quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ANEXINS






Vá ao dicionário. Anexim é sinônimo de adágio, máxima, apotegma, brocardo, epodo, prolóquio, rifão, aforismo, axioma. Mais coloquialmente, ditado.

Convivi com ditados desde a minha mais tenra idade. Eram a arma verbal que pais, avós e tios lançavam mão para sedimentar ensinamentos duros de entrar nas cabecinhas avoadas das crianças de então. Haviam-nos aprendido, também eles, de seus familiares mais velhos, numa transmissão oral que se perdia nas gerações anteriores, alguns oriundos das aldeias da Idade Média e fruto da sabedoria adquirida pela observação da condição humana ao longo de séculos.

Não sei dos outros povos, mas Portugal é pródigo em anexins. São milhares, um ou vários para cada situação, seja ela ligada ao tempo e suas ações sobre a natureza e os homens, à sorte ou à desventura, ao amor e à falta dele, ao futuro, ao passado, ao presente. E cada um deles encerra um conselho, precioso na medida que é produto de uma sabedoria acumulada na esteira de muitas centenas de anos e transmitida pela repetição insistente, dia após dia.

Em sua quase totalidade, são absolutamente verdadeiros. Como esses quinze que fui recolhendo, ouvindo-os em serões ao pé do fogão de lenha em noites frias, lendo-os em clássicos do Eça e descobrindo-os em cancioneiros tradicionais, experimentando sua veracidade após, às vezes, ter duvidado dela. Basta lê-los com atenção, talvez demorando em suas palavras, até que seu significado seja percebido por inteiro e em perspectiva. Aí vão eles: 

A ventre farto, o mel amarga
Até ao lavar dos cestos, é vindima
Arco sempre armado, ou frouxo ou quebrado
Amigo que não presta e faca que não corta; que se percam, pouco importa
Como fizeres, assim acharás
Galinha que canta, faca na garganta
Mais vale um TOMA que dois TE DAREI
Mal alheio pesa como um cabelo
Não fales nada sem consultar a almofada
Não há atalho sem trabalho
Não mates mais do que possas salgar
Nem sempre nem nunca
Olhar para a uva não mata a sede
Quem pássaros receia, milho não semeia
Um dia não são dias

E ainda este, que reservei para o final. Não vem da idade média nem da época dos descobrimentos. Foi criado pelo poeta surrealista português Alexandre O'Neill na década de 1980, para uma campanha de segurança nas praias.

Há mar e mar, há ir e voltar

Mas, se olharmos bem para a mensagem podemos ver muito mais além. É a grande aventura da vida. Um mar chão, um oceano em procela, um pélago profundo. Pode ser tudo. Só precisamos ter cuidado na escolha do barco e manter os olhos na Estrela do Norte. Para não ter medo de ir. E para saber voltar.


Oswaldo Pereira
Agosto 2014










  

domingo, 24 de agosto de 2014

A AÇÃO DO TEMPO




A gigante Home Box Office, mais conhecida como HBO, já iniciou as gravações da quinta temporada de seu maior sucesso nos recentes tempos – a série Game of Thrones (A Guerra dos Tronos). Produzida por David Benioff e D. B. Weiss, a trama baseia-se com extrema fidelidade na bela obra literária A Song of Ice and Fire, traduzida no Brasil com o título de “As Crônicas de Gelo e Fogo”, escrita por George R. R. Martin, um americano de Nova Jérsei. Martin, que na infância foi um leitor voraz de histórias em quadrinhos (possui hoje uma das maiores coleções da “Fase Prata” dos comics), formou-se em jornalismo, antes de começar a escrever contos de ficção científica, terror e fantasia na década de 1970, assim como roteiros para TV a partir daí. Ele, que também co-produz a série, já escreveu cinco livros das “Crônicas”, de um total de sete, todos respeitáveis volumes de quase mil páginas. Os quatro primeiros serviram de base para as temporadas já levadas ao ar com retumbante aceitação, tanto pela crítica como pelo público. Os últimos 10 capítulos, transmitidos entre abril e junho deste ano, atraíram uma audiência média, só nos Estados Unidos, de 7,1 milhões de espectadores.

