelada, às vezes até com um certo enfado. Por desinformação ou por interesse curto, muitas vezes desincumbimo-nos deste direito como se fosse uma obrigação chata. Mas, sempre fomos.

Em tempos recentes, as evidências de generalizada malversação do sofrido dinheiro que nos é tirado como imposto, da suja praça de vendilhões em que se transformaram Congressos e Assembleias, da untuosa arrogância, ungida pela certeza da impunidade, da maioria dos nossos políticos, da desfaçatez com que, em corredores do poder e na calada de uma noite perene, aprovavam regras e leis em seu próprio interesse fizeram minguar a confiança no processo. Democrático? Bem...

Mas, continuamos sempre a ir, numa doida perseverança, numa visão teimosa de Dom Sebastião, a pé, sob chuva ou sol, colocar nossa gota de esperança no oceano do futuro da Nação.
Desta vez, não foi diferente. Ou foi?

A partir dos resultados já divulgados, dá para sentir que alguma coisa mudou. Um suave sopro de conscientização, uma leve brisa de responsabilidade parece ter bafejado o eleitor tenaz, mas cansado. Prá começo de conversa, o eixo formador de opinião mudou de lugar. A TV, e seu famigerado Horário Político, uma palhaçada de frases feitas e promessas vazias, foram soterradas pelas novas vias de comunicação. Hoje, o eleitor faz seu próprio programa de informação política pelas redes sociais. Já não resta dúvida que o WhatsApp foi o grande influenciador destas últimas eleições.
Como resultado, essa maior conscientização operou alguns milagres. Currais eleitorais foram desmontados. Nomes e dinastias, dizimados. Romero Jucá, Roberto Requião, Edison Lobão, Eunício Oliveira, Lindberg Faria, cardeais intocáveis por décadas foram defenestrados. Os Sarneys banidos em seu próprio latifúndio. E a “presidenta” Dilma finalmente repudiada.

A mesma coisa aconteceu com legendas e partidos. O PSDB perdeu 4 cadeiras no Senado e 14 na Câmara. O MDB, 7 e 18, respectivamente. Embora mantendo sua hegemonia no Nordeste, o PT tem agora menos 6 senadores. Por outro lado, o nanico partido de Jair Bolsonaro, o PSL, saiu de 2 para 51 lugares na Câmara Alta.  E, é claro, a quase vitória dele no primeiro turno (46% dos votos válidos) indica que alguma coisa mudou. Entende-se que a inelegibilidade de Lula revirou o mapa eleitoral. Acho, entretanto, que foi a desastrosa, corrupta e desonesta administração do PT, nestes 14 anos, que dispararam a enorme rejeição que explodiu no meio mais eficiente de convencimento que temos hoje. O celular.

Oswaldo Pereira
Outubro 2018


quarta-feira, 12 de setembro de 2018

O ATENTADO



Atentados políticos não são raros. A partir da Antiguidade Clássica, assassinatos, ou tentativas de, permearam a evolução de várias sociedades, alguns decisivos na mudança do curso de sua História, outros trazendo até consequências planetárias. Desde quando os senadores romanos abateram Júlio César, a polarização política tem sido a grande inspiradora de atos extremados, cujo objetivo é fazer calar uma voz, extirpar um pensamento ou eliminar uma filosofia pela força, quando o desespero da falta de argumentos ou de sensatez obscurece a razão.

Independentemente, entretanto, de qualquer motivação, o atentado, além de ser um crime, é uma forma truculenta e primária de se expressar uma fé partidária ou um compromisso religioso. É o ponto mais baixo do comportamento humano diante de uma ideia contrária, é a falência da capacidade intelectual de se reagir a ou de contrapor com inteligência uma proposta contrária ou um posicionamento adversário.

Mais do que isto, o atentado, venha de onde vier, se reveste de características inaceitáveis como procedimento social.

Em primeiro lugar, é uma ação covarde. O agente do atentado vale-se sempre da surpresa, apanhando sua vítima indefesa, geralmente desarmada, negando-lhe qualquer possibilidade de reação.

Em segundo lugar, é uma ação estúpida. Na maioria dos casos, o atentado provoca um efeito exatamente contrário ao pretendido pelo atacante, mesmo quando tem como consequência a morte do atacado, cujas ideias recebem a galvanização de seu martírio. Se o alvo sobrevive, sua força multiplica-se pelo seu salvamento.

