quinta-feira, 13 de outubro de 2022

BOND 60 (35): GOLDENEYE (PARTE I)



GoldenEye não é título de nenhum livro de Ian Fleming. Mas, é o nome da propriedade onde ele viveu e escreveu a maioria dos livros de James Bond, uma confortável villa localizada na baía de Oracabessa, na Jamaica. Fleming comprara o terreno em 1946, logo após o término da Segunda Guerra Mundial, e fez ele mesmo o projeto da casa. O nome veio de uma operação comandada por ele durante a guerra, um plano de contingência caso Gibraltar fosse atacada pelos alemães.

E este foi o nome escolhido para o décimo sétimo capítulo da franquia, lançado em 1995, seis anos após o anterior. Uma batalha legal sobre direitos autorais e a escolha de um novo ator para o papel foram os responsáveis pelo atraso. Até uma nuvem de dúvidas sobre o futuro da carreira cinematográfica de 007 chegou pairar sobre o mundo do cinema. Mas ele voltou.

PIERCE BROSNAN: O NOVO 007


A pré-sequência mostra uma ação levada a cabo, em 1986, por dois agentes 00, Bond e seu colega e amigo Alec Trevelyan, nas instalações da planta química soviética de Arkangel, dirigida pelo coronel russo Arcady Ourumov. Entretanto, algo dá errado e Trevelyan é eliminado; Bond consegue escapar e destruir a fábrica. Essa cena, que você pode conferir neste   LINK , traz uma das mais inverossímeis façanhas de 007, na qual ele se atira com uma motocicleta de um penhasco e consegue penetrar na cabine de um monomotor desgovernado em plena queda livre. Analisada por técnicos em sobrevivência e aerodinâmica, a chance de isto acontecer é... zero.

Nove anos depois, Bond está em Monte Carlo, cenário da apresentação aos representantes da OTAN de um helicóptero francês da classe Tiger, capaz de resistir a ataques eletromagnéticos. O aparelho, entretanto, é sequestrado por Xenia Onatopp, uma agente do Sindicato do Crime liderado por um misterioso chefão chamado Janus. A cena seguinte passa-se numa base rastreadora de satélites em Servernaya, na Sibéria. Sem aviso, a base recebe uma visita de Ourumov, agora General e chefe da inteligência russa. Acompanhado de Onatopp, ele apossa-se dos códigos de controle de Goldeneye, uma arma secreta espacial capaz de emitir pulsos eletromagnéticos destruidores, enquanto Onatopp mata os ocupantes da base. Ourumov direciona a mira do satélite-arma para a própria base e escapa com Onatopp no helicóptero roubado em Mônaco.

Neste momento, na sede do MI6, agora dirigido por uma mulher, Bond e a nova M acompanham as imagens dos satélites espiões britânicos focados na base de Servernaya. A Guerra Fria terminara anos antes, com o desmonte da União Soviética, mas os serviços de espionagem, tanto do Ocidente como do Leste, ainda se mantinham mutuamente sob vigilância. A destruição da base aparece nas telas e M, assim como Bond, concluem que se trata de um ato terrorista, praticado por alguém dentro da Rússia. Aproximando o foco dos satélites sobre os destroços do edifício, Bond descobre que alguém sobreviveu ao ataque.

M despacha Bond para São Petersburgo, onde ele se encontra com Jack Wade, operativo da CIA na cidade. Com sua ajuda, 007 visita Valentin Zuckovsky, ex-agente da KGB. Através de Zuckovsky, Bond fica sabendo que a organização de Janus está por detrás do roubo dos controles de Goldeneye.

Bond vai atrás de Janus e descobre que ele é ninguém menos do que Alec Trevelyan, o colega que vira sendo executado por Ourumov no ataque a Arkangel, oito anos antes. Antes de preparar a eliminação de Bond, o ex-006 revela que, na verdade, sua suposta morte fora uma armação. Trevelyan é órfão de cossacos que haviam sido traídos pelos britânicos depois da Guerra e entregues aos soviéticos para serem dizimados. Seu ódio pela Inglaterra fizera com que ele montasse a organização criminosa, cujo objetivo é usar Goldeneye para destruir Londres.