São vários os fatores que fazem de Game of Thrones o grande sucesso que é. Para começar, a própria história em si, um emaranhado de conflitos humanos e políticos que tece uma tapeçaria intrincada de dramas pessoais e sociais, tendo como pano de fundo um mundo mítico ambientado num período medieval que tem milhares de anos de existência. No seu lançamento, em abril de 2011, a série foi inclusive rotulada, para efeitos de propaganda, de “os Sopranos da Terra Média”. Depois, a plástica visual, que soma uma direção de arte de ricos detalhes à escolha de deslumbrantes lugares para servirem de locação (as cenas têm sido filmadas em regiões de fantástica beleza na Irlanda do Norte, em Malta, na Croácia e na Islândia; a quinta temporada está sendo rodada no sul da Espanha).

Por fim, o cast. Como resultado de uma primorosa seleção, reunindo artistas antes quase desconhecidos a alguns nomes já mais tarimbados, a simbiose dos personagens da tela com seus correspondentes nos livros é perfeita (destaque para o ator Peter Dinklage, que representa uma das figuras mais proeminentes da trama – o príncipe anão Tyrion Lannister). E, especialmente para bondmaníacos como eu, é um prazer reconhecer, debaixo de suas caracterizações, alguns velhos conhecidos.
CHARLES DANCE NO PAPEL DE TYWIN LANNISTER

O primeiro é Charles Dance que, além de ter trabalhado (num papel secundário) em For Your Eyes Only (Somente Para Seus Olhos), encarnou o escritor Ian Fleming na produção para TV Goldeneye (O Espião de Ouro). Outro é Sean Bean, o Agente 006 Alec Trevelyan, colega e depois inimigo de Bond, no filme Goldeneye.

SEAN BEAN COMO 006 E EDDARD STARK

Mas, a maior revelação foi tão inesperada quanto agradável. Uma das inúmeras famílias que contendem pelo poder em Game of Thrones é capitaneada por uma simpática e ardilosa vovó chamada Olenna Tyrell. Sua atuação é ótima, a ponto de a atriz que a representa ter sido nomeada para o Emmy 2014, que acontece amanhã em Los Angeles. E ela é, nada mais, nada menos, que a inesquecível Diana Rigg, ícone da história bondiana como Teresa Bond, a única mulher a se casar com o Agente, no antológico On Her Majesty Secret Service (007 A Serviço Secreto de Sua Majestade, 1969).

DIANA RIGG COMO OLENNA TYRELL (2014)

DIANNA RIGG COMO TERESA BOND (1969)


Foi difícil reconhecê-la. Coisas da ação do tempo...


Oswaldo Pereira
Agosto 2014



terça-feira, 12 de agosto de 2014

DESTINOS CERTOS: KERRY, IRLANDA



Por volta do ano 1000 a.C., eles chegaram. Dominando a parte ocidental da Europa, enquanto o Egito dos faraós se estendia da nascente do Nilo até às margens do Mediterrâneo e os reis helênicos sitiavam Tróia, eles haviam espraiado suas tribos de mulheres e homens louros, ruivos, altos e fortes desde a França até a Península Ibérica. Então, inspirados por sua índole aventureira, decidiram se fazer ao mar e, aproveitando os ventos e as correntes favoráveis do Atlântico, aportaram numa ilha verde como uma esmeralda mágica, onde vales gentis escondiam lagos de todas as cores, desfiladeiros de pedra ecoavam seus gritos de guerra e um mar de profundo azul tornava-se espuma branca nas escarpas de rocha negra.

