sábado, 25 de janeiro de 2014

ALCOCHETE







Reza a História que a Peste Negra mudou o destino de Alcochete. 

Provavelmente originária da Ásia Central, a terrível epidemia chegou à Europa, em meados do século XIV, pelos caminhos da Rota da Seda. Seu veículo transmissor foram as pulgas que infestavam os pelos dos ratos pretos, hospedeiros que proliferaram com fantástica velocidade num ambiente onde havia restos de alimentos, muita gente e nenhuma higiene. Atingindo o Continente Europeu pela Crimeia, foi dizimando indiscriminadamente, e com extrema rapidez e letalidade, os habitantes das cidades medievais em todos os países. Só entre 1348 e 1350, matou mais de 75 milhões de pessoas – um em cada três europeus. E continuou matando durante um século. Foi a primeira e única vez na História que a população mundial decresceu. Foram necessários 150 anos para que ela voltasse ao nível pré-epidemia.

IGREJA MATRIZ DE ALCOCHETE

Ninguém estava a salvo. Nem pobres, nem ricos, nem senhores, nem camponeses. E nem Reis. Mas estes, pelo menos, tinham mobilidade assegurada, e fugiam de suas capitais para refúgios em aglomerados menores, de bom clima e bons ares. Assim, D. João I, Rei de Portugal, resolveu transferir-se para uma pacata vila do outro lado do Tejo, onde o rio alargava a distância entre suas margens, criando um quase-mar plácido e ensolarado, e que parecia longe o bastante para protegê-lo das pulgas assassinas.

Esse lugar já era habitado desde o neolítico. Os romanos também haviam estado por ali, fabricando ânforas para transporte de alimentos. Depois, vieram os mouros. Sua atividade concentrou-se na agricultura, principalmente nos citrinos e, para irrigá-la numa terra de pouca chuva, criaram um sofisticado sistema de canais. Também construíram um forno, substantivo português cuja tradução para o árabe é al caxet. O nome ficou, mas os filhos de Alá foram varridos na reconquista cristã.

ESTÁTUA AO SALINEIRO - CENTRO VELHO
Alcochete encontrou, então, sua primeira vocação sustentada, a extração de sal marinho. Sal sempre foi sinônimo de pureza e, talvez por isso, tenha atraído D. João I. Pureza e ar limpo pareciam bons antídotos contra a Peste.

Por via das dúvidas, seus descendentes resolveram ficar mais umas quantas gerações no lugar, enquanto o perigo não se extinguia de todo. Graças a essa decisão, a vila prosperou, tornando-se um pólo salineiro e um movimentado entreposto, de onde partiam e aonde chegavam embarcações que atendiam a um próspero comércio de mercadorias. Tornou-se também berço de infantes reais da Dinastia de Avis. Em 1459, ali nasceu o mais famoso deles, pelo menos para nós brasileiros, o futuro Rei D. Manuel I, dito o Venturoso, cujas naus foram descobrir a Ilha de Vera Cruz.

POR-DO-SOL NO TEJO
Mas, nada dura para sempre. Os reis se foram quando a Morte Negra foi finalmente erradicada e, lentamente, a terra definhou. No século XIX, motivos de divergência política com Lisboa causaram-lhe a perda da autonomia municipal para a Aldeia Gallega, hoje Montijo, ganha ainda ao tempo da residência real. No século seguinte, sua postura historicamente antagônica ao Poder Central transformou-se em renitente resistência ao Estado Novo de Salazar, com suas previsíveis consequências. Paralelamente, o sal-gema já substituía com vantagens econômicas o sal marinho, a construção da então Ponte Salazar (hoje Ponte 25 de Abril) diminuía o fluxo do transporte marítimo entre a margens do rio e a poluição destroçava uma piscicultura quase artesanal. Nem vocação turística lhe sobrara, ofuscada pelas praias da Costa da Caparica.

Voltamos ao “nada dura para sempre”. Na década de 1990, outro evento veio salvar Alcochete. Graças a Deus, não era outra Peste. Era outra Ponte.

Construída entre 1994 e 1998, a Ponte Vasco da Gama viria desaguar na margem sul do Tejo a meros 4 quilômetros da cidade. De repente, Alcochete ficara vizinha de porta de Lisboa, a apenas 18 quilômetros do Parque das Nações e da Estação do Oriente, terminal de ligação de transportes terrestres urbi et orbi. Ou seja, um imã para quem trabalhasse na capital, em saturação imobiliária, e desejasse morar numa atraente suburbia.