E, por mais que queiram revestir o ato como ação de um lobo solitário, um atentado é, na grande maioria das vezes, a parte final de um planejamento. Assim foi com Júlio César, vitima de um conluio de patrícios, com o Arquiduque Ferdinando, abatido pela Crna Ruka, a Mão Negra sérvia. John Wilkes Booth fazia parte de um grupo que desejava a continuação da Guerra da Secessão quando alvejou Lincoln. Até hoje, existem fortes suspeitas sobre o assassinato dos Kennedys e de Martin Luther King. Há, quase sempre, uma voz atrás da cortina guiando a mão que empunha a arma.

Assim, eu acho que ainda há muita história para contar sobre Adélio Bispo de Oliveira, o quase assassino de Bolsonaro...


Oswaldo Pereira
Setembro 2018

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

TRISTEZA PROFUNDA

Resultado de imagem para museu nacional rio de janeiro


Acho que já vivi o bastante para perceber que nenhuma sociedade poderá progredir sem Educação. Não conheço povo algum que tenha crescido e se desenvolvido, ou até sobrevivido, sem nela investir pesadamente, gerações a fio, privilegiando-a acima de qualquer outra atividade ou interesse. Para exercer a pleno a Democracia, por exemplo, necessário é que ela exista para proporcionar escolhas sensatas, garantir vigilância atenta e infundir o respeito à coisa pública.

Também não encontro país que tenha atingido um razoável patamar de Nacionalidade sem preservar com amor reverencial sua Cultura, e sem cultuar a sua História. Sem passado não há futuro. É uma frase gasta, eu sei, mas nem por isso menos verdadeira.

Assim, como qualquer brasileiro, ou mesmo qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade cultural, estou profundamente triste com a destruição do Museu Nacional da Quinta da Boavista.

Mas, a profundidade da minha tristeza é maior porque sei que estamos, mais uma enésima vez, diante de um ciclo. O que está acontecendo agora, Brasil afora, é novamente a repetição do que acontece toda vez que o país é golpeado por uma tragédia.

Primeiro choramos, nos espantamos e enraivecemo-nos. Depois, vamos procurar os culpados, e somos capazes de encontrá-los em todo lado. No caso do Museu, balões, falta d’água nos hidrantes, administradores relapsos, prefeituras e governos incompetentes, inspeções malfeitas ou relegadas, falta ou atraso de verbas. Muitos ou talvez todos têm culpa no cartório. Puníveis, portanto.

Aí, entretanto, vem a continuação do ciclo. O Tempo. Aos poucos, o assunto se esvai para o andar de baixo das notícias. Apesar dos anátemas furiosos, ninguém vai ser punido. Os belos discursos que prometem reconstruções e aportes generosos cairão na indiferença e as verbas prometidas serão desviadas.

E a vida vai continuar, até a próxima tragédia e um novo ciclo de comiseração provisória se iniciará. A medida curta da nossa memória se encarregará de nos condenar à sina pobre de um povo sem Cultura. E sem Educação.

Oswaldo Pereira
Setembro 2018  

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

NOVO JOGO SUCESSÓRIO





Lula OUT.

Como dizia Drummond, e agora, José?
O que acontece, agora, com esta dramática mudança no quadro sucessório? Não sou nenhum analista político, mas dá para perceber algumas coisas.

A primeira é que a candidatura Bolsonaro sofreu um rude golpe. Visto como um contraponto às pretensões do PT, Jair Bolsonaro era o receptor natural dos votos anti-Lula, na polarização esquerda versus direita em que se tornara a campanha eleitoral. Com o Partido dos Trabalhadores sem um candidato viável (a transferência do lulismo para Haddad é impossível), a alternativa Bolsonaro fica meio que esvaziada, e os olhos de muitos de seus apoiadores desviados para outras possibilidades.

E aí surgem mais três atores que antes estavam ofuscados pelo duelo Lula-Bolsonaro.

Geraldo Alkmin é seguramente o mais beneficiado. Mesmo identificado com o status quo político e descartado por seu propalado “carisma” de picolé de chuchu, ascende a pré-protagonista dada a sua experiência administrativa como Governador de São Paulo por dois consecutivos mandatos e um discurso, se não empolgante, pelo menos coerente.

Álvaro Dias segue na mesma esteira, tendo como cartão de visita suas décadas de parlamentar ponderado e um certo apoio do Centrão. É claro que é um nome palaciano e está longe de ter a difusão nacional necessária para carrear milhões de votos, mas pode entrar no vácuo deixado pelo encolhimento eleitoral do PT.