GUERREIROS CELTAS
Os gregos os chamavam de keltoi, os selvagens. Mas sua avançada cultura da Idade do Ferro e seus conhecimentos de cultivo e pecuária já eram muito superiores aos dos povos que habitavam a ilha, caçadores-coletores do neolítico. Chegaram, conquistaram e começaram a marcar sua presença. Usos, costumes, língua e tradição que hoje, trinta séculos depois, vivem nas pedras tumulares que rodeiam igrejas, na epiderme alva e nos cabelos e olhos claros de uma população risonha e no intricado idioma que precede o inglês nos sinais de trânsito e nas placas das ruas.


Do grego keltoi veio o nome pelo qual nós os conhecemos atualmente - celtas. E este acolhedor pedaço de terra, de povo eternamente bem-humorado e natureza apadrinhada pelos céus, chama-se Kerry, o Condado que ocupa todo o sudoeste da Irlanda. Se você acha que conhece todas as gradações do verde, e nunca foi a Kerry, engana-se. Ali, a terra fabrica matizes, nuances e variações da cor que o perplexo visitante nem pensava possíveis de existir. Tons inteiros, meios-tons, quartos de tons, uma policromia verdosa que colore campos, bosques, reservas florestais, colinas e os onipresentes vales. De tirar o fôlego.


ILHA DE SKELLIG MICHAEL

Mas, recomponha-o rapidamente para percorrer o Ring of Kerry, um circuito que leva até o mar por estradas que margeiam o recorte tortuoso da costa atlântica, salpicadas de miradouros de vistas inesquecíveis, como o que permite contemplar à distância as rochas de Skellig, agudas e míticas agulhas de pedra que, neste ano, estão servindo de location para o filme Star Wars 7. A relação com o cinema continua em Waterville, uma charmosa vila praieira onde Charlie Chaplin vinha passar férias. Siga em comunhão com o tempo, que pode sem aviso mudar de um ensolarado para um chuvoso verão em segundos. Ninguém se apoquenta, pois a chuva é sempre benfazeja e, assim como aparece, some atrás das colinas. Com ou sem ela, pare no Ladies View, um belvedere obrigatório para quem quer ver, ainda uma vez, o espetáculo grandioso da união quase mitológica de céu, terra e oceano. 

IGREJA DE KILMALLKEDAR
No dia seguinte, um outro passeio imperdível – a Península de Dingle. Vá e veja a história da Irlanda desenrolar-se na sua frente, desde a fusão dos deuses antigos dos celtas e suas runas com a cruz católica trazida pelo padroeiro Saint Patrick, às fortalezas de pedra murmurando gravemente um passado de lutas tenazes contra vikings e normandos. O Oratório de Gallarus, erigido há mais de 1.300 anos, a igreja de Kilmallkedar e seu cemitério milenar e mais castelos da Baixa Idade Média compõem um mosaico que mistura sacerdotes druidas com santos católicos numa simbiose histórico-religiosa que está na medula do povo irlandês. Acha suficiente? Pois não é! Ainda tem as extensões de campinas verdejantes que descem em direção às praias. Hollywood outra vez – na Península foram rodados vários filmes, entre os quais Ryan´s Daughter (A Filha de Ryan, 1970), uma das muitas obras-primas de David Lean, com Sarah Miles e Robert Mitchum, e Far and Away (Um Sonho Distante, 1992), estrelando Nicole Kidman e Tom Cruise. Na volta, pare na vila piscatória que dá nome à região e delicie-se com uma oferta de frutos do mar. E, por que não, com a companhia de uma caneca de Guinness...

Não perca o ritmo. Depois de dormir embalado pelas lendas de cavaleiros galantes, duendes travessos e lindas princesas, acorde para atravessar o Parque Nacional de Killarney e mergulhar mais fundo no passado entrando pelas ameias do Castelo de Ross, do século XV e passeando de barco pelo Lough Leane, o Lago do Conhecimento, até a ilha de Innisfallen, onde, no ano 640, São Finian construiu o primeiro mosteiro católico em terras de Irlanda. Perto dali, ficam as fazendas tradicionais de Muckross, mantidas em seu puro estado original para que possamos ter uma nítida visão da vida rural irlandesa na primeira metade do século passado. Aos que, como eu, foram criados em cenários semelhantes de Minas Gerais na década de 1940, é o mesmo que entrar numa máquina do tempo. No fim, a cereja do bolo – percorrer, ao trote de uma carroça puxada por uma incansável égua malhada, o Gap of Dunloe, uma falha geológica serpenteando seu verde e seus lagos por entre duas montanhas de granito. Não há como descrever a beleza extraordinária de mais este encanto de Kerry. Só indo lá para ver...