Bond é alvejado por um dardo tranquilizante e manietado dentro de um helicóptero a ser atacado por mísseis, juntamente com Natalya Simonova, a sobrevivente de Servernaya, que, como única testemunha da ação de Ourumov, caíra nas mãos de Janus. Evidentemente, Bond e Natalya conseguem escapar e chegam a avisar o Ministro da Defesa russo da traição de Ourumov e dos planos de Janus. Mas Ourumov consegue invadir o local e assassina o Ministro, tentando colocar a culpa em Bond. Segue-se uma cena de perseguição, com 007 a bordo de um tanque (!!), destruindo meia cidade no encalço de Ourumov.

BOND À BORDO DO TANQUE


A perseguição leva Bond ao quartel-general de Janus, um trem da era soviética. Novo confronto ocorre, com Ourumov sendo morto e Janus, acompanhado por Xenia Onatopp, fugindo. Usando seus conhecimentos como analista de sistemas de rastreamento de satélites, Natalya descobre que uma nova base clandestina foi montada em Cuba por Janus, de onde ele pretende programar Goldeneye para seu ataque à capital inglesa.

Novamente com a ajuda de Wade, Bond voa até a ilha do Caribe. A luta final entre ele e Janus desenrola-se dentro da gigantesca antena da base, com o agente britânico finalmente levando a melhor sobre seu antigo amigo. A base é destruída; Bond e Natalya conseguem escapar. O filme termina com os dois sendo surpreendidos por um batalhão de marines camuflados, no momento em que, acreditando estarem sós, preparam-se para saborear sua vitória...

(continua)

Oswaldo Pereira
Outubro 2022 

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

FALAM AS URNAS

 


Quando há uma Copa do Mundo, aparecem de repente, no Brasil, duzentos milhões de técnicos de futebol. Assim também, após cada eleição, milhões de analistas políticos surgem de todos os lados, prontos a oferecer aos seus interlocutores as mais abalizadas opiniões sobre os porquês e porcomos do comportamento dos eleitores.

Não perdendo a oportunidade, resolvi, para não ficar para trás, surfar nesta onda. Afinal, também sou gente. Desta forma, os meus parcos, mas abnegados leitores, vão ter de se munir de sua proverbial paciência e dedicar alguns preciosos minutos à minha modesta análise.

Em primeiro lugar, os números mais significativos do pleito ocorrido em dois de outubro último apontam um importante crescimento da Direita ou, traduzindo, do espectro político que apoia Jair Bolsonaro. Só o seu partido aumentou o número de cadeiras no Parlamento para 99 (de 76) e, considerando a união de forças resultante de uma ideologia comum, a base de Bolsonaro na Casa pode chegar a 273 representantes, o que lhe assegura ampla maioria.  No Senado, não foi diferente. Os 14 eleitos (de 27) pelo voto conservador irão alimentar as bancadas ligadas ao atual Governo. Também na disputa dos Governos Estaduais, pelo menos os reeleitos em importantes unidades da Federação (Rio, Paraná e Minas) e os prováveis vencedores no segundo turno (São Paulo e Rio Grande do Sul) já declararam seu incondicional suporte a Bolsonaro.

Isto quer dizer que houve uma demonstração alargada de aplauso à presente administração do país, coisa que os próprios indicadores positivos de satisfação com o seu desempenho, divulgados antes, já mostravam. A pergunta que se faz, então é: se há um claro recado das urnas de apoio ao seu pensamento, por que não elegeram o homem?

O problema é que há, tanto em relação a Bolsonaro quanto a Lula, um conteúdo de rejeição que influencia poderosamente o ato de votar. Conheço muita gente boa que reconhece o trabalho e os méritos do atual Presidente, mas não consegue superar a sua antipatia pela pessoa. E, convenhamos, há momentos em que Bolsonaro perde oportunidades de ouro que, se mais político fosse, teria aproveitado para diminuir esse sentimento desfavorável.

Na direção diametralmente oposta, ambos os candidatos têm multidões de torcedores, aqueles adeptos que continuam amando seus clubes apaixonadamente, mesmo depois de uma goleada adversária ou um rebaixamento de divisão.