Não deu outra. Em meses, a indústria da construção civil pôs-se a atender à demanda. Felizmente para todos, o bom senso prevaleceu e não houve o mesmo crescimento desordenado que transformara Almada e Barreiro em cidades-dormitório, com seus imensos blocos escuros de apartamentos tristes. Preservou-se o delicado e charmoso centro histórico, amenizou-se a fachada dos novos prédios, arborizaram e floriram as rotundas. Na entrada da cidade, instalou-se um dos mais famosos outlets da Europa, o imenso mall do Free Port, para o qual já há linhas de ônibus que trazem o turista sedento de boas barganhas diretamente do Aeroporto da Portela.


Os que têm mais tempo vêm saborear as iguarias que povoam os cardápios de uma variada oferta de ótimos restaurantes, atualmente elevando Alcochete à categoria de point gastronômico por excelência.



Acham que estou exagerando? Então venham conferir. De preferência no Verão, quando a Praia dos Moinhos se colore durante o Festival Internacional de Papagaios, as ondas brincam com os praticantes do kitesurf, a forte tradição taurina se reafirma nas touradas e largadas da Festa do Barrete Verde e o ar fino se mistura à perfumada fumaça que sobe dos assadores de sardinha espalhados pelas ruas do velho centro.

FESTA DO BARRETE VERDE
FESTIVAL DE PAPAGAIOS



FREE PORT OUTLET




Os Reis de Avis tinham razão.


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014



terça-feira, 21 de janeiro de 2014

CAVIAR E ESQUERDA






Gauche caviar é um termo cunhado na França no tempo de François Mitterand. Seu significado marcadamente depreciativo reúne, num bem-humorado jogo de palavras,  as noções de hipocrisia, insinceridade  e oportunismo, características de defensores do ideal social-comunista que apregoam as vantagens  do sistema mas vivem  das benesses de seu regime oposto, o capitalismo. Como os há em escala mundial, o termo acabou recebendo traduções como champagne socialist nos países de língua inglesa e esquerda festiva ou esquerda caviar aqui entre nós.

E este é o título do mais novo livro do economista e colunista da VEJA, Rodrigo Constantino.  Para quem já ouviu falar dele, ou leu seus livros e suas crônicas, sabe que Constantino não é de poupar  palavras, nem manda recado,  quando escreve.  É direto, contundente, combativo. E, claro, polêmico.

Nas 428 páginas da edição lançada pela Record, ele esmiuça ad nauseam o comportamento do esquerdista caviar, valendo-se ao mesmo tempo de dezenas de citações de autores que vão de Nelson Rodrigues, Ayn Rand, Vargas Llosa e Luiz Felipe Pondé ao roqueiro Lobão.

Na primeira parte do livro, ele examina as origens do “fenômeno”, como ele próprio denomina, da duplicidade conceitual daqueles que defendem a distribuição equalitária da riqueza ao mesmo tempo em que gozam de privilégios do livre mercado, o corriqueiro “faça  o que eu digo, mas não olhe o que eu faço...”

No capitulo seguinte, trata das “bandeiras” dessa tribo e, no último, das celebridades que ele classifica como ícones, nacionais e estrangeiros, da esquerda caviar, como, por exemplo, Barak Obama, Gandhi, Michael Moore, Oscar Niemayer, Chico Buarque  e um elenco de atores de Hollywood que faria inveja às nomeações para o Oscar (de Harrison Ford a Whoopie Goldberg, passando por Robert Redford, Barbra Streisand, Sean Penn, Brad Pitt, Angelina Jolie, George Clooney e outros que tais...) Até Luiz Fernando Verissimo entrou na lista.

Não vou aqui defender ideologias. Cheguei a uma idade em que a única coisa que defendo é que todos têm direito a professar suas crenças. Direita ou esquerda, exceto quando levadas a extremos,  são caminhos politico-sociais que, se geridos com honestidade de princípios e de meios, podem proporcionar bem estar e felicidade aos habitantes de uma comunidade. História e cultura religiosa ou secular são diferentes para cada povo e não há regime único que sirva para todos. O que pode ser adequado para uns, nem sempre se aplica a outros, embora eu não conheça, até hoje,  um lugar onde o comunismo tenha sido um sucesso de administração pública.