MOSTEIRO DE INNISFALLEN
O DIA-A-DIA NO ROSS CASTLE

























E, finalmente, um merecido descanso. Como ninguém é de ferro, devore uma generosa porção de um Irish Stew (carne de cabrito, batatas, alho-porro, couve, cenoura e aipo) ao som de canções tradicionais num típico restaurante irlandês. Como saideira, um potente irish coffee. Feito com Jameson, naturalmente...

Oswaldo Pereira
Agosto 2014 



quarta-feira, 30 de julho de 2014

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL - 100 ANOS





O Heeresgechichtliches Museum (Museu de História Militar) em Viena abriga um dos mais vastos e completos acervos sobre conflitos armados do mundo. Em seus imensos salões, armas, uniformes, documentos e memorabilia diversa contam a história das inúmeras guerras que sangraram o solo europeu século após século. O fato de a Áustria estar posicionada no centro do continente, e ter sido atravessada por inúmeras campanhas desde o Império Romano, de alguma forma contribuiu para a montagem da imensa coleção. Para os amantes do assunto, é um roteiro obrigatório, ao qual pelo menos dois dias devem ser reservados.

Duas de suas salas principais são dedicadas a um acontecimento que mudou a História. Lá estão, solenemente dispostos, um automóvel Gräf & Stift conversível, um uniforme e um vestido manchados de sangue, uma pistola FN modelo 1910, e centenas de objetos diversos, inclusive o menu e um pequeno mapa onde estão indicados os lugares destinados aos comensais num banquete a ser realizado na noite de 28 de junho de 1914. Que não chegou a acontecer. Horas antes, o convidado de honra e sua mulher, o Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, herdeiro ao trono do Império Austro-Húngaro, e a Arquiduquesa Sofia, foram assassinados nas ruas de Sarajevo. Para entender bem a magnitude desse evento, é preciso voltar um pouco no tempo.



Em 1815, a Europa se rearrumava, após a derrota definitiva de Bonaparte em Waterloo. Batidos durante anos pelas tropas de Napoleão, Rússia, Prússia e Áustria decidiram formar uma liga militar a que deram o nome de Santa Aliança. Logo a seguir, o núcleo inicial expandiu-se, dando lugar à Aliança Quíntupla, com o ingresso da Grã-Bretanha em 1817 e da França em 1819. O projeto, cujo objetivo verdadeiro era manter as raízes do absolutismo do Ancien Régime (Regime Antigo), conseguiu manter uma “paz” ligeira num continente massacrado pelas décadas napoleônicas.

A combinação não durou muito. Ambições colonialistas de seus integrantes fizeram o planeta ficar pequeno e eles começaram a pisar no pé uns dos outros. Cinquenta anos passados, apenas a Alemanha, unificada por Bismark, mantinha seus laços com os austríacos. A Inglaterra vitoriana já abandonara o barco, preocupada em consolidar seu vasto império (onde o sol nunca se punha) e a França estava em guerra com a Prússia. Por sua vez, a Rússia dos tzares chocava o ovo da serpente bolchevique. E, ao encerrar-se o século dezenove, um outro pomo de discórdia começava a crescer no sudeste europeu. Os Bálcans.