Acho que tanto objetores quanto aficionados não irão mudar muito sua escolha até o dia 30.  Será no delicado balanço daqueles percentuais de indecisos é que a eleição se definirá. Se a evidente aprovação que veio das urnas prevalecer sobre a antipatia, Bolsonaro emplacará mais quatro anos. Com uma base parlamentar favorável, poderá governar com mais amplitude e deslanchar as reformas de que este país tanto precisa.

Se, por outro lado, a rejeição ao homem for tão forte que leve o eleitor ainda em cima do muro a esquecer o mar de corrupção que afogou o governo petista em 2018, poderemos ter um Lula lutando contra um ambiente político hostil, que certamente o paralisará. Não creio que ele consiga reeditar as práticas do Mensalão e do Petrolão num Congresso tão renovado.

Em termos simples, a escolha é esta. Alea jacta est.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

domingo, 2 de outubro de 2022

DOIS DE OUTUBRO

 


Love Me Do/P.S. I Love You
Dr. No

Se você estivesse em Londres no dia 2 de outubro de 1962, talvez pudesse, meio sem saber porque, ter comprado o compacto com as duas músicas da primeira frase acima, lançado naquele dia nas lojas de discos londrinas e, se ainda estivesse de bobeira, ido ao cinema ver a estreia do filme com o título da segunda.

Pronto. O destino o haveria premiado com a magia de ter testemunhado, em primeira mão, o nascimento das duas maiores lendas do entretenimento do século XX – os Beatles e James Bond. Cada um a seu modo, esses dois poderosos ícones iriam impregnar sua imagem na música e no cinema e influenciar centenas de milhões de aficionados mundo afora. Sessenta anos depois, diferentemente de tantos outros fenômenos que nasceram durante seu tempo, tiveram sua medida de sucesso, mas depois ficaram pelo caminho, os Fab4 e 007 ainda suscitam o interesse das novas gerações e alimentam o saudosismo daqueles que os viram surgir.

Entre estes, eu me permito incluir dois veteranos blogueiros. O meu amigo Homero Ventura, alcunhado mui merecidamente de Enciclopédia Beatlanica, dado o seu profundo e inesgotável conhecimento da obra dos Beatles e que, há meses, vem desenvolvendo uma magnífica e antológica resenha sobre o imenso mundo dos garotos de Liverpool, levando-nos aos mais pormenorizados detalhes de suas vidas e de suas canções, um trabalho que o levou a ser convidado a fazer parte da equipe do programa radiofônico “Submarino Angolano” de uma emissora de Luanda. 

O outro, modestamente, sou eu, com a minha série sobre os filmes de Bond. Ambos reverenciamos a data em que, há exatos sessenta anos, inescrutáveis desígnios fizeram coincidir o início de duas fabulosas carreiras.

O que nos faz pensar também sobre o poder de certas datas. Há tempos, escrevi um blog sobre o dia quatro de março de 1968, data da première do filme 2001 – Uma Odisseia no Espaço e do assassinato de Martin Luther King. Este dois de outubro também não fica atrás. Ao mesmo tempo em que comemoramos os milagres do passado, aqui no Brasil joga-se uma cartada importante sobre o nosso futuro. Raramente uma escolha é tão diametralmente oposta e, consequentemente, tão crucial. Não por acaso, dois de outubro é o Dia do Anjo da Guarda...

Uma coisa, entretanto, merece ser dita. Acabei de voltar para casa, depois de votar e não tenho, evidentemente neste momento, qualquer ideia sobre o resultado. Tenho minhas preferências, é claro, mas o que me mais me conforta neste momento é verificar que, de tudo o que eu vi e vivi nestes meus 81 anos de Brasil, sinto hoje a alegria de presenciar um espetáculo genuinamente democrático acontecendo. Um gigantesco colégio eleitoral de 150 milhões de brasileiros está, enquanto escrevo, exercendo seu direito de escolha livremente, sem coações, peias, proibições ou constrangimentos.

Se isto, por si só, não é uma vitória, eu não sei o que é.