Mas o que eu não acho aceitável, e aí existe um ponto de convergência com o livro de Constantino, é a dualidade de postura daqueles que falam mal da ditadura militar (que, sem dúvida, teve seus pecados) e tecem loas à Cuba de Fidel e à Rússia de Stalin, que posam de “perseguidos” do autoritarismo e recebem polpudas indenizações pagas com o nosso suado dinheirinho.

O regime que gosto mesmo é o da coerência.

Oswaldo Pereira
Janeiro 2014




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

TEMPESTADE







Tempestade, longe. Talvez nem caia por aqui, o vento contrário vai levá-la para o sul.

Ela se acomoda no velho cadeirão de vime, bem no centro da sua varanda que dá para o mar. Os anos passaram por aqui, muitos. Uns longos, poucos. Na maioria, curtos, sem tempo para deixar seu registro, sua marca. Para falar a verdade, longos mesmo foram os da juventude, de dias que se arrastavam na esperança de algo sempre grandioso que iria ocorrer à frente. A espera de telefonemas por minutos que eram horas, a ânsia de um encontro alargando manhãs em anos inteiros, a duração interminável de uma aula enfadonha. Os ponteiros dos relógios pareciam brigar contra uma força demoníaca que os pregava no mostrador. Por sua vez, e para compensar, o sol se espreguiçava no romance de tardes infinitas ou, como na música do Roberto, “demorava pra nascer” em madrugadas impregnadas de amor. Uns pelos outros, eram anos bons. Aqui e ali, uma decepção que iria acabar com o mundo, um problema rasteiro tornado planetário pelo superlativo da idade. Nada que uma música da moda ou um sorriso doce não os fizesse esvanecer tão rápido como haviam surgido.

Aí vieram os anos dos “mistérios gloriosos”, como costumava chamar. Casamento, maternidade, seu ser se dando por inteiro, paraíso e purgatório, madrugadas insones, seios doloridos, cansaço insano, energia tirada lá do fundo pelo carinho de pequenos dedos em seu rosto.

“Mãe” dita de várias maneiras. Súplica, rebeldia, interesse, abrigo. Às vezes, amor. Poucas. Muito poucas diante da contra-partida, da dádiva integral, do desfibramento de seu coração, não mais só seu. Mas, assim era e assim devia ser, sua história tão velha e comum quanto o Tempo.

E o Tempo foi escorrendo, ganhando balanço, a jornada dupla, senão tripla, que apagava todo o resto, viagens adiadas, projetos adiados, VIDA adiada. O inevitável mergulho no nada de dias iguais e cinzentos, de repente uma clareira solar, um reconhecimento acanhado, um PARABÉNS PRÁ VOCÊ veloz, ligeiros de duração e de peso. E a volta  ao casulo escuro.

Vieram as partidas, os chamados. Do marido pelo Céu, do filho pelo Mundo. E ela ficou na velha casa, lembranças e mobília, saudades no estampado da almofada deste cadeirão de vime, sentindo os dias se acelerarem em direção ao futuro. E a pergunta que a ronda como a tempestade ao longe. Terá valido a pena? 


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014


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segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

PAPO DE BAR - NA PRAIA






«Cara, que loucura! Estou derretendo. Só mesmo vindo para a praia»












«Pois é. Ontem recebi um e-mail de um amigo que está em Nova Iorque. Um frio cão. Tá virando picolé na Times Square. Diz que a sensação térmica é MENOS 28. No Canadá, já se fala em menos cinquenta. Dá para acreditar?!»








«E a gente aqui no Rio assando em fogo lento. Na Zona Norte, os termômetros de rua enlouqueceram. Tem uns marcando MAIS 50. Já te falei, é o fim do mundo!»

«Lá vem você de novo dando uma de Nostradamus. Como é que alguém na praia de Ipanema pode falar em fim do mundo, garota!»

«Então, você não está vendo? 2014 entrou para valer. Inferno no Rio, congelamento em Nova Iorque, inundações no Reino Unido, ondas gigantes na costa europeia. E é só o começo...»