A região sempre fora um caldeirão de culturas e etnias. Desde os tempos de Filipe II da Macedonia, até a sua assimilação pelos turcos, ao fim da Idade Média, levas de ilírios, gregos, romanos, eslavos, ciganos, muçulmanos, mongóis e outras tribos pelearam por ali e deixaram as sementes de seus costumes, sua língua e sua fé. A hegemonia otomana silenciou as disputas mas não apagou o rastilho de uma inquietude explosiva que fervia debaixo dos pashas. Foi só o império turco dar sinais de fraqueza, a partir de 1890, e os movimentos separatistas começaram a pipocar. E, à medida que afloravam os sentimentos nacionalistas de sérvios, croatas, montenegrinos, macedonios, bósnios, kosovares, albaneses, armênios e outros mais, as potências ocidentais corriam a fim de trazê-los para sua respectiva esfera de influência. Em 1913, o atrito provocado pela disputa estava prestes a explodir. Bastava uma fagulha.

DIVISÃO POLÍTICA DOS BÁLCANS EM 1913


No dia 28 de junho de 1914, seis agentes do movimento conhecido por Crna Ruka (Mão Negra) estavam em Sarajevo. A organização a que pertenciam lutava pela anexação da Bósnia, então sob o domínio do império austro-húngaro, à Sérvia, e o grupo enviado para a cidade tinha como missão um ato terrorista de alto impacto – matar o herdeiro do trono austríaco. Francisco Ferdinando viera em visita oficial, depois de acompanhar as manobras de exército bósnio no interior da colônia. Era um gesto de aproximação, mas, ao mesmo tempo, de reafirmação do mando imperial e algumas vozes haviam alertado para o risco da viagem. Mas foi uma sucessão de desacertos e decisões equivocadas que selou o destino do mundo naquele dia.

A Mão Negra contava com o suporte técnico da polícia secreta sérvia e fora informada dos detalhes das solenidades programadas, inclusive do trajeto da carreata que transportaria o Arquiduque e sua mulher da estação de trem à Câmara Municipal, onde se realizaria o primeiro evento da visita. O veículo a eles destinado era um automóvel fechado mas, não se sabe porque razões, os visitantes reais embarcaram num Gräft & Stift de capota aberta.

O cortejo seguiu pela avenida que ladeia o Rio Miljacka, onde já se posicionavam, armados com pistolas e granadas, cinco dos terroristas. Os quatro primeiros não conseguiram agir. Os carros passaram rápidos demais e o ajuntamento dos transeuntes impediu a ação. O quinto, Nedeljko Ćabrinoviž, foi o único que agiu. E falhou. A granada atirada por ele resvalou na capota do conversível e explodiu debaixo do automóvel que vinha a seguir, danificando-o e ferindo cerca de vinte pessoas. Francisco Ferdinando e Sofia seguiram ilesos. Ao ver o malogro da sua tentativa, Ćabrinoviž  procurou o suicídio - engoliu uma cápsula de cianureto, correu para uma ponte e atirou-se no rio. Falhou de novo. O impacto na água o fez vomitar o veneno e o Miljacka ali tinha só 1,20m de profundidade. Foi imediatamente apanhado pela polícia, que agora iniciava a caça aos demais agentes da Mão Negra.

Enquanto isso, o Arquiduque participava das solenidades na Câmara. Visivelmente irritado, interrompeu o discurso de boas vindas do Prefeito para reclamar da insegurança e dos danos do atentado. Como o mau estar era evidente, resolveram então encurtar a programação, cancelando a visita ao Museu Nacional de Sarajevo e restringindo os compromissos oficiais à ida ao Hospital Municipal. Entretanto, não informaram o chofer do Gräft & Stift da mudança.

O Arquiduque e sua mulher saem da Câmara, minutos antes do atentado

Por esta altura, o último componente do grupo terrorista, o bósnio Gavrilo Princip, convencido de que a missão falhara, abrigara-se numa delicatessen de uma rua secundária da cidade. E quase não quis acreditar em sua sorte quando o conversível carregando os arquiduques começou a manobrar na esquina, para retomar a nova rota que só agora era comunicada ao motorista. Princip tirou a pistola do bolso do casaco, caminhou resolutamente na direção do veículo e, a cinco metros de distância, disparou duas vezes. Uma bala atingiu Francisco Ferdinando na jugular. A outra entrou pelo abdomen de  Sofia.  Meia hora depois, ambos morriam no Hospital que iriam visitar.