Oswaldo Pereira
Outubro 2022

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

TEMPESTADE

 


É de sabedoria comum que, nos dias atuais, uma falha solitária não derruba um avião. Só a conjunção de algumas delas pode interromper um voo e causar um desastre. Assim também, incêndios florestais de grande porte só ocorrem se a fórmula 30/30/30 (mais de 30 graus centígrados de temperatura ambiente, menos de 30% de umidade do ar e ventos acima dos 30 nós) for verificada.

Tempestades perfeitas não acontecem por acaso. São obra de um conjunto de coincidências nefastas, cuja sobreposição num mesmo momento desencadeia uma catástrofe ambiental de consequências trágicas.

Isto me veio à cabeça no amanhecer chuvoso deste dia nublado. E, se você parar um pouco para pensar, vai sentir um leve arrepio ao fazer uma lista de algumas coincidências inquietantes que hoje afloram, aqui e ali, em nosso atribulado planeta. Quer conferir a lista?

.na Rússia, temos um presidente acuado, dono de um considerável porrete nuclear, que não gosta muito nem de blefes e nem que mexam no seu quintal;

.na China, há um líder com mais poder do que qualquer antigo Imperador Ming jamais teve, cuja agenda contempla nada menos do que levar seu país ao posto de nação mais poderosa do mundo;

.nos Estados Unidos, o comando está nas mãos de um homem com alguns sinais de senilidade, com problemas incômodos de liderança interna e disposto a compensar tudo isso com uma retórica externa extremamente belicosa;

.na liderança do Mercado Comum Europeu, encontramos uma senhora que gosta de vociferar ameaças de sanções contra os russos, aparentemente sem se importar com o fato de que o seu bumerangue vai retornar com mais força e que o inverno se aproxima do Hemisfério Norte;

.na chefia da OTAN, existe um legítimo falcão militar, deleitado com o aumento de seu arsenal, proporcionado pelos americanos, e ansioso para usar os seus brinquedinhos bélicos;

.na Ucrânia, imersa num conflito cruel e já demasiado longo, a cena é dominada por um ator que se viu de repente como protagonista no maior palco que se podia desejar – o mundo inteiro;

.na Europa, um punhado de dirigentes políticos vê-se tonto e desorientado, sem saber como sair da enrascada em que meteram seus países e como se preparar para um longo período de vacas emagrecidas por suas próprias decisões inconsequentes;

.na Coreia do Norte, já sabemos, um imprevisível herdeiro de uma dinastia de implacáveis ditadores continua se divertindo com seus foguetes e suas ameaças;

.no eternamente instável Oriente Médio, um Irã nuclear pode baralhar o delicado xadrez cujo tabuleiro tem à volta talibãs, xiitas, sunitas, curdos, vários grupos terroristas – e mais Israel;

.na América Latina, uma eleição pode determinar a queda do último baluarte conservador da região, deixando terreno mais que livre para a hegemonia da esquerda social-comunista, com inevitáveis consequências para o balanço político do continente.

Há mais? Deve haver. Mas, eu prefiro parar por aqui. Acho que vai chover. Um boa noite de sono para todos.  Se conseguirem...

Oswaldo Pereira
Setembro 2022

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

BOND 60 (34): LICENCE TO KILL (PARTE II)




Licence To Kill foi o primeiro filme da série a ser filmado inteiramente fora do Reino Unido. Aumento dos impostos na Inglaterra iria fazer com que, ao invés de nos Estúdios da Pinewwod, a produção fosse realizada, além de locais na Florida e na Baja California, no Estúdio Churubusco, no México.

A mudança até ajudou, pois toda a ação envolve os meandros do contrabando de cocaína que, já no final da década de 1980, era a principal preocupação dos órgãos antidroga americanos, com ramificações em vários países da América Latina e participação de políticos importantes, como o Presidente do Panamá, Manuel Noriega, inimigo público número um do FBI. Dizem até que, por causa de seu rosto marcado pela acne, como o do presidente panamenho, o ator Robert Davi foi escolhido para o papel de Franz Sánchez, o principal vilão do filme. Assim também, a fictícia Republica de Isthmus tem tudo a ver com o país da América Central (em tempo: o Panamá É um istmo). E a bandeira tem as mesmas cores do pavilhão da Nicarágua...