«Começo de quê? Já houve frios e calores piores em algum lugar do passado. As notícias dizem sempre. A pior chuva desde..., a mais alta temperatura em vinte anos... .a SEGUNDA temperatura mais baixa do século.... Há sempre um recorde anterior, só que as pessoas se esquecem e pensam que é novidade»

«Coitadinho, este calor deve estar amolecendo os teus neurônios. A diferença, a grande diferença de agora é que está acontecendo tudo ao mesmo tempo. Leia os boletins meteorológicos, cara. Do mundo inteiro. Vai ser um ano de catástrofes climáticas nunca vistas. Nevascas impiedosas, ondas de calor assassinas, tempestades apocalípticas. A temporada de tornados nos States será a mais...»

«Peraí, peraí... Que é que tá havendo? Você está numa das praias mais lindas do mundo, falando de catástrofes? Vamos tomar um chopinho, refrescar a cabeça, dar um mergulho... Cool it, baby...»

«Continuas o mesmo cínico de sempre. Tá legal... Não acredite. O tempo vai dizer, é só esperar...»

«OK, vou esperar. Sentado. Aliás, é o que vou fazer. Vou sentar debaixo da barraca. Este papo de meio ambiente em fúria vingando-se do Homem já deu o que tinha que dar. Vendeu livros, filmes, jogos eletrônicos, fez muita gente ganhar dinheiro. Tô fora»

«Vai mesmo. E não se esqueça do bloqueador solar para te proteger, já que a acabamos com a camada de ozônio...»

«Não acabamos com nada! É tudo um comportamento cíclico, nada tem a ver com a ação dos homens. E, quer saber, há coisas que me preocupam bem mais do que esta suposta revolta da Mãe Natureza. Por exemplo, os baixos níveis da educação, o sucateamento da saúde pública, a corrupção no Governo. Dá prá entender o Maranhão? A Governadora interessada em lagostas e camarões enquanto presidiários morrem nas penitenciarias do Estado. Prá esses, o fim do mundo já chegou...»

«Sim, mas isso, pelo menos, podemos mudar»

«Mudar? Como?»

«Ué, pelo voto. Isto aqui não é uma Democracia?»

«Bom, agora foi a vez dos raios ultra violetas terem fritado os teus circuitos. Democracia? Democracia é quando você elege os seus representantes para governarem em seu lugar, o que pressupõe que os candidatos, depois de eleitos, vão poder legislar de acordo com o seu interesse e para o bem-estar da sua comunidade. Só que aqui, em Pindorama, o Sistema não vai deixar. Assembleias municipais, câmaras estaduais, e por fim o Congresso, regem-se pelo “estatuto” da casa, que é atender aos interesses de grandes grupos e grandes vontades que, a mais das vezes, nem de longe coincidem com os seus»

«Cara, agora é que eu te digo. Vai dar um mergulho. A água está um espanto...»

«Ideia melhor, vamos os dois. E pedir aos deuses para nos protegerem pelo menos até a Copa...»

«Valha-nos Nossa Senhora Aparecida»

«Saravá, Iemanjá»


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014





terça-feira, 7 de janeiro de 2014

PANTERA NEGRA





Assim são as lendas vivas. Quando morrem, mais vivas ficam. Aconteceu com Mandela. E acontece agora com Eusébio da Silva Ferreira, a lenda viva do futebol português. Sua morte, na manhã do dia 5, vem comovendo todo um país e entroniza o jogador na categoria dos deuses olímpicos. Ficará eterno, como os outros deuses.

A história de Eusébio não difere muito do percurso palmilhado por incontáveis craques em todo o mundo. Uma infância pobre, a fome de bola que os arrasta das salas de aula para os campos de várzea, onde seus pés descalços fazem maravilhas. A perspicácia de algum caçador de talentos, o primeiro contrato. Depois, um clube grande trazendo o menino para sua grei, o investimento visando futuros lucros, a primeira grande plateia, a glória.

BANDA DESENHADA SOBRE A VIDA DE EUSÉBIO


Às vezes, a rapidez do processo confunde uma personalidade ainda em formação, os cantos de sereia abrindo alcovas e fortunas, a Terra toda aos seus pés, palavras doces e traiçoeiras sendo sussurradas em noites de festa. O caminho se perde em labirintos dourados, a fama dissolve seu pedestal, o gigante cai.





Nada disso aconteceu com Eusébio. Desde sua primeira chuteira, aos 15 anos, pela equipe d´Os Brasileiros Futebol Clube, na antiga Lourenço Marques, em Moçambique, até encerrar sua carreira em 1979, manteve-se íntegro e imutável em sua humildade fidalga. Quer um exemplo?

