quinta-feira, 20 de julho de 2017

LULA



É quase impossível falar do Brasil de hoje sem falar de Lula. E é difícil falar de Lula, saber como seu verbete vai entrar para os livros. Como vamos ler sobre ele no futuro?

Se fosse daqui a 20 ou 30 anos, seria mais fácil. O distanciamento dos anos tende a amadurecer o julgamento. O post mortem providencia as datas de começo e fim, encerrando num período definido o legado de uma vida, a obra completa, a mensagem definitiva.

Todas as grandes figuras públicas foram polêmicas em seu tempo. Faz parte. Agradar a todos nunca foi apanágio dos homens e mulheres que saíram de seu anonimato e partiram para abrir sua alma ao mundo, tentar mudar o curso, trazer algo novo, inspirar, liderar ou, simplesmente, transformar seu nome num verbete da História.

Exemplos? Juscelino Kubitschek é hoje uma quase unanimidade. Brasília, 50 anos em 5, o Presidente Bossa Nova, a indústria automobilística. São ícones poderosos que acalentam a imagem pura de um governante esclarecido. Na sua época, estava longe de ser isto. A roda inflacionária disparada pelo afã de construir a nova Capital, os muitos fios de corrupção espalhados pelos meandros do empreendimento, o esvaziamento dos cofres dos Institutos de Previdência. Houve rebeliões armadas contra seu Governo. Unanimidade? É claro que não.

Mais para traz, temos Getúlio Vargas. Venerado hoje como o “pai dos pobres”, o hábil negociador que nos deu a Siderúrgica de Volta Redonda e a legislação trabalhista, foi um ditador implacável com seus inimigos, um político matreiro e exímio na arte do conchavo. Seu segundo termo foi um desastre, expondo um tenebroso submundo gerenciado por apaniguados, o tristemente famoso “mar de lama”.

Evidentemente, este viés de polêmica não é só característica dos homens pátrios. Excelsas figuras de outros panteons também conviveram, em sua época, com antagonismos e contradições. George Washington foi acusado de alterar em seu proveito suas despesas de viagens, Abraham Lincoln teve metade do país contra si, Winston Churchill nem conseguiu ser reeleito ao término da Segunda Grande Guerra, dizem que Frederico o Grande era gay. Havia até, no início do século XVIII, quem achasse a música de Mozart rebuscada e brega.

Só o tempo vai apagando os pecados, soterrando os desvios, depurando a memória, “limpando” a biografia. Lula ainda está escrevendo sua história e sua imagem ainda está sendo composta. Qual será o veredito final? Ladrão cínico? Líder carismático? Perguntem-me daqui a 50 anos...

Oswaldo Pereira
Julho 2017




domingo, 9 de julho de 2017

PÂNTANO


Foi num documentário sobre a Segunda Guerra Mundial.  A entrevistada era uma inglesa, casada com um alemão e vivendo em Berlim nos anos que precederam o conflito. Perguntada como experimentara ela o crescimento do nazismo e as profundas mudanças ocorridas na sociedade debaixo de Hitler, a inglesa declarou que a vida seguia normalmente e era só quando um acontecimento atingia alguém próximo ou algo modificava uma rotina ou um procedimento é que a realidade aparecia. Ela cita que havia chamado o seu pediatra para atender um filho doente e que, após a visita, o médico perguntou-lhe se desejava continuar como sua cliente. Ele explicou. «Várias famílias estão me proibindo de tocar em suas crianças.» Ele era judeu.

Há tempos que o descalabro das contas públicas brasileiras é mencionado pela imprensa. Especialmente, no Estado do Rio, a situação já ultrapassou a fronteira do simples problema para virar uma catástrofe. A incúria, a incompetência e, principalmente, a corrupção, jogaram a administração do Estado num atoleiro sem fundo, num pântano tenebroso onde a vida pública não existe mais. O Rio faliu.

Isto são as notícias, trágicas por si mesmas, que ouvimos diariamente, que lemos nas manchetes, que nos azeda o café da manhã e nos tira o sono nos noticiários vespertinos. Acontece que agora, como na Alemanha dos anos 1930, há fatos e indícios que começam a mostrar a cara verdadeira do descalabro, a figura real de um abismo cruel.