O ATENTADO
Ondas de choque varreram a Europa. O Império austríaco acusou o governo sérvio de apoiar o atentado e apresentou um ultimato que praticamente equivalia a uma declaração de guerra. Como nos dominós, as peças começaram a cair. A Rússia declarou suporte à Sérvia e iniciou uma mobilização parcial de suas tropas. Em represália, a Alemanha cerrou fileiras ao lado da Áustria e também convocou seu exército. Receosa de mais um confronto com seu histórico inimigo, a França fez o mesmo. Enquanto a Itália e a Bélgica esperavam para ver, a Grã-Bretanha também se armou do outro lado do canal. Após um mês de intensa troca de acusações, em 28 de julho canhões austríacos dispararam na direção da Sérvia. No dia seguinte, a Alemanha invadiu a Bélgica em sua marcha para Paris. Uma semana depois, a Europa conflagrava-se. Tinha início a Grande Guerra, uma hecatombe que duraria quatro longos anos. Uma combinação perversa de moderna tecnologia bélica e antiquadas táticas de combate elevaria o número de baixas a números jamais vistos. Ao término do cruel confronto, em novembro de 1918, dezessete milhões de mortos, entre eles 8 milhões de civis, jaziam em solo europeu.

O mundo mudara naqueles quatro anos como nunca antes. Os grandes impérios da Europa Central haviam desaparecido. Costumes, tradições e sonhos também tinham sido destruídos pelo horror dos bombardeios, das chacinas,  da impiedosa carnificina que tragara toda uma juventude. O que sobrou foi um sentimento de arrependimento e a promessa de que isto não poderia voltar a acontecer. A Guerra para acabar com todas as Guerras, uma frase do então Presidente americano Woodrow Wilson, definiu o propósito que serviu de base para a criação da Liga das Nações em 1920 e dos tratados que supostamente sedimentariam uma paz duradoura.

Ledo engano. Dezenove anos mais tarde, o pesadelo voltaria e novo apocalipse teria início. Para muitos, o segundo capítulo de uma mesma tragédia – a Segunda Guerra Mundial.


Oswaldo Pereira
Julho 2014


sexta-feira, 25 de julho de 2014

RUIVOS






São necessárias duas cópias do gene recessivo no cromossoma 16 para causar a mudança na proteína MC1R. Quando isto acontece, a célula passa a produzir altas doses de feomelanina, um pigmento vermelho que irá determinar a cor dos cabelos, a tonalidade da pele, sua baixa resistência aos raios solares e as indefectíveis sardas. O indivíduo resultante será ruivo.

O problema é que, segundo algumas fontes científicas, isto está acontecendo cada vez menos e a raça dos “cabelos vermelhos” foi declarada em extinção. E eu, ruivo desde o nascimento até que a idade me branqueasse, lamentei que os meus “irmãos capilares” estivessem sumindo da face da Terra.

Que era uma coisa rara, principalmente no Hemisfério Sul onde nasci, eu já desconfiava desde garoto. O registro familiar me informava que meu avô paterno, ruivo, gerara, dos seus quatro filhos, apenas uma menina (morta antes que eu nascesse) com cabelos avermelhados. Dos 23 netos (isto mesmo, vinte e três), só este que vos escreve veio ao mundo com os cabelos cor de cobre claro e sardento. Na minha descendência, isto se repetiu. Como nenhum de meus três filhos herdou a cor, só um neto meu (de cinco) repetiu exatamente meu matiz capilar. Quer dizer, apenas uma ocorrência em oito.

Dado que nem nas escolas e nem nos meios sociais que frequentei até a adolescência havia muitos ruivos (na verdade, só conheci um no imenso Santo Inácio), sempre me senti meio diferente dos demais. Apelidos abundavam. Ovo de tico-tico, canarinho cabeça-de-fogo, cenourinha eram os mais amigáveis. Quando a coisa baixava de padrão, uma outra característica dos vermelhos aflorava em mim – o temperamento fogoso. Ou seja, eu partia para a briga.