Vinte e nove de maio de 1968. Final da Taça dos Campeões Europeus. Manchester United versus Benfica. Dez minutos do segundo tempo, partida empatada. Eusébio arranca em direção ao gol, irresistível, entre dois zagueiros ingleses. Já dentro da grande área, dispara seu chute imparável. Alex Stepney, goleiro do Manchester faz o impossível, defendendo milagrosamente o tento certo que poderia selar a sua derrota. Eusébio se aproxima dele. Toca no seu ombro e o aplaude. O jogo foi para a prorrogação e os britânicos venceram. Mas, o ato de impecável fair-play marcou para sempre a partida.

Após parar de jogar, foi-se transformando em ícone, não só do Benfica mas, principalmente, da seleção portuguesa. Sua presença nos jogos internacionais de Portugal era tão certa e importante como a própria bandeira. Gritava, incentivava, chorava. Dava conselhos aos jogadores. Sua figura nas arquibancadas ou à beira do gramado ficará gravada na alma dos adeptos e torcedores, assim como seus dois apelidos. O Pantera Negra. O Rei.

Um testemunho. Quando vim morar em Lisboa, nos idos de 1967, tive a oportunidade de conhecer Eusébio pessoalmente. Por estas estranhas circunstâncias da vida, o Diretor Comercial da General Electric Portuguesa, onde vim trabalhar, era Duarte Borges Coutinho. Para quem o nome nada diz, explico que Borges Coutinho era, além de Marquês, Presidente do Benfica. Em Portugal, agora e então, um cargo rivalizando de importância com o de Presidente da República. Ficamos amigos, a ponto de ganhar um título de sócio do clube e ser convidado a acompanhar a delegação do time nos jogos pelo campeonato nacional. Assim, pude conviver com os lendários jogadores de uma equipe também lendária, campeã nacional várias vezes, finalista do Europeu de Clubes, famosa no mundo inteiro. Mario Coluna, Torres, Costa Pereira, Simões. E Eusébio.

Apesar de ser o maior astro do futebol de sua época, nada mudava sua postura gentil, atenciosa e simpática. Lembro-me até que era o mais calado de todos, tranquilo em sua humildade fidalga.


Oswaldo Pereira
Janeiro 2014.






terça-feira, 31 de dezembro de 2013

2013





Algumas horas mais e 2013 se transformará numa cápsula do tempo, fechado em si mesmo, seus trezentos e sessenta e cinco dias contabilizados num marco único, um registro para a eternidade. Aí, passará a ser referência, um grande ontem imutável, uma simples agenda de efemérides passadas. Para uns terá significado nascimento, para outros, morte. Terá servido de encruzilhada, de céu ou cemitério de propósitos, de promessas que alçaram voo e de outras que se diluíram no imponderável da sorte. Um ano que reinou no fervilhar de bilhões de dramas individuais, estórias de sucesso, mergulhos no desespero, paixões, desânimos, vitórias e derrotas.

É tudo uma simples convenção, claro. A natureza desconhece a folhinha, não está nem aí para calendários gregorianos, chineses ou judeus. Para ela, a contagem não faz sentido, seja 2013, 4710 ou 5774. Ela apenas faz o que o girar desta esfera em torno de outra incandescente lhe permite. Repetir as estações. Espalhar ventos e nuvens. E deixar os dias sucederem às noites sem marcação nem apontamentos. Esta gerência, ela deixa para nós, humanos, preocupados com coisas mundanas como presente, passado e futuro.

E, em função dessa necessidade atávica de contar, acabamos por reverenciar a combinação global de festejar o término de um ano e o começo de outro, de fecharmos para balanço à meia-noite de 31 de dezembro e, logo no minuto um de janeiro, abrirmos de novo o livro-caixa.

E o que nos mostra a contabilidade de 2013?

FEVEREIRO/JUNHO - RENUNCIA E ELEIÇÃO 


Para mim, a sua marca mais visível terá sido a circunstância da ascensão ao trono de São Pedro do Cardeal Bergoglio. Sucessão papal não é coisa que aconteça com frequência, mas renúncia no Vaticano é história raríssima. A última ocorreu em 1415, tornando-se a referência principal daquele ano. É bem provável que, daqui a 600 anos, o nosso 2013 seja lembrado só por isto.

Mas a proximidade histórica nos lembra muito mais.