E o inesperado João Amoêdo. O fundador do Partido NOVO é mesmo uma novidade. Divulgando-se como empresário apolítico e independente através de uma muito bem engendrada campanha na Internet, seu nome saiu de um anonimato profundo para os percentuais do Ibope em pouquíssimo tempo. Os outros candidatos, ao recusarem sua participação nos debates televisivos, também lhe fizeram um imenso favor, ungindo-o com uma aura de outsider do entranhado mundo dos conchavos eleitorais.

Isto tudo para dizer que, na minha modesta visão, a partida sucessória não vai acabar no Primeiro Turno. O jogo vai ter prorrogação, num embate entre Bolsonaro e um dos três acima.  Quer dizer, vamos viver em suspenso até novembro...

Em Tempo:
A destruição do Museu Nacional da Quinta da Boavista por um incêndio, depois de décadas de descaso e abandono, é uma das mais cruéis punhaladas no coração da cultura brasileira. Peças de valor inestimável, perseverantemente colecionadas durante o Império, viraram cinzas. Perdidas para sempre. Mesmo os mais insensíveis habitantes deste planeta descartável em que vivemos devem parar um pouco e verter uma lágrima. O Brasil e o Mundo ficaram mais pobres neste fim de semana.

Oswaldo Pereira
Setembro 2018


quinta-feira, 23 de agosto de 2018

MOMENTO CRUCIAL



Quanto mais eu penso, daqui de longe, embalado pelas brisas do Tejo, mais eu me convenço de que as próximas eleições brasileiras representam um momento crucial na história do país. Parece retórica ou um dos muitos chavões que abundam na literatura política e na dramaturgia barata. Mas, permitam-me defender este meu professado convencimento.

O Brasil está prestes a completar 200 anos de independência. Nasceu, portanto, pouco depois do apogeu napoleônico e na hora em que ventos libertários sopravam com muita força no continente americano, um vendaval de ideias contra o qual os dois gigantes das descobertas, Portugal e Espanha, e a própria Inglaterra, não mais dispunham de forças para dominar.

Foi um rastilho de pólvora que rendilhou todo o Novo Mundo num festival de novas fronteiras, ditadas principalmente por demarcações comerciais desenhadas nos séculos XVI e XVII. E pela língua. Preservado pelo idioma português, ao Brasil coube um território de dimensões quase incompreensíveis para a época. Incompreensível e ingovernável.

A precariedade das comunicações, o imenso custo para se estabelecerem ligações entre a Corte e o resto do país, a inexistência de caminhos terrestres viáveis foram definindo as limitações da atuação do Governo Central. Do começo do Império até quase o final da Primeira República, o Poder era estritamente palaciano e apenas a extensa faixa costeira, os vales mineiros e o planalto paulista abrigavam a quase totalidade das atividades produtivas e comerciais. E políticas.

Brasília pode ter sido o toque de chamamento para a descoberta do Brasil interior. Mas foram os avanços no transporte, nas novas técnicas da agroindústria e na rapidez dos meios de comunicação que acordaram a miragem das riquezas de um país ainda desconhecido.

Mas, o mal causado por século e meio de loteamento político, usado e abusado pela Monarquia e pelos sucessivos Governos Republicanos, encastelados na Corte e suportados pelas fortunas que haviam ajudado a crescer, estava feito. A marcha para o interior e seu desbravamento foram tutelados pela política clientelista, aquela de favores e jeitinhos, multiplicadora de impostos e propinas. Em pouco tempo, esta cobra insidiosa, agarrada como uma liana na árvore do crescimento brasileiro, já havia parido o seu monstro. A Corrupção.

Com uma eficiência digna de arrepios, o Monstro cresceu e multiplicou-se. E hoje, lustroso e cevado, domina o sistema político-administrativo em todos os níveis da vida pública nacional. E não se esqueçam, amigos. Todo este processo foi feito debaixo dos nossos olhos, à nossa vista, se não com o nosso inteiro beneplácito, pelo menos com a nossa preguiçosa indiferença.

Desta vez, não há mais desculpas. Graças à extensa divulgação pela mídia, à inequívoca conscientização do povo brasileiro e, em não menor medida, às arenas das redes sociais, todos temos a obrigação de saber que o país não vai aguentar muito mais tempo neste ritmo e nesta dança. É o Point of No Return.

Um erro de escolha agora pode ser fatal.


Oswaldo Pereira
Agosto 2018