Para acalmar um pouco as coisas, recordo que meu pai me levou certa vez para assistir a um filme sobre preconceito. Chamava-se  The Boy with Green Hair (O Menino de Cabelos Verdes) e contava a história de um órfão cujos cabelos ficam inexplicavelmente verdes ao saber da morte dos pais nos bombardeios de Londres. Dirigido pelo renomado Joseph Losey e estrelado por um Dean Stockwell menino no papel título, é uma linda parábola sobre a intolerância da sociedade com o diferente. Havia uma cena que gravei para sempre. No seu primeiro dia de aula após os cabelos terem-se tornado verdes, há uma rejeição dos colegas. E ele, para defender-se, aponta para um deles que também tinha uma cor incomum. Era um único ruivo. Senti-me imediatamente parte do filme e do problema.

No final da adolescência, já mais seguro, comecei a perceber alguns dividendos no fato de possuir cabelos mais claros que a maioria. Para uma generosa porção do sexo oposto, isto devia causar um certo reboliço, pois seus olhares começaram a enviar mensagens mais do que convidativas. Em outras palavras, começou a chover na minha horta. Uma prazerosa sina com muitos frutos...

Ao mesmo tempo, charmosas histórias sobre a origem dos red hair foram aparecendo, os valorosos celtas que haviam habitado o norte de Portugal (de onde viera meu avô). Grandes personagens da História, como Barbarossa, o viking Erik, Galileu, Vivaldi e até Aquiles e Maomé eram descritos como ruivos. Boas companhias.

Quando comecei a viajar pelo mundo, acabei por descobrir terras em que eu praticamente desaparecia numa multidão de ruivos. Foi assim, principalmente, num acolhedor país chamado Irlanda, que mais acolhedor ficou para mim pois todos me olhavam como um nativo. Há lá tantos que passei a duvidar do vaticínio sobre o desaparecimento da minha gente.

Aliás, e a propósito, já li que essa propalada teoria seria uma tremenda armação, uma mentira espalhada pela Procter & Gamble para aumentar as vendas de um determinado corante para cabelos.

Tomara que assim seja.

Oswaldo Pereira

Julho 2014

segunda-feira, 21 de julho de 2014

NOITE







Foi de repente. Um grito.

Não, não foi.  Foi mais um sussurro, um suspiro em surdina, um lamento estrangulado. Como se uma vida se tivesse apagado, uma tarde morrido, o luar engolido por uma nuvem negra.

A noite caíra, mais rapidamente do que o costume. Nem dera chance ao poente, desfigurado de suas cores antes mesmo que pudesse tingir a linha do horizonte.

«Diz pra mim...»

«Dizer...o que?»

«Que o dia virá...»

Olhei para a sombra que era ela.

«Creio que sim. Esta não é a última das noites. Não pode ser...»

A sombra agitou-se.

«Não tens certeza... »

Eu tento senti-la com os dedos.

«Não, não tenho. Alguém terá?...»

Lá fora, a noite muda. Não há sons, nem vida, nem morte.

«Este plácido lago negro...»

«Que disseste?...»

«Plácido lago negro... Me veio à cabeça»

Eu afago seus cabelos escuros na escuridão.

«Tenta dormir...»

Os olhos dela. Não os vejo, mas sei que me olham.

«Não posso. Preciso ver se o amanhã chega, se haverá aurora. Tenho de saber até onde este silêncio vai, se já cobriu o mundo ou apenas este vale, esta varanda, este quarto. Quero ver as entranhas desse monstro chamado Destino»

Eu suprimo um sorriso triste.

«Não tens como. Este é um monstro sem intestinos, hidra sem cabeças, ciclope sem olho. É o que é. Anda sem ver, caminha sem ouvir. Mata e faz nascer, cria e descria. Nada valemos para ele, nem nossos sonhos nem nossos pecados»

«Cruel...»