DEZEMBRO - MORRE UM HERÓI


A morte de Nelson Mandela, a bisbilhotice de Edward Snowden, o meteoro que caiu na Rússia, o shutdown financeiro nos Estados Unidos. No Brasil, as manifestações de rua, o julgamento do Mensalão. Coisas que irão para os livros e para os arquivos digitais.


MAIO- SNOWDEN LEVANTA O VÉU
JUNHO - JULGAMENTO PARA A HISTÓRIA


















JUNHO - POVO NAS RUAS


Daqui a pouco, o novo ano se levantará no meio do Pacífico, na Linha Internacional do Tempo, e começará a correr pelo mundo. A cada fuso horário, será recebido com fogos, preces, promessas e pedidos. Vamos tentar crer, nem que seja só um pouquinho, que ele traz o poder de transformar o mau em bom e o bom em melhor, que ele carrega a magia da felicidade, individual e planetária, e a distribuirá, pródigo, em todos os lugares. Foi a mesma coisa que fizemos quando 2013 nasceu. Pode não ter dado inteiramente certo, mas valeu a pena acreditar, não?

Então, Feliz 2014!


Oswaldo Pereira
Dezembro 2013


sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

PORTUGAL EM 4 ESTAÇÕES

VERÃO (ALGARVE)

Nove da manhã. O sol explode na porta da pequena pousada e surpreende quem sai da semi penumbra do saguão de entrada.  Além dele, o mar, lá embaixo, verde-azul profundo, abraçado por uma delicada enseada de areias prateadas pelo dia algarvio e levemente ondulado pelo sopro de uma brisa tão benfazeja como o silêncio que abençoa tudo em volta. É manhã de verão nesta vilazinha praieira do sul português e é como se o mundo e o tempo parassem para render seu tributo a este momento de paz maior que os sentidos. É hora de usá-los com sapiência e saborear os cheiros de suave maresia, cheirar as cores que branqueiam as casas e enverdecem a verdura dos campos, degustar com os olhos bem abertos a sensação de primeiro dia do universo e ouvir a quietude reinante.

A escada de pedra vai serpenteando preguiçosa em direção à água, contornando com carinho a aldeia de arquitetura simples e repousada em suas origens árabes. Afinal, o norte africano está logo ali, do lado de lá deste azul real que se estende à frente. Terras mouras, de onde eles vieram para dominar, por séculos, esta península e deixarem, antes de partir, seu indelével traço genético que ainda azeitona a pele dos que aqui vivem, além de sua arte e do vasto repertório de palavras que enriquecem o nosso vocabulário. Como Al-Gharb, estreita faixa de terra entre o mar e a montanha, que ficou para nomear esta província, a mais meridional do Portugal Continental.

É uma terra de histórias, do projeto das descobertas concebido em Sagres, de saudades de um Dom Sebastião que partiu atrás de uma miragem para seu destino em Alcácer-Quivir, dos pedaços de nevoeiro que nunca mais o trouxeram de volta.


E é aqui, nesta costa de casario alvo, manhãs claras, poentes mágicos, degraus rústicos e silêncio dourado, perfumada pelo cheiro salgado do Atlântico, onde mais se sente o esplendor, a eternidade e o feitiço do verão português.    

OUTONO (LISBOA)
O vento. A princípio, sente-se só sua mudança de humor, perdendo aos poucos seus trejeitos de brisa, seus volteios alegres, franzindo o cenho e nos surpreendendo com rajadas bruscas. Sem que se desse muito por isso, a música do verão foi chegando às últimas notas de tons menores, cadenciando seu ritmo num tempo mais lânguido, à medida em que os dias diminuíam e a noite se agigantava. E agora, do Terreiro do Paço ao Campo Grande, das margens do Tejo às colinas do Monsanto, a natureza toca sua canção de outono, as folhas douram e caem, a doçura do ar se afina e a melancolia do poente bate mais na alma.

Quem está em Lisboa começa a mudar hábitos. De ser e de vestir. Os passos ficam mais apressados, os braços mais cruzados.  Casacos, mantas e pulôveres saem do ostracismo de suas gavetas e vão para a rua, olhar algumas nuvens esfarrapadas e receber o batismo das primeiras chuvas. Pede-se mais aconchego, os restaurantes da Baixa desmontam suas esplanadas coloridas, o chocolate quente começa a ter mais popularidade que os gelados nas pastelarias do Rossio.