Davi foi o responsável pela indicação de Talisa Soto para uma das Bond girls, Lupe, a amante de Sánchez. Carey Lowell fez Pam Bouvier, o outro papel feminino. O filme traz um iniciante Benício del Toro (que iria ganhar o Oscar de Coadjuvante em 2000, por sua atuação em Traffic) como Dario, o assecla de Sánchez.

ROBERT DAVI (SÁNCHEZ) & BENICIO DEL TORO (DARIO)


David Hedison aparece como Felix Leiter dezesseis anos depois de ter feito o mesmo personagem em Live And Let Die. Com 61 anos, sua escalação foi inicialmente posta em dúvida pelo produtor Cubby Broccoli e pelo diretor John Glen, haja vista que saltos de paraquedas faziam parte do script. Uma certa premonição pois, na cena em que Leiter e Bond saltam para chegar à igreja onde se realiza o casamento do agente americano com Della, o equipamento de Hedison deu problema e ele machucou a perna. Ficou mancando durante o resto das filmagens...

Outras participações curiosas foram a de Wayne Newton, cantor e showman americano (intérprete do sucesso Red Roses for a Blue Lady), que insistiu com os produtores para aparecer num Bond (ele é o pastor charlatão Joe Butcher) e a de Pedro Armendariz Jr., filho do ator que interpretara Ali Karim Bey em From Russia With Love.

Por questões de saúde (havia sofrido uma ruptura do esôfago) John Barry não pôde dirigir a parte musical de Licence To Kill. Michael Kamen substituiu-o.  A canção título é de Gladys Knight, que faz uma homenagem a Goldfinger, usando as inesquecíveis fanfarras iniciais do lendário tema. Se desejar ouvir, clique neste  LINK .

Timothy Dalton havia sido contratado para, em princípio, trabalhar em três Bonds. Logo após o lançamento de Licence To Kill, em junho de 1989, a terceira produção com sua presença já estava sendo cogitada. Entretanto, uma longa batalha legal entre a UA e a EON iria postergar as filmagens de mais um filme de 007 até 1993. Quando, finalmente, a questão foi resolvida, Dalton iria, para surpresa de todos, abandonar o papel.

Licence To Kill iria também marcar a despedida de importantes personalidades, cuja imagem estava intimamente ligada à história da franquia. Foi o último filme do diretor John Glen; Robert Brown encarnou M pela última vez e Caroline Bliss, sua última Moneypenny. Lamentavelmente, Maurice Binder, o mago das imagens de abertura de todos os Bonds até então, e Richard Maibaum, o veterano roteirista, também disseram adeus, falecidos ambos em 1991. E Albert “Cubby” Broccoli, que morreria em 1996, não veria o próximo capítulo da saga.

Novamente, o posto estava vago. James Bond Will Return, a frase final, iria parecer uma promessa vaga. Seriam seis anos de intervalo.

(continua)

Oswaldo Pereira

Setembro 2022

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

BOND 60 (33): LICENCE TO KILL (PARTE I)

 


Licence Revoked (Licença Revogada). Este seria o título do décimo sexto filme de James Bond, o primeiro que não utilizaria nenhum nome dos livros de Ian Fleming. Mas, como nos Estados Unidos a expressão poderia ser associada à perda da carteira de motorista, a EON resolveu mudar e, em 1989, lançou Licence To Kill, um roteiro inteiramente escrito por Michael G. Wilson e Richard Maibaum.

A pré-sequência começa com Bond e Felix Leiter, seu amigo da CIA, indo para o casamento deste em Key West. No caminho, entretanto, são interceptados por agentes da DEA (a Agência americana de combate às drogas), que informam Leiter da presença de um dos mais procurados chefões do tráfico, chamado Franz Sanchez, nas Bahamas. Levando Bond como observador, Leiter parte para a captura do bandido. Com a ajuda de 007, o agente da CIA consegue prender Sanchez e os dois finalmente chegam, com algum atraso, à igreja para o enlace. Se desejar ver a cena da captura de Sanchez, clique neste    LINK       .