De janeiro até hoje, foram registrados 2.800 tiroteios no Rio de Janeiro. 15 por dia. A cada 7 horas, uma pessoa é atingida por uma bala perdida. Num momento como esse, a Polícia Militar informa que, por falta de verbas, vai diminuir a intensidade do policiamento. Outra Polícia, a Rodoviária, também vai reduzir o patrulhamento nas estradas, nas quais, só no Carnaval, o número de acidentes graves aumentou 30%.

Quer mais? A maior universidade pública do Rio, a UERJ, ainda não iniciou o ano letivo de 2017 (no Brasil, as aulas começam em fevereiro). Motivo? Os professores estão sem receber desde janeiro. As trilhas da Floresta da Tijuca e do Corcovado, um dos atrativos turísticos da cidade, vão fechar. Não há dinheiro para pagar os guardas.

Isto para não falar de hospitais públicos onde não há médicos (para não falar em material hospitalar), escolas estaduais sem condições mínimas, estádios e decorações urbanas construídas para as Olimpíadas do ano passado abandonados e em franca deterioração.

Um dos artífices deste desastre está perfeitamente identificado. Sergio Cabral, Governador do Estado até 2016, cuja folha corrida levantada pela Polícia Federal mostra ter ele surrupiado aos cofres públicos centenas de milhões de dólares. É um dos maiores casos de corrupção do mundo.

Sua mulher, Adriana Ancelmo, cúmplice do marido, segundo a Polícia, em boa parte das ações criminosas, recebeu recentemente a benesse de uma prisão domiciliar. Para situar bem o caso, ela voltou para seu belo apartamento na orla. E, aí, estes dias, eu me irritei com o povo carioca. Por que uma gente que vai de madrugada a um aeroporto para receber seu time de futebol, para celebrá-lo ou hostilizá-lo, não tem stamina suficiente para postar-se junto ao edifício onde mora a corresponsável pela desgraça que se abateu sobre o Rio e fazer da sua vida um inferno?

Sabe o que me disseram? O prédio está permanentemente sob vigilância da Guarda Municipal, para garantir a paz e o sono tranquilo de Adriana... Adivinhem também que está pagando a conta desta vigilância...

Oswaldo Pereira
Julho 2017


sexta-feira, 30 de junho de 2017

IMPEACHMENT 2?



Ser repetitivo é um dos grandes pecados de quem escreve. Mas, afinal, vou preferir correr este risco.

Talvez em uma boa meia dúzia de textos publicados neste blog, eu repeti, como um disco encravado, que a figura do impeachment, tão na moda entre nós nesta conturbada atualidade brasileira, embora tipificado na jurisdição, não acontece sem que uma conjugação de fatores intrínsecos e extrínsecos prevaleça. Para usar uma figura mais simples, tem de haver a tempestade perfeita.

As razões legais para a instauração do processo de impedimento de um Presidente são o flagrante descumprimento das normas constitucionais, o desrespeito aos limites orçamentários sem aprovação do Congresso ou a prática de comprovados delitos penais. Em maior ou menor grau, quase todos os ocupantes da cadeira de supremo mandatário do país, desde Deodoro da Fonseca, resvalaram na fronteira desses procedimentos ilícitos. Só dois se defrontaram com a realidade de um processo de impeachment. Fernando Collor e Dilma Rousseff. A causa? Duas tempestades, cujos ingredientes somavam uma combinação letal de correntes contrárias.

No caso de Collor, as nuvens da tempestade foram a tentativa de implantar a República de Alagoas no centro do poder, alienando uma tribo inteira de caciques políticos; o malogrado, e violento, plano heterodoxo de combate à inflação, promovendo um inédito confisco da pequena poupança; a contrariedade de grandes interesses pela abertura do mercado brasileiro, quebrando barreiras alfandegárias que protegiam ineficientes grupos industriais pátrios da concorrência externa, fechando o guarda-chuva que escondia cartéis obscenos e, finalmente, o seu abandono pela mídia que o havia criado.

No caso de Dilma, foi sua arrogância, sua proverbial incompetência, sua incapacidade de entender a situação nacional e sua falta de humildade em admiti-la. Com seu jeito brusco e tosco, humilhou ou estranhou um cortejo de apoiadores que, aos poucos, foram-se afastando.