Pede-se mais abrigo. Uma sessão de cinema substitui com vantagens uma noite ao ar livre e a saison dos bons espetáculos tem início. E o outono segue pelas esquinas da cidade, espalhando descuidado um manto de folhas secas para desespero dos limpadores de rua, desnudando as árvores que ainda lutavam contra o despudor, levantando alguma saia com suas baforadas travessas.

A cidade parece mais viva depois do torpor do verão. A lua parece maior no azul deste céu que já foi tantas vezes cantado em prosa, em verso e em celulóide. E a fumaça que para ele sobe dos fogareiros de assar castanhas completa a insuperável paisagem que a estação desenha todos os anos nesta linda capital portuguesa.      

INVERNO (TRÁS-OS-MONTES)

Dezembro. O sol custa a acordar. E, quando o faz, não chega a libertar-se de sua grossa manta de nuvens. Vai ficar pouco no céu, correndo célere para os lados do mar, bem para lá das montanhas que cercam e escondem este singelo vale de caminhos de pedra e de gente rude e forte. Aqui se tem o Douro ao sul, León a leste, Galiza ao norte e o Tâmega para o poente.

E o frio.

Quem sonha com o Portugal-Jardim, sempre sorrindo ao sol de uma perene primavera, quase não o reconhece aqui, encapuzado e cinzento em meio a um inverno branco e ventoso. Mas, isolada por sua geografia tortuosa e seu clima destemperado, a província trasmontana aprendeu a guardar seus costumes seculares e seu linguajar único com o cuidado de um colecionador sovina. Cá se fala a lhéngua mirandesa, recentemente acolhida como idioma independente e diverso do português. Também é a terra dos presuntos de Chaves, das alheiras de Mirandela, do cordeiro do barroso, do caldo de cascas, do javali estufado no pote.  E ainda dos queijos curados de cabra e de ovelha, dos vinhos brancos com “agulha” e dos tintos que envelhecem com nobreza.

Assim, se as rajadas da nortada borrifam de neve o rosto descoberto e o sol não lhe quer dar as caras, entre sem demora em qualquer tasca, albergue, parador, cantina ou restaurante e delicie-se. Quando de lá sair, verá que o mundo ficou melhor, o tempo ganhou juízo e os montes que preservam este pedaço de Portugal são, na verdade, guardiães de uma cultura ciosa de si mesma e orgulhosa de seus valores.

E chegará à inevitável conclusão de que o inverno é só um detalhe, um pano de fundo, um ator coadjuvante neste cenário de pedra, tradições, sabores, passado, pastos e colinas chamado Trás-os-Montes.  

PRIMAVERA (DE NORTE A SUL)

É de repente, numa noite ao final de março. Enquanto todos ainda dormimos, a natureza acorda mais cedo e sai cobrindo de microscópicas folhinhas verdes os ramos das árvores recém-despertas do sono gélido do Inverno. Parece mágica. E é.

Quando saímos para a rua, ainda meio acabrunhados pela lembrança de ontem, quando os galhos lançavam seus dedos secos para um céu de chumbo e a esperança de dias coloridos parecia sepultada num frio teimoso, a sensação é de que alguém resolveu nos regalar um refinado mimo.

Para quem mora neste abençoado retângulo chamado Portugal, este presente chega todos os anos, pontualmente. E muito mais cedo do que nas outras terras deste e de qualquer continente. Tem todo o aspecto de ser uma preferência especial de algum deus, resultado de um pacto secreto e exclusivo com os heróis das descobertas, talvez por sugestão de Camões ou outro vate lusitano. Motivo, claro, de inveja e cobiça.

E se fosse só o verde... O que atiça ainda mais o ciúme das demais gentes, é que, logo em abril, o país inteiro, dos campos do Minho às escarpas do Algarve, das praias da Estremadura às profundezas do Alentejo, se transforma num imenso, ubíquo, magnífico e ilimitado jardim florido, desenrolando-se como um tapete de mil cores aos raios do sol perene. Não há varanda que não se encha de vasos e não derrame sua cascata de flores e perfumes, emprestando ao branco singelo das casas um ar vivo de festa.

É a época delas, das festas. Tradições, procissões, romarias. Cada aldeia, cada vila tem suas preces a oferecer à Padroeira, principalmente à maior de todas, no Altar do Mundo, em Fátima.

Todos têm de ser reverenciados. Muito, pois não há dádiva igual a esta. Igual a esta encantada primavera em Portugal.  

Oswaldo Pereira
Dezembro 2013