Sanchez, entretanto, suborna Ed Killifer, um detetive da DEA, e consegue escapar. Sob suas ordens, seu assecla Dario e mais dois comparsas vão até a casa de Leiter e atacam o casal. Felix é levado para um armazém e jogado num fosso onde sofre o ataque de tubarão branco.  Quando Bond toma conhecimento da fuga do traficante, parte imediatamente para a casa de Leiter, onde encontra Della, a noiva, estuprada e morta e Felix gravemente ferido.

Dominado pelo desejo de vingança, Bond parte para ajustar as contas com Sanchez, conseguindo descobrir o armazém de propriedade de Milton Krest, um sócio de Sanchez, onde Leiter fora torturado. Lá, ele acha Killifer, e dá a ele o mesmo tratamento que Feliz recebera nas mãos dos bandidos. Entretanto, o MI6 decidira que Bond deveria abandonar o caso nas mãos dos americanos e seu chefe M o encontra em Key West, onde o ordena a partir para outra missão em Istambul. Bond se rebela e é demitido por M, que revoga sua qualificação como agente com licença para matar.

Agindo agora por conta própria, Bond vai atrás de um carregamento de droga que Milton Krest está levando para Sanchez em seu barco Wavekrest, impede a operação e ainda foge com os cinco milhões de dólares pertencentes ao traficante. Descobrindo, entre os dados arquivados por Leiter num disquete, que a assistente dele, a pilota e agente da DEA Pam Bouvier, está também atrás de Sanchez, Bond vai encontra-la em um bar em Bimini e os dois resolvem unir suas forças (entre outras coisas...)

Por Pam, Bond fica sabendo que Sanchez está em Isthmus, uma republiqueta governada por um generalíssimo corrupto totalmente dominado por Sanchez. Em tempo, o país fictício tem tudo a ver com a Nicarágua, inclusive nas cores da bandeira... Os dois para lá vão, com Bond travestido de um endinheirado assassino profissional e Pam como sua secretária. Usando os cinco milhões de dólares (equivalente hoje a dez vezes mais) para fazer um depósito no Banco de Isthmus, de propriedade de Sanchez, Bond usa a quantia para jogar pesado na mesa de baccara no cassino do traficante e chamar sua atenção, dele e de sua amante, Lupe, que, às escondidas, resolve ajudar Bond para que, em troca, ele a livre das garras do bandido.

Levado à presença do vilão, Bond o convence a contratar seus serviços e aproveita para examinar o local, com vistas a preparar o cenário para matar Sanchez. Sua tentativa, entretanto, é interrompida pelo ataque de agentes antidroga de Hong Kong, que queriam pegar Sanchez vivo. Dominado pelos orientais, Bond é levado prisioneiro para um esconderijo dos agentes. Mas, o local é invadido pelas forças de Sanchez, que eliminam todos os ocupantes. Quando encontra Bond amarrado, Sanchez se convence da sua lealdade e resolve aceita-lo como colaborador.

Usando vários estratagemas, Bond levanta as suspeitas de Sanchez com relação a Krest e, colocando sem que ninguém perceba, os milhões de dólares no Wavekrest, consegue incriminá-lo. Sanchez mata Krest com requintes de crueldade numa câmara de descompressão e Bond vê concretizada, assim, a primeira parte de sua vingança.

Nesse meio tempo, uma grande operação de internacional de comércio de drogas está sendo montada por Sanchez, usando como meio de intermediação para os leilões uma organização pseudo- evangelista liderada por um pastor charlatão. A sede da organização, um imenso templo localizado no deserto, serve de base à distribuição da cocaína, misturada com gasolina para ser indetectável. Sanchez leva um grupo de potenciais compradores do Extremo Oriente ao laboratório para uma demonstração de como a droga pode passar despercebida pelos controles e convida Bond, que agora faz parte do seu círculo íntimo. Lá, entretanto, Bond é desmascarado por Dario, que o vira em companhia de Pam Bouvier em Bimini.