Assim, fica entendido que só a mera contravenção de alguns princípios constitucionais não é suficiente para defenestrar regimentalmente um Presidente. Os ingredientes da receita têm de juntar a isto a falta de apoio popular, uma desastrosa situação econômica, o desabamento da base política de sustentação, a hostilidade da mídia e, last but not least, um carisma frouxo.

Estou escrevendo isto para a turma do FORA TEMER! Não há dúvida de que o nosso atual Presidente já está preenchendo o primeiro requisito legal. A suspeitíssima conversa no apagar das luzes de um dia de março, num salão palaciano, com um robber baron, que, num linguajar cheio de reticências, relata uma história recheada de jabaculês, já está prestes a torna-lo réu. Apoio popular, bem... este já despencou a níveis quase desprezíveis. Seu carisma é de mordomo de filme de terror. A Rede Globo fez um estranho meia-volta-volver e passou a ataca-lo. Mas...

O Brasil vem dando sinais de recuperação. São ainda tênues, mas podem se tornar sustentáveis, se as reformas tramitarem no Congresso. Um plus. Na mesma vertente, o Governo ainda conta com uma sólida base parlamentar, sólida o bastante para rechaçar os pedidos de instauração de inquérito contra o Presidente.

Portanto, pode ser que eu me engane, mas, enquanto estas duas realidades existirem, um impeachment pode ficar só no horizonte e Michel Temer, para o bem ou para o mal, deverá presidir este país até 31 de dezembro de 2018.

Oswaldo Pereira
Junho 2017



domingo, 25 de junho de 2017

A GUERRA DOS SEIS DIAS




Foi há 50 anos.  Um dos conflitos armados mais breves da História começou no dia 5 de junho de 1967. No dia 11, tudo estava acabado. E os motivos para esta guerra relâmpago vinham de longe. Muito longe.

Os egípcios ainda eram os reis da civilização quando os judeus, no êxodo total liderado por um bíblico Moisés, chegaram às portas de Canaã. Numa data que os historiadores colocam entre 1180 e 1150 a.C., Josué e os israelitas, vindo de onde hoje situa-se a Jordânia, empurrando os filisteus para o sul e os fenícios para o norte, entraram na terra prometida por Abraão à sua descendência. Ficaram por dez séculos, até serem dispersados pelos romanos, e sofrerem as desgraças da diáspora por outros vinte. Os árabes a reocuparam, até que, em 1948, no rescaldo da Segunda Grande Guerra e no remorso do Holocausto, a ONU criou o Estado de Israel.

Criou também um monumental pomo de discórdia. Desde o primeiro instante de sua existência, o novo país viu-se enredado na polêmica sobre quem tinha direito àquela terra e no vórtice da incompatibilidade religiosa de duas fés irreconciliáveis.

Cercados pelos árabes, determinados a revogar pela força a decisão da ONU, os israelenses sobreviveram por um fio no final da década de 1940. Em 1956, durante a crise do Canal de Suez, o novo país e o Egito voltaram às armas, com Israel reagindo ao fechamento do Estreito de Tiran, crucial para a sua navegação, pelos egípcios e levando a guerra até a península do Sinai. Com a intervenção da ONU e a criação de uma força multinacional para supervisionar as zonas de conflito e arrefecer os ânimos, a paz voltou.

Mas era uma paz inquieta, ou, no mínimo provisória. A chama lenta de uma incompatibilidade milenar continuava ardendo, agora polarizada pela Guerra Fria. Era uma questão de tempo. Ou de pretextos.

No início de junho de 1967, os pretextos começaram a aparecer por todo o lado. Egito e Síria, unidos desde a malograda criação da República Árabe Unida, fecharam um pacto militar com a Jordânia, praticamente cercando Israel. No dia 4, instigado pelos soviéticos, que lhe asseguraram ter informações (falsas) sobre uma mobilização das tropas israelenses, o Presidente egípcio Gamal Abdel Nasser mandou fechar, como em 1956, o estratégico Estreito de Tiran. Era o mesmo que declarar guerra aos judeus. E estes não perderam tempo.

