Quer queiram quer não, estamos vivendo uma era de confrontos.
Não os grandes, que sempre foram os alicerces das profundas modificações, das
guerras que destruíram impérios e construíram outros, das cruciais reviravoltas
que mexeram com a História.
Estou falando do pequeno confronto, da divergência quase tribal
e de esquina, da discussão a varejo. Estamos, como nunca, na era da polarização
social. Até a primeira frase deste texto, quer
queiram quer não, já é uma introdução ao ambiente polarizado em que
vivemos.
Discute-se tudo. Da forma da Terra ao cabelo de Trump, todos os
assuntos são abordados de forma antagônica e oposta, bastando para isto
existirem duas pessoas tentando (em vão) comunicar-se. Há um estoque de argumentos
para ambos os gostos, provas e citações que se contradizem diametralmente, ditas
sempre em tom belicoso e no ritmo de quem
não está comigo...
O meio termo foi para as cucuias.
Ninguém procura, ou está minimamente interessado, em ceder terreno em suas
convicções. As palavras que abrem qualquer interlóquio, invariavelmente ditas
com alguns decibéis a mais, as famosas na
minha opinião, já anunciam que o que vem por aí é um dogma, uma verdade
monolítica e insofismável que não admite divergências.
Tudo hoje tem o fervor que antigamente era apanágio apenas das
paixões futebolísticas e das profissões de fé. Atualmente, até um mero
desacordo sobre o tamanho correto do colarinho do chopp tem o condão de suscitar arrepiantes libelos e longas
batalhas verbais.
Nos lugares onde antes procurávamos informação, o fato desapareceu da notícia. Na TV e na
Web, o que resta são as interpretações do
fato, tão distantes uma da outra quanto for a linha dogmática de quem as divulga.
Há um buraco no meio, e a verdade caiu nele.
Eu sei, eu sei... Tá todo mundo fechado em casa, ou
amordaçado quando sai, os abraços foram postos fora da lei, o álcool gel é o
perfume da moda. Há uma irritação globalizada.
Mas, mesmo assim, ou até por isso mesmo, acho que está mais do
que na hora de baixar a bola da agressividade, tentar ouvir antes de falar e,
já que não se deve estender a mão, fazer pelo menos um sinal, um aceno, um
polegar para cima. Algo que torne as mensagens menos abrasivas e cáusticas.
Relax, gente.
Oswaldo Pereira
Janeiro 2021