Na luta para escapar, Bond inicia um incêndio no laboratório, mas Dario e Sanchez o dominam e ameaçam jogá-lo no triturador de cocaína. Pam Bouvier, que havia penetrado no templo, chega a tempo de salvá-lo, atirando em Dario. Sanchez consegue fugir num comboio de camiões-tanque que leva a droga. Bond e Bouvier, num monomotor, o perseguem até que, após uma sequência de explosões ao longo de uma estrada, Sanchez e Bond têm o confronto final. Aproveitando que o vilão está com o corpo enxarcado de gasolina, Bond o incendeia usando o isqueiro que ganhara de Felix Leiter no dia do casamento.

O PRESENTE DE LEITER


Tudo termina com Bond sendo readmitido no MI6 e, durante uma festa na suntuosa casa do Presidente de Isthmus, colocado entre a opção de ficar com Lupe ou com Pam, decide por esta última, num romântico final feliz dentro da piscina da mansão.

(continua)

Oswaldo Pereira
Setembro 2022

sábado, 17 de setembro de 2022

O VOTO



De tempos em tempos, assim como nós, também os países chegam a encruzilhadas do destino. São momentos em que parece que a História nos empurra para decisões cruciais, para uma inadiável escolha entre caminhos diametralmente opostos. São acontecimentos que ficarão para os livros, para deleite dos analistas que viverão num amanhã e que, como sempre, irão desenvolver várias teorias e explicações de como e porque uma nação e seu povo enveredaram para um lado e não para o outro. Será assunto para teses, compêndios e, não sei se será porventura o caso, muita polêmica na Web.

Mas, esses analistas estarão olhando pelo retrovisor, para um passado que, para nós, ainda é futuro. Por mais que as pesquisas pretendam nos fazer ver uma realidade que as ruas desmentem, a única coisa que sabemos é que as eleições brasileiras de outubro de 2022 são uma incógnita. E, pelo bem ou pelo mal, uma democrática incógnita.

Democracia, desde que os gregos a inventaram, é a palavra-chave dos anseios políticos da Humanidade. Embora o termo e o conceito tenham nascido na Grécia, na mítica agora, a suposta praça em que todos os cidadãos levantavam suas mãos para apontar seus governantes, a sua VERDADEIRA prática só foi realidade a partir do final do século XVIII. Foi no jovem Estados Unidos da América que seu exercício teve o poder de levar o país o mais próximo possível de um governo do povo, pelo povo e para o povo.

Entendamos bem, entretanto. Democracia não é uma dádiva. E nem uma bênção. Pressupõe uma série de atributos do grupo que a professa. Uma delas, talvez a principal, seja a Educação. Um povo educado tenderá sempre a fazer escolhas mais sábias e, girando num círculo virtuoso, aquelas que propiciarão o aumento e a disseminação de mais educação, e assim por diante. Em meus aborrecidos textos, tenho repetido sempre que, no meu provecto pensar, a Educação tem de preceder a Democracia, sob pena de, num ambiente de baixa civilidade, ser esta um instrumento de opressão e regresso.

Outra necessidade é a vigilância. Não vou aqui repetir a citadíssima frase de Thomas Jefferson, mas, efetivamente, Democracia exige um trabalho incansável de acompanhamento e cobrança. É preciso entender que na base do exercício democrático está o voto. E este nada mais é do que um mandato, uma delegação. Eu, eleitor, delego ao meu candidato representar-me nos diversos níveis da Administração Pública. Se eu não me mantiver atento à atuação de meu mandatário, todo o sentido do voto foi por água abaixo.

Daqui a mais alguns dias, mais de cento e cinquenta milhões de nós iremos às urnas. Não quero entrar aqui na polêmica da confiabilidade do nosso sistema de apuração. É um campo cheio de considerações técnicas que não entendo e, portanto, é-me impossível emitir qualquer opinião. Prefiro acreditar nele, até que alguma prova evidente me mostre o contrário. O que me preocupa mais é o grau de seriedade com que o eleitor brasileiro irá apertar as teclas de sua escolha. Se o fizer com convicção, de acordo com o que seu grau de informação e seu desejo de uma nação feliz e justa, estará praticando o melhor que a Democracia tem a oferecer. Se, ao contrário, usar seu direito apenas como manifestação de mesquinho despeito, de interesses venais contrariados ou, mesmo, de desinteresse, se terá tornado indigno do momento histórico em que vivemos.

Oswaldo Pereira

Setembro 2022