MAPA DO ORIENTE MÉDIO EM 1967



A Operação FOCUS é, até hoje, um case study em qualquer escola de estratégia militar. Criada e aperfeiçoada pelo staff israelense, foi executada com perfeita eficiência pelos seus generais. Logo na madrugada do dia 5, ondas de aviões atacaram de surpresa as bases aéreas do Egito. Vindos do Mediterrâneo, destruíram no solo praticamente a totalidade da força aérea egípcia. Sem cobertura, os tanques árabes, de fabricação russa, ficaram à mercê dos blindados de Israel, os superiores Abrahams americanos. Foi um passeio.

AVIAÇÃO ISRAELENSE A CAMINHO DO SINAI
Resolvida com rapidez a frente do Sinai, os israelenses concentraram suas ações na margem ocidental do rio Jordão, onde as tropas do Rei Hussein conseguiram resistir pouco mais de um dia. No dia 8, os jordanianos cessavam a resistência e os tanques israelenses chegavam ao lado leste de Jerusalém.

A Síria foi o desenlace. Com sua aviação dominando os céus, as tropas israelenses penetraram em rápidos movimentos nas Colinas de Golan e as dominaram em quarenta e oito horas. Pronto. Em seis dias, a fatura estava liquidada.


Mas, isto foi apenas mais um capítulo de uma história que dura quase quatro mil anos. Em 1973, outra guerra iria acontecer. E, desde então, foram poucos os momentos de trégua. A chama lenta da discórdia lá continua, nos atentados, nas represálias, nas ameaças. Lágrimas que continuam a cair no solo de Canaã, no deserto do Sinai, nas marés do Mar Vermelho, nas águas do Rio Jordão.

Oswaldo Pereira

Junho 2017

quarta-feira, 7 de junho de 2017

SAN FRANCISCO



O escritor norte-americano Samuel L. Clemens, mais conhecido pelo seu pseudônimo literário de Mark Twain, disse uma vez que o inverno mais rigoroso que conhecera havia sido o verão de São Francisco. Acabei de constatar esta friorenta verdade...

Embora o calendário se aproxime do solstício, e os dias já sejam longos e claros, o termômetro tem suas próprias regras e nos oferece tardes de 14 graus e noites de menos. Nada que os nativos não enfrentem com a galhardia de quem está acostumado e desfilem de camisetas e bermudas, para espanto e inveja de nós, visitantes encapuzados e tiritantes.

A cidade está mais ligada nas finais da NBA, a liga nacional de basquete, que o time da terra, os Warriors, disputa com os Cavaliers de Cleveland, É a terceira vez consecutiva que estes dois clubes se enfrentam numa final (os eletrizantes playoffs, uma melhor de sete partidas). Nas duas anteriores, cada um venceu uma vez. Agora, é a negra, o que torna a coisa ainda mais entusiasmante.

No pano de fundo, uma familiaridade a nós brasileiros. O termo impeachment, tão em voga chez nous, baila livremente no ambiente político daqui, impulsionado pelas trapalhadas de Donald Trump com relação à demissão de James Comey, um respeitadíssimo advogado e procurador, do FBI. Uma sequência de erros que lembra um cenário da guerra fria, com um roteiro de espionagem russa, ataques cibernéticos e fornecimento de informações sigilosas. E uma suposta tentativa de obstrução da justiça pelo Presidente. Alguma semelhança?

No mais, São Francisco continua adorável, com seu charme intacto, sua brisa gelada, seu fog vespertino e refinada simpatia de sua gente. É sempre bom voltar.

PS.: Há tempos, escrevi uma crônica-declaração a esta incrível cidade. Quem quiser conferir, é só clicar no link abaixo.



Oswaldo Pereira
Junho 2017

quarta-feira, 31 de maio de 2017

ISABEL



Em 2012, a produtora espanhola Diagonal TV lançou a primeira temporada da série Isabel. Havia esperado um ano para fazê-lo, pois enfrentara problemas financeiros enquanto aguardava que a TVE (a estatal televisiva do país) decidisse distribuí-la. Nesse meio tempo, aproveitou para retificar a sua linha conceitual, transformando o que seria apenas um romance de época numa epopeia medieval de alta qualidade. A compensação veio com o seu enorme sucesso, que propiciou a montagem de mais duas temporadas.