Outro gemido pequeno, preso na garganta.

«Não chora. Este é o pacto. Viver por viver. Só isso...»

«Não pode ser. Tem de haver mais. Tem de haver a promessa das manhãs, o compromisso das estrelas, o penhor da chuva. Temos este direito, de sermos felizes, de sermos...nós...»

Sua lágrima morna cai e escorre em meu peito.

«Poesia. Só lá somos o que sonhamos. Aqui é outra terra, outra lei. Aqui somos apenas o rugir de um instante, uma fração, o átimo de um relâmpago que nasce e morre num segundo, perdido para sempre num céu sem memória...»

«Rebelo-me...»

«Não podes... Estamos presos aqui. Companheiros nesta cela a que chamam existência. Daqui não sairemos vivos. Descansa. Esta pode ser a última noite...»

Ela pega minha mão e coloca-a em seu rosto. Está molhado e frio.

«Beija-me...»

Obedeço. Ela adormece. Fico olhando para o abismo invisível do vale, à espreita de uma manhã incerta.  Que talvez não venha.


Oswaldo Pereira
Julho 2014






quinta-feira, 17 de julho de 2014

CONSELHOS DE PAI






Está fazendo 40 anos que foi lançado o LP (os antigos sabem, isto quer dizer long-playing, os grandes álbuns em vinil de uma era que já se foi...) Planet Waves. O disco marcava a volta às turnês de Bob Dylan, que delas ficara afastado por oito anos. Nesse meio tempo, o cantor e compositor, já ascendido à categoria de símbolo, fora pai. Uma das faixas, que logo também viraria viral, para usar um termo dos atuais dias, intitulava-se Forever Young. Dylan a havia composto para o filho, Jakob, e construíra a letra a partir dos conselhos e exortações que, como pai, considerava inspiradores.

O poema que daí resultou foi uma pequena obra-prima. As mensagens são belas, perenes, verdadeiras e indicam um caminho estrelado que pretende levar à felicidade eterna. Especialmente, a mais ambiciosa delas: may you stay forever young (que você fique jovem para sempre), uma linda proposta e uma filosofia de vida em si mesma. Dylan já era um refinado poeta. Nesse momento, provou ser também um pai especial.

Abaixo vai a letra, no original em inglês e numa tradução livre que fiz.

May God bless and keep you always,
May your wishes all come true,
May you always do for others
And let others do for you.
May you build a ladder to the stars
And climb on every rung,
And may you stay forever young

May you grow up to be righteous,
May you grow up to be true,
May you always know the truth
And see the lights surrounding you.
May you always be courageous,
Stand upright and be strong,
And may you stay forever young

May your hands always be busy,
May your feet always be swift,
May you have a strong foundation
When the winds of changes shift.
May your heart always be joyful,
May your song always be sung,
And may you stay forever young

Que Deus te abençoe e te guarde sempre,
Que seus desejos se tornem realidade,
Que você sempre faça pelos outros
E deixe que os outros façam por você.
Que você construa uma escada para as estrelas
E suba cada degrau,
E que você fique jovem para sempre

Que você cresça para ser justo,
Que você cresça para ser verdadeiro,
Que você sempre saiba a verdade
E veja as luzes ao seu redor.
Que você seja sempre corajoso,
Fique em pé e seja forte,
E que você fique jovem para sempre

Que suas mãos estejam sempre ocupadas
Que seus pés sejam sempre rápidos
Que você tenha uma base forte
Quando os ventos das mudanças soprarem.
Que o seu coração seja sempre feliz,
Que sua canção seja sempre cantada,
E que você fique jovem para sempre


Muita gente, além do próprio Dylan, gravou Forever Young. Joan Baez, Pete Seeger, Peter Paul & Mary, Diana Ross, entre outros. Mas escolhi para este post a interpretação de Norah Jones no dia da homenagem póstuma a Steve Jobs, em 2011. Vejam que magnífico.






Oswaldo Pereira
Julho 2014