O êxito é mais do que merecido. Tive a oportunidade de assistir aos primeiros 13 capítulos recentemente e encantei-me, principalmente, com dois dos atributos mais reconhecidos da série. Sua refinada ambientação e sua impecável acuidade histórica. Javier Olivares, um madrileno formado em História e com um master em Estética, e que foi o responsável pela mudança de rumo do trabalho enquanto se aguardava seu lançamento pela TVE, informaria depois que pelo menos 12 diálogos por capítulo eram baseados em relatos e crônicas da época.

A ação começa em 1461, ano que marca o início das lutas internas ligadas à sucessão do Rei Henrique IV de Castela. Na disputa estão dois de seus irmãos, Alfonso e Isabel, e sua filha Juana. Espanha é um conceito que ainda não existe e a região divide-se em reinos que vivem numa dança frenética de confrontos, alianças e traições. Para complicar, ao sul ainda estão os mouros do reino de Granada, uma espinha na garganta da Cristandade e, ao norte, uma França interessadíssima em tirar partido da situação. Num dos momentos mais influentes de sua existência, a Igreja Católica detém um poderoso comando sobre uma Europa assombrada pela Peste e pela Inquisição.

A quem está habituado ao tenebroso espetáculo político que preenche os nossos dias, tudo soa familiar. Para abocanhar o trono, vale tudo, literalmente. Nobres, cortesãos, cardeais, papas, príncipes e reis vendem-se e compram-se. Todos têm um preço. E todos têm um objetivo. O Poder.

Para não adiantar nenhum spoiler, a não ser o histórico, a primeira temporada termina com Isabel, já casada com Fernando II de Aragão, herdando o trono de Castela. Não sei o que a série vai apresentar a partir daí mas, se seguir os livros, deverá mostrar um dos mais fantásticos períodos do país ibérico. O casal, entronizado nos registros como Los Reyes Católicos, uniu os espanhóis, expulsou os árabes da península, patrocinou o sonho de Colombo e dividiu o mundo conhecido com os portugueses. Um mundo que, exatamente neste instante, deixava a Idade Média e entrava na Idade Moderna.

Resumindo, uma ótima série sobre um momento único.

Oswaldo Pereira

Maio 2017

terça-feira, 23 de maio de 2017

A DESPEDIDA DE UM 007


O primeiro dos seis a nos deixar.

Roger Moore “assumiu” o cargo em 1973, depois do breve interregno de George Lazenby e do retorno apenas protocolar de Sean Connery. Connery estava cansado do papel (enfado claramente visível na atuação para cumprir tabela em Diamonds Are Forever) e despediu-se em 1971.

Coincidentemente, Moore também aborrecera-se com The Persuaders, apesar do grande sucesso do seriado, em que encarnava um playboy aristocrático inglês ao lado de Tony Curtis. Os dois tinham fama de serem os atores mais belos da época e a produção contava com isto para seduzir o público feminino. O problema é que, ao mesmo tempo, outra atração desviava a audiência e disputava a primazia nos televisores de todo o mundo. Era Missão Impossível.

Assim, logo que foi sondado para ocupar a vaga por Albert Cubby Broccoli, o produtor dos filmes de James Bond, Roger Moore aceitou. E aí começou a mais longeva, até agora, associação de um ator com o personagem. No total, 12 anos e 7 filmes.

Foi uma mudança de estilo. O lado bruto de Connery deu lugar ao viés gentleman de Moore, ao que não faltavam pitadas de humor britânico e uma atuação mais relaxed. Muita gente torceu o nariz, mas o sucesso garantiu-se. Moore, além da experiência de The Persuaders, havia dominado a telinha com seu trabalho como Simon Templar, o Santo, que reinou durante a década de 1960. Tinha estrada. E soube usá-la.

A bilheteria confirma isso. Os sete episódios estrelados por ele renderam líquidos US$ 1,1 bilhão aos cofres da franquia e assegurou sua sobrevivência no período morno que se seguiu com Timothy Dalton no papel.

Em 1985, Roger Moore aposentou-se como 007. Logo após, foi nomeado Embaixador da UNICEF, posto a que se propusera desde que se horrorizara com a miséria no subcontinente indiano, durante as filmagens de Octopussy, e que lhe valeu receber o título de Cavaleiro do Império Britânico.

Fare thee well, Sir Roger Moore.

Oswaldo Pereira

Maio 2017